“O que a religião não é” – John GRAY

A ideia de que a religião é uma questão de crença é uma concepção estreita. Em que Homero “acreditava”? Ou os autores do Mahabharata? O conjunto de tradições a que os estudos ocidentais se referem como “hinduísmo” não apresenta qualquer credo predeterminado, como tampouco a mistura de religião popular e misticismo a que os mesmos estudiosos se referem como “taoísmo”.

A ideia de que as religiões são credos — conjuntos de proposições ou doutrinas que todos devem aceitar ou rejeitar — surgiu apenas com o cristianismo. A crença nunca foi tão importante quanto a observância na religião judaica. Em suas primeiras formas bíblicas, a religião praticada peio povo judeu não era um tipo de monoteísmo (a afirmação de que existe apenas um Deus), mas de henoteísmo, o culto exclusivo a seu próprio Deus. O culto a deuses estranhos era condenado como uma forma de deslealdade, e não de descrença.

O cristianismo é uma religião de crença desde que foi inventado, porém surgiram tradições cristãs em que a crença não é um fator central. A ortodoxia oriental sustenta que Deus está além da concepção humana, visão que se desdobra na chamada teologia negativa ou apofática. Mesmo no cristianismo ocidental, “acreditar em Deus” nem sempre significa afirmar a existência de um ser sobrenatural. No século XIII, o teólogo católico Tomás de Aquino (1274) deixava claro que Deus não existe da mesma forma como qualquer coisa específica existe.

Na maioria das religiões, os debates sobre a crença não são importantes. A crença era irrelevante na religião pagã e ainda hoje continua desprovida de importância nas religiões indianas e chinesas. Quando se declaram descrentes, os ateus estão invocando uma compreensão da religião involuntariamente herdada do monoteísmo.

Diversas religiões que apresentam um Deus criador o imaginam de maneira muito diferente do Deus cultuado no judaísmo, no cristianismo e no islã. Desde o advento do cristianismo, a mente divina que supostamente teria criado o mundo muitas vezes é concebida como perfeitamente boa. Entretanto, as tradições gnósticas contemplavam um Deus supremo que criou o universo e depois se recolheu, entregando o governo do mundo a um deus inferior, ou Demiurgo, que poderia ser indiferente ou hostil à humanidade. Essas ideias gnósticas podem parecer absurdas, mas apresentam certas vantagens em relação a concepções mais tradicionais de um Ser Supremo. Antes de tudo, resolvem o “problema do mal”. Se Deus é todo-poderoso e perfeitamente bom, por que existe o mal no mundo? Uma resposta habitual é que o mal é uma decorrência do livre-arbítrio, sem o qual não há verdadeira bondade. É a principal alegação da teodiceia (em grego, “justificação de Deus”) cristã: a tentativa de explicar o mal como parte de um desígnio divino. Desenvolveu-se no ateísmo toda uma tradição contra a teodiceia, articulada de forma memorável no romance Os irmãos Karamazov, de Dostoievski, por Ivã Karamazov, que declara que, se uma criança torturada é o preço a ser pago pela bondade, ele vai devolver a Deus o bilhete de entrada no mundo. Examino esse tipo de atèísmo, às vezes chamado misoteísmo, ou ódio de Deus, no capítulo 5.

É um equívoco tomar o monoteísmo como modelo para religião. Desse modo, não se deixa de fora apenas o animismo e o politeísmo. Também são ignoradas as religiões não teístas. O budismo nada diz a respeito de uma mente divina, e rejeita toda ideia de alma. O mundo consiste em processos e acontecimentos. A noção humana de si é uma ilusão; a liberdade consiste em livrar-se dessa ilusão. O budismo popular conservou ideias de transmigração das almas que eram correntes na Índia na época de Buda, juntamente com a crença de que os méritos acumulados em uma vida podem ser transpostos a outra. Mas a ideia de karma por trás dessas crenças denota um processo impessoal de causa e efeito, mais que uma recompensa ou punição por parte de um Ser Supremo. Em momento algum o budismo se refere a um Ser dessa natureza, e na verdade trata-se de uma religião ateia. As invectivas e diatribes dos “novos ateus” só fazem sentido em um contexto especificamente cristão e, mesmo assim, dentro de alguns poucos subsistemas da religião cristã.

GRAY, John, Sete tipos de ateísmo. Trad. de Clóvis Marques. Rio de Janeiro/São Paulo: Record, 2021.

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