“O homem que se apaixonou por um machado” – Ciprian VĂLCAN

International Writer’s Journal, year 3, no. 1, January-March, 2022. ISSN (print): 2690-1846 ISSN (online): 2690-1854

“Um homem russo de 38 anos pediu a sua esposa que o atacasse com um machado dentro de casa. A proposta de casamento sem precedentes aconteceu no tribunal em que ocorreu o processo em torno do fato, noticiou The Moscow Times. A promotoria de Tomsk disse que a mulher de 67 anos e seu namorado discutiam constantemente sobre a “recusa do homem em limpar o apartamento”. “Durante o julgamento, o homem pediu à acusada em casamento e eles se casaram. Como marido da acusada, ele pediu ao tribunal que não a condenasse”, anunciou o procurador-geral da região de Tomsk, onde ambos residem. “A mulher atacou o homem por trás enquanto ele assistia à TV, acertando-o várias vezes com um machado na cabeça, costelas e pescoço”, disse a promotoria de Tomsk em um comunicado divulgado por The Moscow Times. Após o ataque, o homem tentou convencer os médicos e policiais que chegaram ao local de que ele tinha se ferido após ter caído acidentalmente. O Tribunal Regional de Tomsk considerou a mulher culpada de lesão corporal grave, mas devido ao casamento inesperado dos dois, só poderiam sentenciá-la a três anos de prisão com suspensão, sendo que semelhante crime é punido na Rússia com 10 anos de prisão. Os promotores também especificaram que a sentença ainda não havia entrado em vigor e que o casal ainda podia apelar” (Adevărul, 14 de outubro de 2021).

Ludmila Pavlova era uma garota que lia apenas romances. Sempre que alguém a procurasse, podia ter certeza de que a encontraria com um romance nos braços, com páginas cobertas de adorações. Ludmila amava o amor, amava tudo o que havia sido escrito sobre o amor e caminhava com um passo tão fácil que temia esmagar um traço invisível de amor. Suas bochechas estavam sempre vermelhas com as emoções do amor que ela descobriu nas almas de seus personagens favoritos, então ela não tinha muito tempo para amar de verdade também, sempre retornando aos seus pensamentos, como se sentasse para conversar, sem interrupção, com os heróis que as mentes magníficas de certos escritores se esforçaram para trazer à luz e dotar de vida.

O ser incomum de Ludmila não podia passar despercebido. E se quase todos os seus colegas a ironizavam, imitando o seu estilo delicado e o seu olhar perdido que sempre pareceram de fora deste mundo, sem esquecer de imitar os seus soluços inesperados e sem motivos plausíveis, os professores a consideravam especial e a cercavam de toda a atenção possível, acreditando que se tratava de um dos últimos românticos remanescentes na Rússia e, provavelmente, em todo o mundo. Por isso, mesmo sem aprender quase nada, sempre focada nas histórias de amor que lia dia e noite, Ludmila só tirava notas altas, considerada sempre exemplar, tendo sido apresentada como orgulho da escola nas inúmeras fiscalizações realizadas lá. Irritada, tímida, enredada em algumas banalidades literárias, a jovem impressionou muito bem os oficiais vindos de Moscou, lamentosos de que semelhantes crianças, como se tivessem surgido de um outro tempo, de tempos maravilhosos de disciplina, ordem e paixão pela literatura, não pudessem ser encontradas em maior número para preservar a herança grandiosa da Rússia.

Aos 17, Ludmila já era vista assim. Aos 37 anos, quando trabalhava em um instituto de pesquisa literária, as coisas não haviam mudado. Ela vivia sempre com a cabeça nas nuvens, com um sorriso misterioso nos lábios, sempre a estremecer de admiração, e mal olhava para os colegas, raramente consentindo em trocar algumas palavras para fazê-los felizes por algumas semanas. Todos consideravam que ela era um ser tão especial que tinha pouco em comum com o mundo à sua volta, que parecia descer de suas histórias, para as quais retornaria quando chegasse a hora.

Aos 57 anos, Ludmila, cujo corpo tinha perdido um pouco da flexibilidade, mas permanecia tão gracioso como antes, e com os movimentos sonâmbulos que sempre conquistaram todos ao seu redor, continuava sendo como um ímã que magnetizava todos os homens de Tromsk que tinham aspirações literárias, e também de Novosibirsk, Seversk e Kemerovo. Eles se apaixonavam por ela, como sempre, aqueles senhores cavalheirescos, com suas gordas barbas e contas bancárias, mas sem nenhum talento. Ludmila tratava a todos com a mesma superioridade indiferente, sempre absorta em seus pensamentos, sempre em seu mundo que tão pouco tinha em comum com o mundo siberiano.

Ninguém conseguia entender o que acontecera em 15 de março de 2018, quando Pavel Klughin, um tenor de 35 anos, foi autorizado no apartamento de quatro cômodos de Ludmila Pavlova, com um piano de cauda e mobiliário japonês, onde era sempre quente e confortável, como imaginavam os homens de Tomsk, Novosibirsk, Seversk e Kemerovo, que nunca tinham tido o privilégio de serem recebidos por ela. Mas, a partir desse momento, Pavel Klughin e Ludmila Pavlova passaram a viver juntos, sem que ninguém soubesse se eram felizes ou infelizes. Foi só após Ludmila ter atacado Pavel com um machado que se espalhou a notícia sobre eles. A maioria dos homens de Tomsk, Novosibirsk, Seversk e Kemerovo sentiu-se justificada, considerando que Ludmila não tinha nenhum lugar na face da terra e devia permanecer inacessível a todos, sozinha e cheia de graça. Mas outros, em número não muito elevado, se deram conta de que Ludmila havia se apaixonado pela primeira vez na vida e que, assustada, atacara o namorado com um machado, tentando fazê-lo em pedaços.


Trad. do romeno (Bărbatul care s-a îndrăgostit de un topor): Rodrigo Inácio R. Sá Menezes (08/01/2022).

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