“As Velhinhas e o Diabo: aforismos para tempos que ainda esperam pelo despertar da história” – Giovanni ROTIROTI

Prefácio de As velhinhas e o diabo [Babele și diavolul], de Ciprian Vălcan. Trad. de Rodrigo Menezes. São Paulo: Tesseractum, 2022. ISBN: 978-65-89867-30-2.

A etapa final do capitalismo é o canibalismo.” Num século – como o nosso – marcado pela derrocada das utopias emancipatórias e pela crescente imposição do sistema econômico e do imaginário capitalista, que se reafirmam hoje, em nível planetário, sem nenhuma oposição evidente, num século em que a riqueza e o poder político estão concentrados nas mãos de muito poucos, a crise mundial em andamento tem mostrado toda a fragilidade do modelo “financeiro” da economia capitalista e do sistema político liberal-democrático, tal como foram impostos às democracias ocidentais pelo impulso conservador que condena a maioria da população às margens da vida social e econômica.

A reflexão crítica que emerge a partir destes aforismos de Ciprian Vălcan tem a virtude de determinar as causas sociais e ideológicas dessa deriva, assinalando com lucidez o abismo em direção ao qual o mundo globalizado está se precipitando. A sua ideia, que transparece em filigranas nesta peculiar escrita, reflete-se implicitamente no fato de que o cinismo dos que detêm o poder é tão transparente que não se faz necessária nenhuma crítica da ideologia; chega-se a ele pela simples leitura dos sintomas entrelinhas; tudo é cínica e abertamente admitido.

Podemos assim nos questionar, tendo como pano de fundo a teoria de Francis Fukuyama sobre o “fim da história”: é mesmo verdade que o liberalismo e a democracia, ao valorizar a responsabilidade, a participação e a atribuição de poder decisório dos cidadãos, são inclusivos e não exclusivos? Que tipo de sujeito se está formando no século 21? Tentemos relacionar a “moralidade” que emerge desta antologia “especial” de Vălcan, com as vozes críticas de alguns dos pensadores mais influentes da Europa Ocidental.

Byung-Chul Han, por exemplo, em seu livrinho intitulado Psicopolítica, descreve a sociedade atual como estando submetida a um controle psicopolítico que não impõe proibições e não força o silêncio, mas impele a comunicar, a compartilhar, a expressar opiniões e desejos, e a expor a própria vida mediante dispositivos de automonitoramento. Testemunhamos o estabelecimento de um panóptico no qual, com a Internet e as redes sociais, ela é permanentemente marcada e postada. Nesta sociedade hiper-liberal, dita democrática, todos os dados pessoais são monetizados e comercializados: “A técnica de poder do regime neoliberal não é proibitiva, protetora ou repressiva, mas prospectiva, permissiva e projetiva. O consumo não se reprime, só se maximiza. É gerada não uma escassez, mas uma abundância, um excesso de positividade. Somos todos compelidos a comunicar e a consumir. O princípio de negatividade, que ainda define o Estado de vigilância de Orwell, cede lugar ao de positividade. As necessidades não são suprimidas, mas estimuladas. Em vez de confissões extorquidas, há exposição voluntária. O smartphone substitui a câmara de tortura. O Grande Irmão tem agora um rosto amável. A eficiência da sua vigilância está em sua amabilidade.”[1]

Em seu livro La politique des choses, Jean-Claude Milner afirma que os senhores da democracia verbal, ou seja, da democracia puramente apalavrada, preferem delegar o governo dos seres falantes às coisas. Trata-se, pois, de transformar os seres humanos em coisas. Como? Através do sistema de “avaliação” abrangente e onipresente em todos os campos do saber. Só assim a avaliação, com base na estatística, poderá implementar os procedimentos adequados para instaurar o governo absoluto das coisas. Trata-se no fundo de fazer com que todos aceitem a convicção de que ninguém poderá mais mudar nada, de que tudo será inevitável, por tratar-se da ordem das coisas. Assim, o reino absoluto das coisas só tem um nome: morte, ou seja, uma igualdade substancial que se aplica aos seres e às coisas, como a pedra, pela qual tudo é comensurável e substituível. A avaliação generalizada inicia a transformação dos seres humanos em coisas, em que o íntimo é reabsorvido em perfis, tipos e classes de equivalência, em que ser totalmente homem significa saber obedecer piamente às coisas, estabelecendo assim a “boa” igualdade: “O ser humano avaliado é mais humano do que os outros porque se assemelha mais às coisas, parecendo assim menos disposto a se desviar um passo sequer do caminho da obediência às coisas. Mas, sendo mais humano do que os demais, ele se coloca como exemplo, deixando claro que a igualdade começa com ele. Entendamos a ‘boa’ igualdade, a moderna, a que abole passivamente a liberdade; não a ‘má’ igualdade, que a confirma ativamente. Quanto mais governam as coisas, mais os homens se humanizam, mais eles se igualam. E quanto mais se igualam, mais se assemelham às coisas, mais submergem na massa indistinta em que é abolida toda a distinção entre coisas que governam e coisas governadas. Quanto mais a distinção entre governantes e governados é abolida, mais o termo democracia é consolidado. Por meio dessa arte das reversões, tudo está pronto para que a avaliação se apresente como um novo tipo de humanismo democrático. Um humanismo que terá a consistência e a cor do concreto armado, tornando os espaços políticos e sociais do próximo século tão inabitáveis ​​quanto possível. Não é de estranhar que a Europa dos eurocratas queira ser avaliadora.”[2]

Assim, se os sujeitos humanos são progressivamente reduzidos a coisas, o tipo de ligação que se estabelecerá entre eles será perverso, como testemunha a clínica psicanalítica contemporânea. Já não se trata de homens, mas de consumidores perfeitos que se sentem satisfeitos com suas compras, na posse e depois na dissipação dos bens. O ideal de tornar-se famoso a qualquer custo é perseguido quando se conforma aos padrões estéticos dominantes, tornando-se uma mercadoria desejável, vivendo em excesso e desperdício. Cada um é tomado por suas próprias necessidades narcísicas, ninguém assume qualquer responsabilidade para com o outro, semelhante ou simbólico, procurando enganar a morte através da ação maníaca, na pressa, na precariedade, no isolamento. A nova subjetividade nada mais é do que o precipitado[3] da sociedade capitalista avançada e o produto de uma mutação antropológica. Vai desde a instabilidade das relações emocionais, passando pela corrida ao consumo patológico, pela dependência generalizada, até a hiperatividade irreprimível em nome de um suposto ideal de felicidade que determina a exaltação de si das próprias capacidades, da relação utilitária com o outro.[4]

Colette Soler, psicanalista lacaniana, inventou a expressão “narcinismo”,[5] aglutinando narcisismo e cinismo, usando este neologismo para definir o signo fundamental do nosso tempo, dominado pelo que Lacan chamava “o discurso capitalista”. Soler retoma este termo em uma entrevista com Massimo Recalcati da seguinte forma: “Inventei esta expressão para distinguir o cinismo contemporâneo, tão triunfalista, do cinismo da antiga escola que teve em Diógenes uma figura emblemática. Aquele cinismo, como o libertinismo do século XVIII, era uma posição militante, pressupondo a existência de um padrão e certa consistência nos mandamentos da cidade. É neste sentido que Diógenes se dirige a Alexandre Magno, dizendo-lhe “sai da frente, pois me estás tapando o sol”. O narcisismo de hoje sofre com a falta do outro. Desapareceram as grandes causas nas quais o século XX que acreditou – sabemos a que preço –, causas capazes de transcender a nossa individualidade. Daí a tendência generalizada a transformar em “causa” seus próprios mais-interesses [plus-interest], suas próprias mais-valias [plus-valori],[6] seus próprios mais-gozares [plus-godere], de tal modo que os laços sociais são minados. Havia mencionado a precariedade: ela não diz respeito apenas à esfera do trabalho, mas a todos os vínculos de amor, de amizade e das relações familiares. É o narcinismo que trabalhando internamente. “Eu o deixei depois de oito anos, porque ele não era mais útil para mim”, disse-me uma paciente. Tudo isso sem o menor niilismo, que é uma opção existencial e filosófica, e que hoje resulta em um cinismo defectivo.”[7]

§

Como seria o mundo se o diabo lesse Kant? Já sabíamos quando lê Freud.” Existe alguma alternativa ao “narcinismo” hipermoderno, ao niilismo extremo do discurso capitalista? O que é lícito esperar do ponto de vista do pensamento crítico? Já Freud, como indica Vălcan no aforismo acima, havia proposto uma relação estreita entre o imperativo categórico kantiano e as instâncias “diabólicas” do Superego. O pano de fundo da atual metamorfose antropológica é, portanto, de natureza social e, como sabemos, diz respeito a uma modificação essencial no comando do Superego. A ideologia do Superego social freudiano era de tipo kantiano. Não por acaso Freud identificou o Superego como o herdeiro (legítimo) do imperativo categórico kantiano. A sua voz moral exigia a renúncia do impulso como condição de acesso à Civilização. Assistimos, na Civilização pós-industrial, a uma mudança de signo do programa do Superego social: o seu comando não fala mias com a voz kantiana da consciência moral; a torsão hipermoderna do Superego advém, de forma inédita, através a elevação do “narcinismo” do gozo, como um novo imperativo social. Noutras palavras, o gozo torna-se equivalente à Lei. “Nisto pode-se notar”, escreve Recalcati, a tendência não apenas cínica, mas também perversa, do programa hipermoderno da Civilização. O gozo assume a forma de um imperativo categórico que refuta a castração: Deves gozar![8]

Ciprian Vălcan parece opor ao “narcinismo” contemporâneo, assinalado pela clínica psicanalítica, uma outra forma de cinismo, aquela dos personagens de seus aforismos, recuperando assim o cinismo antigo que estava realmente voltado para o Outro, diferentemente da versão atual. Com efeito, afirmava Cioran já em Amurgul Gândurilor,[9] que após o impacto irreversível do cristianismo no mundo ocidental, seria necessário hoje em dia recorrer a um “Diógenes terno” [um Diogene duios].[10]

Vălcan parece seguir à risca esta indicação cioraniana de 1940. Como um Diógenes do século XXI, ele reconhece nos marginais, nos excêntricos e nos anormais, do passado e do presente, não modelos de “vida natural” (como os animais, as crianças e os mendicantes, a exemplo do clássico Diógenes), mas sobretudo exemplares humanos de uma dúbia humanidade (serial killers, escroques, velhas cínicas, pobres diabos, etc.), amostras mais aproximáveis, tipologicamente, dos personagens alienados e reificados das Páginas bizarras de Urmuz[11] e do Odradek de Kafka, do que exemplares de um ser humano ainda não corrompido pelas convenções sociais, maduro portador de valores e virtudes.

Com efeito, os personagens dos aforismos de Ciprian Vălcan parecem indicar, genealógica e humoristicamente, aquele tipo humano particular resultante de dispositivos totalizantes e concentracionários que vieram a estabelecer o grau de perversão da sociedade de hoje, a ponto de criar uma perplexidade sem precedentes na história mundial da humanidade. Como um Diógenes redivivo ou fantasmagórico, em nossos tempos, Vălcan não pretende pregar nem doutrinar por meio de raciocínios diversos e articulados, mas transmitir, indiretamente, pelo fragmento fulminante e ardente do aforismo, um ensinamento, denunciar ou soar suavemente um alarme de tipo social, recorrendo a piadas rápidas, gestos e demonstrações dadaístas exemplares, valendo-se bastante do paradoxo irônico e corrosivo a partir dos acontecimentos que se passam em sua quotidianidade, recorrendo às notícias que lê pela Internet ou nos livros da sua biblioteca particular.

Comparado à filosofia dominante do seu país, marcadamente liberal ou liberalista, de estilo nacional ou nacionalista, Ciprian de Timişoara, o novo Diógenes de Sínope, é um dos poucos filósofos romenos “cosmopolitas”, já que, desprezando sempre as convenções, ele mesmo se descreve como um “cidadão do mundo” – uma atitude surpreendente numa época em que o filósofo romeno está cada vez mais ligado de forma identitária à sua nação, como uma tentativa por vezes patética, por vezes desesperada, de resistir à globalização dos mercados.

A partir da tradição do pensamento grego, sabemos que o filósofo cínico se submetia a um duro exercício (conta-se que Diógenes vivia num barril), não através de indagações teóricas, mas antes colocando-se numa situação de excepcionalidade e de marginalidade em relação à vida do cidadão integrado na polis. Não pretendia construir formas explicitamente alternativas de organização política, não se enraizava nunca a nenhum lugar, vivendo sem meta, sem a necessidade de residência fixa e sem nenhuma comodidade. Esse modo de vida coincidia, para Diógenes, com a liberdade: quanto mais eliminamos as necessidades supérfluas, mais somos livres. Os cínicos de todos os tempos têm insistido sobre a liberdade, em todos os sentidos, inclusive ao extremo do paroxismo exasperado e do paradoxo. Aspiravam, pela “liberdade da palavra”, a afrontar os limites da ousadia e da arrogância, especialmente em relação aos poderosos da polis. Nessa sua “liberdade de palavra e de ação”, foram muito além dos limites da indecência. Na verdade, se o que Diógenes pretendia era basicamente manifestar-se contra a “não naturalidade” dos costumes gregos, ele não manteve a medida e alcançou, muitas vezes, excessos que hoje são normalmente explicados quando nos referimos em geral à conotação negativa da palavra cínico.

§

A história do homem contemporâneo será a história dos monstros que produziu. No século XXII, já não se concederá o prêmio Nobel, mas o prêmio Breivik. Anders Nehring Breivik, nascido em Oslo em 1979, é, como se sabe, um terrorista norueguês, autor do atentado de 22 de julho de 2011 que causou a morte de mais de setenta pessoas. Ideologicamente de extrema direita, ele se declarou um “salvador do cristianismo” e um “defensor da cultura conservadora da Europa”. Em 2014 foi condenado a 21 anos de prisão, a pena máxima prevista pela legislação norueguesa. Como escreveu Slavoj Žižek em artigo em The Guardian: “Breivik encarna a intersecção entre populismo de direita e o politicamente correto do liberalismo.”[12]

À luz destes aforismos de Vălcan, podemos tecer algumas considerações: primeiro, o conteúdo cínico dos seus enunciados parece impelido por uma vontade de adesão à “verdade” no sentido mais radical do termo (basta ser logicamente consequente às premissas ideológicas – antimarxistas, antimulticulturalistas, islamofóbicas, antissemitas – de Breivik e, inconscientemente, do mundo social no qual se vive), isto é, no sentido de que estes aforismos se fazem “simulacros da verdade”, refletindo o fantasma contemporâneo que está na base da ideologia reacionária e conservadora de Breivik; ademais, tal forma de encarnar a “verdade” não é sequer concebível, exceto como uma oposição a um ambiente social que carece dessa mesma verdade (pluralismo, proteção das minorias e reconhecimento dos direitos civis na sociedade capitalista e democrática).

O cerne do cinismo de Vălcan neste aforismo se desvela, pois, em sua pars destruens, isto é, em seu aspecto polêmico em relação à sociedade hipermoderna e hipercapitalista na qual nasceu, e que talvez leve, inevitavelmente, dentro de um século, à catástrofe planetária. Por outro lado, ao considerarmos a dimensão construtiva desse aforismo, nós nos descobrimos diante da afirmação de um princípio que deixa na sombra, em grande medida, uma definição precisa dos fundamentos sobre os quais repousam os valores morais, dos quais a enunciação cínica pretende ser, paradoxalmente, o veículo; portanto, opostamente à pars destruens totalizante, uma pars construens sucinta e quase inexistente – a afirmação, pois, de uma “verdade grosseira”, paradoxalmente verdadeira, em contraste (mesmo que paradoxalmente em linha) com a “verdade degenerada” da sociedade civil, das instituições, da cultura e afinal de toda a humanidade, invadida pelo sintoma “narcótico” e paranoico de Breivik, que se tornará, quase incontestavelmente, se aceitarmos a “lógica” delirante deste aforismo, a ideologia dominante do século XXII.

Em realidade, Ciprian Vălcan deixa aflorar, com estes aforismos, o aspecto essencialmente negativo e ardente da “verdade” globalizada de nossos tempos, alternando entre agressividade e gratificação subjetivas, o que equivale a uma cisão perturbadora a incidir sobre a linguagem. Se entendemos o Unheimlich freudiano como o “lugar do impróprio” em relação às modalidades de expressão de cada escritor, pode-se dizer também que com esse Unheimlich nós nos encontramos no “próprio” da experiência aforística-literária de Vălcan, concebida seja como ficção humorística ou como testemunho alarmado sobre os nossos tempos: o aforista é autorizado a di-vertir-se com o que mais atormenta o ser humano. É neste sentido apenas que os fantasmas globais e hipermodernos de Vălcan, que são também os da sociedade em que todos nós vivemos, parecem, transferidos para o plano da escritura, se tornam mais penosamente reais, e relativamente inofensivos, pois, ao atenuar a crueldade dos seus (dos nossos) monstros, internos e externos, permite ao autor, graças ao “bom uso” dos fantasmas culturais da tradição do pensamento filosófico, assumir “cinicamente” as situações mais paralisantes da vida psíquica, esvaziando-a de sua penosa carga afetiva, e aliás, no limite, gozando dela.

Como já observado por Ilinca Ilian, uma crítica muito atenta à sua produção aforística, “Ciprian Vălcan reúne o aspecto visionário e o lúdico, a sentença e o silogismo, a investigação filosófica e a descoberta estupefaciente de um imediato destituído de expectativas, ideais, valores ou preceitos de universos passados. […] Provocador, erudito, perturbador para quem espera uma leitura confortável, o autor empreende verdadeiras peregrinações espirituais, a partir de impulsos concretos, demonstrando ser um eterno apaixonado pelas nuances. Relacionando-se e dialogando com nomes inconfundíveis da cultura filosófica universal, Ciprian Vălcan se destaca pelo seu grito de alerta e pela presença de espírito, pela avidez de imagens fortes e sugestivas e por uma combinação engenhosa de digressão e concisão, capaz de manter o leitor em um estado de alerta permanente.”[13]

A espectralidade clássica do pensamento “cínico” de Vălcan, que se quer veementemente crítico, a partir da tradição filosófica ocidental que lhe serve de modelo, opõe-se abertamente ao fantasma regressivo da subjetividade capitalista, esta sim verdadeiramente cínica e perversa, e que não é senão a formação alienante de um inconsciente social “narcínico” e paranoico, de tipo reacionário, que se tem sedimentado gradualmente nos últimos anos da nossa História, após a implosão dos regimes comunistas do Leste europeu.

Atualmente, ninguém pode já escapar da subjetividade capitalista, porque esta é uma condição que não apenas descreve um estado de coisas psicológico, social e econômico, designa também uma estrutura política e ideológica da linguagem que indica, perversamente, a base enigmática do desejo e, além disso, do que está no base dos sofrimentos psíquicos codificados pela nova clínica psicanalítica.

A intenção teórica que anima o cinismo espectral em sentido crítico do pensamento de Vălcan é a de libertar o sujeito do estado inconsciente em que se encontra submetido às malhas demasiado apertadas e sufocantes da posição perversamente capitalista da “fala do senhor”, estabelecendo um cenário inédito para o desdobramento de desejos autênticos e para a eliminação do imperativo superegoico do “gozo”, realizando portanto uma “revolução permanente” não só na esfera privada da leitura de entretenimento (o aforismo é um gênero bastante difundido na Internet), como sobretudo no âmbito mais claramente político, pela denúncia pública da vida social que prevalece atualmente neste nosso planeta irreversível e definitivamente globalizado.

Giovanni Rotiroti[14]


[1] HAN, Byung-Chul, Psicopolítica: o neoliberalismo e as novas técnicas de poder. Trad. de Maurício Liesen. Belo Horizonte/Veneza: Âyiné, 2018, p. 56-57.

[2] MILNER, Jean-Claude, La politica delle cose. Breve trattato politico I. Trad. di Giovanni Tagliapietra. Pisa: Edizioni ETS, 2016, p. 37-38.

[3] Il precipitato em italiano. Em química, o depósito que se forma e cai no fundo do líquido em que se opera uma precipitação (n. do t.)

[4] SOLER, Colette, Declinaciones de la angustia. Bogotá: Anfora, 2007, p. 61-68.

[5] “O que temos no lugar do espanto? Temos algo muito preciso – que pode espantar-nos, mas não é o mesmo espanto – em seu lugar: o sem-sentido [non-sense], o fático que evoluiu através de toda a história até Heidegger. Não temos o desejo, todo mundo se queixa disso. Em seu lugar, retomando um termo que já havia utilizado, temos o narcinismo [narcynisme], condensando o narcisismo e o cinismo. Tampouco temos o silêncio, mas o que Lacan designou tão bem ‘o clamor generalizado’.” SOLER, Colette, Declinaciones de la angustia. Curso 2000-2001. Bogotá: Anfora, 2007, p. 61-68.

[6] Forma italiana do conceito de “mais-valia”, conforme postulado por Karl Marx em sua teoria econômica. Os correlatos (plus-interest em inglês; plus-godere em italiano) são neologismos inventados por Giovanni Rotiroti a partir de Mehrwert (“mais-valia” ou “mais-valor” em alemão) (n. do t.).

[7] Cf. “Il manifesto” (10/07/2010): Intervista di Massimo Recalcati a Colette Soler, Il Corpo Parlante al nocciolo del desiderio. Disponível em: https://www.praxislacaniana.it/wordpress/Praxis/Recensioni-Stampa/10-07_2010.pdf

[8] RECALCATI, Massimo, L’uomo senza inconscio. Figure della nuova clinica psicoanalitica. Milano: Raffaello Cortina Editore, 2010, pp. 12-13.

[9] “O crepúsculo dos pensamentos”, um dos últimos livros de Emil Cioran escritos em seu idioma materno, o romeno, antes de abandoná-lo para adotar o francês definitivamente como língua de escrita.

[10] Un Diogene duios, no original em romeno. CIORAN, Emil, Amurgul gândurilor. Bucareste: Humanitas, 1991, p. 8.

[11] Urmuz (1883-1923) foi um escritor romeno, considerado por alguns um herói da arte vanguardista europeia e por outros um individualista rebelde e iconoclasta. Seus escritos dispersos, de poesia e prosa curta, entre os quais as Pagini bizare, foram associados ao modernismo europeu e a movimentos artísticos de vanguarda como o Futurismo. Os versos sem sentido, o humor obscuro, as tendências niilistas e a exploração do inconsciente, na obra de Urmuz, têm sido apontados como influências do Dadaísmo e do Teatro do Absurdo.

[12] ŽIŽEK, Slavoj, “A vile logic to Anders Breivik’s choice of target”, The Guardian, 8 de agosto de 20110. Disponível em: https://www.theguardian.com/commentisfree/2011/aug/08/anders-behring-breivik-pim-fortuyn

[13] ILIAN, Ilinca, “Despre leneşi, monştri şi visători”, Orizont – Uniunii Scriitorilor din România, nr. 8/2013, Timisoara (Romênia), p. 24.

[14] Giovanni Rotiroti é escritor, psicanalista e professor de língua e literatura romenas na Università degli studi di Napoli L’Orientale, onde tem ministrado cursos sobre uma diversidade de autores romenos, tais como Mihai Eminescu, Urmuz, Ion Luca Caragiale, Tristan Tzara, Ion Vinea, Geo Bogza, Sasa Pana, Max Blecher, Ilarie Voronca, Benjamin Fundoianu, Tudor Arghezi, Bacovia, Ion Barbu, Lucian Blaga, Emil Cioran, Mircea Eliade, Petru Comarnescu, Constantin Noica, Dan Botta, Eugen Ionescu, Gherasim Luca, Gellu Naum, Paul Painaun, Virgil , Paul Celan, Petre Solomon, Nichita Stanescu, Marin Sorescu, Marin Mincu, Norman Manea, Dumitru Tepeneag, Mircea Cartarescu e Marta Petreu. Rotiroti é investigador da literatura popular de tradição oral romena, que remonta a um passado mítico e pré-cristão, como As canções dos mortos, as lendas da Miorita e do Mestre Manole, além de contos de fadas e magia.

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