Imagens de Deus no Livro das Ilusões (1936), de Emil Cioran

A ideia fixa do sistema não é menos suspeita quando se aplica ao estudo dos místicos. Trata-se de uma atitude ainda tolerável no caso de Mestre Eckhart, porque ele próprio teve o cuidado de disciplinar o seu pensamento: pois não era ele um pregador? [..] Mas que dizer de um Angelus Silesius, cujos dísticos se contradizem a gosto, possuindo apenas um tema comum: Deus – e este é apresentado sob tantos rostos que se torna difícil identificar o verdadeiro? O Viajante Querubínico, sucessão de afirmações inconciliáveis, cheio de um grande e confuso esplendor, exprime apenas os estados de alma estritamente subjectivos do seu autor: querer mostrar a sua unidade, o seu sistema, é arruinar a sua força de sedução. Angelus Silesius preocupa-se menos com Deus do que com o seu próprio deus. O resultado é uma multiplicidade de insânias poéticas, de molde a desencorajar o erudito e a aterrar o teólogo. […] Maníacos do rigor, querem saber o que pensava o autor da eternidade e da morte. O que pensava ele? Pensava as coisas mais diversas. São experiências suas, pessoais e absolutas. Quanto ao seu Deus, nunca terminado, sempre imperfeito e mutante, o autor regista os seus momentos e traduz o seu devir num pensamento não menos imperfeito e mutante.

CIORAN, “O comércio dos místicos”, A Tentação de existir (1956)

Cioran escreveu muitas de suas mais belas e inspiradas páginas sobre Deus (e também as mais desoladoras). “Eu abuso da palavra Deus. Emprego-a com frequência, muita frequência. Faço-o toda vez que alcanço um extremo e necessito um vocábulo para designar o que vem depois. Prefiro Deus ao Inconcebível”, lê-se em Aveux et anathèmes, seu último publicado (1987). O jovem insone, “nos cumes do desespero”, se perguntava se, algum dia, chegaria a “citar ninguém mais que Deus”, pois “nem os homens nem os santos têm nome. Só Deus possui um. E que mais sabemos dele, além de que é o extremo das desesperanças? Deus é um desespero que começa onde terminam todos os outros” (Lacrimi şi sfinţi).

Não se trata das confissões de um croyant, de um pensador cristão em todo caso, pois Cioran mesmo enfatiza a dissociação essencial entre a fé e a “paixão do absoluto”, entre toda crença e esse pathos “teotrópico” que “nos projeta em Deus e, às vezes, mais acima” (Écartèlement). A theia mania cioraniana é interessante não por comunicar determinada crença ou conteúdo dogmático acerca de Deus, e não somente pelo valor estético de uma alma romântica em sua (fracassada) aspiração à plenitude do absoluto pelas palavras. A obsessão de Cioran por Deus é importante sobretudo porque é mediante a reflexão e o reflexo do autor romeno sobre/em Deus que ele compreende a si mesmo, subjetivamente, e o Anthropos de modo geral.

A experiência metafísica de Cioran informa a sua concepção antropológica. O essencial acerca da existência humana é melhor compreendido por uma metafísica impiedosamente negativa, por uma intuição mística sem fé, por uma visão negativa da Queda sem perspectiva de salvação. Em Lágrimas e Santos (1937), Cioran escreve, a propósito: “Eu não me compreendo senão mediante a imagem que me faço dele. Só assim o autoconhecimento alcança um resultado e um sentido. Quem não pensa nele permanece estranho para si. Pois Deus é a única via do autoconhecimento, e a história universal, a descrição de suas formas.” Abaixo, um apanhado das ocorrências (com sua miríade de imagens) de Deus no Livro das ilusões (que antecede diretamente Lágrimas e Santos), dentre as quais uma que dialoga com a citação acima: “Não entendo como os homens podem crer em Deus, embora pense todos os dias nele.” Aliás, Lágrimas e Santos (inédito em português) começa essencialmente aqui, no Livro das ilusões, no capítulo “À sombra das santas”.


Há estados que nem sequer o próprio Deus pode suspeitar, porque os estados verdadeiramente grandes só podem surgir da imperfeição. Meus desesperos me tornam superior a qualquer divindade. É um prazer pensar que só da imperfeição ainda se pode aprender alguma coisa.


É preciso estabelecer os métodos de um novo ascetismo que não nos faça voar para Deus, mas para nossas próprias alturas, das quais nos afastou o abismo de nossas tristezas.


Até o momento ainda não se encontrou um Deus para os que estão mais sós, nem para os que estão absolutamente sós. Porque até agora ninguém encontrou o consolo que pudesse fazer menos infelizes estes seres. Ah! Que mundo é este que até agora só encontrou apenas um redentor!


Depois de ter tido durante tanto tempo consciência de nossa inanidade, podemos continuar acreditando em algo que não seja Deus? Podemos sentir ainda algo distinto do princípio e do fim? Por que não nos educaríamos na consciência de nossa própria divindade? Não perdemos todos tanto para que, ao menos, tenhamos direito à última ilusão, à ilusão absoluta? E por acaso nossas solidões não têm vozes suficientes para apregoarmos a realidade de nossa ilusão? Não são musicais e sonoras todas as solidões e não têm de cantar-nos a glória de estar tão sós que queremos ser tudo?


O paraíso é o instante absoluto, um momento fechado em si mesmo, no qual tudo é atual. A tensão e o dinamismo desta música vêm determinados pelo fato de termos nós que conquistar o paraíso; não queremos que ele nos seja concedido. A intervenção divina mal desempenha um papel. Bach pede mais a Deus que nos acolha do que nos salve. O momento dramático tem lugar nas portas do paraíso, no limiar da eternidade. A cruzada pelo paraíso alcança aqui seu ponto culminante no cristianismo profundo de Bach. A outra via, a da revolta e a do abismo humano, imaginou uma cruzada para libertar o paraíso da dominação divina…


A necessidade de chorar por tudo o que não vivemos;
O desejo de derramar lágrimas por todos os sorrisos reprimidos;
A inclinação para destruir-nos por tantas serenidades perdidas;
O entusiasmo por um ser e o pesar por não ter desaparecido nele;
A perda de todos os instantes nos quais não nos sentimos cheios de uma generosidade divina;
Um deus que morre em lágrimas de amor…
Nas horas em que somos o princípio e o fim.
Ah! Como rolam as eternidades em lágrimas infinitas…
Gotas de eternidades…
O limite do êxtase: crer-se somente Deus.
Uma divindade em lágrimas…


Vivamos todos e cada um como um deus, vivamos no mito da própria divindade. Não é o infinito nosso âmbito e a música nossa temperatura? Não medimos tudo em raios de luz e em sons? Não nos asfixiam nossas próprias vibrações, nossos cânticos ocultos e nossas melodias definitivas e últimas?
Que outra coisa senão deuses podem fazer-nos os instantes de invasão luminosa, esses instantes únicos e inesquecíveis quando passamos junto ao tempo com o desdém e a condescendência da eternidade? Nunca os vivestes, irmãos, como últimos, definitivos, conclusos? Nunca haveis aberto os olhos para vossos céus interiores? Nem nunca haveis vivido o êxtase de vossas elevações? É que nunca vos conquistou vosso ouvido, que não vos haveis afogado em vossas serenidades? Nunca vos arrebatou vosso infinito, nunca vos embriagou vossa infinitude, para que vos sintais preenchidos de tal plenitude que vos faça ser tudo em todas as coisas? Que classe de existência é essa que não leva à culminação? A
recusa da hierarquia divina ou os graus de nossa divinização…


Para transfigurar-te no mito da existência absoluta, deixa-te invadir pelas sensações mais estranhas. Não lamentes sentir-te como último representante de uma espécie em vias de extinção, como um grande assassino, como um cavaleiro do fim e do nada ou como um deus deserdado… A tua finalidade última não é chegar a ser um deus sem mundo?


Se não haveis estado doentes de vosso excesso de plenitude, nunca haveis alcançado os limites; se não haveis estado doentes de vosso absoluto e do absoluto do mundo, estais perdido para vós e para este mundo. Se não viveis vossa divindade, quem se deterá junto a vossa sombra passageira? E sombras são todos os que não querem ser deuses.


Pensamento na noite: o homem tem de sofrer até que o próprio Deus lhe peça desculpas?


A diferença entre Deus e eu: ele pode o que eu sinto. O poder nos separa: uma diferença de matiz metafísico. Não viver na divindade, mas em nossa divindade.


A recusa da libertação tem sua origem em um amor secreto pela tragédia. É como se, uma vez salvos, tivéssemos medo de que a divindade nos jogasse no lixo e preferíssemos o extravio para satisfazer nosso orgulho absoluto. Apesar de tudo, não há ninguém que não veja a perda da salvação como a grande ocasião perdida, como também não há ninguém que não se ruborize ante o sonho branco da transfiguração. E essa situação é tão dramática que nos perguntamos se Deus não nos terá exilado a cada um separadamente na terra.


Um homem que ame a vida e tenha conspirado contra ela é como um cristão fanático que tivesse renegado Deus. O pecado teológico é tão grave quanto o metafísico. No entanto, há uma diferença: Deus pode perdoar se quiser, mas a vida, cansada e cega por nossos esplendores, só pode nos acolher de novo se nós o quisermos. O que significa: renunciar à via da própria divinização e perder-se no anonimato das fontes vitais (recobrar a ingenuidade paradisíaca, quando o homem não conhecia a dor nem a paixão pela dor). Uma vez mais, a salvação é uma questão de vontade.
Matar um homem e matar a vida? No primeiro caso teus semelhantes te condenam; no segundo, teu destino se converte em uma condenação. Vives como se tivesses sido condenado por um princípio último (pela natureza, pela vida, pela existência, por Deus etc.). Talvez só então comeces a saber o que é a vida e a entender coisas inacessíveis à filosofia; a desprezar as leis da natureza; a entristecer-te de outra maneira; a amar o absurdo…


A vida: um pseudônimo de Deus?


Não conhece o pecado quem não sente que um dia cometeu uma grande falta e com a qual, sem querer, se solidariza, como tampouco conhece o pecado aquele que não o vive, mesmo que não creia, no umbral do pecado teológico. Sua forma típica e original é contra Deus: o pecado pessoal do homem contra a pessoa divina. (O pecado indica sempre uma relação existencial.) Quem poderia dizer se Deus mesmo está livre de pecar? Por acaso não pecou ao escolher, entre as infinitas possibilidades de ser do mundo, a menos divina? E não é isso o pecado absoluto? Os homens pecaram contra Deus; mas ele contra os homens!


Quem poderá tirar-me da cabeça a ideia de que este mundo poderia ter-se feito sobre outras bases e quem poderá dar-me a ilusão de que sobre outras poderemos construí-lo? Quantas vezes poderia ser este mundo de outra maneira? Quantas vezes não deveria ser assim? Terá por acaso inúmeras faces ocultas que poderíamos revelar? Então não faríamos senão reformar o mundo; mas nós queremos outro mundo. Queremos começar nosso mundo, já que o criado por Deus chega a seu fim…
Seu mundo não foi aparência nem ilusão, mas realidade. Foi. E por isso tem de morrer. A Ele compete tirar as conclusões de seu começo.


Primeira condição de nossa liberdade: libertar-nos de Deus; não podemos criar nada sendo criaturas. Até agora só fizemos comprometer a obra da criação. Oxalá pudéssemos destruí-la! E sobre suas ruínas erguer, como criadores, o paraíso terrestre, o segundo paraíso, derrotando o pecado, o sofrimento e a morte. Um mundo que nasceria e que existiria só graças a nós mesmos.


Tenho o defeito de saber sempre o que é mais essencial e necessário, de ter preconceitos contra a eternidade. O sol mesmo parece algo passageiro nesta histeria da eternidade. E então como posso começar algo, como posso converter-me em História e minha pulsação em ação? Saber o que é mais necessário é uma maldição da qual só Deus ou o diabo poderiam salvar-nos. Ainda não posso decidir se o conhecimento nos vem de Deus ou do diabo, porque não sei se o mal vem só do diabo.


Em um mundo de homens que está em vias de desaparição, quem seria Deus? O que detém a última esperança.


É preciso colocar o homem diante de um novo princípio da História. O homem novo tem de ser um Adão sem pecado que possa pôr em marcha uma história sem pecado. Só assim pode-se conceber uma nova vida, uma vida transformada na base. A humanidade só espera um profeta: o da vida sem pecado. Se a morte não pode ser nem vencida nem destruída, é o pecado o que há de destruir ou vencer. Como o esforço individual é ilusório, um cataclismo da História e uma revolução antropológica que façam saltar pelos ares tudo o que herdamos ao longo dos séculos anunciarão a aurora de um outro mundo. Então o homem rivalizará com todos os deuses dos séculos vencidos, e cada ser será uma aurora. Muitos mundos morrerão. Mas muitos nascerão. E conheceremos então as encruzilhadas do espírito, e não só as do homem.


Não entendo como os homens podem crer em Deus, embora pense todos os dias nele.


Só graças ao ouvido as coisas inconcebíveis se tornam claras na alma. Quem não ouviu Deus não pode desfrutar dele. Sem as vozes do além não existe mística, assim como não existe um êxtase final sem os ecos de uma melodia, mais longínquos ainda que o mais além. Ouvimos tudo nas vozes que precedem Deus. Então, vibrações únicas, nascidas antes do tempo, nos trazem a indecisão entre o ser e o não ser. A inquietude primordial, alimentada pela indecisão entre nada e tudo, nos reveste de uma vestimenta sonora, como para conduzir-nos a mundos que ninguém viu nem ouviu. E depois deste sonho cósmico, que nostalgias podem ainda plasmar-se na alma?


COMO A VIDA SE CONVERTE NO VALOR SUPREMO: a veneração pelas mulheres; a reabilitação do Eros como divindade; saúde natural, transfigurada pela delicadeza; o fervor da dança em todos os atos da vida; graça em vez de pesar; sorriso em vez de pensamento; entusiasmo em vez de paixão; a distância como finitude; a vida como único Deus, única realidade e único culto; o pecado como crime e a morte como vergonha.
… Todo o resto é apenas filosofia, cristianismo e outras formas de queda.


A impossibilidade de crer nos substitutos da vida: Deus, espírito, cultura, moral, de atribuir o menor crédito à História.


Separar-se do mundo como união com o eu… Quem pode fazê-lo de tal maneira que esteja tão longe de si mesmo quanto do mundo? Deslocar o centro da natureza ao indivíduo e do indivíduo a Deus. Eis o final da grande separação…


Quando morrer como Deus manda, me lembrarei. Reviverei com uma intensidade diminuída e uma imagem insípida esse então horrível do passado. E pela última vez me alegrarei de que as lembranças não sejam fiéis ao mundo desperdiçado pelo tempo no tempo.


Não há atos sem ódio. O amor justifica os atos, mas não é seu motivo. Cada vez que o ódio diminui em mim, tenho a impressão de que estou perdido para este mundo, irremediavelmente perdido. Só no ódio me sinto criatura, só no ódio faço parte do rebanho de animais de Deus. E, só quando o ódio me invade além de todo limite, no Criador vejo a criatura. Deveriam abandonar toda a esperança os que não amam o ódio, o grande ódio.


Lutar contra o ser até não poder conceber que, depois de ti, ainda haja algo. Esse tem de ser o sentimento, quando não a convicção, de todo homem cuja alma tenha as dimensões do mundo. Se, além disso, este homem também estiver convencido, não poderíamos saber então se é Deus ou se está louco. As almas humildes e humilhadas carecem desse sentimento, já que estas, mais que as outras, se sentem e se reconhecem criaturas e não se envergonham disso. Na antropologia se abrirá um novo capítulo só quando o sentimento de ser uma criatura for uma evidência inadmissível, quando o homem não se adapte mais a si mesmo.


Temos de sentir nojo de todos os homens que amam o passado. Estes não podem ter um destino porque, caminhando sobre as pegadas de seus antepassados, terão de se deter algum dia onde acabam as pegadas, no final de tudo. E, perante Deus, não lhes restará nem coragem nem orgulho, por pequeno que seja. Temos predecessores demasiado grandes para poder continuar olhando para trás. E, mesmo com os olhos fechados, é impossível não tropeçar em nosso grande Predecessor.
Todo homem que ama o passado até suas últimas consequências tem de fazer Teologia. Por isso os homens profundamente religiosos são reacionários. Não podem amar a Deus senão com a cabeça virada, pois Ele está irremediavelmente atrás de nós. Se tivéssemos imaginado Deus como o coroamento final da História, como a suprema culminância do futuro, não teria havido homem que não acreditasse nele, que não o esperasse. Assim ele se esgotou, senão nele, em nós.


Conheceis a indomável invasão de uma força insensata diante da qual árvores, montanhas e mares pareçam meros caprichos? Uma agitação agressiva, tão efêmera como uma faísca, vence a resistência de todas as formas da matéria e ultrapassa a afirmação de qualquer energia. Não existem mais árvores, não existem florestas que não possas desenraizar; montanhas que não possas derrubar, nem mares que não possas domar, apaziguar ou enxugar. E não existe movimento que não se torne rocha nem rocha que não se torne rio. Todo o material das impossibilidades do mundo se transforma em pasta por meio dessa força louca e incontrolável. A resistência da matéria se anula como em um sonho e sua força mesma parece não ter sido mais do que um simples sonho. Só uma memória divina poderia rememorá-la. Quando ela domina a alma e o corpo, deixo de ser eu mesmo para poder entendê-la; e depois, parece ainda mais incompreensível. Poderia existir um raio divino pelo qual um ser supremo ou a energia do mundo nos revelaria em um abrir e fechar de olhos um permanente estado de absoluto. Poderia ser a concentração de tudo o que não é lei nem cabe na lei, a reação inesperada e premonitória do caos? Ou a fraqueza de Deus, concessões por medo de ser destronado…


Pelo pesar de não ser Deus caiu Adão. E, se não é verdade que nossos pecados derivam do pecado original, parece evidente que todos os pesares resultam daquele pesar.
A busca da glória nasce do medo de morrer só, do desejo de destruir-se publicamente. Só os felizes na glória a degradaram à categoria de uma vaidade absurda. Só invejo uma forma de glória: ter sido célebre aos olhos dos predecessores, mas não aos dos contemporâneos ou da posteridade. Nada pode consolar-me de que Jesus não tenha ouvido falar de mim.
Há momentos em que gostaria de abraçar a terra e mostrar-me agradecido ao último dos seres vivos. Quem sabe que recanto esquecido da alma inspira esses desejos que não frutificam em meus pensamentos!


Se Deus tivesse feito nosso mundo tão perfeito quanto Bach fez o seu divino!


Como é que não tens inveja, Senhor, das chamas que devoram o homem, do fogo trêmulo de tua criatura, das alucinações de tuas sombras terrestres? Por que não te assustas com os vitoriosos temores de tuas criaturas, com o império que fundaram sobre as ruínas de nosso pecado? Teus filhos terão um dia a coragem de sua queda e se vingarão por terem sido deserdados injustamente! Por que não tens a ousadia de encher de trevas teus rebentos, de deter sua rebeldia e de retardar teu destronamento? Logo chegará a hora para tua covardia divina e então nossa febre sublunar aumentará pela proximidade do sol, conquistado pela nossa submissão! Não te assusta, Senhor, o incêndio que nos devora, nossas chamas não alcançaram os fios de tua barba? Estás próximo de nós, Senhor, e próximo também do final; sinto-me alegre e horrorizado de assistir tua agonia divina. Não fomos feitos um para o outro; tu não foste nosso pai nem nós fomos teus filhos. Desde o princípio lutei contra tua tirania, pois deixaste nossas preces sem resposta; e, em vez de tu nos elevares, nós tivemos de nos elevar a nós mesmos. Uma resposta tua nos teria acorrentado à Terra, e não teria sido necessário nos elevar para conquistar-te.
Teu silêncio foi nosso grito e tua imobilidade, nossa vitória.
Cruzadas libertaram a tumba de teu filho; em Cruzadas nos libertamos e nos libertaremos de ti!
Há muito tempo vacilam as muralhas de tua fortaleza, e a última pedra significará precisamente nossa vitória.
Entrarás na História, Senhor, e teu poder se transformará em lembrança. E as lembranças se enfraquecerão, e nascerão, ao cabo do tempo, outros homens que, esquecendo a História, dirão: “Até agora não existiu nenhum Deus.” E então os homens terão se libertado de todo o seu passado. E tu terás desaparecido como o último dos homens.


Alguém terá de sair um dia sob o sol e gritar para seu esplendor e para as trevas dos homens: “O mundo tem de recomeçar, o mundo tem de recomeçar!”
Será necessário encontrar um emissário de um mundo novo que assuma todos os riscos da grande nova, que se esgote gritando em todas as direções da natureza a mensagem da renovação cósmica e humana. Esperemos a mensagem salvadora na febre e no frenesi! Parece que estou vendo os mundos girando no entusiasmo do começo e nós recomeçando sem pecado, transfigurados, em um mundo ele próprio transfigurado!
Temos de deixar para trás muitos rostos; tivemos muitos, nascidos de nossa mudança e da mudança do tempo. São como selos que a futilidade imprimiu em nós. Quantas caras teve o homem? Tantas quanto as sombras que eclipsaram sua nostalgia pelo divino. O homem sempre teve inveja de Deus. A transfiguração é a aniquilação suprema do homem; então ele se alcançou a si mesmo, se aniquilou na divindade. A transfiguração é uma abjuração de si mesmo; é a libertação do homem de tudo o que ele foi e de suas marcas passadas, que são seus sucessivos rostos. Entrar no êxtase interior e contemplar tua primeira e última cara!


Quantos místicos não conheceram o que significa estar saturado de Deus e quantos não falaram de uma aridez interior consecutiva à sua sede celestial? O vazio interior, que constitui um capítulo estranho da mística, não resulta da ausência da divindade – apesar da afirmação dos místicos –, mas do esgotamento da alma na divindade. Uma vez satisfeito o apetite divino, que outro apetite poderia nascer na alma e no corpo?


Só se pode amar a imperfeição. Tudo o que participa da perfeição ou nos a inspira, paralisa nosso afeto. Os homens aspiram sem dúvida a uma força infinita, mas de modo nenhum à perfeição. Só na imperfeição existem o ódio, o sofrimento ou o amor, e só graças à imperfeição existe o indivíduo. Os homens compreenderam tão bem as insuficiências da perfeição que falaram de um Deus que sofre e o salvaram construindo toda uma teologia da imperfeição divina.


Para não se tornar ridículo aos olhos da História, é preciso ser poético e cínico. Se não é possível passar por cima dos preconceitos que se ama, para amá-los mais depois, é a História que passará por cima de nós. Dar um golpe no tempo é a única salvação depois do fracasso na eternidade. O homem não pode querer tornar-se outra coisa que não seja ou Deus ou um político.


Deus, não temes que nosso medo transtorne as leis da natureza, a própria natureza e a ti mesmo? Ou não conheces o medo da criatura? Quem nos curará do medo, Senhor, se teu filho só o aumentou? Como ter a coragem para tirar as últimas consequências quando elas te levam sempre para fora do mundo?
Para abraçar a terra não é preciso tirar nenhuma consequência: que o amor seja amor; o pensamento, pensamento; o fato, fato. Conforme se misturem, terás tomado a via das consequências, ou a via da perdição.
A renúncia é uma outra palavra para as últimas consequências. Mas o que eu quero é destruir-me no mundo…


Que os homens estejam sós, eu entendo. Mas e as verdades?! E, no entanto, as verdades estão sós, mais sós do que suspeitamos. Todas as verdades particulares, que parecem constituir os pilares de uma verdade universal, representam no fundo individuações lógicas, isoladas em sua limitação. Qual é essa verdade universal que as coroa e justifica? Alguém a conhece? Parece que alguns a conheceram e até nos comunicaram. Mas não sei por que a esquecemos. Não temos memória da divindade. Será que Deus está tão longe?
As verdades não estariam tão sós se Deus se apoiasse sobre elas. Elas sustentam quem então? A ideia do verdadeiro, do Bem e do Belo? Estas coisas não dão vida, e se sabe que as verdades não estão vivas
Agora compreendo por que o homem não pode ser consolado. Que apoio lhe dão as verdades? Elas sugaram toda a sua vida. E não conseguiram ser mais plenas do que ele. Só entre verdades sós, eis uma verdade sobre o homem que pode servir-lhe de definição.


Libertar-se do humano não é possível porque só se pensa vivamente no homem. Uma reflexão contínua e atormentada, que te tire da categoria dos humanos, não te obriga menos a tomar posição com relação ao fenômeno humano. Do homem não se pode escapar. Para onde quer que se vá, o reencontramos. Ele próprio atravessou o caminho da divindade. Deus o fez à sua imagem e semelhança; o homem se vingou e cobriu o rosto de Deus com a própria máscara. Nada nem ninguém escapa desse decaído da natureza. De que fonte se afastou para tornar-se mais sedento à medida que mais vai conquistando? Em vez de dominar a natureza, arruinou-a. Que riquezas perdeu? O êxtase da vida, que ele substituiu pela consciência da vida. O que perturbou o seu êxtase? Por que quis saber que vive? A vida vivida de forma anônima e universal, na antecipação da individuação, não produz arrepios absolutos? Insuficiências originárias da vida deram origem à consciência, vazios iniciais prepararam sua aparição. Todos os vazios da vida se derramaram sobre o homem e, com eles, todas as disponibilidades da consciência. A nós a vida deve a sua manutenção: com nossa tragédia, salvamos a natureza do vazio.


Não existe motivo algum para não estar triste. A tristeza está tão ligada à natureza, que ela precede o homem. Não sei se no princípio era a tristeza e se a tristeza provinha de Deus, mas o que sei é que deve ter aparecido nos primeiros dias da criação, antes das criaturas. O homem não podia mais evitar a tristeza e, por isso, ao longo dos tempos, não encontrou maneira alguma de não estar triste.


O sorriso fundo e evanescente até o êxtase; olhares para tudo o que não mais será; flutuação consoladora e anônima, privada de substância e que não pertence a um mundo contaminado nem pelo tempo nem por sua ausência; sentinelas de ilusões divinas e guardiãs da calma do esquecimento; repletos de lembranças do futuro e perdidos na expectativa do passado: refrescando-te no coração do sol e aquecendo-te à sombra de Deus. Creio compreender os anjos…


Na música de Beethoven não se alcançam os cumes divinos porque lá o homem é um deus; mas um deus que sofre e se alegra humanamente. Privada da aspiração e da intuição paradisíaca a tragédia humana é sua condição divina. Como o humano assume as proporções do divino, o transcendente desempenha aí um papel extremamente reduzido. Uma música demiúrgica anula Deus porque Deus é seu último obstáculo. Um criador como Beethoven não pode acreditar em Deus senão por analogia.
O êxtase da criação própria pode suscitar nele admiração por Deus, mas de modo algum humildade. O Criador só pode sentir-se diminuído pelos criadores. Quantos atributos não lhe arrebatou Beethoven?
Este mundo é o mundo na música beethoveniana. O trágico no imanente é a nota que a separa do sublime transcendente de Bach, no qual os cumes divinos são sua altura natural. A dilaceração humana e o frenesi cósmico são para Beethoven um caminho em si mesmo, enquanto, para Bach, são pressentimentos de um sonho que frequentemente pode apalpar-se no entusiasmo celeste da alma. A presença do paraíso em Bach corresponde à sua ausência total em Beethoven. Isso significa que este último seja irreligioso? Beethoven é religioso pela tensão infinita que caracteriza seu trabalho de criador, exatamente como Nietzsche, cujo titanismo é de essência religiosa. Como em Beethoven não existe nada de “psicológico” porque tudo se enraíza no cósmico (tristeza cósmica, alegria cósmica), ele substitui muitos caracteres divinos sem substituir a divindade. O êxtase cósmico não o conduziu ao panteísmo porque no cósmico reencontrava os elementos divinos de seu trágico humano. Não conheço criador menos cristão que Beethoven. A admiração pela divindade é o maior ato de rebeldia desde Prometeu até aqui. A tristeza cosmogônica dessa música, tristeza que faz nascer um mundo sem despedaçar um coração.


Qual pode ser o supremo orgulho para o homem? Infringir as leis da natureza. A massa as confirma e as ilustra continuamente; os outros também… Os heróis e os gênios, raramente; os santos, nunca. Eles não lutam mais com a natureza porque não são mais natureza. Por isso é tão pouco natural ser santo… Confirma e ilustra as leis da natureza aquele que vive no fluxo anônimo do ser. Existe uma região na qual mesmo os santos perdem seu nome. Trata-se da divindade. Os santos só perdem seu nome diante da divindade porque só diante dela a pessoa é um erro. Quem sabe se o anonimato em Deus não é a única presença…


Quando a última sensação me aproximar de Deus como uma cantata de Bach… Existirá ainda uma terra?


Um pressentimento de êxtase equivale a uma vida. Sempre que os limites do coração ultrapassem os do mundo, entraremos na morte por excesso de vida. O conteúdo do coração no qual se extravia o universo. O coração aberto a tudo ou sobre as dilacerações do coração… E sobre o sangue do coração que só mancha o céu. Meu Deus, nossas dilacerações tingirão o céu de vermelho!
O coração terá me desligado da terra? Ele a engoliu? Em que canto a buscarei, em que profundezas me reencontrarei? Meu Deus, caí no meu próprio coração!

CIORAN, O Livro das ilusões. Trad. de José Thomaz Brum. Rio de Janeiro: Rocco, 2014.

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