“Ivã Karamazov devolve a entrada” – John GRAY

Um contemporâneo russo de Dostoievski, o crítico e reformista social Nikolai Mikhailovsky, referiu-se ao escritor como “um talento cruel”. Ele tinha em mente, para começo de conversa, o tormento psicológico a que narrador da novela Notas do subterrâneo (1863) submete Liza, urna prostitui de quem se aproxima. Escreve Mikhailovsky:

Não há motivos para sua maldade em relação a ela, o homem do subterrâneo não espera nenhum resultado dessa perseguição E…] o herói a atormenta porque quer atormentar ou gosta de fazê-lo. Não há qualquer causa ou objetivo envolvido, e, segundo o autor, não seriam necessários, pois existe uma crueldade incondicional, uma crueldade an und für sich (por si mesma), que é precisamente o que é interessante.

A existência de crueldade sem motivo era um dos motivos pelos quais Dostoievski rejeitava as filosofias racionalistas pelas quais se sentira atraído na juventude, assim como muitos outros intelectuais russos de sua geração. Nascido em 1821, ele entrou quando estava na casa dos 20 para um círculo de intelectuais radicais de São Petersburgo, encantados com as teorias socialistas utópicas francesas. Um policial que havia se infiltrado no grupo relatou seus debates às autoridades. No dia 22 de abril de 1849, Dostoievski foi detido e encarcerado com os outros membros. Depois de alguns meses de investigação, eles foram considerados culpados de planejar a distribuição de propaganda subversiva e condenados à morte no pelotão de fuzilamento. A pena foi comutada para exílio e trabalhos forçados, mas a autoridade do czar para dispor da vida dos presos seria confirmada com a realização de um arremedo de execução.

Numa farsa meticulosamente encenada, Dostoievski e o restante do grupo foram levados na manhã de 22 de dezembro de 1849 para um campo de paradas militares onde um tablado fora erguido e decorado com crepe negro. Seus respectivos crimes e sentenças foram lidos em voz alta, um padre ortodoxo pediu que se arrependessem, e três homens foram amarrados a estacas para serem executados. No último momento, ouviu-se um rufar de tambores e o pelotão de fuzilamento baixou os fuzis. Livres da morte, os prisioneiros foram algemados e mandados para o exílio na Sibéria — no caso de Dostoievski, para quatro anos de trabalhos forçados, seguidos de serviço compulsório no exército russo. Em 1859, o novo czar decretou o fim do exílio siberiano de Dostoievski. Um ano depois, ele estava de volta ao mundo literário de São Petersburgo.

A experiência mudou Dostoievski para sempre. Não mudou seu ponto de vista de que a sociedade russa precisava ser radicalmente reformada. Ele continuou a considerar imoral a servidão, e até o fim da vida detestou a aristocracia fundiária. Mas a experiência de supostamente chegar à beira da morte lhe dera uma nova perspectiva. Muitos anos depois ele observaria: “Não me lembro de ter sido tão feliz quanto naquele dia.” A partir de então, ele se deu conta de que a vida humana não era um movimento de um passado atrasado em direção a um futuro melhor, como acreditava, pelo menos até certo ponto, na época em que compartilhava as ideias da intelligentsia radical. Na verdade, cada ser humano estava a cada momento no limiar da eternidade. Depois dessa epifania, Dostoievski rejeitaria para sempre o racionalismo pelo qual se sentira atraído na juventude.

De volta de uma década de exílio siberiano, ele se mostrou desdenhoso das ideias que encontrara em São Petersburgo. A nova geração de intelectuais russos estava atada com uma mistura de filosofias europeias. Materialismo francês, humanismo alemão e utilitarismo inglês se combinavam em um composto tipicamente russo que veio a ser conhecido como “niilismo”.

Hoje, considera-se niilista em geral alguém que não acredita em nada. Os niilistas russos da década de 1860 eram muito diferentes. Eram fervorosos seguidores da ciência empenhados em destruir a religião para propiciar o surgimento de um mundo melhor que qualquer outro até então existente. Esse tipo de niilismo era o credo da maioria daqueles que rejeitavam a religião ao longo dos séculos XIX e XX. E ainda é o credo da maioria dos pensadores seculares hoje, estejam eles conscientes disso ou não.

Dostoievski rejeitava essa fé racionalista. Os seres humanos nada têm a ver com os animais racionais imaginados pelos filósofos. Não se guiam na vida por motivos de interesse próprio ou preocupação com o bem-estar geral. Seus atos expressam seus impulsos, entre os quais não só um desejo de crueldade pela crueldade como também um desejo de liberdade. Dirigindo-se à intelligentsia a que o próprio Dostoievski pertencera em certo período, o narrador de Notas do subterrâneo pergunta, zombeteiro:

vocês querem curar o homem dos seus velhos hábitos e aprimorar sua vontade de acordo com as exigências da razão e do senso comum. Mas como sabem não apenas se é possível, mas até se é necessário reformulá-lo dessa maneira? […] Afinal, e se o homem não apreciar apenas o bem-estar? O homem adora criar e construir estradas, é indiscutível. Mas por que se mostra também tão apaixonadamente voltado para a destruição e o caos? […] Por que estão vocês tão firmes e triunfantemente convencidos de que apenas o normal e o positivo — em suma, apenas o bem-estar — é vantajoso para o homem? E se ele amar igualmente o sofrimento? E se o sofrimento for tão vantajoso para ele quanto o bem-estar?

Os pensadores progressistas imaginavam que seria possível construir um novo mundo recorrendo à razão humana. Dostoievski não considerava que algo assim fosse possível, mas detestava o que acreditava que seria gerado caso isso fosse perseguido. “Vocês acreditam no palácio de cristal, para sempre indestrutível, isto é, um palácio para o qual não se pode botar a língua furtivamente nem fazer um gesto rude […]. Bem, talvez eu tenha tanto medo dessa construção precisamente por ser feita de cristal e ser para sempre indestrutível, e por não ser possível botar a língua para fora ainda que furtivamente.”

Notas do subterrâneo foi o primeiro livro importante que Dostoievski escreveu ao voltar da Sibéria. Em certa medida, era uma crítica voltada para o romance utópico Que fazer?, do escritor radical russo Nikolai Tchernichevski. Mas outra fonte de Notas do subterrâneo foi uma visita que Dostoievski fez a Londres em 1862, no contexto de uma viagem de dois meses e meio pela Alemanha, França, Inglaterra, Suíça e Itália. Em Que fazer?, um dos personagens de Tchernichevski sonha com o Palácio de Cristal que fora construído em Londres para a Grande Exposição de 1851. Não sabemos ao certo se ele viu o palácio ao visitar Londres em 1859, para se encontrar com Alexander Herzen, mas para Tchernichevski ele corporificava a moderna fé na razão e no progresso. Nos oito dias que passou em Londres, Dostoievski de fato o visitou. E registrou a experiência em um ensaio, Notas de inverno sobre impressões de verão, publicado em fevereiro de 1863 no jornal Vremya (Tempo), de que era editor à época. Ele achou Londres horrenda:

Uma cidade insondável como o oceano, alvoroçada dia e noite; ranger e rugir de máquinas; ferrovias passando por cima das casas (e em breve por baixo delas também); aquela audácia do empreendimento, aquela aparente desordem que na verdade é uma ordem burguesa do mais elevado grau; aquele Tâmisa poluído; aquele ar saturado de pó de carvão; aqueles esplêndidos parques e praças; aqueles terríveis bairros como Whitechapel, com sua população seminua, selvagem e faminta. Uma cidade com seus milhões e seu comércio planetário, o Palácio de Cristal, a Exposição Internacional […]. Ah, sim, a Exposição é incrível […]. É tudo tão solene, triunfante e orgulhoso que a gente fica sem fôlego. Olhamos para essas centenas de milhares, esses milhões de pessoas humildemente vindo para cá de todas as partes do mundo — as pessoas chegam com uma ideia única, se amontoando tranquila, silenciosa e inexoravelmente nesse palácio colossal, e a gente sente que alguma coisa aconteceu, que algo chegou ao fim.

Em Notas do subterrâneo, as impressões de Dostoievski sobre o Palácio de Cristal eram usadas em uma investida satírica contra os pensadores niilistas da época. Um elemento fundamental dessa filosofia era a crença de que a vida humana é governada pelas “leis da natureza”. Os seres humanos não decidem ser cruéis ou bons; simplesmente manifestam essas qualidades de acordo com as leis naturais. Tanto o homem amargurado do subterrâneo quanto o deplorável alvo de sua crueldade são governados por essas leis. No homem subterrâneo, o resultado não é matar por matar, como em Sade, mas a pura e simples maldade: o sórdido prazer de humilhar outro ser humano. Em Os Demônios, de Dostoievski, contudo, a filosofia niilista leva ao suicídio e ao assassinato.

Publicado em 1872, o livro tem sido criticado pelo tom didático. Não resta dúvida de que Dostoievski queria mostrar que as ideias dominantes de sua geração eram perigosas. Mas a história que conta também é uma comédia, cruelmente divertida na descrição de intelectuais bem-intencionados brincando com a revolução sem nada saber de seu significado na prática. A trama é uma versão de acontecimentos reais que ocorriam enquanto Dostoievski escrevia o livro. Sergei Nechaev, um ex-professor de teologia transformado em terrorista, é preso e condenado por cumplicidade no assassinato de um estudante. Nechaev escrevera um panfleto, Catecismo de um revolucionário, sustentando que todos os meios (inclusive chantagem e assassinato) podiam ser usados pela causa da revolução. Por questionar as escolhas de Nechaev, o estudante devia ser eliminado.

As primeiras traduções inglesas do romance se intitulavam “Os Possuídos”, versão equivocada de uma palavra russa mais bem transposta como “demônios”. Mas o título anterior de fato estava mais próximo das intenções de Dostoievski. Embora ele por vezes se mostre impiedoso no retrato dos revolucionários, não são eles os demônios do romance. Demônios são as ideias pelas quais são possuídos. Para Dostoievski, nenhuma dessas ideias era mais importante que o ateísmo.

Dostoievski descreve essa possessão no personagem de Alexei Nilych Kirillov, integrante de uma sociedade revolucionária secreta na cidade provinciana onde se passa a ação do romance. Para libertar a humanidade do medo da morte decorrente da perda de toda crença em Deus, Kirillov decidiu se matar. Como Nietzsche, que inventou o super-homem como sucessor de Cristo, ele se considera uma figura redentora capaz de livrar a humanidade da falta de sentido.

Kirillov explica:

Era um dia na Terra, e no meio da Terra havia três cruzes. Um dos que estavam na cruz acreditava tanto que disse a outro: “Ainda hoje estarás comigo no paraíso.” O dia chegou ao fim, ambos morreram, se foram e não encontraram o paraíso nem a ressurreição. O que fora dito não se revelou verdadeiro. Ouçam: esse homem era o mais elevado em toda a Terra, ele representava aquilo por que se vive. Sem esse homem, todo o planeta com tudo que nele há é apenas loucura. Não houve nenhum como Ele nem antes nem depois, jamais, chegando mesmo a ser um milagre. É este o milagre, que não tenha havido nem jamais possa haver alguém como ele. E assim, se as leis da natureza não se apiedaram sequer Dele, não se apiedaram sequer do seu próprio milagre, fazendo-O viver também em meio a uma mentira e morrer por uma mentira, então o planeta inteiro é uma mentira, e repousa em uma mentira e em uma estúpida zombaria. De modo que as próprias leis do planeta são uma mentira e uma comédia do diabo […].

[…] É meu dever proclamar a descrença O homem nada mais fez que inventar Deus, para viver sem se matar; nisso reside toda a história do mundo até agora. Só eu, pela primeira vez na história do mundo, não quis inventar Deus […] Reconhecer que não existe Deus e ao mesmo tempo não reconhecer que você se tornou Deus é um absurdo; caso contrário, você necessariamente teria de se matar [A. Mas aquele que vem primeiro necessariamente deve se matar; caso contrário, quem vai começar e prová-lo? Eu é que necessariamente vou me matar para começar e provar 1…] é meu dever acreditar que não acredito Eu encontrei: o atributo da minha divindade é… Obstinação!”

Kirillov assina uma carta em que assume responsabilidade pelo assassinato de um estudante considerado informante da polícia, que fora morto pelo grupo revolucionário. E então, como prometera, mata a si mesmo com um tiro. O outro conspirador a quem explicara sua intenção encontra Kirillov em uma poça de sangue no chão, com o cérebro esfacelado, um revólver ainda na mão.

A história apresenta vários elementos. Um deles tem a ver com a natureza do ateísmo, que segundo Dostoievski era um projeto de autoendeusamento. Tendo renunciado à ideia de qualquer poder divino fora do mundo humano, os seres humanos não podiam deixar de invocar poderes divinos para si mesmos. Se não podiam abolir a morte, podiam se revelar superiores a ela. Era o que Kirillov julgava estar fazendo ao se matar. Pouquíssimos eram capazes de tal atitude de desafio. Mas se sacrificando assim, eles — como o Cristo — redimiam toda a humanidade.

Outro elemento do romance diz respeito à força destruidora dos projetos sacrificiais na política. Como Nechaev, os conspiradores do romance acreditavam que quaisquer meios se justificavam se levassem à liberdade. O resultado, no caso deles, era o sórdido assassinato. Mas Dostoievski acreditava que, se sua filosofia fosse aplicada em mais ampla escala, resultado seria um tipo de tirania mais radical e destrutivo que qualquer outro do passado. Ele põe esta conclusão na boca de Shigalyov, o principal teórico do grupo:

[…] Estou propondo meu próprio sistema de organização mundial […] [Mas] meu sistema não está acabado. Eu me confundi com meus próprios dados, e minha conclusão entra em contradição direta com a ideia com que comecei. Tendo começado na liberdade ilimitada, eu concluo com o despotismo ilimitado. Devo acrescentar, contudo, que, à parte minha solução da fórmula social, não pode haver outra.

Outros membros do grupo sustentam que a concretização da visão de Shigalyov exigiria “privar de vontade nove décimos da humanidade e refazê-los como um rebanho, pela reeducação de gerações inteiras”. Só assim seria possível criar um paraíso terrestre. Mas refazer a humanidade é um projeto que só pode avançar “pelo radical corte de 100 milhões de cabeças” — missão que poderia levar “cinquenta ou, digamos, trinta anos” para ser concluída.

Como premonição do resultado prático de semelhante esquema de emancipação humana — o comunismo —, a visão expressa por Dostoievski é extraordinariamente presciente. As baixas da experiência soviética chegaram a dezenas de milhões, e estima-se que o regime de Mao matou algo em torno de 70 milhões de pessoas. Essas estatísticas não incluem as incontáveis vidas abreviadas ou destruídas.

Dostoievski não tinha um remédio para os males que diagnosticava. Seus pontos de vista políticos eram influenciados por um tipo de messianismo russo em que certa imagem romântica da cultura e do lugar do país no mundo se misturava ao pan-eslavismo e ao antissemitismo. A parte pogroms e a ruína russa, nada mais resultaria dessa tóxica combinação. Mas o objetivo de Dostoievski em Os demônios não era sobretudo a profecia. Era levar adiante a rebelião humana contra a teodiceia, secular ou religiosa. Esse é um tema explorado em muitos escritos de Dostoievski, sobretudo em Os irmãos Karamazov.

Tal como contemplada no cristianismo, e mais adiante nas visões humanistas do progresso em direção a um novo mundo, a teodiceia é a busca da harmonia. Desprovida de conflitos trágicos, uma nova sociedade seria como o céu cristão. Mas Ivã Karamazov, um racionalista que não consegue entender o mundo, rejeita todo e qualquer ideal de harmonia:

[…] Eu renuncio totalmente a toda harmonia superior. Não justifica sequer uma pequena lágrima daquela criança atormentada que batia no peito com seu punhozinho e orava para o “querido Deus” em uma privada externa fedorenta com suas lágrimas irredimíveis! E…] Eu não quero harmonia, pelo amor da humanidade, não a quero. Quero ficar com o sofrimento sem recompensa. Prefiro ficar com meu sofrimento sem recompensa e minha indignação sem resposta, ainda que esteja errado. Além do mais, eles cobram um preço muito alto pela harmonia; não podemos pagar tão caro assim pela entrada. De modo que me apresso a devolver minha entrada. E é meu dever, no mínimo como um homem honesto, devolvê-la o mais cedo possível. E é o que estou fazendo. Não é que eu não aceite Deus, Alyocha, apenas devolvo minha entrada, com todo respeito.

O que Ivã rejeita não é apenas a teodiceia cristã, mas qualquer ideia que tente reconciliá-lo com os males do mundo. Ele ficaria horrorizado com a filosofia de Spinoza, discutida no capítulo 7, na qual esses males constituem uma parte necessária da ordem racional das coisas. Ivã recusa qualquer tipo de consolo dessa natureza. Como Kirillov, ele se rebela contra Deus. O pensador existencialista francês Albert Camus escreveu a respeito de Kirillov que “seu raciocínio é clássico em sua clareza. Se Deus não existe, Kirillov é Deus. Se Deus não existe, Kirillov tem de se matar. A lógica é absurda, mas necessária”. O raciocínio de Ivã, porém, não é absurdo assim. Sua revolta não é uma manifestação de obstinação. Ele não tem saída. Está preso em um ódio impotente de Deus e do mundo.

Se a atitude de Ivã expressava a de Dostoievski vem a ser uma questão intrigante. Referindo-se a outro integrante do grupo revolucionário, Kirillov diz: “Se Stavrogin acredita, não acredita que acredita. E se não acredita, ele não acredita que não acredita.” O que quer que acreditasse, Dostoievski não podia aceitar que Deus fosse pura bondade. Achava difícil imaginar qualquer tipo de bondade. Como já se observou tantas vezes, os personagens “bons” dos romances de Dostoievski não são convincentes. O que certamente se aplica a Os irmãos Karamazov. Dissimulado, cínico e egoísta, Fiodor Pavlovich Karamazov parece mais verossímil que qualquer dos três filhos, embora Dimitri — que mata o pai — se pareça com ele sob certos aspectos. Como tantas encarnações da virtude na ficção de Dostoievski, Alexei Fiodoróvich Karamazov (“Alyosha”), o irmão menor, noviço em um mosteiro ortodoxo russo e considerado o herói do romance pelo próprio Dostoievski, tem algo do louco santo. Seu professor, o Velho Zosima, aparece como um velhote chato e sentencioso. Embora Dostoievski pudesse acreditar na bondade, ele escreve como se não acreditasse que acreditava.

A parábola do Grande Inquisidor é onde Dostoievski se mostra mais paradoxal. Jesus veio ao mundo com uma promessa de liberdade. Ao voltar na época da Inquisição espanhola, logo é reconhecido e levado ao cardeal grande inquisidor, “um velho de quase 90 anos, alto e empertigado, de rosto seco e olhos fundos, nos quais ainda se vê um brilho fogoso”.

O erro de Jesus, diz o inquisidor, foi acreditar que a humanidade quer liberdade. Na verdade, ela não tem capacidade nem desejo de ser livre. O que quer é o pão cotidiano, além de demonstrações de mistério e autoridade. A maioria dos seres humanos teme a liberdade como a pior maldição que poderia se abater sobre eles:

A liberdade, a razão livre e a ciência os levarão a um tal labirinto, defrontando-os com tais milagres e mistérios insolúveis, que alguns deles, rebeldes e violentos, promoverão o próprio extermínio; outros, rebeldes mas fracos, exterminarão uns aos outros; e o terço restante vai rastejar aos nossos pés e clamar: “Sim, vocês tinham razão […] estamos voltando para vocês — para que nos salvem de nós mesmos” E todos ficarão felizes, todos os milhões de criaturas, exceto os 100 mil que os governam. Pois apenas nós, nós que guardamos o mistério, apenas nós seremos infelizes. Haverá bilhões de bebês felizes e 100 mil sofredores que chamaram a si a maldição do conhecimento do bem e do mal. Pacificamente eles morrerão, pacificamente vão expirar em nome dos outros, e além-túmulo encontrarão apenas a morte. Mas nós manteremos o segredo, e pela felicidade dos outros vamos atraí-los com uma recompensa celestial e eterna Amanhã você verá esse rebanho obediente, que ao meu primeiro gesto vai amontoar carvões em brasa em torno da fogueira, onde você vai arder por ter vindo interferir conosco. Pois se alguém mereceu a nossa fogueira, foi você.

Jesus, no entanto, não é queimado na fogueira. Depois de se manter calado durante a peroração do inquisidor, ouvindo “calma e atentamente” e “aparentemente sem querer contradizer nada”, ele se aproxima do velho e o beija. O inquisidor vai até a porta da cela da prisão, abre-a e diz a Jesus: “Vai e não volta kl não volte em hipótese nenhuma […] nunca, nunca!” E o prisioneiro se vai.

A filosofia do Grande Inquisidor é aquela que os niilistas desenvolveram melhor. O cerne da parábola é o ateísmo do inquisidor. “Sim, está aí todo o segredo.” O inquisidor é um ateu que não ama Deus, mas de alguma forma não perdeu o amor pela humanidade.

A parábola de Ivã encerra alguns enigmas. Nela, o inquisidor segue as instruções de Satã. Mas Satã sempre foi — pelo menos no cristianismo —um rebelde contra Deus. Como é possível tal rebelião se não existe Deus? Afinal, o Grande Inquisidor não acredita em Deus. Será que o próprio Dostoievski não acreditava em Deus, mas apenas no Diabo? A imagem de Satã por ele apresentada, quando Ivã é acometido de febre cerebral no fim do romance e recebe uma visita alucinatória, parece indicar o contrário.

O Satã de Dostoievski não é o de Milton, um anjo orgulhoso que desafia Deus. É um aristocrata ardiloso, amável e mal-ajambrado: “certo tipo de cavalheiro russo, não mais jovem […] sem muitos fios grisalhos na cabeleira escura, razoavelmente longa e ainda espessa, e com uma barba pontuda. Usava uma espécie de jaqueta marrom, com toda evidência talhada pelos melhores alfaiates, mas já surrada […] a camisa, a longa gravata, se assemelhando a um cachecol, tudo era exatamente o que um cavalheiro elegante vestiria, mas, a um exame mais atento, a camisa estava meio suja e o cachecol, já esfarrapado.” O Diabo não está satisfeito com sua missão. Ele se sente desalentado com essa existência fantasmagórica. O que realmente gostaria era de encarnar, final e irrevogavelmente, como ser humano — de preferência, “uma mulher de comerciante, gorda, pesando 110 quilos, e acreditar em tudo em que ela acredita”. Quando Ivã lhe pergunta se existe um Deus, o Diabo responde: “Simplesmente não sei.”

Se o Diabo tem uma filosofia, é a filosofia de Kirillov:

Na minha opinião, não há motivo para destruir nada, precisamos apenas destruir a ideia de Deus na humanidade O homem, com sua vontade e a ciência já sem peias, se sobrepondo à natureza a cada hora, vai assim experimentar uma felicidade tão grande que substituirá nele toda expectativa de uma felicidade celestial. Cada um se saberá absolutamente mortal, sem ressurreição, e vai aceitar a morte calma e rigorosamente, como um deus Adorável!

Esse céu na terra jamais se concretizará, naturalmente. Entretanto, prossegue o Diabo, se não existe Deus nem imortalidade, qualquer um que conheça a verdade “poderá resolver as coisas por si mesmo, exatamente como desejar, com base em novos princípios. Neste sentido, ‘tudo lhe é permitido’. Todo aquele que for capaz de viver segundo esse preceito se torna um homem-deus, ainda que nunca advenha um novo mundo. A filosofia de Kirillov, porém, deixa uma pergunta sem resposta: se tudo é permitido, por que um ser humano divino haveria de se preocupar com o restante da humanidade? O inquisidor acredita que a humanidade pode ser curada da infelicidade se abrir mão do impulso de rebelião. Sua tarefa é garantir que essa renúncia se concretize e consolide, mas por que o inquisidor sacrificaria sua própria felicidade a bem da humanidade? Afinal, será que a crença de estar redimindo a humanidade afinal proporciona felicidade?

Dostoievski não respondeu a nenhuma dessas perguntas, mas aparentemente acreditava mais na infelicidade humana do que em qualquer outra coisa. Seu intérprete mais penetrante, o autor religioso Lev Shestov, um judeu russo, cuja filosofia fideísta é discutida no capítulo 7, o considerava “o maior artista da miséria humana”. À parte a epifania por que passou diante do polorno dr fuzilamento, Dostoievski teve uma vida de quase constante Infelicidade, Empreendeu uma longa e vã luta contra o vício do jogo, vividamente retratado na novela O jogador (1866), escrita por sinal para saldai dívidas contraídas na roleta, e sua mulher e sua família, em consequência, sofreram terrivelmente. Era um infeliz crônico, e espalhava infelicidade ao seu redor. A “crueldade” detectada em suas obras pode ter sido resultado de um masoquismo permeado de culpa.

A rejeição da teodiceia está no cerne da obra de Dostoievski. Em sua conversa com Alyosha, diz Ivã:

— Não se pode viver na rebelião, e eu quero viver. Diga sem rodeios, eu lhe peço que me responda: imagine que estivesse erguendo você mesmo o edifício do destino humano, com o objetivo final de tornar as pessoas felizes, dar-lhes paz e descanso, mas que tivesse inevitavelmente de torturar apenas uma ínfima criatura, aquela mesma criança que batia no peito com seu punhozinho, para erguer seu edifício sobre o alicerce das suas lágrimas ignoradas: concordaria em ser o arquiteto em tais condições? Diga-me a verdade.

— Não, não concordaria — respondeu Alyosha, baixinho.”

O escritor russo Vasily Rozanov (que foi casado com uma antiga amante de Dostoievski, a escritora Polina Suslova) observou em um dos primeiros livros de análise da história do Grande Inquisidor, publicado em 1891, que esse trecho repete quase palavra por palavra uma passagem do Diário de um escritor de Dostoievski. Quando Ivã declara que quer devolver a entrada, está falando pelo próprio Dostoievski. Ivã queria ser ateu, ao passe que Dostoievski queria ser cristão. Como seu personagem, contudo, o auto se rebelava contra toda ordem do mundo, fosse criada por Deus ou não.


GRAY, John, “Ivã Karamazov devolve a entrada”, Sete tipos de ateísmo. Trad. de Clóvis Marques. Rio de Janeiro: Record, 2021, p. 121-133.

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