“E o povo?” – CIORAN

“E o povo?”, perguntarão. O pensador ou o historiador que emprega esta palavra sem ironia se desacredita. O “povo”, sabe-se muito bem a que está destinado: a sofrer os acontecimentos e as fantasias dos governantes, prestando-se a desígnios que o enfraquecem e o oprimem. Toda experiência política, por mais “avançada” que seja, desenrola-se à sua custa, dirige-se contra ele: o povo carrega os estigmas da escravidão por decreto divino ou diabólico. É inútil apiedar-se dele: sua causa é sem remédio. Nações e impérios se formam por sua complacência nas iniquidades das quais ele é objeto. Não há chefe de Estado nem conquistador que não o despreze; mas aceita este desprezo e vive dele. Se o povo deixasse de ser débil ou vítima, se não cumprisse seu destino, a sociedade se desvaneceria, e com ela a história. Não sejamos tão otimistas: nada no povo permite considerar uma eventualidade tão bela. Tal como é, representa um convite ao despotismo. Suporta suas provações, às vezes as solicita, e só se revolta contra elas para buscar outras novas, mais atrozes que as anteriores. Sendo a revolução seu único luxo, precipita-se em sua direção, não tanto para obter alguns benefícios ou melhorar sua sorte, mas para adquirir também seu direito à insolência, vantagem que o consola de suas decepções habituais, mas que logo perde quando são abolidos os privilégios da desordem. Como nenhum regime assegura sua salvação, o povo acomoda-se a todos e a nenhum. E, desde o Dilúvio até o Juízo Final, a única coisa a que pode aspirar é cumprir honestamente sua missão de vencido.


CIORAN, “Escola dos tiranos”, História e utopia. Trad. de José Thomaz Brum. Rio de Janeiro: Rocco, 1994.

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