“A função fabuladora” – Henri BERGSON

As representações que engendram superstições têm por caráter comum o serem fantasmáticas. A psicologia as relaciona a uma faculdade geral, a imaginação. Sob a mesma rubrica ela classificará ademais os descobrimentos e as invenções da ciência, as realizações da arte. Mas por que grupar juntas coisas tão diferentes, dar-lhes o mesmo nome, e sugerir assim um parentesco entre elas? É unicamente por comodidade de linguagem, e pela razão inteiramente negativa de que essas diversas operações não são nem percepção, nem memória, nem trabalho lógico do espírito. Concordemos então em pôr à parte as representações fantasmáticas, e chamemos “fabulação” ou “ficção” ao ato que as faz surgir. Será um primeiro passo para a solução do problema. Observemos agora que a psicologia, quando decompõe a atividade do espírito em operações, não se ocupa o suficiente de saber para que serve cada uma delas; é precisamente porque a subdivisão é no mais das/ vezes insuficiente ou artificial. O homem pode sem dúvida sonhar ou filosofar, mas primeiro deve viver; não há dúvida alguma de que nossa estrutura psicológica não tem a ver com a necessidade de conservar e desenvolver a vida individual e social. Se a psicologia não se reger por essa consideração, deformará necessariamente seu objeto. Que se diria do cientista que fizesse a anatomia dos órgãos e a histologia dos tecidos, sem se preocupar com sua finalidade? Ele correria o risco de dividir em falso, de grupar em falso. Se a função só se compreende pela estrutura, não se podem deslindar as grandes linhas da estrutura sem uma ideia da função. Não se deve pois tratar o espírito como se ele fosse o que é “por nada, por prazer”. Não se deve dizer: sendo tal a sua estrutura, dela tirou tal partido. Pelo contrário, o partido que dela tire é o que permitiu determinar sua estrutura; seja como for, o fio condutor da pesquisa lá está. Consideremos então, no domínio vagamente e sem dúvida artificialmente delimitado da “imaginação”, o corte natural que chamamos de fabulação, e vejamos a que ela se pode empregar naturalmente. Dessa função decorrem a novela, o drama, a mitologia com tudo o que a precedeu. Mas nem sempre houve romancistas e dramaturgos, ao passo que a humanidade jamais se privou de religião. É, pois, provável que poemas e fantasias de todo género tenham vindo por acréscimo, aproveitando-se de que o espírito sabia fazer fábulas, mas que a religião era a razão de ser da função fabuladora: em relação à religião, essa faculdade seria efeito, e não causa. Uma necessidade, talvez individual, mas sempre social, acabou por exigir do espírito esse género de atividade. Indaguemos que necessidade foi essa. Deve-se observar que a ficção, quando tem eficácia, é como uma alucinação nascente: ela pode contrariar o juízo e o raciocínio, que são as faculdades propriamente intelectuais. Ora, que teria feito a natureza, após haver criado seres inteligentes, se quisesse se prevenir de certos perigos da atividade intelectual sem prejudicar o futuro da inteligência? A observação nos dá a resposta. Hoje, no pleno desabrochar da ciência, vemos os mais belos arrazoados do mundo ruírem diante de uma experiência: nada resiste aos fatos. Se, pois, a inteligência devesse ser retida, no início, numa inclinação perigosa para o indivíduo e a sociedade, só poderia ser por constatações aparentes, por fantasmas de fatos: à falta de experiência real, uma contrafação da experiência é que ela devia suscitar. Uma ficção, se a imagem for viva e obcecante, poderá justamente imitar a percepção e, com isso, impedir ou modificar a ação. Uma experiência sistematicamente falsa, erguendo-se diante da inteligência, poderá detê-la no momento em que ela vá muito longe nas consequências que tire da experiência verdadeira. Assim, pois, teria procedido a natureza. Nessas condições, não surpreenderia verificar que a inteligência, logo que formada, tenha sido invadida pela superstição, que um ser essencialmente inteligente seja naturalmente supersticioso, e que só os seres inteligentes sejam supersticiosos.

BERGSON, Henri, As duas fontes da moral e da religião. Trad. de Nathanael C. Caixeiro. Rio de Janeiro: Zahar, 1978, p. 89-91.

Deixe um comentário

Faça o login usando um destes métodos para comentar:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s