“O animal metafísico” – CIORAN

Se se pudesse apagar tudo o que a Neurose inscreveu no espírito e no coração, todas as marcas malsãs que deixou neles, todas as sombras impuras que a acompanham! O que não é superficial, é sujo. Deus: fruto da inquietude de nossas entranhas e dos borborigmos de nossas ideias… Só a aspiração ao Vazio nos preserva desse exercício aviltante que é o ato de crer. Que limpidez na Arte da aparência, na indiferença a nossos fins e a nossos desastres! Pensar em Deus, tender a Ele, invocá-lo ou suportá-lo – movimentos de um corpo avariado e de um espírito confuso! As épocas nobremente superficiais – o Renascimento, o século XVIII – zombaram da religião, desprezando seus jogos rudimentares. Mas, ai de mim!, existe em nós uma tristeza de ralé que obscurece nossos fervores e nossos conceitos. Em vão sonhamos com um universo de ornato; Deus, surgido de nossas profundezas, de nossa gangrena, profana tal sonho de beleza.

Somos animais metafísicos pela podridão que abrigamos dentro de nós. História do pensamento: desfile de nossos desfalecimentos; vida do Espírito: sucessão de nossas vertigens. Nossa saúde declina? O universo paga por isso, e sofre a queda de nossa vitalidade.

Repisar o “porquê” e o “como”; remontar a todo instante até a causa – e a todas as causas – denota uma desordem das funções e das faculdades, que acaba em “delírio metafísico”, caducidade do abismo, degringolada da angústia, última fealdade dos mistérios…


CIORAN, “O animal metafísico”, Breviário de decomposição. Trad. de José Thomaz Brum. Rio de Janeiro: Rocco, 2011.

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