“Qual é a ‘verdadeira igreja’?” – Elaine PAGELS

DURANTE QUASE 2 mil anos a tradição cristã preservou e reverenciou os escritos ortodoxos que denunciavam os gnósticos enquanto reprimiam — e destruíam — os escritos gnósticos. Agora, pela primeira vez, certos textos descobertos em Nag Hammadi revelam o outro lado da moeda: como os gnósticos denunciavam os ortodoxos. O Segundo Tratado do Grande Seth critica o cristianismo ortodoxo, contrastando-o com a “verdadeira igreja” dos gnósticos. Dirigindo-se àqueles que chamava de filhos da luz, o autor diz:

(…) somos perseguidos e odiados, não apenas pelos ignorantes [pagãos], mas também por aqueles que pensam que estão promovendo o nome de Cristo, pois são inconscientemente vazios, não conhecendo a si mesmos, como animais mudos.

O Salvador explica que essas pessoas imitam a verdadeira igreja, “ao proclamarem a doutrina de um homem morto e mentiras para assemelharem-se à liberdade e à pureza da igreja perfeita (ekklesia)”? Esse ensinamento, diz, reconcilia seus adeptos ao medo e à escravidão, encorajando-os a sujeitarem-se aos representantes mundanos do criador do mundo, que, em sua “glória vazia”, declara: “Eu sou Deus, e não existe nenhum outro além de mim.” Essas pessoas perseguem os que alcançaram a liberação por meio da gnosis, tentando desviá-los da “verdade de sua liberdade”.

O Apocalipse de Pedro descreve, como já mencionado, que os católicos cristãos são aqueles que caíram “sob um nome enganoso e nas mãos de um homem perverso e astucioso, cujo ensinamento tem múltiplas formas”, permitindo serem dirigidos pela heresia. Pois, o autor acrescenta, eles

blasfemam a verdade e proclamam o ensinamento do mal. E dirão coisas malévolas uns dos outros. (…) muitos outros (…) que se opõem à verdade e são os mensageiros do erro… estabelecerão seu erro (…) contra estes meus pensamentos puros…

O autor analisa cada uma das características da Igreja católica como uma evidência de que ela é apenas um plágio, uma imitação, uma “irmã” que copia a verdadeira fraternidade cristã. Esses cristãos, em sua arrogância cega, reivindicam uma legitimidade exclusiva: “Aqueles que não entendem o mistério falam coisas que não compreendem, mas vangloriam-se de que o mistério da verdade pertence apenas a eles.” A obediência deles aos bispos e diáconos indica que eles “curvam-se diante do julgamento de seus líderes”. Eles oprimem seus irmãos e difamam aqueles que atingem a gnosis.

O Testemunho da Verdade ataca os cristãos eclesiásticos como aqueles que dizem “somos cristãos”, mas “que [não sabem quem] Cristo é”. Porém, esse mesmo autor critica também outros gnósticos, inclusive Valentino, Basílides e Simão, como irmãos ainda imaturos. Outro texto de Nag Hammadi, o Ensinamento Autoritário, pretende demolir todo ensinamento, sobretudo o ensinamento ortodoxo, que o autor considera sem autoridade. Como Irineu — mas radicalmente oposto —, ele diz que eles são “aqueles que rivalizam conosco, como adversários”, que são “negociantes de corpos”, insensíveis, ignorantes, piores que os pagãos, porque não têm desculpa para seu erro.

A mordacidade desses ataques contra a “igreja plagiadora” provavelmente indica um estágio posterior de controvérsia. Por volta do ano 200, as linhas de batalha definiram-se: tanto cristãos ortodoxos quanto gnósticos julgavam-se representantes da verdadeira igreja e acusavam-se mutuamente de serem intrusos, falsos irmãos e hipócritas.

Como um fiel poderia identificar os verdadeiros e os falsos cristãos? Os cristãos ortodoxos e gnósticos ofereciam respostas diferentes, pois cada grupo tentava definir a igreja de modo a excluir o oponente. Os cristãos gnósticos, pleiteando representar apenas “uns poucos”, sugeriam critérios qualitativos. Em protesto contra a maioria, insistiam em que o batismo não convertia um ser em cristão: segundo o Evangelho de Filipe, muitas pessoas “mergulham na água e retornam à superfície sem terem recebido nada”, e ainda assim afirmavam ser cristãos. Nem a profissão do credo ou martírio contava como evidência: “qualquer pessoa pode fazer essas coisas.” Acima de tudo, recusavam-se a identificar a igreja com a comunidade visível e real que, diziam, com frequência apenas a imitava. Em vez disso, citando um dito de Jesus (“Pelos seus frutos os conheceremos”), demandavam provas de maturidade espiritual para demonstrar que uma pessoa pertencia à verdadeira igreja.

No entanto, os cristãos ortodoxos no final do século II começaram a estabelecer critérios objetivos para o ingresso na igreja. Quem quer que confessasse o credo, aceitasse o ritual do batismo, participasse na adoração e obedecesse aos clérigos era aceito como um companheiro cristão. Procurando unificar as diversas igrejas espalhadas pelo mundo em uma única rede, os bispos eliminaram os critérios qualitativos para que as pessoas se tornassem membros da igreja. A avaliação de cada candidato com base na maturidade espiritual, percepção ou santidade pessoal, como os gnósticos preconizavam, necessitaria de uma administração muito mais complexa. Além disso, tenderia a excluir muitos que precisavam do acolhimento da igreja. A fim de tornar-se verdadeiramente católica— universal —, a igreja rejeitou todas as formas de elitismo, com o intuito de atrair mais e mais fiéis. Nesse processo, seus líderes criaram uma estrutura clara e simples, consistindo em doutrina, ritual e organização política, que provou ser, surpreendentemente, um sistema organizacional muito eficaz.

Assim Inácio, o bispo ortodoxo de Antioquia, define a igreja em termos do bispado que representa esse sistema:

Ninguém que pertença à igreja permanecerá excluído do bispado. A eucaristia será válida quando celebrada pelo bispo ou por quem ele indicar (…) Qualquer que seja a oferenda do bispo [a eucaristia], a congregação deverá estar presente, assim como, em qualquer lugar onde Jesus Cristo esteja, a Igreja católica estará presente.

Temendo alguma sugestão “herege” de que Cristo possa estar presente mesmo quando o bispo estiver ausente, Inácio declara:

É ilegítimo batizar ou realizar um ágape (rito eucarístico) sem o bispo (…) Unir-se ao bispo é unir-se à igreja; separar-se do bispado significa não apenas separar-se da igreja, mas do próprio Deus.

À parte da hierarquia da igreja, reitera, “não existe nada que possa ser chamado de igreja”.

Irineu, bispo de Lyon, concorda com Inácio que a única igreja verdadeira é a que “preserva a mesma forma de constituição eclesiástica”:

A verdadeira gnosis é a que consiste na doutrina dos apóstolos e na antiga constituição [systema] da igreja no mundo inteiro, e o caráter do corpo de Cristo segundo as sucessões dos bispos, pelas quais eles transmitiram às gerações seguintes o que existe em toda parte.

Apenas esse sistema, diz Irineu, constitui o “pilar e a base” dos escritos apostólicos aos quais ele atribui total autoridade — acima de tudo os evangelhos do Novo Testamento. Todos os outros são falsos, duvidosos, não-apostólicos e, provavelmente, elaborados por hereges. Só a Igreja católica oferece um “completo doutrinário”, proclamando, como vimos, um Deus, criador e pai de Cristo, que encarnou, sofreu, morreu e ressuscitou em sua forma humana. Fora dessa igreja não há salvação: “ela é a entrada da vida; todo o resto são ladrões e marginais.” Como porta-voz da igreja de Deus, Irineu insiste em que aqueles que chama de hereges estão excluídos da igreja. Todos que rejeitam sua versão da verdade cristã são “pessoas falsas, sedutores maléficos e hipócritas”, que “falam para multidões acerca daqueles que pertencem à igreja, os quais denominam de católicos ou eclesiásticos” Irineu diz que deseja “convertê-los para a igreja de Deus” — visto que os considera apóstatas, piores que pagãos.

Os cristãos gnósticos, ao contrário, acreditam que o que distingue o falso do verdadeiro não é a relação com o clero, mas o nível de compreensão de seus membros e a qualidade de sua interação entre si. O Apocalipse de Pedro declara que “os filhos da luz (…) os iluminados” distinguem o verdadeiro do falso. Pertencendo aos “remanescentes (…) fazem apelo ao conhecimento [gnosis]” não tentam dominar os outros nem sujeitam-se a bispos e diáconos, esses “canais secos”. Em vez disso, eles participam da “sabedoria da fraternidade que realmente existe (…) a amizade espiritual daqueles unidos em comunhão”.

O Segundo Tratado do Grande Seth declara de modo similar que a característica da verdadeira igreja é a união que seus membros desfrutam com Cristo e entre si, “unidos pela amizade perene de amigos, que desconhecem a hostilidade, a maldade e são ligados pela gnosis (…) [na] amizade que nutrem uns pelos outros”. Possuem a intimidade do casamento, um “casamento espiritual”, pois vivem “na paternidade e na maternidade, e na fraternidade racional e na sabedoria”, como aqueles que se amam como “amigos espirituais”.

Essa visão etérea de uma “igreja celestial” contrasta drasticamente com o enfoque terreno das fontes ortodoxas. Por que os autores gnósticos abandonaram a concretude e descrevem a igreja em termos tão irreais e imaginários? Alguns estudiosos dizem que isso prova seu escasso entendimento e seu desapreço quanto às relações sociais. Carl Andresen, em seu recente e denso estudo sobre os primórdios da igreja cristã, denominou-os de “solipsistas religiosos” preocupados apenas com seu próprio desenvolvimento espiritual, indiferentes às responsabilidades comunitárias de uma igreja. Mas as fontes citadas acima mostram que esses gnósticos definiam a igreja precisamente em termos da qualidade de interação entre seus membros.

Escritores ortodoxos descrevem a igreja em termos concretos porque aceitam o status quo; ou seja, eles afirmam que a comunidade reunida para adorar era “a igreja”. Os cristãos gnósticos discordam. Confrontados nas igrejas com as pessoas a quem consideravam ignorantes, arrogantes ou autocentradas, recusavam-se a admitir que toda a comunidade de fiéis, sem maiores qualificações, constituía “a igreja”. Discordando da maioria questões como o valor do martírio, pretendiam discriminar a massa dos fiéis daqueles que realmente possuíam gnosis, aquilo que chamavam de imitação ou de réplica da verdadeira igreja.

Consideremos, por exemplo, como disputas específicas com outros cristãos levaram até mesmo Hipólito e Tertuliano, dois fervorosos opositores da heresia, a redefinir a igreja. Hipólito compartilhava o ponto de vista de seu professor Irineu de que a igreja era o único suporte da verdade. Como Irineu, Hipólito definiu a verdade com base na sucessão apostólica de bispos que garantiam a solidez do cânone e da doutrina da igreja. Mas, quando um diácono chamado Calisto foi eleito bispo da igreja em Roma, Hipólito protestou com veemência. Divulgou uma história escandalosa, difamando a integridade de Calisto:

Calisto era um escravo de Carpóforo, um cristão empregado no palácio imperial. Por considerar Calisto um homem honesto, Carpóforo confiou-lhe uma quantia considerável de dinheiro e orientou-o a fazer transações bancárias para obter lucros. Ele apanhou o dinheiro e começou a negociar no bairro do Mercado de Peixe. Ao longo do tempo, diversos depósitos lhe foram confiados por viúvas e irmãos (…) Calisto, no entanto, apropriou-se do dinheiro e envolveu-se em dificuldades financeiras.

Quando Carpóforo soube do fato, pediu um relatório financeiro, mas, disse Hipólito, Calisto escondeu-se e fugiu: “ao encontrar um navio no porto prestes a partir, ele embarcou decidido a viajar para qualquer destino.” Quando seu amo o perseguiu dentro do navio, Calisto percebeu que estava perdido e, desesperado, saltou pela amurada. Salvo a contragosto pelos marinheiros enquanto a multidão à beira-mar proferia gritos de encorajamento, Calisto foi entregue a Carpóforo, que o levou de volta para Roma e o encarcerou. Aparentemente, Hipólito tentava explicar por que Calisto foi torturado e preso, apesar de muitos o reverenciarem como um mártir; mas para Hipólito ele era um criminoso. Hipólito também opôs-se à visão de Calisto da Santíssima Trindade e criticava o hábito de Calisto de conceder perdão a pecados para encobrir transgressões de uma “negligência” chocante. E ele denunciou Calisto, o antigo escravo, por permitir aos fiéis regularizar ligações amorosas com seus escravos, reconhecendo-as como casamentos válidos.

Entretanto, Hipólito viu-se em minoria. A maioria dos cristãos romanos respeitava Calisto como um professor e um mártir, corroborava sua política e o elegeu bispo. Agora que Calisto comandava a igreja romana, Hipólito decidiu romper com ela. No processo, atacou o bispo com as mesmas técnicas polêmicas que Irineu lhe ensinara a usar contra os gnósticos. Assim como Irineu destacava certos grupos de cristãos como hereges e referia-se a eles de acordo com seus professores (“valentinianos”, “simonianos” etc.), Hipólito acusou Calisto de pregar a heresia e denominou seus seguidores de “calistianos” — como se fossem uma seita separada da “igreja”, a qual ele alegava representar.

Como Hipólito poderia justificar seu pleito de representante da igreja quando ele e seus poucos adeptos estavam atacando a maioria dos cristãos romanos e seu bispo? Hipólito explicou que grande parte dos “que se diziam cristãos” eram incapazes de viver segundo as normas da verdadeira igreja, que consistia em uma “comunidade que vivia em santidade”. Como seus oponentes gnósticos, que se recusaram a identificar a igreja por intermédio de sua hierarquia oficial, ele a caracterizou segundo as qualidades espirituais de seus membros.

Tertuliano apresentou um caso ainda mais surpreendente. Ao se proclamar um “católico cristão”, Tertuliano definiu a igreja do mesmo modo que Irineu. Em sua obra Preemptive Objection against Heretics (Prenúncio da Objeção contra os Hereges), Tertuliano declara que só sua igreja possuía a norma apostólica da fé, reverenciava o cânone das Escrituras e conduzia por meio de sua hierarquia eclesiástica a sanção da sucessão apostólica. Como Irineu, Tertuliano acusava os hereges de violar cada um desses preceitos. Lamentava que eles se recusassem a aceitar e acreditar na norma da fé como outros fiéis: em vez disso, desafiavam os outros para suscitar questões teológicas, quando eles próprios não queriam ouvir respostas,

prontos a falar, com sinceridade, de alguns aspectos de sua crença, “Isso não é assim”, “Tenho uma visão diferente” e “Não admito isso”.

Tertuliano adverte que esse questionamento leva à heresia: “Essa norma (…) foi ensinada por Cristo e não causa entre nós perguntas além daquelas que as heresias introduzem e que convertem os homens em hereges!” Também destaca que os hereges não se restringem às Escrituras do Novo Testamento: acrescentam outros escritos ou desafiam a interpretação ortodoxa de textos-chave. Mais tarde, como já observado, ele condena os hereges de serem “um campo de rebeldes” que se recusam a submeter-se à autoridade do bispo. Solicitando uma ordem estrita de obediência e submissão, conclui que a “evidência de uma maior disciplina que existe entre nós é prova adicional da verdade”.

Assim discursa o católico Tertuliano. Mas, no final de sua vida, quando seu fervor intenso provocou sua ruptura com a comunidade ortodoxa, ele rejeitou e estigmatizou a igreja de meros cristãos “psíquicos”. Aderiu então ao movimento montanista, chamado por seus seguidores de a “nova profecia”, que alegavam inspiração do Espírito Santo. Nessa época, Tertuliano começou a fazer uma profunda distinção entre a igreja empírica e a visão espiritual da igreja. Não mais identificava a igreja em termos de uma organização eclesiástica, mas apenas com o espírito que santificava membros individuais. Desdenhava da comunidade católica intitulando-a “a igreja de uma multidão de bispos”:

Porque a igreja, em sua essência, é o espírito no qual existe a trindade de uma só divindade, Pai, Filho e Espírito Santo. (…) A igreja congrega o que o Senhor deseja — uma igreja espiritual para pessoas espirituais —, não a igreja de uma multidão de bispos!

O que impeliu os dissidentes do cristianismo católico a manter ou desenvolver essas descrições visionárias da igreja? Suas visões eram “quiméricas” porque se interessavam pela especulação teórica? Ao contrário, seus motivos eram por vezes tradicionais e polêmicos, mas também às vezes políticos. Estavam convencidos de que a “igreja visível” — a rede vigente das comunidades católicas — ou desde o início tivera princípios errados ou desviara-se mais tarde do caminho correto. A verdadeira igreja, em contraste, era “invisível”: apenas seus membros identificavam as pessoas que pertenciam ou não a ela. Com essa ideia de uma igreja invisível, os dissidentes pretendiam opor-se àqueles que se diziam representantes da igreja universal. Martinho Lutero empreendeu o mesmo movimento 1.300 anos mais tarde. Quando sua devoção à Igreja católica converteu-se em crítica e depois em rejeição, ele começou a insistir, junto com outros protestantes reformistas, em que a verdadeira igreja era “invisível”, ou seja, não idêntica ao catolicismo.

O autor gnóstico do Testemunho da Verdade teria concordado com Lutero, e ido muito além. Ele rejeitava como falaciosos todos os preceitos do cristianismo eclesiástico. A obediência à hierarquia do clero exige que os fiéis se submetam a “guias cegos” cuja autoridade advinha do criador malévolo. O conformismo à norma da fé limitava todos os cristãos a uma ideologia inferior: “Eles dizem: ‘[Mesmo que] um [anjo] venha do céu e pregue a você além daquilo que nós pregamos, deixe-o ser excomungado!’” A fé nos sacramentos demonstra um pensamento ingênuo e irracional: os cristãos católicos praticam o batismo como um rito de iniciação que lhes garante “uma esperança de salvação”, por acreditarem que só aqueles que recebem o batismo são “guiados para a vida”.

Contra essas “mentiras” o gnóstico declara que “isto, portanto, é o verdadeiro testemunho: quando um homem conhece a si mesmo e Deus está acima da verdade, ele se salvará”. Apenas aqueles que reconhecem sua ignorância e aprendem a libertar-se pela descoberta de quem são vivenciam a iluminação como uma nova vida, como “a ressurreição”. Os rituais físicos como o batismo são irrelevantes, pois “o batismo da verdade é algo diverso; é pela renúncia [ao] mundo que o encontramos”.

Opondo-se àqueles que reivindicam acesso exclusivo à verdade, os que seguem a lei e a autoridade, e que depositam a fé no ritual, o autor declara: “Aquele que consegue renunciar a [dinheiro e relação sexual] mostra [que] é [da] geração do [Filho do Homem], e que tem o poder de acusá-[los].” Como Hipólito e Tertuliano, mas ainda mais radical, esse mestre considera a abstinência sexual e a renúncia aos bens materiais como símbolos do verdadeiro cristão.

O Ensinamento Autoritário, outro texto encontrado em Nag Hammadi, também oferece um ataque veemente ao cristianismo católico. O autor relata a história de uma alma que originalmente surgiu do céu, da “plenitude espiritual”, mas que quando “foi enviada para o corpo” sentiu desejo sexual, paixões, ódio e inveja. Claramente, a alegoria refere-se à alma de um indivíduo lutando contra as paixões e o pecado; contudo, a linguagem do texto sugere também um referente social mais amplo. Ele descreve a luta entre os seres espirituais, ligados à natureza da alma (com os quais o autor identifica-se), contra os que são essencialmente alienados dela. O autor explica que alguns a quem chamamos de “nossos irmãos”, que se dizem cristãos, na verdade não são fiéis. Embora “a palavra lhes tenha sido pregada”, e eles tenham ouvido “o chamado” e realizado atos de adoração, esses autodenominados cristãos eram “piores que (…) os pagãos”, que tinham uma desculpa para sua ignorância.

Com base em quais critérios o gnóstico acusa esses fiéis? Primeiro, eles “não procuram Deus”. O gnóstico compreende a mensagem de Cristo não como a oferta de um conjunto de respostas, mas como um encorajamento para engajar-se no processo de busca: “procure e indague sobre os caminhos que deve seguir, pois não há nada melhor que isso.” A alma racional deseja

ver com sua mente, perceber seus semelhantes e aprender quais são suas raízes (…) para que ela possa receber o que lhe pertence…

Qual é o resultado? O autor declara que ela atinge a plena realização:

(…) a alma racional que se desgastou na busca — ela aprendeu algo sobre Deus. Ela esforçou-se com as indagações, suportando o desconforto do corpo, desgastou os pés no rastro dos evangelistas, aprendendo sobre o Inescrutável. (…) Ela foi repousar com aquele que está em repouso. Ela reclinou-se na câmara nupcial. Comeu o banquete que havia desejado. (…) Ela encontrou o que tanto buscava.

Os gnósticos seguem seu caminho. Mas os cristãos não-gnósticos “não buscam”:

(…) aqueles que são ignorantes não procuram por Deus. (…) não indagam sobre Deus (…) o homem insensato ouve o chamado, mas ignora de onde provém. E não perguntou durante a pregação: “Onde está o templo a que devo ir para prestar minha adoração?”

Aqueles que acreditam nas pregações que ouvem, sem questionamentos, e que aceitam o culto que lhes foi estabelecido, não apenas permanecem ignorantes mas, se “encontrarem alguém que pergunte sobre sua salvação”, imediatamente o censurarão e o farão calar-se.

Segundo, esses “inimigos” asseguram que são os “pastores da alma”:

(…) Eles não perceberam que ela possuía um corpo espiritual invisível; pensam: “Nós somos seus pastores, dela a quem alimentamos.” No entanto, não perceberam que ela conhece outra forma que está escondida deles. Esta, seu verdadeiro pastor lhe ensinou pela gnosis.

Ao usar o termo comum para bispo (poimen, “pastor”), o autor refere-se, aparentemente, aos membros do clero: eles não sabiam que os cristãos gnósticos tinham acesso direto a Cristo, o verdadeiro pastor da alma, e não precisavam de sua liderança. Nem esses supostos pastores percebiam que a verdadeira igreja não era a visível (a comunidade à qual presidiam), mas que “ela tinha um corpo espiritual invisível” — ou seja, incluía apenas os seres espirituais. Só Cristo e eles próprios sabiam quem eram. Além disso, esses “estranhos” ao credo tomavam vinho, tinham relações sexuais e trabalhavam em negócios usuais, como os pagãos. Para justificar sua conduta, oprimiam e difamavam os que haviam atingido a gnosis e que praticavam a total renúncia. O gnóstico declara:

(…) não temos interesse algum quando nos causam coisas [malignas]. E os ignoramos quando nos amaldiçoam. Quando eles expõem sua vergonha diante de nós, olhamos para eles calados. Enquanto trabalham em seus negócios, vivemos com fome e sede…

Esses “inimigos”, penso eu, estavam seguindo o tipo de conselho prescrito por líderes ortodoxos como Irineu, Tertuliano e Hipólito para lidar com os hereges. Em primeiro lugar, recusavam-se a discutir a norma da fé e a doutrina comum. Tertuliano adverte que “os hereges e os filósofos” faziam as mesmas perguntas e impeliam os fiéis a rejeitá-las:

É preciso rechaçar todas as tentativas de produzir um cristianismo misto, composto por influências do estoicismo, do platonismo ou da dialética. Não queremos nenhuma controvérsia inquisitiva sobre a posse de Cristo, nenhuma indagação sobre a fruição do evangelho! Com nossa fé, não desejamos uma crença maior.

Lamentava que os hereges acolhessem todos que aderissem a eles, “porque não se importam com seus diferentes tratamentos dos tópicos”, desde que houvesse consenso para acessar “a cidade de uma única verdade”. Contudo, essa metáfora indica que os gnósticos não eram nem relativistas nem céticos. Como os ortodoxos, eles procuravam “a única verdade”. Porém, tendiam a considerar todas as doutrinas, especulações e mitos — os seus e os alheios — apenas como abordagens da verdade. Os ortodoxos, ao contrário, identificavam sua doutrina como a verdade em si — a única forma legítima da fé cristã. Tertuliano admite que os hereges alegavam ter seguido o conselho de Jesus (“Buscai, e achareis; batei, e abrir-se-vos-à.”) No entanto, isso significa, declara, que Cristo ensinou “algo definitivo” — o conteúdo do dogma da fé. Após tê-la achado e acreditado nela, o cristão nada mais tinha a procurar:

Deve-se excluir quem busca o que jamais achará; pois está procurando onde nada pode ser achado. Excluamos aqueles que estão sempre batendo; porque batem onde não há ninguém para abrir. Também aquele que está sempre perguntando, visto que nunca será ouvido, pois pergunta a quem não ouve.

Irineu concorda: “Segundo esse procedimento, alguém estará sempre indagando sem jamais encontrar nada, porque rejeitou o método da descoberta.” O único caminho seguro e preciso, diz ele, é aceitar a fé ensinada pela igreja, reconhecendo os limites da compreensão humana.

Como vimos, esses “inimigos” dos gnósticos seguiam o conselho dos padres da Igreja para assegurar as reivindicações do clero contra os cristãos gnósticos. Também tratavam os gnósticos “impenitentes” como excluídos da fé cristã; e, por fim, afirmavam o valor de um trabalho e de uma vida familiar normal em detrimento do ascetismo radical.

Enquanto os católicos cristãos e os gnósticos radicais assumiram posições opostas, cada um deles alegando-se representantes da igreja e denunciando-se mutuamente como hereges, os valentinianos adotaram uma postura medial. Resistindo à tentativa ortodoxa de classificá-los de estranhos ao credo, identificavam-se como membros totalmente integrados à igreja. No entanto, os valentinianos engajaram-se em um debate interno veemente sobre a questão oposta — o status de cristãos católicos. A discordância entre eles em relação ao tema foi tão séria que a crise, por fim, dividiu os seguidores de Valentino em duas facções diferentes.

Os cristãos católicos estavam incluídos na igreja, o “corpo de Cristo”? A facção oriental dos valentinianos disse não. Sustentavam que o corpo de Cristo, a igreja, era “puramente espiritual”, consistindo apenas em seres espirituais que haviam recebido a gnosis. Teódoto, o renomado professor do grupo oriental, definia a igreja como a “a estirpe dos escolhidos”, aqueles “escolhidos antes da criação do mundo”. Sua salvação estava assegurada, predestinada — e era exclusiva. Como Tertuliano em seus últimos anos de vida, Teódoto pregou que só aqueles que tivessem recebido uma inspiração espiritual direta pertenciam à “igreja espiritual”.

Mas Ptolomeu e Heráclio, os professores mais eminentes da escola ocidental dos valentinianos, discordavam desse ponto de vista. Opondo-se a Teódoto, diziam que o “corpo de Cristo”, a igreja, consistia em dois elementos distintos, um espiritual e o outro carnal. Isso significava, explicaram, que os cristãos gnósticos e os não-gnósticos, ambos, pertenciam à mesma igreja. Ao citarem as palavras de Jesus, “muitos são chamados, mas poucos são escolhidos”, mencionavam que os cristãos que não possuíam a gnosis— a grande maioria — eram os muitos que recebiam o chamado. Por sua vez, os cristãos gnósticos pertenciam aos poucos escolhidos. Heráclio ensinou que Deus lhes dera a compreensão espiritual para o bem dos demais — para que eles fossem capazes de ensinar “os muitos” e transmitir-lhes a gnosis.

O professor gnóstico Ptolomeu concordou: Cristo abrigava dentro da igreja cristãos espirituais e mundanos com o objetivo de, finalmente, converter todos à espiritualidade. Nesse ínterim, ambos pertenciam a uma só igreja; ambos eram batizados; ambos compartilhavam as celebrações das massas; ambos faziam a mesma confissão. O que os diferenciava era o nível de entendimento. Os cristãos não iniciados veneravam o criador de forma errônea, como se fosse Deus; acreditavam em Cristo como aquele que os salvaria do pecado e que ressuscitara: eles o aceitavam em razão da fé, sem compreender o mistério de sua natureza — ou de suas próprias. Mas os que haviam recebido a gnosis reconheciam Cristo como o enviado do Pai da Verdade, que lhes revelara que suas naturezas eram idênticas à dele — e à de Deus.

Para ilustrar essa relação, Heráclio oferece uma interpretação simbólica da igreja como um templo: os que eram cristãos comuns, ainda não-gnósticos, faziam sua adoração como os levitas, no pátio do templo, excluídos do mistério. Apenas aqueles que possuíam a gnosis podiam entrar no “santuário”, que significava o lugar “onde os espiritualizados adoravam a Deus”. Contudo, um templo — a igreja — englobava ambos os lugares de veneração.

O autor valentiniano da Interpretação do Conhecimento concorda com esse ponto de vista. Ele explica que, embora Cristo tenha vindo ao mundo para o bem da “igreja e dos mortais”, agora essa igreja, o “local da fé”, estava fragmentado e dividido em facções. Alguns membros haviam recebido dádivas espirituais — poder de curar, de profetizar e, acima de tudo, o dom da gnosis, outros, não.

O mestre gnóstico expressa sua preocupação, pois essa situação quase sempre provocava hostilidade e mal-entendidos. Aqueles que eram mais avançados espiritualmente tendiam a afastar-se dos cristãos, os quais consideravam “ignorantes”, e hesitavam em partilhar suas percepções com eles. Os desprovidos de inspiração espiritual invejavam aqueles que discursavam em público durante os cultos e que falavam sobre profecia, ensinamento e cura de outros.

O autor dirige-se a toda a comunidade ao tentar reconciliar os cristãos gnósticos e os não-gnósticos. Utilizando uma antiga metáfora, lembra a eles que todos os fiéis são membros da igreja, o “corpo de Cristo”. Primeiro, recorda as palavras de Paulo:

Como o corpo é único e tem muitos membros, e todos esses membros, embora sejam muitos, são um só corpo, assim é Cristo. (…) O olho não pode dizer para a cabeça: “Não preciso de você”, nem a cabeça para os pés: “Não preciso de você.”

Então continua a pregar para aqueles que se sentem inferiores, privados de poderes espirituais, que ainda não são iniciados gnósticos:

(…) Não acuse sua Cabeça [Cristo] por não lhe ter criado como um olho em vez de um dedo; e não sinta inveja de ser um olho, uma mão ou um pé, ao contrário, agradeça por não existir fora do corpo.

Aos espiritualizados, que possuem gnosis e que receberam “dádivas”, ele diz:

(…) Alguém possui um dom profético? Partilhe-o sem hesitação. Não se aproxime de seu irmão com inveja (…) Como você sabe [que alguém] é ignorante? (…) [Você] se comporta como um ignorante quando [os odeia] e tem inveja deles.

Como Paulo, ele pede a todos os membros que se amem uns aos outros, trabalhem e sofram juntos, sem diferenças entre os cristãos maduros e os imaturos, fiéis gnósticos e comuns, de modo a assim “compartilhar em (verdadeira) harmonia”. Segundo a escola ocidental dos gnósticos valentinianos, então, “a igreja” inclui a comunidade dos católicos cristãos, mas não se limita a ela. Grande parte dos cristãos, alega, não percebe até mesmo o elemento mais importante da igreja, o elemento espiritual, que consiste em todos que possuem gnosis.

Do ponto de vista do bispo, é claro, a posição gnóstica era ultrajante. Esses hereges questionavam seu direito de definir o que considerava sua própria igreja; tinham a audácia de debater a participação ou não dos cristãos católicos e diziam que seu grupo formava o núcleo essencial, a “igreja espiritual”. Ao rejeitar esse elitismo religioso, os líderes ortodoxos tentaram construir uma igreja universal. Desejando abrir a igreja para todos, acolheram membros de todas as camadas sociais, de qualquer origem racial ou cultural, cultos ou iletrados — todos, é evidente, que se submetessem ao seu sistema organizacional. Os bispos opuseram-se àqueles que desafiavam quaisquer dos três elementos do sistema: doutrina, ritual e hierarquia clerical — e os gnósticos questionavam todos eles. Apenas com a supressão do gnosticismo foi possível aos líderes ortodoxos estabelecer esse sistema de organização, que uniu todos os fiéis em uma única estrutura institucional. Eles não permitiram que houvesse distinção de classes sociais entre os membros, assim como entre o clero e o laicismo, nem toleraram os que reivindicaram dispensa da conformidade da doutrina, da participação em rituais e da obediência à disciplina administrada pelos padres e bispos. As igrejas gnósticas, que rejeitavam esse sistema em virtude de formas mais subjetivas de afiliação religiosa, sobreviveram como igrejas por só uns poucos cem anos.


PAGELS, Elaine, “Qual é a ‘verdadeira igreja’?”: Os Evangelhos gnósticos. Trad. de Marisa Motta. Rio de Janeiro: Objetiva, 2006.

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