“Mas, Cioran, atman ou anatman? Eis a questão” – Rodrigo MENEZES

“Na história há dois fenômenos que representam para mim o ponto mais elevado: a metafísica indiana e a música alemã. […] Se houvesse um processo, no qual o homem fosse acusado, poderia se defender com esses dois fenômenos. Pessoalmente, através da metafísica indiana consegui penetrar mais profundamente nos problemas filosóficos, e, com a música alemã, a sentir tudo o que o homem pode sentir de profundo.”

CIORAN, La speranza è più della vita. Intervista con Paul Assall. Trad. di Stefania Achella. A cura di Antonio di Gennaro. Milano: Mimesis, 2015, p. 31.

Epistemologicamente, Cioran pode ser considerado um cético, antimetafísico e antifundacionista (o que não significa materialista). Viver ‘sin fundamentación’ não equivale a afirmar a matéria como realidade fundamental. A oposição entre materialismo e espiritualismo é em si mesma uma oposição racionalista e dogmática, evitada pelo Cético dos Cárpatos.

O pensamento de Cioran parece colocar-se negativamente em relação à ideia de uma alma (psykhé) imortal, ao modo de Platão ou do cristianismo, ou pelo menos suspender o juízo acerca dela. Não se pode abordá-la sem ironia. Ao que tudo indica, a “alma” é inseparável da realidade física e corporal, sendo um epifenômeno tardio de autoconsciência no seio da natureza.

Se olharmos as coisas de acordo com a natureza, o homem foi feito para viver virado para o exterior. Se quiser ver em si mesmo, tem de fechar os olhos, renunciar à acção, sair da corrente. Aquilo a que se chama «vida interior» é um fenómeno tardio que só foi possível devido ao afrouxamento das nossas actividades vitais, não tendo a «alma»podido emergir e dilatar-se senão às custas do bom funcionamento dos órgãos.

CIORAN, Do inconveniente de ter nascido

Assim como no tocante a Deus, encontramos nos textos de Cioran uma miríade de perspectivas da alma, desde uma noção absolutamente “indestrutível” a uma absolutamente “destrutível”, com uma notável ênfase nesta última, na contramão da concepção metafísica tradicional da alma. Mas a recusa ou incapacidade cética a crer na imortalidade da alma, em chave ocidental, parece complicar-se, mudando a relação dos pesos na balança, se colocarmos a questão em chave oriental, nos termos da oposição entre atman e anatman.

O pensamento de Cioran oscila entre atman e anatman, sem muita certeza com qual ele mais se identifica. A visão da alma predominante no discurso cioraniano é “fisiológica” e “entrópica”, opostamente à concepção platônica de uma alma imortal e subsistente em si mesma (separada do corpo), noção herdada posteriormente pelo cristianismo. Não é a alma como uma entidade metafísica substancial e independente do agregado psicofísico, mas como um princípio vital e racional finito e perecível, como uma “chama extinguível”, “apenas um torpor no claro-escuro, uma inércia entre luz e sombras, uma caricatura desse sol interior que nos faz crer ilegitimamente em nossa excelência sobre o resto da matéria” (Breviário).

A dimensão psicomental – a “vida interior” – do “animal enfermo”, no entendimento de Cioran, é um epifenômeno da Dor – principium individuationis – que alcança graus cada vez mais elevados de autoconsciência e singularidade. Essa alma se insere, como tudo o que se “consome” (dinheiro, bens materiais, tempo, forças), na categoria dos khremata (de onde “cremar”, “cremação”): palavra-chave da sofística que – segundo Barbara Cassin – “inaugura, face à economia eterna do ser, o desdobramento temporalizado do uso, da usura, do gasto”, inclusive em termos psicológicos ou pneumáticos.[1] Se não há uma alma imortal e divina, “nada prova que sejamos mais que nada”, e “a vida é o que se decompõe a todo momento; é uma perda monótona de luz, uma dissolução insípida na noite, sem cetros, sem auréolas, sem nimbos” (Breviário).

O conceito de atman ocorre uma vez em Paléontologie (ainda que a meditação deste ensaio se desenvolva fundamentalmente sobre a premissa de anatman) e 3 vezes nos Cahiers – quase sempre a partir de leituras do Vedanta. “De manhã, voltei para a cama e durante meia hora refleti sobre o Vedanta, com o sentimento de tê-lo compreendido ou antes sentido. Pareceu-me que entendi pela primeira vez o sentido do Atman e do Brahman, sua comunicação e também a possibilidade de sua identidade” (Cahiers). Mircea Eliade trata das “duas modalidades do Brahman e o mistério do âtman cativo na Matéria” (um motivo teológico de ares tão gnósticos). Brahman é “Ser supremo” ou “Si mesmo supremo”, o Ego sum por excelência, ao passo que atman, “eu essencial/substancial/imortal”, equivaleria à nossa psykhé (divina e metafisicamente concebida), a contraparte humana do “Eu absoluto” (Brahman), ou simplesmente Deus (num paradigma monista). No Advaita Vedanta (vertente não-dualista do Vedanta), Brahman é a realidade suprema, eterna, imutável, infinita, ao mesmo tempo imanente e transcendente, o fundamento divino de todas as coisas: matéria, energia, tempo, espaço, ser, não-ser, vida, morte. No conhecimento de si ou autoconhecimento, Atma Vidya, o eu-atman descobre sua identidade essencial com o “Si mesmo absoluto”, Brahman.

Escreve Eliade:

A identidade âtman-Brahman, percebida experimentalmente na ‘luz interior’, ajuda o rishi a decifrar o mistério da Criação e, ao mesmo tempo, o do seu próprio modo de ser. Como sabe que o homem é cativo do karman e, no entanto, possuidor de um ‘Eu’ imortal, ele descobre em Brahman uma situação comparável. Em outras palavras, reconhece em Brahman dois modos de ser aparentemente incompatíveis: ‘absoluto’ e ‘relativo’, ‘espiritual’ e ‘material’, etc. […] Têm-se aplicado esforços, por um lado, para separar o princípio espiritual (âtman) da vida orgânica e psicomental, dinamismos que se ‘desvalorizam’ progressivamente ao serem englobados nas pulsões da Natureza (prakrti). Apenas o Eu purificado das experiências psicomentais é que era identificado com Brahman e, por conseguinte, podia ser considerado imortal.

ELIADE, História das crenças e das ideias religiosas, tomo I, vol. 2

Anatman deriva de âtman, por negação. Convencionou-se associar a crença no princípio espiritual supremo (âtman), equivalente oriental da alma platônica, ao hinduísmo, e a negação dessa crença (anatman) ao budismo.

Meditando sobre as duas primeiras nobres Verdades – a dor e a origem da dor –, o monge descobre a impermanência, portanto a não-substancialidade (anatta, em páli) das coisas, e, ao mesmo tempo, a não-substancialidade do seu próprio ser. Ele não se descobre perdido entre as coisas (como acontece, por exemplo, com o vedantino, o órfico ou o gnóstico), mas compartilhando as suas modalidades de existência.”

ELIADE, História das crenças e das ideias religiosas, tomo II, vol. 1

A expressão mais proeminente no conjunto da obra de Cioran corresponde, em chave oriental, ao anatman do budismo (não-imortalidade, não-absoluto, mortalidade, destrutibilidade absoluta, interdependência e transitoriedade). Por exemplo:

É um signo de despertar que se tenha a obsessão do agregado, o sentimento mais e mais vívido de ser apenas o ponto de encontro de alguns elementos reunidos por um instante. O “eu”, concebido como um dado substancial e irredutível, inquieta mais do que tranquiliza: como aceitar que termine isto que parecia subsistir tão bem? Como se separar do que existe por si, do que é? Pode-se abandonar uma ilusão, por mais inveterada que seja; o que fazer, em contrapartida, diante do consistente e do durável? Se não há senão o existente, e se o ser se espalha por toda parte, de que maneira se apartar dele sem destruir-se? Postulemos o engano universal por precaução ou por cuidado terapêutico. Ao medo de que não haja nada sucede o de que haja alguma coisa. É muito mais cômodo dar adeus ao não-ser do que ao ser. Não é que este mundo não exista, mas sua realidade não é tal. Tudo tem ares de existir e nada existe.

CIORAN, “Paléontologie”, Le mauvais démiurge (1969)

É possível que Cioran tenha tido, ao longo da vida, alternadamente, a experiência de atman e de anatman. O que pensava ele, afinal, de Deus e da alma, da vida e da morte? Muitas coisas, são experiências suas, pessoais e absolutas, sempre mutantes, sempre moventes, ao ritmo existência mesma, “nessa alternância de felicidade e de horror que exprime o ritmo mesmo do ser, suas oscilações, suas dissonâncias, suas veemências amargas ou alegres” (Breviário). “Diz-se no Katha-Upanishad, a propósito do atman, que ele é ‘alegre e sem alegria’. Eis um estado a que se acede tanto pela afirmação de um princípio supremo quanto pela sua negação, tanto pelo desvio do Vedanta quanto pelo do Mahayana”, escreve Cioran em Paléontologie, aludindo a duas grandes tradições espirituais do Oriente, a metafísica indiana (hinduísmo) e a tradição budista (antimetafísica) do “Grande Veículo”.

As últimas páginas de História e utopia descrevem uma experiência mística luminosa e vibrante que pareceria coincidir mais com a positividade absoluta e a divina indestrutibilidade de Atman:

Por mais implacáveis que sejam nossas recusas, não destruímos totalmente os objetos de nossa nostalgia. De nada vale deixar de acreditar na realidade geográfica do paraíso ou em suas diversas figurações, ele reside de qualquer maneira em nós como um dado supremo, como uma dimensão de nosso eu original; trata-se agora de descobri-lo aí. […] O remédio para nossos males é em nós mesmos que devemos buscá-lo, no princípio intemporal de nossa natureza. Se a irrealidade de tal princípio fosse demonstrada, provada, estaríamos irremediavelmente perdidos. Que demonstração, que prova contudo poderiam prevalecer contra a convicção íntima, apaixonada, de que uma parte de nós escapa à duração, contra a irrupção desses instantes em que Deus é supérfluo ante uma claridade surgida subitamente de nossos confins, beatitude que nos projeta para longe de nós mesmos, comoção exterior ao universo? […] É inútil remontar depois ao antigo paraíso ou correr em direção ao futuro: um é inacessível; o outro, irrealizável. O que importa, ao contrário, é interiorizar a nostalgia ou a espera, necessariamente frustradas quando se voltam para o exterior, e obrigá-las a descobrir ou a criar em nós a felicidade da qual, respectivamente, sentimos nostalgia ou esperança. Só há paraíso no mais profundo de nosso ser, e como que no eu do eu; ainda é preciso, para encontrá-lo aí, ter recorrido a todos os paraísos, desaparecidos e possíveis, tê-los amado e detestado com a rudeza do fanatismo, tê-los escrutado e rejeitado depois com a competência da decepção.

CIORAN, “A idade de ouro”, História e utopia (1960)

MENEZES, Rodrigo Inácio R. Sá, “Mas, Cioran, atman ou anatman? Eis a questão”, Portal E. M. Cioran Brasil, 25 de janeiro de 2022.


NOTAS:

[1] CASSIN, Barbara, O efeito sofístico, p. 67. Há no Breviário de decomposição um texto cujo título é “A suprema usura”. Outras ocorrências da ideia de usura, desgaste, desperdício, em chave psicológica e ontológica, no Breviário (cuja “decomposição” é, ela mesma, uma figura da classe dos khremata): Tudo o que prefigura a morte acrescenta uma qualidade de novidade à vida, a modifica e a amplia. A saúde a conserva tal qual, em uma estéril identidade; enquanto que a doença é uma atividade, a mais intensa que um homem pode desenvolver, um movimento frenético e… estacionário, o mais rico desperdício de energia sem gestos, a espera hostil e apaixonada de uma fulguração irreparável” (Breviário). “Como gastei minha qualidade de homem, nada me é mais de nenhum proveito. Só vejo por toda parte carneiros com ideal que se ajuntam para balir suas esperanças…” (Breviário).

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