Cioran e as “nuanças do pior” entre o inferno e um “paraíso desolador” (carta a um amigo longínquo)

A diferença entre os regimes é menos importante do que parece; vocês estão sós forçados, nós o estamos sem nenhuma pressão. É tão grande a distância entre o inferno e um paraíso desolador? Todas as sociedades são más; mas há graus, reconheço, e se escolho esta, é porque sei distinguir entre as nuanças do pior.

Cioran, carta a Constantin Noica (1957)

Aqui como lá, estamos todos em um ponto morto, igualmente diminuídos nessa ingenuidade em que se elaboram as divagações sobre o futuro. A longo prazo, a vida sem utopia se torna irrespirável, para a multidão pelo menos: sob pena de petrificar-se, o mundo necessita de um delírio novo. Essa é a única evidência que se deduz da análise do presente. Enquanto isso, nossa situação, a nossa daqui, não deixa de ser curiosa. Imagine uma sociedade superpovoada de dúvidas onde, com exceção de alguns casos aberrantes, ninguém se compromete inteiramente com nada; onde, carentes de superstições e de certezas, todos exigem a liberdade e ninguém respeita a forma de governo que a defende e encarna. Ideais sem conteúdo ou, para utilizar uma palavra totalmente adulterada, mitos sem substância. Você está decepcionado por causa de promessas que não podiam ser cumpridas; nós o estamos por falta de promessas simplesmente. Ao menos temos consciência da vantagem que confere à inteligência um regime que, até o momento, a deixa desenvolver-se à vontade sem submetê-la aos rigores de nenhum imperativo. O burguês não crê em nada, é um fato; mas é esse, pode-se dizer, o lado positivo de seu vazio, já que a liberdade só pode se manifestar no vazio de crenças, na ausência de axiomas, e só aí onde as leis não têm mais autoridade que uma hipótese. Se me dissessem que o burguês crê, entretanto, em algo, pois o dinheiro desempenha para ele a função de um dogma, eu replicaria que esse dogma, o mais terrível de todos, é, por estranho que pareça, o mais suportável para o espírito. Perdoamos aos outros suas riquezas se, em troca, nos deixam a liberdade de poder morrer de fome a nosso modo. Não, não é tão sinistra essa sociedade que não cuida de nós, que nos abandona, que garante o direito de atacá-la, que convida a isso, e até obriga a fazê-lo em suas horas de preguiça, quando já não tem energia suficiente para execrar-se a si mesma. Em última instância, é tão indiferente à sua própria sorte como à nossa, não quer de maneira alguma usurpar nossas desgraças, nem para suavizá-las nem para agravá-las, e se nos explora, é por automatismo, sem premeditação nem perfídia, como convém aos brutos cansados e fartos, tão contaminados pelo ceticismo quanto suas vítimas. A diferença entre os regimes é menos importante do que parece; vocês estão sós forçados, nós o estamos sem nenhuma pressão. É tão grande a distância entre o inferno e um paraíso desolador? Todas as sociedades são más; mas há graus, reconheço, e se escolho esta, é porque sei distinguir entre as nuanças do pior.

A liberdade, eu dizia, exige o vazio para manifestar-se; o exige e sucumbe a ele. A condição que a determina é a mesma que a anula. Ela carece de bases: quanto mais completa for, mais vacilará, pois tudo a ameaça, até o princípio do qual emana. O homem é tão pouco feito para suportar a liberdade, ou para merecê-la, que mesmo os benefícios que recebe dela o esmagam, e ela acaba lhe sendo tão penosa que aos excessos que suscita ele prefere os de terror. A estes inconvenientes se acrescentam outros: a sociedade liberal, eliminando o “mistério”, “o absoluto”, “a ordem”, e não tendo nem verdadeira metafísica nem verdadeira polícia, encerra o indivíduo em si mesmo, afastando-o ao mesmo tempo do que ele é, de suas próprias profundidades. Se não possui raízes, se é essencialmente superficial, é porque a liberdade, frágil em si mesma, não tem nenhum meio de manter-se e sobreviver aos perigos que a ameaçam tanto de fora quanto de dentro; além disso, ela só se manifesta à sombra de um regime agonizante, no momento em que uma classe declina e se dissolve: foram os desfalecimentos da aristocracia que permitiram ao século XVIII divagar magnificamente; e são os da burguesia que hoje nos permitem entregar-nos a nossas fantasias. As liberdades só prosperam em um corpo social enfermo: tolerância e impotência são sinônimos. Isto é tão patente em política como em tudo. Quando compreendi esta verdade, a terra se abriu aos meus pés. Agora de nada me vale exclamar: “fazes parte de uma sociedade de homens livres”; o orgulho que sinto vem sempre acompanhado por um sentimento de pavor e de inanidade, produto de minha terrível certeza. No curso dos tempos, a liberdade ocupa tantos instantes quanto o êxtase na vida de um místico. Ela nos escapa no momento mesmo em que tentamos apreendê-la e formulá-la: ninguém pode desfrutar dela sem tremor.


CIORAN, “Sobre dois tipos de sociedade (carta a um amigo longínquo)”, História e utopia. Trad. de José Thomaz Brum. Rio de Janeiro: Rocco, 2011.

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