“O subsolo da negação”: niilismo e antissemitismo em Dostoiévski – Michèle COHEN-HALIMI

Dostoievski põe em cena o escândalo de uma existência desprovida de fé religiosa. Em seu último romance, essa mise en scène se concentra na relação dos três irmãos Karamazov: ela segue as transformações de Ivan, o ateu, e de Aliocha, o crente. Como se o caminho traçado pelo romance devesse conduzir do ateísmo ao amor do crente, sob o efeitos de suas transformações recíprocas. Caminho de Ivan em direção a Aliocha, se se quiser, mas a um Aliocha que não vai acreditar mais na potência do amor cristão, e cujo amor terá sido também transfigurado pelo sofrimento de seus irmãos. Caminho que não se poupa então nem as dores nem os desesperos da existência humana, trajetória quase escancarada da Ressurreição de Lázaro, que Raskolnikov pede que Sonia leia para ele:

Não é como uma criança que eu creio no Cristo e confesso a minha fé – escreve Dostoiévski nos seus Cadernos –, e é do cadinho da dúvida que eu lanço o meu hosana.[1]

E o escritor prossegue:

Os crápulas zombam de mim por causa da minha fé em Deus, digna de um homem sem cultura e retrógrado. Mas esses imbecis nem sequer sonharam com semelhante potência de negação de Deus, como a do Inquisidor e do capítulo precedente, às quais todo o romance serve de resposta. Não é como um idiota (fanático) que eu creio em Deus. E essas pessoas quiseram me ensinar e zombaram da minha carência de desenvolvimento intelectual! Sim, em sua estúpida natureza, ele nem sequer imaginaram a força de negação que eu precisei combater.

Enquanto Dostoievski experimenta pelo romance a negação extrema e os tipos de existência que ela implica – reflexão que toca os extremos existenciais da filosofia e do romance engajados no niilismo político –, este último balança sempre mais fortemente na ação terrorista. Por quê? O atentado fracassado do estudante Karakasov[2] que dispara contra o czar, em 4 de abril de 1866, desencadeia uma política de reação policialesca, denominada “terror branco”, do qual Dostoiévski se declara próximo. Três anos mais tarde acontece o crime perpetrado por Netchaiev.[3] Mas essa manifestação repetida de acontecimentos esporádicos não é ainda a mais significativa, ocultando a transformação profunda da ação revolucionária, devido à influência de Tchernichevski.[4] Doravante, os jovens revolucionários buscam antes de tudo educar as massas analfabetas, transformam-se em peregrinos do socialismo e passam a chamar-se Narodniks[5]:

A peregrinação em meio ao povo não era um movimento de massa de grande estilo; mas compreendeu, no seu apogeu, por volta de 1874, uma dezena de milhares de participantes. Uma ação revolucionária de semelhante envergadura não era possível sem a tolerância muda de grande parte da classe burguesa. Ela exigia consideráveis somas de dinheiro e um mínimo de organização. Os Narodniks se disfarçaram de sapateiros, vendedores ambulantes, professores e escritores públicos […] Todos eles só tinham a ganhar, nada a perder; o menor entretenimento, a mais rápida viagem, o encontro mais insignificante era um crime contra o Estado e a polícia os perseguia até nos albergues mais isolados.

Essa mudança imposta por Tchernichevski à ação revolucionária explica sem dúvida alguns novos acontecimentos e a brutalidade de sua repressão: em dezembro de 1876, estudantes se reúnem na catedral de Kazan para exigir a celebração de um ofício à memória dos presos mortos na colônia penal. Diante da recusa com que se deparam, exigem a autorização de fazer uma oração para Tchernichevski. Chamados a sair da catedral, improvisam uma manifestação na praça de Kazan onde são brutalmente detidos pela polícia. Desse episódio da “manifestação da praça de Kazan”, Dostoievski só retém uma coisa: a presença de três jovens judeus (Novakovski, condenado ao exílio; Felitsia Cheftel, que carregava a bandeira vermelha de “Terra e Libertade”, deportada para a Sibéria, e Alexandre Bibergal, condenado a quinze anos de trabalhos forçados). O Judeu torna-se para Dostoievski a figura por excelência do niilista e da subversão revolucionária. É o que ele escreve muito claramente em carta de 29 de agosto de 1878, endereçada a Putsikovitch:

[…] quando vão entender a que ponto, por detrás do niilismo, estão os yid [youpin[6]] […]. Yids de toda espécie envolvidos no incidente da praça de Kazan, sem falar nos yids ao longo de toda a história de Odessa. Odessa, a cidade dos yids, é o coração do socialismo que viceja entre nós. Na Europa, é exatamente a mesma coisa: os yids são terrivelmente ativos no socialismo, e não falo aqui dos Lassalle e dos Karl Marx. E não há razão para espanto: o yid só tem a ganhar com cada cataclisma e golpe de estado, posto que constitui, ele mesmo – status in statu –, a sua própria comunidade, que é inviolável, e que só faz tirar proveito de tudo o que contribuir para minar tudo que não é yid.

Estranha colusão do Judeu e do niilista nesta diatribe antissemita. Como se um estereótipo, o do “yid [youpin]” internacionalista, apátrida, animado pelo lucro, membro de um Estado dentro do Estado, etc., viesse revelar a parte fantasmática de um outro estereótipo, o do “niilista”. Transformados em dupla face de um mesmo perigo, o “Judeu” e o “niilista” atualizam os temas mais arcaicos do antijudaísmo cristão: o Judeu é, com efeito, incapaz de mediação, incapaz também de encarnar a sua fé – todos estes motivos são martelados pelos textos do jovem Hegel –, e esse pretenso déficit de mediação e de encarnação, próprio à religião judaica, faz viver aqui de um modo inconsciente e fóbico toda a parte representativa do vocábulo “niilismo”. O judaísmo é para Dostoievski o anagrama do niilismo, que não se concebe metafisicamente sem um funesto suplemento de antissemitismo. Como se os Judeus figurassem na metafísica a objeção mais forte à forma encarnada (logo cristã) da transcendência. Como se viesse subitamente cristalizar-se sobre os temas do antijudaísmo cristão toda a pré-história do vocábulo “niilismo”. Pois o que retorna à superfície das palavras é a origem teológica do “niilismo”, é a heresia de Pedro Lombardo, teólogo escolástico do século XII que sustentava a proposição “niilianista” segundo a qual o Cristo, longe de encarnar o Verbo, não era “nem uma pessoa nem uma coisa qualquer”, e por conseguinte não era “nada”… A questão da mediação e da efetividade, que perpassa todo o niilismo político, encontra assim a sua tradução repulsiva em um antijudaísmo virulento, representado como uma heresia teológica recalcada, a do Cristo-nada, a da não-encarnação do Verbo… Os signos do inconsciente duplicam a série mental dos discursos e dos romances dostoievskianos, série mental, inconsciente, reproduzindo ela mesma a violência da repressão czarista. […]

De onde vem a hipertrofia do clichê antissemita no discurso de Dostoievski? Como e por que a sua linguagem política vem a martelar a equivalência: niilismo = ateísmo = socialismo = anarquismo = judaísmo = Anticristo?

Cumpre começar, sem dúvida, por distinguir dois planos do discurso em Dostoiévski, de onde uma topologia. Um discurso de subsolo trabalha no contra-dito, na contra-frase de tudo o que o escritos entende, vê, na superfície dos signos. No subsolo elabora-se um trabalho de ruptura [d’écart] e de experimentação. E o romance é o lugar privilegiado desse trabalho. Que trabalho? O de uma escrita que se pretende estrangeira à filosofia e que pretende fazer do seu estrangeirismo uma chance para mudar as referências [répères] e os valores do discurso filosófico e político dos jovens niilistas. O romance altera ou destrói o pensamento dominante do niilismo. Como? Exigindo dos niilistas, transformados em figuras romanescas, que verifiquem nas suas existências mesmas o valor do seu pensamento. O romance serve para cravar no corpo dos niilistas a sua própria linguagem, de modo que seja vivida como uma condição da existência e a filosofia se revele como aquilo que é, o mesmo em relação aos sintomas que ela gera: a tragédia sempre recomeçada de uma colônia penal, de uma vida que ninguém desejaria reviver, numa palavra, o desespero de uma vida sem Deus. O romance de Dostoiévski dá forma a uma sintomatologia e a uma psicologia do niilismo e ao mesmo tempo abre a possibilidade para que a vida humana reencontre a integridade do seu ser pela integração a um cristianismo compreendido como paixão da existência, como religião do sofrimento. […]

Mas como esta série subterrânea de signos da dicção filosófica e da contra-dicção romanesca se relaciona com os signos políticos das posições públicas de Dostoiévski? No subsolo, o escritor elabora tomadas de distância mas, na superfície, ele ataca, acusa, e o seu trabalho se esborracha em diatribes, prosaíza-se em insultos, reduz-se à sua própria caricatura. Quanto mais as tensões políticas se intensificam, mais ele desliza em direção aos meios eslavófilos, mais se aproxima de personalidades políticas funestas (notadamente Pobedonostsev, procurador do Santo Sínodo e sinistro conselheiro de Alexandre III, em seguida de Nicolau II) para terminar como colaborador da revista ultra-reacionária O Cidadão. As convicções conquistas pelas experimentações existenciais dos seus romances abreviam-se nos preconceitos mais violentos dos reacionários eslavófilos: a Rússia, compreendida como nação-messias, como o único povo teóforo, deve defender-se da sua própria ocidentalização, que degenera em niilismo, socialismo, anarquismo. E essa defesa parece dever colocar a Rússia em concorrência com a eleição do povo judeu. De onde um novo estrato, nacionalista se se quiser, do antissemitismo virulento que Dostoievski exprime em seus posicionamentos públicos, em cartas ou anotações de cadernos: se os vocábulos subterrâneos não se articulam entre eles segundo a sua circulação superficial, é que eles procedem de um trabalho, o da literatura, ao passo que na superfície eles tomam a rapidez da sua propagação de outros discursos que, literalmente, correm de lá para cá da maneira mais errática. É assim que a recusa da ocidentalização da Rússia na equivalência de ateísmo, socialismo e anarquismo, cresce e se obscurece em contato com outro vocábulo: judaísmo. De um lugar ao outro, do subsolo à superfície, as correntes filosófica e política dos signos se recobrem desfigurando-se, traindo-se. Mas talvez essa traição seja ela mesma uma tradução que permite decifrar, na fonte, os efeitos de sentido que produzem os deslocamentos topológicos disso que já se denominou anacronicamente o existencialismo cristão de Dostoiévski…


COHEN-HALIMI, Michèle, “Le sous-sol de la négation”, L’Histoire cachée du nihilisme: Jacobi, Dostoïevski, Hedegger, Nietzsche. Paris: La Fabrique, 2008. Trad. de Rodrigo Menezes.


NOTAS:

[1] Hino eclesiástico que se canta no Domingo de Ramos; canto ou grito de alegria, aclamação, expressão designativa de alegria ou de saudação (ave, salve). “O Hosana não entra em nossos hábitos”, escreve Cioran em História e Utopia.

[2] Dmitri Karakazov (1840-1866) foi um ativista revolucionário russo, o primeiro terrorista político do império russo a atentar contra a vida de um czar.

[3] Sergei Netchaiev foi um anarquista e revolucionário russo, no qual seriam inspirados muitos dos personagens de Dostoievski, como Piotr Verkhovenski e outros niilistas políticos do romance Os Demônios.

[4] Nicolai Tchernichevski (1828-1889) foi um filósofo, escritor e ativista revolucionário russo, membro do movimento Narodnik.

[5] Movimento socialista de caráter carismático e populista que se misturava ao povo, disfarçando-se de operários ou camponeses, para educar as massas e qualificá-la como uma classe social revolucionária. O nome é inspirado na frase: Khojdenie v narod, “Ir para o povo”.

[6] Yid (youpin em francês) é um termo de conotação fortemente racista, notadamente antissemita, empregado aqui por Dostoiévski. É derivado de youtre ou yaoudi, do árabe yahūdī, designação de um indivíduo judeu. A lingüista Marie Treps traça a origem da palavra Yid em 1878 na revista Tam-tam de Alfred Little. O substantivo adquire desde sua criação uma conotação depreciativa. Albert Cohen relata na revista France Libre que uma virada em sua vida literária foi marcada pelo momento em 1904 em que o insulto “youpin imundo” lhe foi dirigido.


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