“O Suplício (II)” – Georges BATAILLE

Derrisão! que me digam panteísta, ateu, teísta!… Mas grito ao céu: “não sei nada”. E repito com uma voz cômica (grito ao céu, às vezes, deste jeito): “nada, absolutamente”.

O extremo do possível. – No final, aí estamos. Mas tão tarde?… Como, sem o saber, chegamos aí? (em verdade, nada mudou) por um desvio: um ri (às gargalhadas), o outro se afunda na lama e bate na mulher, embriagamo-nos até a morte, fazemos perecer nos suplícios.

Absurdo de ler aquilo que deveria dilacerar até a morte e, para começar, preparar sua luminária, uma bebida, a cama, dar corda no relógio. Rio, mas o que dizer dos “poetas” que se imaginam acima das atitudes prescritas pelas circunstâncias sem confessar para si mesmos que têm como eu a cabeça vazia: – demonstrar isso um dia, com rigor – a frio – até o momento em que somos quebrados, suplicantes, em que paramos de dissimular, de estar ausentes. Trata-se de exercícios? combinados? deliberados? Trata-se, de fato, de exercícios, de coações. Que piada querer ser um homem ao sabor das águas, sem jamais se acossar, forçar os últimos limites: é fazer-se cúmplice da inércia. O estranho é que, furtando-se, não se vê a responsabilidade assumida: nenhuma pode oprimir mais, é o pecado inexpiável, uma vez entrevista a possibilidade, abandoná-la pelas lentilhas de uma vida qualquer. A possibilidade é muda, não ameaça nem maldiz, mas aquele que, temendo morrer, deixa-a morrer é como uma nuvem que frustra uma espera de sol.

Não imagino mais o homem rindo da possibilidade derradeira, ela própria rindo – rindo, virando as costas sem rodeios para se entregar ao encantamento da vida, sem jamais, uma vez que seja, esquivar-se. Mas se o desfalecimento um dia se apossar dele, e ele recusar, no desfalecimento, ir ao limite (pela via do desfalecimento, então a possibilidade ela própria o reclama, o faz saber que o espera), estará assim se esquivando, e era uma vez sua inocência: começa nele o inapreensível jogo do pecado, do remorso, da simulação do remorso, e logo do esquecimento total e rasteiro.

Podemos finalmente ver a história dos homens, a longo termo, homem a homem, inteiramente como uma fuga, primeiro diante da vida, é o pecado; depois, diante do pecado: é a longa noite atravessada por risadas bestas, apenas com um ressaibo de angústia.

Cada um, para terminar, conquistou o direito à ausência, à certeza, cada rua é o rosto tacanho dessa conquista.

Da firmeza do desespero, sentir o prazer lento, o rigor decisivo, ser duro e antes o garante da morte que sua vítima. A dificuldade, no desespero, é a de ser inteiro: no entanto, as palavras, à medida que escrevo, faltam-me… O egoísmo inerente ao desespero: nele nasce a indiferença à comunicação. “Nasce”, ao menos, pois… escrevo. Aliás, as palavras designam mal aquilo que o ser humano vive: digo “o desespero”, é preciso me entender: eis-me aqui desfeito, no fundo do frio, respirando um odor de morte, ao mesmo tempo pesado, devotado a meu destino, amando-o – como um bicho a seus filhotes –, não desejando mais nada. O cúmulo da alegria não é a alegria, pois, na alegria, sinto vir o momento em que ela terminará, ao passo que, no desespero, só sinto vir a morte: tenho por ela um desejo angustiado, mas um desejo e nenhum outro. O desespero é simples: é a ausência de esperança, de qualquer engodo. É o estado das vastidões desertas e – posso imaginar – do sol.

Fracasso, escreva o que escrever, pelo fato de que deveria ligar à precisão do sentido a riqueza infinita – insensata – dos possíveis. A essa lida de Danaide sou forçado – alegremente? – talvez, pois não posso conceber minha vida de agora em diante senão pregada ao extremo do possível. (Isso supõe para começar uma inteligência sobre-humana, quando tive, muitas vezes, de recorrer à inteligência de outrem, mais hábil… Mas fazer o quê? esquecer? imediatamente, sinto-o, ficarei louco: as pessoas ainda compreendem mal a miséria de um espírito despido.) Decerto, ao extremo, basta que chegue um só: ainda assim é preciso que este mantenha um laço entre ele e os outros – que o evitam. Sem isso, ele seria apenas uma estranheza, não o extremo do possível. Os barulhos de todo tipo, gritos, falatórios, risos, é preciso que tudo se perca nele, esvazie-se de sentido em seu desespero. Inteligência, comunicação, miséria suplicante, sacrifício (o mais duro é decerto se abrir a uma tolice infinita: para dela escapar – o extremo é o único ponto por onde o homem escapa de sua estupidez tacanha –, mas ao mesmo tempo para nela soçobrar), não há nada que não deva comparecer a esse encontro. O mais estranho é o desespero, que paralisa o resto e o absorve em si mesmo. E “meu todo”? “Meu todo” não é mais que um ser ingênuo, hostil à piadinha: quando ele está ali, minha noite fica mais fria, o deserto onde estou mais vazio, não há mais limite: para além das possibilidades conhecidas, uma angústia tão grande habita o cinza do céu, da mesma maneira que um monge a escuridão de um túmulo.

Meu esforço será vão se não for convincente. Mas ele se quebra em mim mesmo a cada hora! do extremo, desço ao estado mais abestado, admitindo que em raros momentos eu tenha tocado o extremo. Nessas condições, como acreditar que o extremo seja um dia a possibilidade do homem, que um dia o homem (mesmo em número ínfimo) tenha acesso ao extremo? E, no entanto, sem o extremo, a vida não é mais que uma longa trapaça, sequência de derrotas sem combate seguidas de debandada impotente, é a degradação.

Por definição, o extremo do possível é esse ponto onde, apesar da posição ininteligível para ele que tem no ser, um homem, tendo se desvencilhado do engodo e do temor, avança tão longe que não se pode conceber uma possibilidade de ir mais longe. Inútil dizer a que ponto é vão (embora a filosofia se feche nesse impasse) imaginar um jogo puro da inteligência sem angústia. A angústia não é menos do que a inteligência o meio de conhecer, e o extremo do possível, além do mais, não é menos vida que conhecimento. A comunicação ainda é, como a angústia, viver e conhecer. O extremo do possível supõe riso, êxtase, aproximação aterrorizada da morte; supõe erro, náusea, agitação incessante do possível e do impossível, e, para terminar, quebrado, todavia, gradual, lentamente desejado, o estado de súplica, sua absorção no desespero. Nada do que um homem pode conhecer, com esse fim, poderia ser eludido sem degradação, sem pecado (penso, para agravar, já que se trata do desafio final, na pior das desgraças, na deserção: para aquele que se sentiu chamado uma vez, não há mais razão, mais desculpa, ele só pode se manter firme em sua posição). Cada ser humano que não vai até o extremo é o servidor ou o inimigo do homem. Na medida em que não colabora, através de alguma tarefa servil, para a subsistência comum, sua deserção contribui para dar ao homem um destino desprezível.

Conhecimento vulgar ou conhecimento encontrado no riso, na angústia ou em qualquer outra experiência análoga, estão subordinados – isso decorre das regras que seguem – ao extremo do possível. Cada conhecimento vale dentro de seus limites, mas é preciso saber o que ele vale se o extremo está ali, saber o que uma experiência última acrescenta a ele. Primeiro, no extremo do possível, tudo desaba: o próprio edifício da razão, num instante de coragem insensata, sua majestade se dissipa; o que subsiste, quando muito, como um pedaço de parede bamba, aumenta, não acalma o sentimento vertiginoso. Vã impudência das recriminações: era preciso, nada resiste à necessidade de ir mais longe. Se necessário, a demência seria a recompensa.

Um destino desprezível… Tudo é solidário no homem. Sempre houve em alguns a áspera vontade – mesmo que difusa – de ir o mais longe que o homem podia. Mas e se o homem parasse de se querer ele próprio com tanta aspereza? isso só aconteceria com a derrocada de todo querer – em qualquer sentido que esse querer se exerça (encantamento, combate, conquista).

Para ir até o extremo do homem, é necessário, num certo ponto, não mais se submeter e sim forçar a sorte. O contrário disso, a indolência poética, a atitude passiva, a repulsa por uma reação viril, que decide: é a degradação literária (o belo pessimismo). A danação de Rimbaud, que teve de virar as costas ao possível que atingia para reencontrar uma força de decisão intacta nele. O acesso ao extremo tem por condição o ódio não à poesia, mas à feminilidade poética (ausência de decisão, o poeta é mulher, a invenção, as palavras, o violam). Oponho à poesia a experiência do possível. Trata-se menos de contemplação que de dilaceramento. É, no entanto, de “experiência mística” que falo (Rimbaud praticou-a, mas sem a tenacidade que pôs mais tarde em tentar fortuna. Deu à sua experiência a saída poética; em geral, ignorou a simplicidade que afirma – veleidades sem amanhã nas letras –, escolheu a elusão feminina, a estética, a expressão incerta, involuntária).

Um sentimento de impotência: da desordem aparente de minhas ideias tenho a chave, mas não o tempo de abrir. Aflição fechada, solitária, uma ambição tão grande que… gostaria, eu também, de me deitar, chorar, adormecer. Permaneço aqui, mais alguns instantes, querendo forçar a sorte, e quebrado.

Última coragem: esquecer, voltar à inocência, à jovialidade do desespero.

Prece para me deitar: “Deus que vês meus esforços, dá-me a noite dos teus olhos de cego”.

Provocado, Deus responde, tensiono-me a ponto de desfalecer e O vejo, depois esqueço. Tanta desordem quanto em sonhos.


BATAILLE, Georges, “O suplício”, § II, A experiência interior (seguida de Método de Meditação Postscriptum 1953 : Suma ateológica, vol. I). Trad. de Fernando Scheibe. 1. ed. Belo Horizonte : Autêntica Editora, 2016. (Filô/Bataille)

Deixe um comentário

Faça o login usando um destes métodos para comentar:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s