“A alma fechada e a alma aberta” – Henri BERGSON

Estivemos à procura da obrigação pura. Para encontrá-la, tivemos de reduzir a moral à sua expressão mais simples. A vantagem foi perceber em que consiste a obrigação. O inconveniente foi encolher enormemente a moral. Não, sem dúvida, que não seja obrigatório aquilo que dela deixamos de lado: será possível imaginar um dever que não obrigue? Concebe-se, porém, que, o que é primitiva e puramente obrigatório sendo exatamente o que acabamos de dizer, a obrigação irradia-se, difunde-se, e chega mesmo a se absorver em alguma outra coisa que a transfigura. Vejamos pois agora o que seria a moral completa. Vamos empregar o mesmo método e passar ainda, não mais em baixo, mas em cima, no limite.

Desde a eternidade surgiram homens excepcionais nos quais se encarnava essa moral. Antes do santos do cristianismo, a humanidade conheceu os sábios da Grécia, os profetas de Israel, os iluminados do budismo e outros mais. A eles é que sempre se referiu para ter essa moralidade completa, que seria preferível chamar de absoluta. E isso mesmo é já característico e instrutivo. E isso mesmo nos faz pressentir uma diferença de natureza, e não somente de grau, entre a moral de que tratamos até agora e aquela cujo estudo enfocamos, entre o mínimo e o máximo, entre os dois limites. Ao passo que a primeira é tanto mais pura e mais perfeita na medida em que se reduz melhor a fórmulas impessoais, a segunda, para ser plenamente ela mesma, deve encarnar-se numa personalidade privilegiada que se converte em exemplo. A generalidade de uma decorre da universal aceitação de uma lei, a da outra tem a ver com a imitação comum de um modelo.

Por que os santos têm assim imitadores, e por que os grandes homens de bem têm arrastado multidões atrás de seus passos? Eles nada pedem, e no entanto obtêm. Eles não precisam fazer exortações; basta que existam, sua existência é um chamado. Pois esse é justamente o caráter dessa outra moral. Ao passo que a obrigação natural é pressão ou empurrão, na moral completa e perfeita há um chamado.

Só conheceram perfeitamente a natureza desse chamado aqueles que se achavam diante de uma grande personalidade moral. Mas cada um de nós, em momentos em que suas máximas habituais de conduta lhe pareceram insuficientes, indagou quanto a que fulano ou beltrano teria esperado dele em semelhante ocasião. Poderia ser um parente, um amigo, que evocássemos assim pelo pensamento. Mas poderia ser também outra pessoa que jamais víramos, cuja vida apenas nos foi narrada, e ao juízo de quem submetemos então em imaginação nossa conduta, temendo dela uma censura, orgulhosos de uma aprovação. Poderia ser mesmo, trazida do fundo da alma à luz da consciência, uma personalidade que nascesse em nós, que sentíssemos capaz de nos invadir por inteiro mais tarde, e à qual quiséssemos nos ligar na hora como faz o discípulo em relação ao mestre. Na verdade, essa personalidade já se esboça a partir do dia em que se adotou um modelo: o desejo de assemelhar-se, que é idealmente gerador de uma forma a assumir, é já semelhança; a fala que se adotará é aquela de que se ouviu em si um eco. Mas a pessoa pouco importa. Verifiquemos apenas que, se a primeira moral possuía tanto mais força quanto se dissociava mais nitidamente em obrigações impessoais, esta, pelo contrário, primeiro disseminada em preceitos gerais aos quais nossa inteligência aderia mas que não iam ao ponto de abalar nossa vontade, torna-se tanto mais arrebatante quanto a multiplicidade e a generalidade das máximas vêm melhor se fundir na unidade e individualidade de um homem.

Donde lhe vem sua força? Qual o princípio de ação que sucede no caso à obrigação natural ou antes que termina por absolvê-la? Fará o sabermos, examinemos primeiro o que nos é tacitamente solicitado. Os deveres de que tratamos até agora são aqueles que a vida social nos impõe; eles nos obrigam para com a comunidade mais que em relação à humanidade. Poder-se-ia então dizer que a segunda moral — tão resolutamente distinguimos duas morais — difere da primeira naquilo que é humana, em vez de ser apenas social. E não estaríamos inteiramente errados. Vimos, com efeito, que não é ampliando a comunidade que se chega à humanidade: entre uma moral social e uma moral humana a diferença não é de grau, mas de natureza. A primeira é aquela em que pensamos comumente quando nos sentimos naturalmente obrigados. Por sobre esses deveres bem nítidos gostamos de imaginar outros, mais nebulosos, que a eles se superponham. Devotamento, desprendimento, espírito de sacrifício, caridade, tais são as palavras que pronunciamos quando pensamos neles. Mas então, no mais das vezes, não estaremos pensando apenas em palavras? Não, sem dúvida, e nos apercebemos bem disso. Basta apenas, dizemos nós, que a fórmula ali esteja; ela adquirirá seu pleno sentido. A ideia que virá preenchê-la se fará atuante, quando o ensejo se apresentar. “É certo que para muitos a ocasião não se apresentará, ou a açáo será adiada para mais tarde. Em alguns a vontade pouco se abalará, mas tão pouco que o abalo recebido poderá de fato ser atribuído apenas à dilatação do dever social, ampliado e enfraquecido em dever humano. Mas que as fórmulas se preencham de matéria e que a matéria se anime: é uma vida nova que se anuncia; compreendemos, sentimos que outra moral sobrevêm. Portanto, ao falar aqui do amor da humanidade, caracterizaríamos sem dúvida essa moral. E no entanto não exprimiríamos sua essência, porque o amor à humanidade não é um móvel que baste a si mesmo e que atue diretamente. Os educadores da mocidade sabem muito bem que não se triunfa do egoísmo recomendando-se o “altruísmo”. Acontece até que uma alma generosa, impaciente por se dedicar, se veja de repente desanimada à ideia de que vai trabalhar “pelo género humano”. O objeto é demasiado vasto, o efeito demasiado disperso. Pode-se pois conjecturar que, se o amor da humanidade é constitutivo dessa moral, está quase como implicada na intenção de atingir um ponto, a necessidade de transpor o espaço intermediário. Em certo sentido, é a mesma coisa; em outro, é inteiramente diferente. Se só se pensar no intervalo e nos pontos, em número infinito, que seja preciso transpor um a um, perder-se-á o ânimo de partir, como a flecha de Zenão; não se verá qualquer interesse na empreitada, nenhum atrativo. Mas se passarmos além do intervalo apenas considerando a extremidade ou mesmo ao considerá-lo mais além, teremos facilmente realizado um ato simples ao mesmo tempo que chegado ao cabo da multiplicidade infinita de que essa simplicidade é o equivalente. Qual é pois no caso o termo, qual o sentido do esforço? Numa palavra, que é que propriamente se nos solicitou?


BERGSON, Henri, As duas fontes da moral e da religião. Trad. de Nathanael C. Caixeiro. Rio de Janeiro: Zahar, 1978.

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