“Cachorros de palha”: John Gray e a hipótese Gaia

O humanismo é uma religião secular montada com fragmentos deteriorados do mito cristão. Ao contrário, a hipótese Gaia — a teoria de que a Terra é um sistema auto-regulado cujo comportamento se assemelha, de certas formas, ao de um organismo — incorpora o mais rigoroso naturalismo científico.

No modelo de James Lovelock para Daisyworld, um planeta onde existem apenas margaridas pretas e brancas, a temperatura global torna-se auto-regulada. Daisyworld é iluminado por um sol cada vez mais quente. As margaridas brancas refletem o calor do sol, esfriando, assim, a superfície do planeta, enquanto as margaridas pretas absorvem o calor, esquentando a superfície. Sem nenhum elemento de propósito, essas margaridas interagem para esfriar seu mundo, a despeito do sol cada vez mais quente.

Como mostra o modelo Daisyworld, a hipótese Gaia é consistente com a mais estreita ortodoxia científica. Ainda assim, a hostilidade que lhe votam os fundamentalistas científicos é bem-fundamentada. No fundo, o conflito entre a teoria Gaia e a ortodoxia corrente não é uma controvérsia científica. É um embate de mitos — um formado pelo cristianismo, o outro por uma fé muito mais antiga.

A teoria Gaia restabelece o vínculo entre humanos e o resto da natureza que era afirmado pela religião primordial da humanidade, o animismo. Nas fés monoteístas, Deus é o garantidor final de sentido à vida humana. Para Gaia, a vida humana não tem mais sentido do que a vida dos fungos.

Lovelock escreveu que Gaia recebeu o nome da antiga deusa grega da Terra por sugestão de seu amigo, o romancista William Golding. Mas a ideia de Gaia é antecipada mais claramente numa linha do Tao Te Ching, a mais antiga escritura taoísta. Nos antigos rituais chineses, cachorros de palha eram usados como oferendas para os deuses. Durante o ritual, eram tratados com a mais profunda reverência. Quando terminava, e não sendo mais necessários, eram pisoteados e jogados fora: “Céu e terra não têm atributos e não estabelecem diferenças: tratam as miríades de criaturas como cachorros de palha.” Se os humanos perturbarem o equilíbrio da Terra, serão pisoteados e jogados fora. Os críticos da teoria Gaia dizem que a rejeitam porque não é científica. A verdade é que têm medo e ódio da teoria, porque isso significa que os humanos nunca podem ser nada além de cachorros de palha.

GRAY, John, Cachorros de palha. Trad. de Maria Lucia de Oliveira. Rio de Janeiro/São Paulo: Record, 2007, p. 48-50.

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