“Uma pedagogia da solidão em Nietzsche” – Fabiano de Lemos BRITTO

Educação e Filosofia, Uberlândia, v. 26, n. 51, p. 251-262, jan./jun. 2012.

Resumo: O artigo pretende investigar de que forma a relação entre o cosmopolitismo, tal como foi elaborado como tarefa ética por Kant e os herdeiros da Aufklärung, e a ideia de cultura e educação (Bildung) foi redimensionada e modificada nos textos de Nietzsche, segundo um modelo que colocava
em questão a própria necessidade da gregariedade para uma nova forma de Pedagogia.
Palavras-chave: Nietzsche. Aufklärung. Cultura. Pedagogia.

Abstract: The paper intends to investigate in which way the relation between cosmopolitism, as it was set up as ethical task by Kant and Aufklärung, heirs and the idea of culture and education (Bildung) was modified in Nietzsche’s texts, according to a model that put at question the need to community to a new form of Pedagogy.
Keywords: Nietzsche. Aufklärung. Culture. Pedagogy.

Introdução

«Un être vraiment heureux est un être solitaire»

ROUSSEAU, Émile ou de l’éducation, livre IV

O homem solitário trai.
Esse exílio que não é uma pena, mas uma escolha, nos incomoda.
Ao menos desde esse espaço inescapável de nossa modernidade. Desde o momento em que Kant definiu e defendeu o cosmopolitismo como a destinação do homem, o Outro é a espécie, e é na direção dela que o Homem Esclarecido, o Gelehrter, figura que norteia nossas exigências éticas e epistemológicas desde a Aufklärung, deve seguir. Um movimento sublime: pois é na medida em que limita sua sensibilidade, que sai de si, em nome e no sentido de uma espécie imediatamente intangível, que o indivíduo pode enfim encontrar-se como homem.

O que implica, por exemplo, em Kant, uma política da amizade como política em direção ao Outro, no sentido cosmopolita – a exigência de uma Bildung, que faz soar ao fundo da pergunta kantiana: “O que é o homem?” (KANT, 1992, Ak 25), a afirmação que abre sua Pedagogia: “O homem é a única criatura que precisa ser educada” (KANT, 1999, Ak 441). Será preciso esperar ainda um tempo para que ela comece a ser lida às avessas. Um século depois de Kant, esta exigência encontrará o subtítulo de Ecce Homo, de Nietzsche – “Como alguém se torna o que é” [Wie man wird, was man ist] – deixando ver, enfim, um percurso onde algo é posto em questão. Entre a Bildung, a formação do homem esclarecido, e o werden, o tornar-se do subtítulo de Nietzsche, toda a relação entre pedagogia, cosmopolitismo e solidão se complica. “Fui compreendido?” (NIETZSCHE, 1988, Bd. VI, p. 374) sua pergunta ao final de Ecce Homo (ou a de Dioniso, contra o crucificado? – questão fundamental e fundamentalmente indecidível), assinala o ponto de chegada da trajetória desenhada pelo movimento cumprido em torno da questão da educação. Há nesse movimento uma direção, diametralmente oposta àquela sugerida por Kant rumo à espécie… [PDF]

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