“O Homem carcomido” – CIORAN

Não quero mais colaborar com a luz nem empregar o jargão da vida. Não tornarei a dizer: “Eu sou” sem enrubescer. O despudor do alento, o escândalo da respiração estão ligados ao abuso de um verbo auxiliar…

Já passou o tempo em que o homem se pensava em termos de aurora; repousando sobre uma matéria anêmica, ei-lo aberto a seu verdadeiro dever, ao dever de estudar sua perdição e de correr para ela…; está no limiar de uma nova era: a da Piedade de si mesmo. E esta Piedade é sua segunda queda, mais nítida e mais humilhante do que a primeira: é uma queda sem resgate. Em vão inspeciona os horizontes: mil e um salvadores se perfilam, salvadores de farsa, eles próprios desconsolados também. Afasta-se deles para preparar-se em sua alma excessivamente madura, para a doçura de apodrecer… Chegado ao mais íntimo de seu outono, oscila entre a Aparência e o Nada, entre a forma enganosa do ser e sua ausência: vibração entre duas irrealidades…

A consciência ocupa o vazio que sucede à erosão da existência pelo espírito. É preciso a obnubilação de um crente ou de um idiota para integrar-se à “realidade”, que se desvanece à proximidade da menor dúvida, da menor suspeita de improbabilidade ou de um sobressalto de angústia, outros tantos rudimentos que prefiguram a consciência e que, desenvolvidos, a engendram, a definem e a exasperam. Sob o efeito desta consciência, desta presença incurável, o homem acede a seu mais alto privilégio: o de perder-se. Doente de honra da natureza, corrompe sua seiva; vício abstrato dos instintos, destrói seu vigor. O universo se degrada a seu contato e o tempo perece… Só podia realizar-se – e decair – sobre a ruína dos elementos. Uma vez acabada sua obra, já está maduro para desaparecer: durante quantos séculos ainda escutaremos seu estertor?


CIORAN, “O homem carcomido”, Breviário de decomposição. Trad. de José Thomaz Brum. Rio de Janeiro: Rocco, 2011.

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