“O Suplício (I)” – Georges BATAILLE

Há nas coisas divinas uma transparência tão grande que escorregamos para o fundo iluminado do riso mesmo a partir de intenções opacas.

Vivo de experiência sensível e não de explicação lógica. Tenho do divino uma experiência tão maluca que rirão de mim se falar dela.

Entro num beco sem saída. Nele, toda possibilidade se esgota, o possível se esquiva, e o impossível impera e devasta. Estar diante do impossível – exorbitante, indubitável – quando nada mais é possível é, a meus olhos, fazer uma experiência do divino; é o análogo de um suplício.

Há horas em que o fio de Ariadne se rompe: não sou mais que nervosismo vazio, não sei mais o que sou, tenho fome, frio e sede. Em tais momentos, recorrer à vontade não faria sentido. O que conta é a repulsa pela atitude viável, a repulsa pelo que pude dizer, escrever, que poderia me prender: sinto minha fidelidade como uma sensaboria. Não há saída nas veleidades contraditórias que me agitam, e é por isso que elas me satisfazem. Duvido: não vejo em mim mais do que rachaduras, impotência, agitação vã. Sinto-me podre, cada coisa que toco está podre.

É preciso uma coragem singular para não sucumbir à depressão e continuar – em nome do quê? No entanto, continuo, em minha escuridão: o homem continua em mim, passa por aí. Quando profiro em mim mesmo: O QUE É? quando estou ali sem resposta concebível, acredito que em mim mesmo, enfim, esse homem deveria matar aquilo que sou, devir a tal ponto ele mesmo que minha tolice cessasse de me tornar risível. Quanto a… (raras e furtivas testemunhas talvez me adivinhem), peço-lhes para pensarem duas vezes: pois condenado a devir homem (ou mais), preciso agora morrer (para mim mesmo), parir a mim mesmo. As coisas não poderiam perdurar mais muito tempo em seu estado, o possível do homem não poderia se limitar a essa constante repulsa por si mesmo, a essa renegação repetida de moribundo. Não podemos ser indefinidamente aquilo que somos: palavras anulando-se umas às outras, ao mesmo tempo vigas inabaláveis, acreditando-nos os alicerces do mundo. Estou acordado? duvido e poderia chorar. Seria eu o primeiro na terra a sentir a impotência humana me deixar louco?

Olhares em que percebo o caminho percorrido. – Quinze anos atrás (talvez um pouco mais), estava voltando não sei de onde, tarde da noite. A Rua de Rennes estava deserta. Vindo de Saint-Germain, atravessei a Rua do Four (do lado da agência do correio). Levava na mão um guarda-chuva aberto e acho que não estava chovendo. (Mas não tinha bebido: estou dizendo, tenho certeza.) Mantinha esse guarda-chuva aberto sem necessidade (salvo aquela de que falo mais adiante). Era muito jovem então, caótico e cheio de embriaguezes vazias: uma ronda de ideias inconvenientes, vertiginosas, mas cheias já de preocupações, de rigor, e crucificantes, tinha livre curso em mim… Nesse naufrágio da razão, a angústia, a decadência solitária, a covardia, o baixo quilate se instauravam: a festa um pouco mais adiante recomeçava. O certo é que essa desenvoltura e, ao mesmo tempo, o “impossível” afrontado explodiram em minha cabeça. Um espaço constelado de risos abriu seu abismo escuro diante de mim. Atravessando a Rua do Four, tornei-me esse “Nada” desconhecido, de repente… eu negava aqueles muros cinzentos que me encerravam, lancei-me numa espécie de arrebatamento. Ria divinamente: o guarda-chuva se fechara sobre minha cabeça, cobrindo-me (cobri-me de propósito com esse sudário preto). Ria como talvez nunca ninguém riu, o fundo do fundo de cada coisa se abria, desnudado, como se eu estivesse morto.

Não sei se parei, no meio da rua, dissimulando meu delírio sob um guarda-chuva. Pulei talvez (provavelmente uma ilusão): estava convulsivamente iluminado, ria, imagino, correndo.

A dúvida me angustia sem trégua. O que significa a iluminação? de qualquer natureza que ela seja? mesmo se o brilho do sol me cegava interiormente e me incendiava? Um pouco mais, um pouco menos de luz não muda nada; de qualquer jeito, solar ou não, o homem é apenas o homem: ser apenas o homem, não sair daí; é a sufocação, a pesada ignorância, o intolerável.

“Ensino a arte de transformar a angústia em delícia”, “glorificar”: todo o sentido deste livro. A aspereza em mim, a “infelicidade”, é apenas a condição. Mas a angústia que vira delícia é ainda angústia: não é a delícia nem a esperança, é a angústia, que machuca e talvez decomponha. Quem não “morre” por ser apenas um homem nunca será mais do que um homem.

A angústia, evidentemente, não se ensina. Pode-se provocá-la? É possível: mas não ponho muita fé. Pode-se agitar sua borra… Se alguém se declara angustiado, devemos lhe mostrar o Nada de suas razões. Ele imagina o fim de seus tormentos: se tivesse mais dinheiro, uma mulher, outra vida… A tolice da angústia é infinita. Em vez de ir ao fundo de sua angústia, o ansioso matraqueia, degrada-se e foge. E no entanto, a angústia era sua chance: ele foi escolhido na medida de seus pressentimentos. Mas que desperdício se ele elude: sofre o mesmo tanto e ainda se humilha, torna-se besta, falso, superficial. A angústia eludida faz de um homem um jesuíta agitado, mas para nada.

Tremendo. Permanecer imóvel, de pé, numa escuridão solitária, numa atitude sem gesto de suplicante: súplica, mas sem gesto e, sobretudo, sem esperança. Perdido e suplicante, cego, semimorto. Como Jó sobre o esterco, mas não imaginando nada, noite escura, desarmado, sabendo que está tudo perdido.

Sentido da súplica. – Eu o expresso assim, em forma de prece: – “Ó Deus Pai, Tu que, numa noite de desespero, crucificaste Teu filho, que, nessa noite de carnificina, à medida que a agonia se tornou impossível – a ponto de fazer gritar –, Te tornaste Tu mesmo o Impossível e sentiste a impossibilidade até o horror, Deus de desespero, dá-me este coração, Teu coração, que desfalece, que excede e não tolera mais que Tu sejas!”.

As pessoas não entendem de que maneira devemos falar de Deus. Meu desespero não é nada, mas o de Deus! Não posso viver ou conhecer nada sem imaginá-lo vivido, conhecido por Deus. Recuamos, de possível em possível, em nós tudo recomeça e nunca se joga para valer, mas em Deus: nesse “salto” do ser que Ele é, em seu “uma vez por todas”? Ninguém iria até o fim da súplica sem se colocar na solidão esgotante de Deus.

Mas em mim tudo recomeça, nada jamais está definitivamente jogado. Destruo-me na infinita possibilidade de meus semelhantes: ela aniquila o sentido desse eu. Se atinjo, por um instante, o extremo do possível, pouco depois, terei fugido, estarei alhures. E que sentido dar ao absurdo derradeiro: acrescentar a Deus a repetição ilimitada dos possíveis e esse suplício do ser caído, gota a gota, na multidão das desgraças do homem? como um rebanho perseguido por um pastor infinito, o encarneiramento balidor que somos fugiria, fugiria indefinidamente do horror de uma redução do Ser à totalidade.

Comigo, o idiota, Deus fala boca a boca: uma voz como que de fogo vem da escuridão e fala – chama fria, tristeza ardente – ao… homem do guarda-chuva. À súplica, quando desfaleço, Deus responde (como? de quem rir no meu quarto?…) Eu, eu estou de pé, sobre cimos diversos, tão tristemente escalados, minhas diferentes noites de pavor esbarram entre si, duplicam-se, abraçam-se, e esses cimos, essas noites… alegria indizível!… paro. Sou? um grito – caído de costas, desfaleço.

A filosofia nunca é súplica; porém, sem súplica, não há resposta concebível: nenhuma resposta jamais precederá a pergunta: e o que significa a pergunta sem angústia, sem suplício? No momento de ficar louco, a resposta surge: como a escutaríamos sem isso?

O essencial é o extremo do possível, onde o próprio Deus já não sabe, desespera e mata.

Esquecimento de tudo. Profunda descida na noite da existência. Súplica infinita da ignorância, afogar-se de angústia. Esgueirar-se sobre o abismo e, na escuridão total, sentir seu horror. Tremer, desesperar, no frio da solidão, no silêncio eterno do homem (tolice de qualquer frase, ilusórias respostas das frases, só o silêncio insensato da noite responde). A palavra Deus, ter se servido dela para atingir o fundo da solidão, mas já não saber, escutar sua voz. Ignorá-la. Deus, última palavra querendo dizer que toda palavra, um pouco mais adiante, faltará: perceber sua própria eloquência (ela não é evitável), rir dela até a hebetude ignorante (o riso não precisa mais rir, o soluço, soluçar). Mais adiante a cabeça rebenta: o homem não é contemplação (só tem paz fugindo), ele é súplica, guerra, angústia, loucura.

A voz dos bons apóstolos: têm resposta para tudo, indicam os limites, discretamente, o andamento a seguir, como, num enterro, o mestre de cerimônias.

Sentimento de cumplicidade: no desespero, na loucura, no amor, na súplica. Alegria inumana, desenfreada, da comunicação, pois, desespero, loucura, amor, não há um ponto do espaço vazio que não seja desespero, loucura, amor – e ainda: riso, vertigem, náusea, perda de si até a morte.


BATAILLE, Georges, “O suplício”, § I, A experiência interior (seguida de Método de Meditação e Postscriptum 1953 : Suma ateológica, vol. I). Trad. de Fernando Scheibe. 1. ed. Belo Horizonte : Autêntica Editora, 2016. (Filô/Bataille)

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