“Racismo e antissemitismo no Iluminismo” – John GRAY

Os evangelistas do Iluminismo dirão que se tratava de um desvio do “verdadeiro” Iluminismo, que é inocente de todo mal. Assim como os crentes religiosos dirão que o “verdadeiro” cristianismo não teve qualquer participação na Inquisição, os humanistas seculares insistem em que o Iluminismo não foi responsável pela ascensão do racismo moderno. O que é comprovadamente falso. A moderna ideologia racista é um projeto iluminista.

John Gray

Quando Ernest Haeckel e Julian Huxley usavam a ciência para promover ideias de superioridade racial europeia, tomavam um caminho desbravado por pensadores racionalistas anteriores. Diferentes versões do racismo têm antecedentes nos escritos de alguns dos principais filósofos do Iluminismo.

Hoje em dia se fala constantemente de “valores iluministas”, nos quais se presume que tenham caráter central a dignidade e a igualdade humanas. Mas, se examinarmos as figuras mais celebradas do Iluminismo — David Hume, Immanuel Kant e Voltaire —, veremos que as ideias de hierarquia racial são centrais no seu pensamento. Boa, parte do Iluminismo foi uma tentativa de demonstrar a superioridade de uma parte da humanidade — a da Europa e de seus postos avançados coloniais — sobre todo o resto.

Os evangelistas do Iluminismo dirão que se tratava de um desvio do “verdadeiro” Iluminismo, que é inocente de todo mal. Assim como os crentes religiosos dirão que o “verdadeiro” cristianismo não teve qualquer participação na Inquisição, os humanistas seculares insistem em que o Iluminismo não foi responsável pela ascensão do racismo moderno. O que é comprovadamente falso. A moderna ideologia racista é um projeto iluminista.

Veja-se o caso de David Hume. Em uma nota ao seu ensaio sobre “O caráter nacional”, o cético escocês escreveu:

Eu tendo a desconfiar de que os negros, e de modo geral todas as outras espécies de homens (pois existem quatro ou cinco tipos diferentes), são naturalmente inferiores aos brancos. Nunca houve uma nação civilizada de nenhuma outra cor senão a branca, como tampouco qualquer indivíduo eminente pela ação ou a especulação. Nenhum engenhoso manufator entre eles, nenhuma arte, nenhuma ciência. Por outro lado, os mais rudes e bárbaros entre os brancos, como os antigos alemães, os tártaros de hoje. ainda assim têm algo de eminente, na sua coragem. forma de governo ou alguma outra particularidade. Uma diferença assim uniforme e constante não poderia ocorrer em tantos países e épocas se a natureza não tivesse feito uma distinção original entre essas raças de homens. Sem mesmo mencionar nossas colónias, há negros dispersos por toda a Europa, nenhum dos quais jamais revelou quaisquer sintomas de engenhosidade, embora pessoas de origem inferior, sem educação. sejam capazes de se lançar entre nós e se distinguir em qualquer profissão. Na Jamaica, com efeito, fala-se de um negro como um homem de cultura e talentos; mas é como se ele fosse admirado por realizações muito exíguas, como um papagaio capaz de falar algumas palavras com clareza.

As afirmações de Hume foram usadas por Kant — e foram eles os dois maiores filósofos do Iluminismo — para declarar que “os negros da África não têm por natureza qualquer sentimento que se eleve acima do trivial”. Em suas Observações sobre o belo e o sublime, Kant escreveu:

O Sr. Hume desafia qualquer um a citar um simples exemplo em que um negro tenha evidenciado talentos, e afirma que entre as centenas de milhares de pretos transportados dos seus países para outras partes, embora muitos tenham sido libertados, até hoje não se encontrou um único que apresentasse algo grande na arte ou na ciência ou qualquer outra qualidade digna de louvor, muito embora entre os brancos alguns constantemente se elevem acima do populacho mais baixo, conquistando o respeito do mundo por meio de dotes superiores. Fundamental, portanto, é a diferença entre essas duas raças de homens, que parece tão pronunciada no que diz respeito às capacidades mentais quanto à cor.

Hume e Kant não estavam assim tão longe de dizer que os negros pertencem a alguma espécie antropoide inferior. A ideia de que espécies pré-humanas perduram sob a aparência de seres humanos não era nova. Relatos poligenéticos das origens humanas eram feitos pelo menos desde a descoberta do Novo Mundo. O filósofo renascentista Paracelso escreveu que os povos indígenas americanos não descendiam do Adão bíblico, mas de uma origem que produzira ninfas e sereias — criaturas sem alma. Uma justificação teológica disso foi tentada a partir de meados do século XVI com a teoria pré-adâmica, segundo a qual certos seres humanos descendiam de uma espécie que existiu antes de Adão.

Isso era oposto ao relato bíblico, no qual todos os seres humanos são igualmente descendentes de Adão e Eva, e por esse motivo a teoria pré-adámica foi rejeitada por muitos pensadores cristãos. Entre os críticos mais contundentes estava Bartolomé de Las Casas, contemporâneo de Cristóvão Colombo, ex-proprietário de escravos e mais tarde feito bispo de Chiapas, que criticava os maus-tratos infligidos aos indígenas e seu assassinato em massa pelos conquistadores, declarando que “todos os povos do mundo são homens”.

Uma versão diferente da teoria pré-adâmica foi desenvolvida por Isaac La Peyrére (1596-1676), teólogo calvinista nascido em Bordeaux em uma família de marranos — judeus-portugueses forçados a ocultar sua fé convertendo-se ao cristianismo, e que então haviam fugido para a França, para escapar da constante perseguição da Inquisição. Em 1655, La Peyrère publicou em latim o volume Prae-Adamitae, traduzido para o inglês como Men before Adam [Homens antes de Adão], sustentando que o mundo já estava cheio de seres humanos quando Deus criou Adão e Eva. Adão não era pai de toda a humanidade, mas apenas do povo judeu, escolhido por Deus para receber a lei divina, e, por meio de Jesus, levar a redenção a toda a humanidade. Valendo-se do pré-adamismo para pregar a tolerância, La Peyrère não escalonava diferentes tipos de seres humanos em qualquer hierarquia. O que, como interpretação do Gênesis, era altamente provocador: o livro foi queimado; e seu autor, detido por heresia. Após longo interrogatório e uma entrevista com o papa, La Peyrère foi obrigado a abjurar e se converter ao catolicismo. Passando o resto da vida em retiro, ficaria impossibilitado de desenvolver suas ideias.

De modo geral, a função das teorias pré-adâmicas nos séculos XVI e XVII era legitimar a escravização de povos indígenas. Posteriormente, essas teorias seriam reformuladas em termos “científicos” seculares, passando a integrar o arsenal intelectual do racismo moderno. Figuras como o físico, etnógrafo e “craniólogo” americano Samuel George Morton (1799-1851) sustentavam com base em provas supostamente científicas que havia várias espécies de seres humanos, com tamanhos diferentes de crânio e níveis igualmente diferentes de capacidade intelectual, sendo os africanos os menos inteligentes.

Na Itália do fim do século XIX, o criminologista Cesare Lombroso sustentava que os comportamentos criminosos podiam ser explicados em termos de ativismo ou degeneração — a tendência inata de certos seres humanos a voltar a um estado de selvageria —, afirmando que os brancos eram física e intelectualmente superiores a todos os outros seres humanos. Lombroso deixava claro que dava continuidade a uma corrente de pensamento iniciada no positivismo francês, que pretendia alicerçar o estudo da sociedade na fisiologia. Para ele e muitos outros, o “racismo científico” era parte integrante do Iluminismo.

Embora os missionários dos “valores iluministas” no século XXI resistam a admitir o fato, o racismo moderno derivou da obra dos philosophes do Iluminismo. Voltaire foi uma figura decisiva nesse processo. Ao contrário de Hume e Kant, ele não deu nenhuma contribuição à filosofia. Poucos verbetes do seu famoso Dicionário filosófico têm algo a ver com questões filosóficas. Ele é importante basicamente como encarnação da mentalidade do Iluminismo, que incluía uma versão racionalista do racismo.

Voltaire aparentemente nunca foi ateu. Em um de seus primeiros poemas, ele escreveu que abrira mão do cristianismo para melhor amar a Deus, e contemplando a bela vista da sua casa de campo exclamou certa vez para um visitante: “Deus Todo-Poderoso! Eu acredito!” No Dicionário filosófico, observou: “A princípio pode parecer um paradoxo, mas um exame mais atento prova que é verdade: a teologia com frequência atirou a mente dos homens no ateísmo, até que a filosofia finalmente viesse afastá-la dele.”‘ Não há motivos para pensar que essa não fosse uma convicção sincera de Voltaire.

Embora o maior dos philosophes não fosse um filósofo, sua vida revelou uma extraordinária capacidade de pensamento. Nascido em Paris em 1694 e educado em um colégio jesuíta, Voltaire literalmente se fez por si mesmo. Seu verdadeiro nome era François-Marie Arouet. Ele passou a se identificar como M. Arouet de Voltaire em 1718. A partícula aristocrática “de” indicaria origem nobre, mas sua família era solidamente burguesa (seu pai era contador). Como “Voltaire” não existia, François-Marie Arouet achou necessário inventá-lo. Ele morreu em 1778.

Usando sua nova persona, Voltaire conseguiu tornar-se o homem que queria ser. Rondando a corte francesa, desfrutando por um período das atenções de Madame de Pompadour, convivendo com o “déspota esclarecido” Frederico o Grande, tornando-se o primeiro autor moderno de best-sellers e fazendo uma fortuna com uma sucessão de audaciosos empreendimentos, alguns duvidosos, ele veio a se tornar uma das figuras mais famosas da época. Avaro e ao mesmo tempo generoso ocasionalmente, ajudando muitos em seus infortúnios e lutas contra a injustiça, acometido de gota, escorbuto, hidropisia. herpes e toda uma série de outras enfermidades, mas sempre persistente no trabalho, ele mdrreu muito rico. Sua volumosa obra, abrangendo longos livros de história e poemas épicos, não deixou muitos traços. Só Cândido, ou o otimismo — encantadora sátira do otimismo em que Voltaire ridiculariza a afirmação de Gottfried Wilhelm Leibniz, filósofo racionalista alemão, de que o nosso é “o melhor dos mundos possíveis” —ainda é lido hoje.

O racismo de Voltaire não era apenas o racismo da sua época. Como Hume e Kant, ele conferiu autoridade intelectual ao racismo, afirmando que se escorava na razão. Em uma carta, zombava do relato bíblico sobre uma origem humana comum, perguntando se os africanos descendiam dos macacos ou os macacos dos africanos. Imprimiu novos contornos à teoria pré-adâmica ao afirmar que os adâmicos pertenciam a uma espécie inferior. Todos os outros seres humanos eram pré-adâmicos, embora os negros e outros homens de cor fossem versões degeneradas da espécie. que só se desenvolvera plenamente na Europa. Para florescer, a civilização europeia precisava se purificar da influência adâmica, o que significava voltar aos valores do mundo clássico, antes de ser corrompido pela religião judaica por meio do cristianismo.

Hoje em dia os pensadores iluministas ficam constrangidos com o racismo das figuras fundadoras. Quando não podem negar a evidência, apontam para fatos parecendo indicar que o Iluminismo é essencialmente benigno. A Revolução Francesa declarou os direitos universais do homem — declaração que a 28 de janeiro de 1790 mencionava explicitamente os judeus como titulares dos direitos de “cidadãos ativos”. Como então podia o pensamento iluminista abrigar ideias racistas e antissemitas? Só podia ser um paradoxo afirmar que o Iluminismo pudesse ser veículo de conceitos tão nocivos: semelhantes ideias só podiam decorrer do Contra-Iluminismo reacionário. Na verdade, porém, o moderno antissemitismo secular se originou no próprio iluminismo.

Mais que ninguém, foi Voltaire quem incorporou o preconceito antissemita ao pensamento iluminista. Em um de seus primeiros escritos Essai sur les Moeurs, da década de 1750, ele escreveu a respeito dos judeus: “Eles preservaram todos os seus costumes, que são o exato oposto de todos os costumes sociais decentes; e portanto foram justificadamente tratados como pessoas opostas às demais, às quais serviam por cobiça e ódio, por fanatismo; eles transformaram a usura em um dever sagrado.” O Dicionário filosófico de Voltaire está cheio de afirmações assim. No verbete sobre Abraão, ele se refere aos judeus como “povo mesquinho, ignorante, rude”, acrescentando “só mesmo um grande ignorante ou um grande patife para dizer que os judeus ensinaram aos gregos”. As únicas coisas verdadeiramente judias são “sua obstinação, suas novas superstições e sua usura santificada”. Segundo Voltaire, o que de valor tenha surgido na vida judaica foi tomado de empréstimo aos gregos ou aos romanos, as verdadeiras fontes da civilização europeia.

Muitas vezes se afirma que o antissemitismo de Voltaire se explica exclusivamente por sua hostilidade ao cristianismo. Como disse um eminente estudioso do Iluminismo, Voltaire “batia nos judeus para bater nos cristãos”. É verdade que seus ataques aos judeus faziam parte de uma cam-panha de toda a vida contra a religião cristã. Mas ele também considerava que o cristianismo era um avanço em relação à fé judaica. Apesar de seus crimes e defeitos, o cristianismo continha algo da civilização pagã que havia destruído. A religião judaica (segundo Voltaire) era intrinsecamente hostil à civilização, antiga ou moderna.

A visão de Voltaire sobre os judeus expressa de maneira radical um tema que permeia todo o Iluminismo. Os seres humanos só se tornam o que realmente são quando abrem mão de qualquer identidade particular para se tornar partículas da humanidade universal. Os judeus certamen-te podiam entrar na cidade celestial dos filósofos oitocentistas,'” mas só quando deixassem de ser judeus. Uma vez entendido isso, o enigma do antissemitismo iluminista é resolvido.

O racismo e o antissemitismo não são defeitos acidentais no pensamento iluminista. Eles derivam de algumas das crenças centrais do Iluminismo. Para Voltaire, Hume e Kant, a civilização europeia não era apenas a mais elevada que jamais existira. Era o modelo de uma civilização que viria a substituir todas as outras. O “racismo científico” do século XIX e do inicio do século XX deu continuidade a uma visão da humanidade promovida por alguns dos maiores pensadores iluministas.


GRAY, John, “Racismo e antissemitismo no Iluminismo”, Sete tipos de ateísmo. Trad. de Clóvis Marques. Rio de Janeiro/São Paulo: Record, 2021.

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