“A diáspora das crianças e o Exército dos Combatentes de Deus” – Marilia FIORILLO

Todo dia, quando começa a escurecer, centenas de meninos e meninas saem de suas casas, em vilarejos ou campos de refugiados, e andam quilômetros até a cidade de Gulu, buscando refúgio em hospitais, estacionamentos, marquises, calçadas. De manhã, fazem o caminho de volta. Isto vem se repetindo
há duas décadas, no norte de Uganda. Elas fogem dos assaltos noturnos da Lord Resistence Army (Exército dos Combatentes de Deus), que já seqüestrou mais de 20 mil crianças para servirem como soldados em seu bando armado. A LRA é liderada por Joseph Kony, que se diz a encarnação do Espírito
Santo e promete, assim que tomar o poder, restaurar os Dez Mandamentos e governar em nome da Bíblia. Kony, ex-coroinha, é responsável por cerca de 100 mil mortes e dois milhões de refugiados que deixaram seus lares e vivem em campos internos. A Corte Internacional de Haia (ICC) expediu contra ele e os membros do “Altar” (seus comandantes), em 2005, um mandado de prisão pelos crimes de genocídio, assassinato, estupro, mutilação, escravidão e rapto de crianças que são forçadas a servir em suas fileiras. Em 2006 houve uma trégua com o governo de Kampala, mas em abril de 2008 Kony rompeu-a, e a escalada de violência recomeçou.

Um dos indiciados pela ICC é o jovem Dominic Ongwen, chefe de uma das brigadas mais temidas no Exército de Deus, e ele próprio um veterano soldado mirim, raptado no início dos conflitos. Discute-se se Ongwen deve ou não ser poupado do julgamento. Isso porque, das milhares de crianças raptadas
e levadas à escravidão, estupro e morte, uma das violências cometidas contra elas é a “conversão” forçada, a lavagem cerebral a que são submetidas por Kony e que os transforma em precoces psicopatas.

As meninas servem como prostitutas dos soldados. Os meninos são treinados para se tornarem matadores, e muitos aprendem a nova habilidade de modo inesquecível: são forçados a atirar numa vítima conhecida, um amigo, alguém de sua aldeia, de preferência num membro da família. Depois
desse batismo de fogo, durante os ataques do bando de Kony às vilas, as crianças são posicionadas à frente dos soldados, como escudo, uma infantaria desarmada. Mas antes são ungidas com um óleo abençoado pelo ex-coroinha, que lhes garante que a unção os tornará invulneráveis às balas, que
derreterão assim que tocarem seus corpos.

O terror disseminado pelo Exército dos Combatentes de Deus é tal que o próprio governo do presidente Museveni, temeroso de retaliações, está negociando com a ICC a anulação dos mandados e do processo contra os membros do Altar. Nas três localidades ao norte do país mais atingidas pelo
LRA, Gulu, Kitgum e Pader, cerca de 80% a 95% das pessoas tiveram que abandonar suas casas e estão precariamente alojadas em campos de refugiados, sofrendo a habitual penúria, sujeira, falta de água, de suprimentos e de remédios para doenças que se espalham rápido, e um altíssimo índice de alcoolismo entre os homens, que tem incrementando outro índice, o da violência doméstica. E essas famílias não têm sequer o privilégio de possuírem o estatuto de refugiados, pois sua diáspora deu-se dentro das fronteiras do país — são não-cidadãos de lugar nenhum.

As crianças, alvos preferidos dos raptos noturnos dos Combatentes de Deus, não têm outra defesa senão viajar diariamente para dormir em cidades maiores, mais seguras. Uma foto flagrou esses “night commuters”, essas crianças invisíveis, numa pausa, à noite, numa rua de Gulu. Estão abrigados ao relento e extremamente atentos, lendo. Um livro, uma cartilha, um caderno, é difícil saber exatamente o quê. Tamanha é a concentração que eles parecem participar de alguma epifania, de um momento realmente sagrado. Estão visivelmente arrebatados, e mesmo quem não crê em anjos pode apostar que há um par deles revoando em torno dos quatro garotos.

Diz uma lenda talmúdica que, a cada geração, há 36 homens justos que são o fundamento do mundo. Eles são os “santos ocultos”. Ninguém os conhece ou terá a chance de elogiá-los, mas é exatamente graças às suas ações anônimas que este planeta se torna um lugar mais habitável e decente. As quatro “crianças invisíveis” estão fazendo algo parecido à lenda talmúdica, algo extraordinário. O livro ou a cartilha, o prazer e a aventura do conhecimento, se transformaram, naquele momento, na única realidade. Curiosidade e imaginação as fizeram esquecer o perigo, jogando os Combatentes
de Deus para a lixeira da história. Essas crianças são faíscas de luz, um clarão microscópio de 36 centenas de pequenos justos cujo nome nunca se vai saber.


FIORILLO, Marília, O Deus exilado: breve história de uma heresia. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2008.

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