“A cultura romena exerce sobre mim um enorme fascínio”: Gleiton Lentz em diálogo com Ciprian Vălcan

Observator Cultural, nr. 1096, 09/02/2022

Gleiton Lentz é tradutor e editor-chefe da revista (n.t.) Nota do Tradutor. Doutor em Literatura (UFSC/Università degli Studi di Firenze) e pós-doutor em Estudos da Tradução (PGET/UFSC), dedica-se à tradução da poesia simbolista italiana e hispano-americana e ao estudo da origem das escritas antigas e suas literaturas, incluindo a maia e a suméria.


CIPRIAN VĂLCAN: Como surgiu a ideia de lançar a (n.t.)?

GLEITON LENTZ: A (n.t.) foi idealizada e lançada em 2010 como uma revista de tradução literária bilíngue voltada aos tradutores e dedicada à publicação de poesia e prosa para a língua portuguesa, em plataforma livre. Desde o princípio, o projeto se propõe a reunir tradutores dos mais diversos idiomas e estudiosos da tradução em um mesmo projeto de orientação literária, cuja ponte é a tradução, e cuja “pátria” é o português. E a intenção principal é pôr em evidência a figura do tradutor, em especial, a do tradutor literário, esse coautor da obra estrangeira que habita o nacional e o estrangeiro ao mesmo tempo, que vive no limiar de dois ou mais sistemas linguísticos, que é mediador de duas ou mais culturas distintas. E foi a partir desse entendimento que concebemos o projeto, primeiro, de que, embora existam fronteiras, é nelas onde os tradutores constroem suas pontes, pois a literatura só é universal por causa deles. Em outras palavras, muito de nosso entendimento do mundo, que é construído através de inúmeras leituras, se dá através da tradução, geralmente, por intermédio de um tradutor. E segundo, cientes de que os tradutores não se dedicam apenas aos trabalhos editoriais, mas que também traduzem esparsamente por apreço a um autor específico, decidimos nos centrar na publicação dessas “traduções de gaveta”, que nela vão sendo acumuladas, guardadas ou esquecidas. Portanto, foi por causa da figura do tradutor, que décadas atrás era sequer mencionado nos créditos dos livros, e que nas últimas passou a ganhar a capa ao lado do autor, que empreendemos o projeto, passando a divulgar o trabalho de um enorme grupo de tradutores, da nova e antiga geração. E embora sejamos tal qual uma editora, vamos em direção contrária ao mercado editorial, pois, além da plataforma gratuita, damos especial atenção a autores de menor visibilidade em português, a textos pouco conhecidos ou inéditos de autores clássicos e, sobretudo, a textos em idiomas de difícil ou escasso acesso no sistema literário de traduções à língua portuguesa. Por isso, a (n.t.) é uma revista lítero-tradutória, essencialmente literária (nos mesmos moldes das revistas literárias dos séculos XIX e XX), mas com uma visada sobre a tradução, especialmente porque nos interessa o texto literário traduzido propriamente dito, isto é, aquele clássico, acompanhado de notas do tradutor e bilíngue. E também, desde o início do projeto, nosso interesse foi o de aproximar a tradução da história da escrita, da qual era normalmente desvinculada, como se fosse algo exterior, posição que defendemos em nossos editoriais.

CV: Como nasceu sua paixão por traduções?

GL: Para mim, a tradução sempre foi uma constante, desde a época de juventude, quando comecei a traduzir para uma revista político-literária underground chamada Jôgo de Absurdos, em 1999, onde publiquei minhas primeiras traduções de alguns poemas dadaístas do franco-romeno Tristan Tzara. Já na década seguinte, saíram as primeiras traduções em livro, os Cantos Órficos, do poeta italiano Dino Campana, e Os anarquistas expropriadores, do historiador uruguaio Osvaldo Bayer. E embora tenha começado a traduzir de forma livre, contei depois com uma sólida formação na área de tradução, pois, quando era estudante, tive a oportunidade de vivenciar uma época em que a então recente disciplina dos Estudos da Tradução no Brasil estava ainda se consolidando. E para além das aulas e teorias, assisti a uma série de eventos sobre tradução que contavam não só com estudiosos da área, mas também com muitos editores e tradutores, que relatavam suas vicissitudes e curiosidades do ofício. E todo esse contexto e formação auxiliou-me a entender a dimensão da tradução, a importância de discuti-la enquanto estudo e de historiá-la enquanto prática, e sobretudo, de não mais relegá-la a uma área secundária, seja da própria literatura ou da linguística comparada, pois a tradução, além de comportar um ofício milenar, pode falar por si mesma. E embora eu tenha tido uma formação em letras, em línguas clássicas e românicas, foi com o processo de preparação e revisão dos originais e das traduções que aprendi outros idiomas, o que levou a me interessar pelo estudo das escritas antigas e suas literaturas, como o maia e o sumério, por exemplo.

CV: Há outros projetos semelhantes à (n.t.), ou a sua revista é a única do gênero atualmente no mundo?

GL: Pelo que sabemos, e conforme nos é indicado por outros colegas da área, a revista é a única do gênero, pois não se trata de uma revista acadêmica, já que as traduções não são acompanhadas de reflexões teóricas, e nem de literatura propriamente, no sentido de que não publicamos textos monolíngues ou autores nacionais. E sim, uma revista de literatura traduzida, voltada aos tradutores e aos idiomas. Claro que há revistas que se dedicam a comentar traduções de textos literários e periódicos voltados aos estudos da tradução em grande profusão no Brasil e fora dele, mas a (n.t.) é uma revista específica de tradução, de alcance não só nacional, mas internacional, em cujas páginas a tradução está sempre acompanhada de sua contraparte, o original, pois o bilinguismo, para nós, é uma conditio sine qua non da própria tradução. No entanto, cumpre notar que a maior parte de nossos colaboradores é do meio acadêmico, pois muitos desenvolvem pesquisas acerca dos autores que traduzem, embora contemos também com muitos tradutores de ofício, que conformam a equipe da revista. Todos, a cada tradução, nos auxiliam a manter viva nossa Torre de Babel, pois sem esses “pobres tradutores bons”, como diria García Márquez, que “nos apresentam ao mundo”, como diria Calvino, a revista não existiria.

CV:  A (n.t.) publica a tradução para o português de um texto, e o próprio texto no original. Até o momento, de quantas línguas os colaboradores da revista têm traduzido?

GL: A (n.t.) reúne um grande número de colaboradores dos mais diversos idiomas e alcança todos os países de fala portuguesa. Até o momento, já contamos com a colaboração de tradutores não só do Brasil, mas também de Portugal e Timor-Leste. E a lista de idiomas traduzidos que conformam nossa Torre de Babel sempre está em crescimento, alcançando já 45 idiomas e abarcando desde idiomas clássicos, como o sumério, o grego antigo e o latim, mas também mesoamericanos, como o maia, o náuatle e o guarani, passando pelos asiáticos, como o árabe, o farsi e o japonês, e pelos mais tradicionais, como o romeno, polonês, o turco, o catalão, o galego, o tcheco, o sueco, o húngaro, o chinês, o armênio, o esperanto, entre outros. É isso que a configura como uma revista internacionalista, no melhor sentido humanístico e cosmopolita dos termos. E o que evidencia também a enorme variedade de idiomas aos quais a língua portuguesa se adapta, se aclima, se apropinqua, não só por sua enorme versatilidade linguística e semântica, mas também por se tratar de uma língua muito flexível e atenta ao estrangeiro, ao estranho (vale lembrar que o português é uma língua neolatina, formada da mistura do latim vulgar com influência do árabe e conectada originalmente ao galego, enquanto que o português falado no Brasil incorporou termos indígenas, de idiomas como o tupi, mas também de línguas africanas, como o quicongo e o umbundo, além do castelhano), e frente à qual a ideia de intraduzibilidade, isto é, da impossibilidade ou infidelidade da tradução, parece fazer apenas parte da teoria, não da prática.

CV: Descobri que você é fascinado pela Romênia, país que já visitou. Como foi o seu interesse por um país tão distante e pouco conhecido no Brasil?

GL: A cultura romena sempre exerceu um enorme fascínio em mim, seja por sua história decididamente europeia, mas também, às margens da Europa continental, dona de uma cultura ímpar, povoada por romenos, húngaros e boêmios, e de uma história ainda mais envolvente, que remonta à época dos dácios e romanos. E é por causa desses elementos culturais e linguísticos, que são muito singulares, que eu vejo a Romênia como um grande país e o que me fez perpassar suas fronteiras e visitá-la. Mas o que me levou, de fato, à Romênia, foram duas figuras do país, pelas quais sempre nutri um grande apreço: Vlad Țepeș e Emil Cioran. Primeiro, Vlad Țepeș, pois a história acerca do herói romeno e príncipe da Valáquia sempre me chamou a atenção (e também, por extensão, da Transilvânia, a antiga fronteira entre o Ocidente e o Oriente). E uma vez em Bucareste, fui atrás de seus vestígios na antiga corte construída durante seu reinado no século XV, o palácio de Curtea Vechae, que hoje se encontra em ruínas. E segundo, Cioran, um pensador que me acompanha há décadas e a quem considero como um mestre de formação, por causa de seu estilo assertivo e sem ressalvas. Foi por causa dele e para entender sua obra primogênita, Pe culmile disperării, que refiz seus passos em Rășinari, a cidade onde nascera, e também em Sibiu, a urbe da insônia e dos estudos.

CV: Quais autores romenos você publicou até agora na (n.t.), e com quais tradutores você colaborou para o surgimento desses textos?

GL: A relação com a literatura romena iniciou desde o primeiro número da revista, quando publicamos uma seleção de poemas de um dos grandes nomes da literatura romena que não suporta rótulos, Max Blecher, intitulada Corp transparent, de quem também publicamos Berck, oraşul damnaţilor şi alte poveşti. Entre nossos colaboradores, um dos tradutores da (n.t.) é justamente Fernando Klabin, o maior divulgador da literatura e cultura romena na atualidade, com quem mantemos um dos vínculos mais profícuos da revista, que já resultou em uma série de traduções, e também, Rodrigo Menezes, estudioso e divulgador da obra de Cioran no Brasil, cujo contato com os escritos do pensador fez com que ele começasse a se interessar pelo idioma romeno e a traduzi-lo. Até o momento publicamos muitos autores, a maioria inédita em língua portuguesa ou como aparição inicialmente na revista, como os poetas de orientação simbolista Tudor Arghesi (Testament și alte poezii) e George Bacovia (Bucăţi de noapte e Plumb), o poeta do pós-guerra Paul Celan (Dimensiunea românească), os quase esquecidos poetas de vanguarda Grigore Cugler (Carte de bucate) e Oscar Lemnaru (Ceasornicul din turn) e o precursor do surrealismo na literatura romena, Urmuz (Fuchsiada). Além disso, publicamos dois pensadores, um moderno e outro contemporâneo, como o próprio Cioran (aforismos de Razne) e Ciprian Vălcan (aforismos de Amiel şi canibalul), respectivamente.

CV: Você tem no projeto a publicação de outros autores romenos?

GL: No momento, acabamos de publicar o conto fantástico Aranca, ştima lacurilor, do prolífico romancista e jornalista, Cesar Petrescu, em formato folhetim, em duas partes, tal como fora publicado na clássica revista Viața Romînească, em 1928, na tradução de Fernando Klabin. E logo mais, publicaremos o célebre poema de Mihai Eminescu, de 1884, Rugăciunea unui dac, na tradução de Rodrigo Menezes.

CV: Há levantamentos demográficos sobre a origem dos leitores da (n.t.)? Se existir, você pode me dizer quais países têm mais leitores da (n.t.) além do Brasil?

GL: Por se tratar de uma revista digital, as traduções publicadas na (n.t.) já alcançaram os cinco continentes povoados, tendo sido acessadas em mais de 130 países. E isso ocorre porque publicamos textos em muitos idiomas, e também, em plataforma livre, nos mesmos moldes de uma biblioteca virtual (como do projeto Gutenberg, por exemplo), o que facilita o acesso. Isso fez com que a revista fosse acessada em todos os países de língua portuguesa que integram a CPLP, a Comunidade dos Países de Língua Portuguesa, pois, embora o português seja uma das línguas europeias menos faladas, é a sexta mais falada do mundo e a quinta mais usada em meio digital, segundo as estatísticas do Instituto da Cooperação e da Língua Portuguesa, Camões. Já os países que mais acessam a revista são, por área continental, Portugal e Itália, na Europa, EUA e Argentina, nas Américas, Coreia do Sul e China, na Ásia, e Angola e Moçambique, na África.

CV: Já aconteceu de você querer publicar textos de um determinado idioma para o qual não foi possível encontrar um tradutor?

GL: A (n.t.) abre chamadas de publicação semestrais, através da quais recebemos uma grande demanda de traduções, dos mais diversos idiomas, que são lidas e avaliadas pela comissão editorial. E embora convidemos também nossos tradutores colaboradores a publicar na revista, são eles, geralmente, que nos indicam seus autores e textos, pois todo tradutor é antes de tudo um insigne leitor. E nesse quadro, tanto eu quanto o coeditor da revista, Miguel Sulis, também tradutor e um exímio conhecedor de idiomas, nos dedicamos a traduzir de outros idiomas menos convencionais, pois, enquanto eu traduzo do sumério e do maia, Sulis traduz do turco e do farsi, por exemplo, idiomas que ainda não ganharam o devido espaço no sistema de traduções literárias em língua portuguesa, mas cujo quadro estamos nos empenhando em mudar. E fazemos isso movidos por um impulso humanístico, de romper fronteiras e aproximar mundos, sobretudo para poder oferecer aos nossos leitores não só textos ou autores inéditos, mas também idiomas.

CV: Existe um autor que você aprecie especialmente e que ainda não conseguiu publicar na (n.t.)?

GL: Por muito tempo, sondávamos publicar o autor sueco Stig Dagerman, saudado como o “Rimbaud do Norte”, mas sabíamos da dificuldade em encontrar tradutores desse idioma, e também, quem se interessasse em traduzi-lo. Felizmente, sanamos esse quesito no último número da revista, com a publicação de “Brev till en ö”, um dos capítulos que integram a famosa obra do autor, Bränt barn, de 1948.  Contudo, essa tradução foi publicada na seção da revista chamada “Memória da Tradução”, em que relembramos antigas e célebres traduções publicadas em língua portuguesa, pois, como os textos do Dagerman, por alguma razão editorial ou por desconhecimento acerca de sua obra, não haviam ganhado ainda traduções no Brasil, decidimos republicar um excerto da tradução lusitana de 1958, em homenagem à tradutora Irene Lisboa. E há muito queríamos publicá-lo, praticamente desde o início do projeto, mas só agora foi possível reunir um pequeno fragmento da obra desse grande escritor nórdico para apresentá-lo, por fim, aos nossos leitores. E eis aqui um exemplo que evidencia a tradução como uma ponte necessária, pois ela é como um aprendizado que nos desprovincializa a cada vez que entramos em contato com o Outro.


Entrevista publicada originalmente em Observator Cultural, nr. 1096, 09/02/2022. Trad. para o romeno de Rodrigo Inácio R. Sá Menezes.

Deixe um comentário

Faça o login usando um destes métodos para comentar:

Logo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s