“Aos pregadores de moral” – NIETZSCHE

Eu não quero estabelecer moral, mas para os que o fazem dou este conselho: se quiserem despojar as melhores coisas e estados de toda honra e valor, continuem a tê-las na língua, como fizeram até agora! Ponham-nas na frente de sua moral e discorram, da manhã à noite, sobre a felicidade da virtude, o sossego da alma, a justiça e a retribuição imanente: tal como vocês agem, todas essas coisas boas conquistam finalmente a popularidade e o clamor das ruas; mas então todo o ouro que as cobre se desgastará com o manuseio — e ainda mais: todo o ouro dentro delas terá se transformado em chumbo. Verdadeiramente, vocês entendem da arte contrária à alquimia, a desvalorização do que é valioso! Experimentem outra receita alguma vez, a fim de não alcançar o oposto do que procuram, como até hoje sucedeu: neguem essas boas coisas, retirem-lhes o aplauso do populacho e o curso fácil, façam com que sejam novamente vergonhas secretas de almas solitárias, digam que moral é algo proibido! Assim talvez ganhem, para essas coisas, a única espécie de homens que importa, quero dizer, os heroicos. Mas então deve haver nelas algo para se temer, e não, como até agora, para se enojar! Não seria tempo de falar, a respeito da moral, como mestre Eckhart: “Peço a Deus que me livre de Deus”?

NIETZSCHE, A Gaia Ciência, § 292. Trad. de Paulo César de Souza. São Paulo: Companhia das Letras, 2001, 197-8.

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