O gosto das Ilusões e o gosto da Décadence: Cioran e a lucidez da decepção – Rodrigo MENEZES

Segundo Giovanni Rotiroti, a desilusão de Cioran em relação às suas crenças e esperanças utópicas de outrora começam a despontar antes mesmo do Breviário, em De la France, escrito ainda em romeno (Despre Franţa), na Paris de início da década de 1940, ocupada pelas forças alemãs. Muitas ideias do Précis de décomposition encontram-se enunciadas em Sobre a França (1941).

O diagnóstico spengleriano da décadence associado ao “declínio do Ocidente” – especialmente, para Cioran, no caso França – é o mesmo, mas as conclusões são outras: em vez do rechaço pelo que Cioran considera o alexandrinismo das Decadências, doravante a apologia do estilo, da “frivolidade”, da superficialidade, da inteligência e do alexandrinismo mesmo. O “inconveniente” de ser romeno revela-se, no fundo, o “inconveniente” mais geral de ser humano. Desponta aqui a desilusão em relação ao nacionalismo, o desengano em relação ao destino histórico da Romênia:

O alexandrinismo é o período das denegações sábias; a recusa como estilo de cultura. O homem flana com nobreza entre os ideais; o pensador faz, sutilmente, seu espírito serpentear entre as ideias. Nenhum deles elege pousada. Eles não têm pátria ou lar. Pois a decadência é a ausência de teto espiritual, a recusa por parte do espírito, de um lar. Onde repousar o corpo e fixar a inspiração? A imaginação erudita leva a todas as direções; nenhum horizonte capta a curiosidade por novidades… envelhecidas. É uma aventura sem esperança, uma decepção saudosa”

CIORAN, Sobre a França, p. 70.

Assim fala o “Sofista Errante”, tal como Marta Petreu definiu o Cioran francês a partir do Breviário de decomposição. Sobre a França prefigura o Breviário de decomposição em muitos dos seus aspectos que marcam o começo do novo autor, E. M. Cioran, distinto em muitos aspectos, mas não em todos, do antigo pensador romeno. Aspectos como o estetismo, como um ética para descrentes, tal como tematizado em “Civilização e frivolidade”, o alexandrinismo e o elogio da Decadência, como atmosfera crepuscular propícia para a lucidez, encontram-se tematizados em Sobre a França.

Em Nos cumes do desespero (1934), Cioran escrevia: “Diante de uma cultura aprisionada em formas e limites que mascaram tudo, o lirismo é uma expressão bárbara. Eis de fato o seu valor, o de ser bárbaro, de ser só sangue, sinceridade e chamas”. A cultura, no caso, não especificada, seria a francesa, rechaçada pela jovem geração romena de Cioran como sinônimo de “decadência” e “debilidade” espiritual (racionalismo, ceticismo, criticismo, formalismo), à diferença da cultura alemã, vista por eles como “trágica” e “criadora”, “viril”, “autêntica” etc.

Ironicamente, Cioran encontrará nessas “formas e limites que mascaram tudo” um remédio salutar para o mal de ser Cioran: a língua francesa lhe cairá como uma luva, ou melhor, como uma “camisa-de-força” capaz de moderar o seu pathos e de ordenar o turbilhão de um pensamento tempestuoso e lírico (traços herdados, segundo o autor, de suas origens balcânicas). É só en français que Cioran poderá fazer a experiência literária e filosófica, estética e ética, de que “o estilo é ao mesmo tempo uma confissão e uma máscara“.

É só em francês, também, que ele poderá afirmar que “a masculinidade ideal – obstáculo à percepção das nuanças – comporta uma insensibilidade em relação ao sobrenatural cotidiano, de onde a arte extrai sua substância. Quanto mais natureza se é, menos se é artista. […] A condição propícia à busca da verdade acha-se a meio caminho entre o homem e a mulher: as lacunas da ‘virilidade’ são a sede do espírito…” Por mais filosófico e artístico que aspirasse a ser, o jovem Cioran é ainda, em seu adamismo romeno, demasiado “natureza“.

Do lirismo feito de “sangue, sinceridade e chamas”, o autor do Précis não pretende preservar senão as fórmulas, convertidas em “venenos (pharmaka) abstratos“, decidindo romper com suas origens, abandonar sua identidade romena, fazer de si mesmo um “exilado metafísico”, um “estrangeiro para Deus, para polícia e para mim mesmo”.

Se, na década de 1930, Cioran fazia o elogio da Ilusão, declarando romanticamente o seu “gosto das ilusões”, na França ele se enamora da Décadence que tanto combatera, em nome da “vitalidade” do seu povo e de si mesmo. É então que se dá a desilusão, o abandono da ideologia legionária com a qual esteve comprometido à maneira de um fanático desesperado que, salvando o seu país, esperava salvar a si mesmo. Enquanto figura poética da Décadence, a “decomposição” do Breviário insere-se como antítese, como contraverdade, do Livro das Ilusões.

“Rostos da decadência”, no Breviário de decomposição, é um texto cujo teor (decadência, alexandrinismo) encontra-se tematizado em Sobre a França:

O erro dos que captam a decadência é querer combatê-la, enquanto seria preciso fomentá-la: ao desenvolver-se, esgota-se e permite o advento de outras formas. O verdadeiro precursor não é o que propõe um sistema quando ninguém o quer, mas o que precipita o Caos e é seu agente e turiferário. É uma vulgaridade apregoar dogmas em plena época extenuada na qual todo sonho de futuro parece delírio ou impostura.

CIORAN, “Rostos da decadência”, Breviário de decomposição (1949)

É nesta época (primeira metade da década de 40), ademais, que Cioran conhece pessoalmente, em Paris, Benjamin Fondane (mais velho que Cioran), passando a frequentá-lo regularmente. Tornaram-se amigos rapidamente. Eles têm em comum, principalmente, a admiração por Chestov, filósofo judeu ucraniano de quem Fondane fora discípulo. O assassinato do amigo judeu romeno em Auschwitz será um trauma decisivo para a renegação do seu legionarismo filonazista de juventude, como demonstrou Giovanni Rotiroti.


MENEZES, Rodrigo Inácio R. Sá, “O gosto das Ilusões e o gosto da Décadence: Cioran e a decepção como lucidez”, Portal E. M. Cioran Brasil, 6 de março de 2022.

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