“O fim da teoria” – Byung-Chul HAN

Numa carta endereçada a sua mulher, escreve Martin Heidegger: “O outro, inseparável do amor a ti e, de outro modo, inseparável do meu pensamento, é difícil de dizer. Chamo-o de Eros, o mais antigo dos deuses, segundo a palavra de Parmênides. O bater as asas daquele deus toca-me cada vez que no pensamento dou um passo essencial e ouso avançar no ainda não trilhado. Ele me toca, talvez, mais fortemente e de forma mais misteriosa que outros, quando o que há muito tempo se adivinhou precisa ser trazido à região do dizível e quando o dito tem de ser abandonado à solidão por muito tempo. Corresponder a isso limpidamente e, no entanto, conservar o que é nosso, seguir o voo e, no entanto, retornar bem, realizar ambas essas coisas de forma igualmente essencial e como convém, é isso em que facilmente eu fracasso, e então escorrego para a mera sensorialidade ou, através do mero trabalho, tento forçar aquilo que não pode ser forçado[1]. Sem a sedução do outro atópico, que acende uma cupidez erótica no pensamento, esse se atrofia em mero trabalho, que reproduz sempre o igual. Falta ao pensamento calculista a negatividade da atopia. É trabalho no positivo. Não há nenhuma negatividade para lançá-lo para a inquietação. O próprio Heidegger fala de “mero trabalho”, para onde escorrega o pensamento quando não é impingido pelo eros, e ousa lançar-se no “que ainda não foi trilhado”, no incontrolável. O pensamento é tocado “mais fortemente”, “mais misteriosamente” pelo bater das asas de eros, no momento em que o outro atópico, inefável procura transpor-se para a linguagem. A resistência do outro atópico está totalmente ausente do pensamento calculativo, impulsionado por dados. O pensamento sem eros é meramente repetitivo e aditivo. E o amor, sem eros, sem seu impulso espiritual, degenera em “mera sensorialidade”. Sensorialidade e trabalho pertencem à mesma ordem. Eles não têm espírito nem cupidez.

Há poucos anos atrás o redator-chefe da revista Wired, Chris Anderson, publicou um artigo provocativo com o título “The end of theory”. Ali, ele afirma que uma quantidade inimaginavelmente grande de dados, que ora estão disponíveis, tornariam totalmente supérfluos os modelos teóricos: “Hoje  as  empresas  como  o  Google®,  que  cresceram  em  uma  era  de  dados maciçamente abundantes, não têm de se ajustar a modelos errados. Na verdade, eles não têm de se ajustar a nenhum tipo de modelo[2]. Analisam-se dados e busca-se encontrar cada vez mais modelos (patern) de afiliações ou dependências. No lugar de modelos teóricos hipotéticos, surgem ajustamentos niveladores diretos de dados. A correlação substitui a causalidade: “Fora com toda teoria do comportamento humano, desde a linguística até a sociologia. Esqueça a taxonomia, a ontologia e a psicologia. Quem sabe a razão por que as pessoas fazem o que fazem? A questão é que elas fazem algo e nós podemos acompanhar e mensurar isso com uma fidelidade sem precedentes. Tendo dados suficientes, os números irão falar por si mesmos[3].

Anderson fundamenta sua tese com um conceito teórico fraco, abreviado. A teoria é mais que um modelo ou uma hipótese que pudesse ser verificada ou refutada através de experimentos. Teorias fortes, como por exemplo a teoria das ideias de Platão ou a fenomenologia do espírito de Hegel, não são modelos que pudessem ser substituídos por análises de dados. Em sua base está um pensamento em sentido enfático. A teoria apresenta uma decisão essencial, que faz o mundo aparecer de forma totalmente distinta, numa luz totalmente diferente. É uma decisão primária, primordial que decide sobre o que pertence e o que não pertence a ela, o que é ou deve ser e o que não. Como narração altamente seletiva, ela abre uma via de distinção através do que ainda “não foi trilhado”.

Na verdade, não existe isso de um pensamento impulsionado por dados. Impulsionado por dados é apenas o cálculo. No seio do pensamento reside apenas a negatividade do incontável ou incontrolável. Esse tem uma ordenação prévia, sim é dado previamente aos “dados”, isto é, ao dado determinado. A teoria que está à base do pensamento é um dom primordial (Vor-gabe). Ela transcende a positividade do dado e permite inclusive que este apareça numa nova luz. Isso não é romantismo, mas a lógica do pensamento que vigora desde seus inícios. A massa de dados e de informações, que hoje cresce de forma desmedida, desvia imensamente a ciência da teoria, do pensamento. Em si mesmas, as informações são positivas. A ciência positiva baseada  em  dados  (a  ciência  Google®),  que  se  esgota  no  nivelamento  e comparação de dados, põe fim à teoria em sentido enfático. Ela é aditiva ou detectiva; não é narrativa nem hermenêutica. Falta-lhe a tensão penetrante e narrativa. Assim degringola em informações. Em virtude da crescente massa de informações e dados, hoje as teorias são muito mais necessárias do que antigamente. Elas impedem que as coisas se misturem e proliferem. Eles reduzem a entropia. A teoria clareia o mundo antes de esclarecê-lo. Temos de pensar a origem comum de teorias e cerimônias ou rituais. Elas colocam o mundo em forma. Formam o curso das coisas e lhe dão enquadramento a fim de que elas não extrapolem as fronteiras. A massa de informações de hoje, ao contrário, atua de modo deformativo.

A massa de informações eleva massivamente a entropia do mundo, sim, o nível de ruído. O pensamento necessita de silêncio. É uma expedição para o silêncio. A atual crise da teoria tem muito em comum com a crise da literatura e a crise da arte. O representante francês do nouveau roman, Michel Butor, concebe-a como uma crise do espírito: “Não vivemos apenas numa crise econômica, vivemos também numa crise literária. A literatura europeia está em perigo. O que estamos vivenciando hoje na Europa é uma crise do espírito[4]. À questão sobre onde se pode reconhecer essa crise do espírito, Butor responde: “Já há dez ou vinte anos quase nada mais acontece na literatura. Há uma inundação de publicações, mas uma estagnação espiritual. A causa é uma crise da comunicação. Os novos meios de comunicação são admiráveis, mas causam um barulho monstruoso”. A massa de informações em proliferação, essa desmedida positividade, se expressa como barulho. A sociedade da transparência e a sociedade da informação é uma sociedade com alto nível de barulho. Mas sem negatividade só irá existir o igual. O espírito, que originalmente significa inquietação, deve a essa sua vivacidade.

A ciência positiva, movida por dados, não produz nenhum conhecimento ou verdade. Das informações, apenas tomamos conhecimento. Informações, enquanto positividades, nada mudam nem nada anunciam. São totalmente inconsequentes. O conhecimento, ao contrário, é uma negatividade. Ele é exclusivo, requintado (exquisit) e executivo. Assim, um conhecimento, precedido por uma experiência, pode abalar tudo que-já-tem-sido, e fazer surgir algo totalmente distinto. A desmedida em simples tomadas de conhecimento não deixa surgir nenhum conhecimento. A sociedade da informação é uma sociedade vivencial. Também a vivência é aditiva e cumulativa. É nisso que ela se distingue da experiência, que é, muitas vezes, única. E assim, tampouco tem acesso ao totalmente outro. Falta-lhe o eros, que transforma. Também a sexualidade é uma fórmula de vivência positiva do amor. Por isso, ela também é aditiva e cumulativa.

Nos diálogos de Platão, Sócrates é descrito como sedutor, amante a amado, que em virtude de sua singularidade é chamado de atopos. Seu discurso (logos) se realiza ele próprio como uma sedução erótica. Por isso, ele é comparado com o sátiro Mársias. Sabe-se que os sátiros e as sereias são os acompanhantes de Dioniso. Sócrates seria mais admirável que o tocador de flauta Mársias, pois ele seduz e embriaga apenas através das palavras. Todo aquele que ouvir seus discursos fica fora de si. Alcebíades afirma que, ao ouvi- lo, seu coração batia mais forte do que os que são arrebatados pela dança de coribantes. Sente-se ferido por esses “discursos da sabedoria” (philosophia logon) pior do que se fosse picado por uma serpente. Seus discursos levariam às lágrimas. Até o presente quase não se tem dado atenção ao fato de, nos primórdios da filosofia e da teoria, o logos e o eros caminharem de mãos dadas. O logos não tem qualquer força sem o poder de eros. Alcebíades conta que Péricles e outros bons oradores não conseguiam atingi-lo nem o inquietar como fazia Sócrates. Faltava a suas palavras a força sedutora de eros.

Eros conduz e seduz o pensamento pelo intransitado, pelo outro atópico. A daimonia do discurso socrático remonta à negatividade da atopia. Mas ela não desemboca na aporia. Contrariamente à tradição, Platão afirma que poros seria o pai de eros. Poros significa caminho. É bem verdade que o pensamento ousa trilhar o intransitado, mas não se perde nele. Em virtude de sua proveniência, eros lhe mostra o caminho. Filosofia é a tradução do eros em logos. Quando observa que é tocado pelo bater das asas de eros, Heidegger está seguindo a teoria platônica de eros, tão logo ele dê qualquer passo essencial no pensamento e se lance a trilhar o intransitado.

Em Platão, eros é chamado de philosophos, amigo da verdade[5]. O filósofo é um amigo, um amante. Esse amante não é, porém, uma pessoa exterior, não é uma circunstância empírica, mas “uma presença íntima no pensamento, uma condição de possibilidade do próprio pensar, uma categoria viva, uma vivência transcendental[6]. Em sentido enfático, o

pensamento só se eleva mesmo a partir de eros. Para poder pensar, é preciso antes ter sido um amigo, um amante. Sem eros, o pensamento perde toda e qualquer vitalidade, toda inquietação e se torna repetitivo, reativo. O eros enerva o pensamento com a cupidez pelo outro atópico. Em Was ist Philosophie [O que é a filosofia], Deleuze e Guattari elevam o eros como sendo a condição de possibilidade transcendental para o pensamento: “O que significa ‘amigo’, se ele […] é a condição de realização do pensamento? Ou será que amante não é propriamente amante? E o amigo não irá introduzir novamente e ainda no pensamento uma relação vital com o outro, que se acreditava ter sido excluída do pensamento puro?[7]


HAN, Byung-Chul, “O fim da teoria”, Agonia do Eros. Trad. de Enio Paulo Giachini. Petrópolis: Vozes, 2017.


NOTAS:

[1]. Briefe Martin Heideggers an seine Frau Elfride 1915-1970. Munique, 2005, p. 264.

[2]. “Today companies like Google®, which have grown up in an era of massively abundant data, don’t have to settle for wrong models. Indeed, they don’t have to settle for models at all” (Wired Magazine, 16/07/2008).

[3]. “Out with every theory of human behavior, from linguistics to sociology. Forget taxonomy, ontology, and psychology. Who knows why people do what they do? The point is they do it, and we can track and measure it with unprecedented fidelity. With enough data, the numbers speak for themselves”.

[4]. Zeit, 12/07/2012.

[5]. Symposion, 203e.

[6]. DELEUZE, G. & GUATTARI, F. Was ist Philosophie? Frankfurt a. M., 1996, p. 7.

[7]. Ibid.

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