“Kafka e o universo do mascaramento: considerações sobre máscara e verdade” – Ciprian VĂLCAN

Revista Humanitas, nr. 149, março de 2022

Neste ensaio de Ciprian Vălcan recém-publicado na revista Humanitas (149), descobrimos que Cioran e Kafka têm muito em comum. Profundos psicólogos, como ademais Nietzsche, que não nutrem ilusões sobre o que há por detrás das máscaras que vestimos diariamente, tornando-se a nossa segunda pele (se não a primeira).

A ilusão de um rosto “essencial” ou “original”, em oposição à artificialidade da máscara, é desmentida à medida que se aprofunda a introspecção, descobrindo camadas intermináveis de mascaramento do “ser”… Por detrás de toda máscara, no fundo do “ser”, apenas loucura e caos, ou, nas palavras de Cioran, apenas “um torpor no claro-escuro, uma inércia entre luzes e sombras”, “as caretas do absoluto”, o “demonismo vital” de “abismos idiotas e sem importância”… Por isso é que, para Cioran, o “dever da lucidez é alcançar um desespero correto, uma ferocidade apolínea” (Silogismos).

Nietzsche intuiu melhor do que ninguém como a vontade de Verdade pode revelar-se uma vontade de mentira e autoengano, reconhecendo a importância vital das aparências, das ficções e das máscaras para manter a veracidade ou autenticidade na existência. De onde o imperativo de cultivar a (rara) arte de “dar estilo ao seu caráter” (A Gaia Ciência, § 290). Cioran o faz pela aspiração a uma “ferocidade apolínea”, a um “desespero correto“.

Esse “artificialismo” é um princípio intelectual e espiritual antimetafísico e, mais especificamente, anti-essencialista: cético em suma. Pois, como afirma Clément Rosset, em A Anti-Natureza, o Naturalismo é um refúgio do pensamento teológico e metafísico (essencialista, fundacionista), e o natural mesmo não deixa de ser “artificial”, ou melhor, artificioso, jogando com a dialética entre necessidade e acaso.

A propósito, Ciprian Vălcan já havia publicado, na revista Filosofia – Ciência & Vida, um ensaio sobre Nietzsche no qual sustenta que a História da Filosofia se vê obrigada a lidar não com um único Nietzsche, mas com “incontáveis máscaras” forjadas pelo pensador alemão — não estando descartado que a loucura tenha sido uma, a última delas. “Por detrás de suas máscaras impenetráveis, permanece um Nietzsche livre de toda censura, um Nietzsche que ri”, afirma Vălcan.

Segundo Cioran, “o estilo é uma confissão e uma máscara”.


Kafka e o universo do mascaramento:
considerações sobre máscara e verdade

Ciprian Vălcan

Kafka está convencido de que o maior perigo que espreita os homens não é senão sucumbir ao erro, a aceitação passiva da opacidade do mundo, a anulação definitiva da transparência. Em um universo do mascaramento não pode haver constância ética, e indivíduos se tornam meros receptáculos da moda, pobres depositórios de ideias preconcebidas. Além das dificuldades naturais em obter conhecimento neste mundo, e além das impotências naturais do intelecto humano, o surgimento de uma verdadeira técnica de camuflagem do espírito pode ter resultados catastróficos, levando facilmente ao triunfo do diabo.

As pessoas, que têm necessidade de tanta clareza quanto possível de modo a seguir os caminhos do bem, se veem confrontadas com um duplo obstáculo. Primeiro, devem ir além do escudo das ilusões que protegem a composição do mundo, ultrapassando uma espécie de censura objetiva, relacionada ao equipamento natural do seu intelecto. Como se uma tal tentativa não fosse difícil o bastante, com tudo o que a maioria dos indivíduos não pode suportar, intervém um novo obstáculo, um mecanismo voluntário de ocultamento por meio do qual os homens acentuam a opacidade, sentindo a necessidade de uma proteção suplementar de si mesmos, adensando o mistério.

Por mais que seja um excelente observador, inventariando minuciosamente os rostos e gestos que o rodeiam, compilando um verdadeiro compêndio das caretas do cotidiano, Kafka prefere sempre partir da investigação de si mesmo, buscando chegar a um diagnóstico preciso das enfermidades da alma dos seus contemporâneos.

Autoanálise

A presente investigação aborda o problema da dificuldade de tal conhecimento: “Quão patético é o conhecimento que tenho de mim mesmo se comparado, por exemplo, com o que tenho do meu quarto. (Noite) Por quê? Não se pode observar o mundo interior como se pode fazer com o exterior. A psicologia descritiva é, provavelmente, no mínimo um total antropomorfismo, uma extrapolação dos limites.”[1] Precisamente por isso, sente uma forte desconfiança em relação à psicologia, que ele vê como uma disciplina inútil, uma acrobacia risível, despertando aplausos ou ocasionando vãs demonstrações de virtuosismo, sem que a realidade possa, entretanto, ser mudada, sem que nenhum efeito se faça sentir.[2]

Embora não resista à tentação de analisar a si mesmo, tentando penetrar nos recantos mais profundos do seu próprio espírito, Kafka declara a sua insatisfação numa nota de jornal de 9 de dezembro de 1913, e as possíveis intenções de realizar uma investigação empírica da interioridade, no intuito de fornecer explicações definitivas sobre a diversidade dos comportamentos: “Ódio da introspecção ativa. Interpretações da alma como: ontem eu estava assim por tal motivo, hoje estou assim por este outro. Não é verdade, não é por causa disso, e não é por causa daquilo outro, portanto, não é assim e assim. Fique quieto, não se apresse, não fique virando como o rabo de um cachorro.”[3]

Para Kafka, muito mais perigoso do que a incapacidade de aceder à verdade é a ocultação da verdade, pois, se no primeiro caso o indivíduo tem consciência de que não conseguiu atingir seu objetivo, continuando a se esforçar para aproximar-se do seu objetivo original, na segunda situação tem-se a ilusão de ter descoberto o que importava, de ter decifrado o mistério, detendo-se antes mesmo de começar a verdadeira batalha. Por esta perspectiva, é preferível a insegurança absoluta, a busca frenética e insegura às certezas mornas, à ilusão de poder fixar a realidade, de uma vez por todas, com o auxílio de esquemas simplificadores.

Veracidade absoluta

É melhor aceitar a ignorância e o desespero, é melhor vagar sem rumo, a busca dolorosa e sem esperança, do que colaborar com o falso, do que homologar as ficções e trazê-las ao mundo. Justamente para não se tornar, ele mesmo, um agente do erro, para não contribuir com a proliferação descontrolada de máscaras, é que Kafka decide submeter a sua escrita a um verdadeiro ascetismo, o que revelará um verdadeiro cuidado metodológico, a decisão de não fixar no papel senão aquelas imagens que o representam verdadeiramente e das quais tem plena certeza. Ele procura, assim, submeter a sua escrita à exigência de uma veracidade absoluta, ou pelo menos chegar o mais próximo possível dela:

“Nos últimos dias não tenho escrito muito sobre mim, em parte por preguiça (agora durmo muito, e profundamente, durante o dia; quando durmo, pareço ter mais peso), em parte por medo de trair o meu conhecimento de mim mesmo. Medo justificado, pois o autoconhecimento só pode ser definitivamente fixado pela escrita quando empreendido de maneira completa, com todas as consequências mais remotas, com o máximo de sinceridade. Pois, caso contrário – e não estou em condições de fazê-lo de qualquer maneira –, a escrita deixa de substituir, de acordo com as suas próprias intenções, e com a mesma força suprema do imutável, o que naquele momento era sentido de maneira vaga, fazendo desaparecer o verdadeiro sentimento e percebendo tarde demais aqueles que, por sua vez, não possuem nenhum valor.”[4]

Embora esta atitude pareça impossível de ser mantida até as suas últimas consequências, Kafka acredita piamente que apenas assim a verdade poderá prevalecer, impedindo o triunfo arrasador do mal, deste mal que emprega os meios da falsidade para insinuar-se tanto quanto possível mundo adentro, tornando-se parte constitutiva da textura mesma do real. A firmeza dos princípios pode mostrar-se suficiente para superar a adversidade, conforme é dito em um relato talmúdico, resumido numa nota de diário de 21 de novembro de 1911:

“Um rabino do Talmude mantinha um princípio, aliás, muito agradável ao Senhor, qual seja, o de não receber nada, nem mesmo um copo d’água, de ninguém. Aconteceu que o mais importante rabino da época quis conhecê-lo e o convidou para jantar. Não era possível recusar o convite de um homem tão importante. Com tristeza, o rabino foi ao jantar. Mas, uma vez que o seu princípio era tão firme, uma montanha se ergueu entre os dois rabinos.”[5]

Compreensão nupcial?

Determinado a tudo que estivesse ao seu alcance para exprimir a verdade, Kafka percebe que corre o risco de não ser propriamente compreendido, de tal modo que as máscaras, aparentemente removidas em virtude de intensos esforços interiores, retornam em outras formas, cobrindo seus verdadeiros traços devido à incompreensão e à conveniência alheia. Para remover este novo obstáculo, ele sente a necessidade de um aliado, de um ser que o compreenda perfeitamente, através das máscaras. As anotações do seu diário atestam a esperança de que uma esposa pudesse ser tal pessoa, preparada para reconhecer e defender a verdade: “Reflexões sobre a relação entre os outros e eu. Não importa o quão insignificante eu seja, não há ninguém que possa me entender completamente. Contar com alguém dotado de tal capacidade de compreensão, uma esposa por exemplo, significaria ter um suporte que me protegeria de todos os lados, ou seja, seria ter Deus.”[6]

Os sucessivos fracassos amorosos de Kafka são considerados sinais da sua incapacidade de superar o seu próprio egoísmo, de transcender os limites da sua própria pessoa, a fim de realizar tal ideal. Por esta visão, escrever nada mais é do que uma manobra diabólica, uma droga poderosa que bajula o seu orgulho, mantendo-o afastado dos seus companheiros e da realidade mundana, selando o isolamento e a condenação fatal. A estética não tem o direito de sobrepujar a ética e, caso isto aconteça, o resultado não poderá ser senão o desespero, como expressão de uma culpa inexpiável:

“Escrever é uma recompensa doce e maravilhosa, mas, para quê? Durante a noite, ficou claro para mim, com a clareza com que uma criança vive suas intuições, que é o pagamento recebido por um serviço que se faz a serviço do demônio. A descida aos poderes das trevas, a liberação de espíritos vinculados à natureza, abraços duvidosos, e tudo o que vai acontecer lá baixo, as coisas problemáticas das quais nem mesmo se sabe quando se escreve estórias à luz do sol. Talvez haja outra forma de escrever, mas só conheço esta; à noite, quando o medo não me deixa dormir, conheço apenas esta. E a maldade que existe em tudo isso é muito clara para mim. […] Com isso não quero dizer que a vida, a criança, o campo e o gado sejam necessários para a vida. Basta que a vida renuncie ao egoísmo do prazer, à vaidade de se divertir; é preciso entrar na casa, em vez de admirá-la e decorá-la.”[7]

Kafka parece aderir à posição de Kierkegaard, um dos grandes espíritos do qual se sente extremamente próximo,[8] segundo o qual uma existência genial, mas desprovida de determinação transcendente, é uma forma de pecado: “Ora, que uma existência tão genial, apesar de seu brilho, sua glória e sua importância, seja pecado, será que é preciso coragem para o compreender? E dificilmente se poderá compreendê-lo antes de se aprender a saciar a fome de sua alma cheia de desejos. No entanto, as coisas são assim mesmo. O fato de uma tal existência poder até um certo ponto ser feliz não prova nada. Podemos, afinal, conceber seus dotes como um meio de distração e ao percebermos isso em nenhum instante nos elevarmos acima das categorias que abarcam o temporal. Contudo, só por meio de um acerto de contas religioso ficam justificados no sentido mais profundo o gênio e o talento.”[9] O filósofo dinamarquês acredita que todos os esforços feitos pelos que são dotados da graça da criação devem ser dedicados ao aperfeiçoamento do seu ser interior, e o seu trabalho deve ser um meio eficaz de realizar esse longo e difícil processo. Mas, se os seus talentos especiais o impedissem de concentrar-se neste único objetivo, verdadeiramente importante, notadamente a salvação da alma, ele teria de renunciar a eles, amputando as suas qualidades externas, escolhendo o caminho do sofrimento e da solidão em vez do aplauso das multidões em êxtase ou dos elogios da posteridade.[10]

Vocação, paixão

Kafka se encontra numa situação muito semelhante à descrita por Kierkegaard. Ele sente que deve escrever, pois é esta a sua vocação, a única paixão da qual não consegue se libertar,[11] mas entende que assim fazendo estará cada vez mais longe das pessoas, aprisionado no deleite solitário causado pelas produções do espírito, sem poder se livrar da proliferação incontrolável das máscaras. O seu anseio ético é, portanto, sacrificado em favor das suas inclinações estéticas. Desta forma, muito embora saiba que isto é uma traição do seu ideal de perfeição interior, e que isso lhe trará um terrível sofrimento,[12] Kafka não resiste à tentação de escrever, convencido de que, se oferecer resistência, está correndo o risco de ser tomado pela loucura:

“Hoje, nesta noite sem dormir, quando, uma vez mais, eu mexi em todos os dados do problema, em todas as direções, em meio a esses templos lutuosos, me tornei ciente de novo do que tinha quase esquecido nesses últimos dias calmos, me dei conta das bases frágeis, ou mesmo inexistentes, em que vivo, sobre uma escuridão da qual emerge, segundo a sua própria vontade, um poder obscuro que, sem levar em conta essas minhas lamentáveis ​​hesitações, destrói a minha vida. Escrever me mantém à tona, mas não seria mais justo dizer que a escrita contém esse modo de vida? É claro que, com isso, não quero dizer que a minha vida seja melhor quando não estou escrevendo. É muito pior, aliás, totalmente insuportável, e percebo que tudo isso deve necessariamente terminar em loucura. E isso, levando em consideração o fato de que eu, como de fato é o caso, sou um escritor, mesmo quando não estou escrevendo, e um escritor que não escreve é, ​​em todo caso, uma criatura anormal que convida à loucura para dentro de si.”[13]

Mensageiros e reis

Kafka rejeita todo de vista utilitário, defendendo a ideia de que nada é mais importante do que a busca perpétua da verdade, a despeito das consequências que essa abordagem possa ter. Embora o gênio seja visto, geralmente, como um herói do conhecimento, agindo longe dos olhos dos mortais comuns, determinado a sacrificar a sua vida pela verdade, para Kafka ele não é senão um espírito às voltas com poderes demoníacos, um indivíduo que renuncia à exigência de verdade para deleitar-se voluptuosamente com as visões sombrias da sua mente.

Quanto ao destino comum dos homens, a sua descrição parece ser feita, em detalhes, em um trecho do Terceiro Oitavo Caderno: “Eles foram deixados com a escolha de se tornarem reis ou mensageiros reais. Como crianças, todos quiseram ser mensageiros. Por isso é que só existem mensageiros, correndo pelo mundo e gritando, uns aos outros, já que não há reis, algumas mensagens que perderam o sentido. Eles alegremente acabariam com as suas vidas miseráveis, mas não ousam fazê-lo por causa do juramento que fizeram ao tomar posse.”[14]

Trad. do romeno de Rodrigo Inácio R. Sá Menezes


[1] “Wie kläglich ist meine Selbsterkenntnis, verglichen etwa mit meiner Kenntnis meines Zimmers. (Abend.) Warum? Es gibt keine Beobachtung der innemWelt, so wie es eine der äußern gibt. Zumindest deskriptive Psychologie ist wahrscheinlich in der Gänze ein Anthropomorphismus, ein Ausragen der Grenzen.” Franz KAFKA, “Terceiro oitavo caderno (3/8)”, Hochzeitsvorbereitungen auf dem Lande und andere Prosa aus dem Nachlaß. Max Brod (Hrsg.), in: Gesammelte Werke. Frankfurt am Main: S. Fischer, 1966, p. 72. Na edição romena: “Ce jalnică este propria mea cunoaştere de mine însumi, în comparaţie, să zicem, cu felul în care-mi cunosc propria cameră. (Seara) De ce ? Nu există vreo modalitate de observare a lumii lăuntrice, aşa cum este posibilă cea a lumii exterioare. Psihologia este probabil în întregul ei un antropomorfism, o roadere a marginilor” Franz KAFKA, Al treilea Caiet in octavo, in: Opere complete, II (Proză scurtă postumă). Trad. de Mircea Ivănescu. Bucureşti: Univers, 1996, p. 146.

[2] Franz KAFKA, Jurnal, in: Opere complete, III. Trad. de Mircea Ivănescu, Univers, Bucureşti, 1998, p. 218.

[3] “Haß gegenüber aktiver Selbstbeobachtung. Seelendeutungen, wie: Gestern war ich so, und zwar deshalb, heute bin ich so, und deshalb. Es ist nicht wahr, nicht deshalb und nicht deshalb und darum auch nicht so und so. Sich ruhig ertragen, ohne voreilig zu sein, so leben, wie man muß, nicht sich hündisch umlaufen.”

Na edição romena: “Ura faţă de introspecţia activă. Interpretări sufleteşti cum ar fi : ieri am fost aşa din cutare motiv, astăzi sînt aşa din cauza asta. Nu este adevărat, nu din cauza asta şi nici din cauza cealaltă şi, deci, nici aşa şi aşa. Să te suporţi liniştit, fără să te pripeşti, nu să te învîrteşti ca un cîine în jurul cozii.” Franz KAFKA, Jurnal în Opere complete, III, traducere de Mircea Ivănescu, Univers, Bucureşti, 1998, p. 218.

[4] “12. Januar. Ich habe vieles in diesen Tagen über mich nicht aufgeschrieben, teils aus Faulheit (ich schlafe jetzt so viel und fest bei Tag, ich habe während des Schlafes ein größeres Gewicht), teils aber auch aus Angst, meine Selbsterkenntnis zu verraten. Diese Angst ist berechtigt, denn endgültig durch Aufschreiben fixiert dürfte eine Selbsterkenntnis nur dann werden, wenn dies in größter Vollständigkeit bis in alle nebensächlichen Konsequenzen hinein sowie mit gänzlicher Wahrhaftigkeit geschehen könnte. Denn geschieht dies nicht – und ich bin dessen jedenfalls nicht fähig –, dann ersetzt das Aufgeschriebene nach eigener Absicht und mit der Übermacht des Fixierten das bloß allgemein Gefühlte nur in der Weise, daß das richtige Gefühl schwindet, während die Wertlosigkeit des Notierten zu spät erkannt wird.”

Na edição romena: “Zilele acestea n-am scris prea multe  despre mine însumi, în parte din lene (dorm acum atît de mult şi de adînc în timpul zilei ; cît dorm, parcă am mai multă greutate), în parte însă şi din teama să nu-mi trădez cunoaşterea de mine însumi. Teamă îndreptăţită, căci cunoaşterea de sine nu se poate fixa definitiv în scris decît atunci cînd aceasta se poate face cît mai deplin, pînă în consecinţele cele mai îndepărtate, şi cu cea mai totală sinceritate. Căci dacă nu se face astfel – şi oricum eu nu sînt în stare de asta – atunci scrisul nu mai înlocuieşte, după propriile sale intenţii şi cu forţa supremă a imuabilului, ceea ce la vremea lui a fost simţit la modul general, decît făcînd ca simţămîntul adevărat să dispară, iar lipsa de valoare a celor notate să fie recunoscută prea tîrziu” Ibidem, p. 25 (12 ianuarie1911).

[5] “Ein Rabbi im Talmud hatte das in diesem Falle sehr gottgefällige Prinzip, nichts, nicht einmal ein Glas Wasser von jemandem anzunehmen. Nun traf es sich aber, daß der größte Rabbi seiner Zeit ihn kennenlernen wollte und ihn also zum Essen einlud. Die Einladung eines solchen Mannes ablehnen, das war nicht möglich. Traurig machte sich daher der erste Rabbi auf den Weg. Aber weil sein Prinzip so stark war, schob sich zwischen die beiden Rabbi ein Berg.”

Na edição romena: “Un rabin din Talmud avea un principiu, în cazul lui foarte plăcut Domnului, şi anume, să nu primească nimic, nici măcar un pahar de apă, de la cineva. S-a întîmplat însă că rabinul cel mai de seamă al vremii sale a vrut să-l cunoască şi l-a invitat deci la masă. Să refuze invitaţia unui om atît de important nu era cu putinţă. Trist, a pornit deci primul rabin la drum. Dar pentru că principiul său era atît de ferm, s-a ridicat între cei doi rabini un munte” Ibidem, p. 109.

[6] “Überlegung des Verhältnisses der andern zu mir. So wenig ich sein mag, niemand ist hier, der Verständnis für mich im ganzen hat. Einen haben, der dieses Verständnis hat, etwa eine Frau, das hieße Halt auf allen Seiten haben, Gott haben.”

Na edição romena:“Reflecţii asupra relaţiilor dintre ceilalţi şi mine. Oricît de neînsemnat aş fi eu, nu există nimeni aici care să mă înţeleagă pe de-a întregul. Să ai pe cineva cu o asemenea capacitate de înţelegere, o soţie de exemplu, ar însemna să ai un sprijin care să te apere din toate părţile, să-l ai pe Dumnezeu” Ibidem, p. 308 (4 mai 1915). Ver também os argumentos pró e contra o casamento, de 21 de julho de 1913, Jurnal, p. 199-200.

[7] “Scrisul este o răsplată dulce, minunată, dar pentru ce ? În cursul nopții mi-a devenit limpede, cu claritatea cu care un copil îşi trăiește intuițiile, că este plata primită pentru o slujbă pe care o faci în slujba diavolului. Coborîrea către puterile întunecate, descătușarea spiritelor legate de natură, îmbrățișările îndoielnice şi toate cele ce se vor mai fi întîmplînd acolo jos de la sine, lucrurile tulburi despre care nici nu se ştie, atunci cînd scrii poveşti la lumina soarelui. Poate că mai există şi un alt mod de a scrie, eu îl cunosc numai pe acesta ; noaptea, cînd spaima nu mă lasă să dorm, îl cunosc numai pe acesta. Iar diavolescul ce există în toate astea îmi este foarte limpede […] Nu vreau să spun prin asta că pentru viață sînt necesare femeia şi copilul şi cîmpul şi vitele. Necesar pentru viață e numai să se renunțe la egoismul plăcerii, la vanitatea de a te bucure de tine însuţi ; e necesar să intri în casă în loc să o admiri şi să o împodobești.” Franz KAFKA, Carta a Max Brod, 5 de julho de 1922, în Opere complete, IV (Scrisori), traducere de Mircea Ivănescu, Univers, Bucureşti, 1998, p. 332.

Na edição italiana: “Lo scrivere è una dolce meravigliosa ricompensa, ma di che cosa? Durante la notte con l’evidenza dell’insegnamento dimostrativo ai bambini mi apparve chiaro che è la ricompensa per un servizio del diavolo. Questa discesa alle potenze della tenebra, questo scatenamento di spiriti legati per natura, i problematici amplessi e tutto quanto può avvenire laggiti, di cui qua sopra non si sa nulla quando si scrivono racconti alla luce del sole. Forse esiste anche qualche altro modo di scrivere, ma io conosco soltanto questo; di notte quando la paura non mi lascia dormire conosco soltanto questo. E il suo lato diabolico mi sembra molto chiaro. […] Con ciò non voglio dire che per vivere siano necessari moglie e figli e terreni e bestiame. Necessario per vivere è sol-tanto rinunciare al godimento di sé; entrare nella casa anziché ammirarla e incoronarla.” Franz KAFKA, Epistolario, vol. I. Trad. di Ervino Pocar e Anita Rho. Milano: Mondadori, 1964, p. 457-458.

[8] “Ich habe heute Kierkegaard ›Buch des Richters‹ bekommen. Wie ich es ahnte, ist sein Fall trotz wesentlicher Unterschiede dem meinen sehr ähnlich, zumindest liegt er auf der gleichen  Seite der Welt. Er bestätigt mich wie ein Freund.” Na tradução romena: “Am căpătat astăzi Cartea judecătorului de Kierkeggard. După cum bănuiam, cazul lui este, în ciuda unor deosebiri esenţiale, foarte asemănător cu al meu ; el se află de aceeaşi parte a lumii ca şi mine. Depune mărturie pentru mine ca un prieten” (21 august 1913). IDEM, Jurnal, Op. cit., p. 204.

[9] Søren KIERKEGAARD, O conceito de angústia. Trad. de Álvaro Luiz Montenegro Valls. Petrópolis: Vozes, 2010, p. 110.

[10] Ibidem, p. 149

[11] “Alles, was sich nicht auf Literatur bezieht, hasse ich, es langweilt mich, Gespräche zu führen (selbst wenn sie sich auf Literatur beziehen), es langweilt mich, Besuche zu machen, Leiden und Freuden meiner Verwandten langweilen mich in die Seele hinein. Gespräche nehmen allem, was ich denke, die Wichtigkeit, den Ernst, die Wahrheit.” Na tradução romena: “Urăsc tot ce nu are legătură cu literatura ; mă plictisește să întreţin conversații (chiar în legătură cu literatura), mă plictisește să fac vizite, suferințele şi bucuriile rudelor mele mă plictisesc pînă în adîncul sufletului. Conversațiile îmi  răpesc tot ce e important, serios, adevărat din ce gîndesc” (21 iulie 1913). Franz KAFKA, Jurnal, Op. cit., p. 200.

[12] “Die systematische Zerstörung meiner selbst im Laufe der Jahre ist erstaunlich, es war wie ein langsam sich entwickelnder Dammbruch, eine Aktion voll Absicht. Der Geist, der das vollbracht hat, muß jetzt Triumphe feiern; warum läßt er mich daran nicht teilnehmen? Aber vielleicht ist er mit seiner Absicht noch nicht zu Ende und kann deshalb an nichts anderes denken.” Na edição romena: “Uimitor cum m-am distrus pe mine însumi, sistematic, ani de zile, la rînd; ca o spărtură lărgindu-se încet într-un dig, ca o lucrare după un plan bine calculat. Spiritul care a realizat așa ceva trebuie să-şi sărbătorească triumful ; de ce nu mă lasă şi pe mine să particip ? Poate că n-a ajuns încă la capăt în planurile lui și de aceea n-are timp să se gîndească la altceva” (17 octombrie 1921). Ibidem, p. 356.

[13] Franz KAFKA, Carta a Max Brod, 5 de julho de 1922, in Opere complete, IV (Scrisori), p. 322.

[14] IDEM, Al treilea Caiet in octavo în Opere complete, III (Proză scurtă postumă), p. 159-160 (2 decembrie 1917).

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