“Chuang Tzu e a borboleta em Macondo” – Adriana LISBOA

Revista Cult, n. 87, dez. 2004

Conta a lenda que o sábio taoísta Chuang Tzu, ao dormir, sonhou ser uma borboleta, mas ao acordar se perguntou: será que eu era antes Chuang Tzu sonhando ser uma borboleta ou sou agora uma borboleta adormecida, sonhando ser Chuang Tzu?

Gustavo Bernardo interpreta essa indecisão do sábio “como um testemunho da indizibilidade do real, ou como um atestado da sua instabilidade” (A ficção cética. São Paulo: Annablume, 2004. p. 17). Dito de outro modo: a dúvida de Chuang Tzu nos lembra de que não somos capazes de delimitar, com segurança, aquilo a que arbitrariamente nos habituamos a chamar de “mundo real”. Será que essa suposta tangibilidade do cotidiano, com sua pletora de informações, ruídos e acontecimentos é tão confiável assim? Ou pelo menos: será que é o que parece?

Creio que a dúvida de Chuang Tzu nos remete à experiência da ficção – da leitura e da escrita da obra de ficção. E possivelmente o “atestado de instabilidade” do real que essa dúvida parece conceder fala, também, do nosso trânsito pelo território da literatura.

Aqui me lembro de Frau Frida, a mulher que, no conto de Gabriel García Márquez, se aluga para sonhar. Basicamente, sua tarefa era ouvir os sonhos das pessoas, no café da manhã, e decidir “o que cada um deveria fazer naquele dia, e como deveria fazê-lo, até que seus prognósticos acabaram sendo a única autoridade na casa.” (Doze contos peregrinos. Trad. Eric Nepomuceno. Rio de Janeiro: Record, 1992. p. 95). Sua capacidade de comunicação com o mundo mágico acaba por torná-la rica. A ficção se oferece a nós como uma espécie de Frau Frida, sonhadora de aluguel, capaz de nos reconciliar com essa “indizibilidade” e essa instabilidade do real. É como se por meio da leitura e da escrita da ficção recuperássemos o assombro dos antigos diante do primeiro eclipse, ou a curiosidade que tínhamos quando, ainda no berço, examinávamos nossas próprias mãos.

Gustavo Bernardo nos lembra ainda de que “a existência do discurso ficcional explicita a dúvida crucial que sentimos quanto à realidade da realidade. Essa dúvida é equivalente à dúvida que o espelho nos provoca, em especial se nos demorarmos muito tempo à sua frente. Porque suspeita do real, a ficção produz sobre ele uma nova perspectiva e, conseqüentemente, uma segunda realidade” (op. cit., p. 23).

No conto de García Márquez, Frau Frida se aluga para interpretar sonhos: ou seja, para que o trânsito que todos experimentamos por esse território nebuloso e noturno redunde em “realidade”. O que faz dela uma mulher admirada e rica é a capacidade de “acertar” na interpretação dos sonhos – a capacidade de torná-los úteis. Mas, parafraseando Leminski e Manoel de Barros, a literatura é um “inutensílio”. Isso é precisamente o que lhe confere leveza e lhe dá o passaporte para transitar nesse universo dos sonhos, nesse território onde Frau Frida reinava com tanta propriedade até morrer convenientemente alçada, dentro de seu carro, por uma onda gigante, e espetada, veículo e tudo, num muro… [+]

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