“Sobre a morte” – CIORAN

Certos problemas, uma vez aprofundados, isolam-nos na vida, esvaziam-nos de tudo: então não temos mais nada a perder ou a ganhar. A aventura espiritual ou a projeção indefinida em direção às formas múltiplas da vida, a tentação de uma realidade inacessível não são mais do que simples manifestações de uma sensibilidade exuberante, privada da seriedade que caracteriza quem aborda questões vertiginosas. Não se trata aqui da gravidade superficial daqueles de quem se diz “sérios”, mas de uma tensão cuja loucura exacerbada eleva-nos, a todo o momento, ao plano da eternidade. Viver na história perde então toda a significação, pois o instante é experimentado tão intensamente que o tempo desaparece perante a eternidade. Alguns problemas puramente formais, não importa o quão difíceis eles sejam, não exigem de nenhuma forma uma seriedade infinita, pois, longe de surgir das profundezas do nosso ser, eles são unicamente os produtos da incerteza da inteligência. Somente o pensador orgânico é capaz deste tipo de seriedade, na medida em que para ele as verdades vêm de um suplício interior mais do que de uma especulação gratuita. Àquele que pensa pelo prazer de pensar opõe-se este que pensa sob o efeito de um desequilíbrio vital. Eu adoro o pensamento que preserva um sabor de sangue e de carne e prefiro mil vezes à abstração vazia uma reflexão originária de um transporte sensual ou de uma fusão nervosa. Os homens ainda não entenderam que o tempo das admirações superficiais passou, e que um grito de desespero é bem mais revelador do que a mais sutil das argúcias; que uma lágrima tem sempre fontes mais profundas do que um sorriso. Por que nos recusamos a aceitar o valor exclusivo das vivas verdades, estas que são originárias de nós mesmos? Somente compreendemos a morte experimentando a vida como uma agonia prolongada, num todo em que vida e morte misturam-se completamente.

Os saudáveis não têm a experiência da agonia, nem a sensação da morte. Sua vida desenrola-se como se tivesse um caráter definitivo. É próprio das pessoas normais considerar a morte como algo que surge do exterior e não como uma fatalidade inerente ao ser. Uma das maiores ilusões consiste em esquecer que a vida é cativa da morte. As revelações de ordem metafísica somente começam assim que o equilíbrio superficial do homem põe-se a tropeçar e que a espontaneidade inocente dá lugar a um tormento mais profundo.

O fato de que a sensação da morte somente aparece quando a vida é remoída em suas profundezas prova, com toda a evidência, a imanência da morte à própria vida. O exame das profundezas da vida mostra a que ponto é ilusória a crença em uma pureza vital e o quanto é fundada a convicção de que o seu caráter demoníaco comporta um substrato metafísico.

A morte sendo imanente à vida, por que a consciência da morte rende-nos impossível o fato de viver? O processo orgânico de vida do homem não é em nada atrapalhado, pois a entrada na morte sobrevém inocentemente através de uma queda da intensidade vital. Para este tipo humano só existe a última agonia, não a agonia durável, ligada às primícias da vida. Profundamente, cada passo na vida é um passo na morte e a lembrança disto, um chamado do Nada. Despido do sentido metafísico, o homem ordinário não tem consciência de uma entrada progressiva na morte, ainda que ele não escape mais do que os outros a este destino inexorável. Quando a consciência desliga-se da vida, a revelação da morte é tão intensa que ela destrói toda a inocência, toda a projeção de alegria e toda a volúpia natural. Há uma perversão, uma degradação desigual na consciência da morte. A poesia inocente da vida e seus charmes aparecem vazios de todo o conteúdo, bem como as teses finalistas e as ilusões teológicas.

Ter a consciência de uma longa agonia é arrancar a experiência individual da sua moldura inocente para desmascarar a nulidade e a insignificância, abordar as raízes irracionais da própria vida. Ver a morte no apagar-se, vê-la destruir uma árvore e insinuar-se no sonho, murchar uma flor ou uma civilização, porta-nos para além das lágrimas e dos lamentos, para além de toda forma e categoria. Quem nunca teve o sentimento desta terrível agonia em que a morte eleva-se para nos invadir como um fluxo de sangue, como uma força incontrolável que nos sufoca e estrangula, provocando horríveis alucinações – este ignora o caráter demoníaco da vida e as efervescências interiores criadoras das grandes transfigurações. Somente esta sombria embriaguez pode fazer compreender porque nós desejamos tão ardentemente o fim deste mundo. Esta não é a embriaguez luminosa do êxtase em que, conquistados por visões paradisíacas, elevamo-nos em direção a uma esfera de pureza onde o vital sublima-se para se tornar imaterial. Antes, ao contrário, um suplício louco, perigoso e destruidor caracteriza esta embriaguez, em que a morte surge emparelhada aos charmes sombrios dos olhos da serpente. Tais sensações, tais visões ligam-nos à essência do real: então as ilusões da vida e da morte deixam a máscara cair. Uma agonia exaltada misturará, numa terrível vertigem, a vida à morte, enquanto um satanismo bestial emprestará lágrimas à volúpia. A vida, como agonia prolongada e caminho em direção à morte, não é nada mais do que uma versão suplementar da dialética demoníaca que a fez dar luz às formas que ela mesma destrói. A multiplicidade das formas vitais engendra uma louca dinâmica em que somente se reconhece o demonismo da transformação e da destruição. A irracionalidade da vida se manifesta neste transbordamento de formas e conteúdos, nesta frenética tentação de renovar os aspectos usados. Uma espécie de felicidade poderia ser devolvida a quem se abandonasse a tal transformação, entregando-se, para além de toda problemática torturante, a provas das potencialidades do instante, sem a perpétua confrontação reveladora de uma relatividade intransponível. A experiência da inocência é a única passarela para a salvação. Mas para aqueles que experimentam a vida como uma longa agonia, a questão da salvação não é nada mais do que mera questão.

A revelação da imanência da morte é alcançada geralmente por meio da doença e dos estados depressivos. Existem outras vias, mas estritamente acidentais e individuais: a sua capacidade de revelação é bem mais limitada.

Se as doenças têm uma missão filosófica, esta não pode ser outra que não a de mostrar o quão frágil é o sonho de uma vida plena. A doença torna a morte sempre presente; os sofrimentos ligam-nos às realidades metafísicas, realidades que um homem normal e com boa saúde jamais compreenderia. Os jovens falam da morte como de um evento exterior; uma vez atingidos em cheio pela doença, eles perderão todas as ilusões de sua juventude. É certo que as únicas experiências autênticas são aquelas que nascem da doença. Todas as outras trazem, fatalmente, uma marca “literária”, fantasiosa, pois um equilíbrio orgânico permite apenas estados sugeridos, cuja complexidade procede de uma imaginação exaltada. Somente os verdadeiros sofredores são capazes de uma seriedade autêntica. Os outros estão prestes a renunciar, ao fundo deles mesmos, às revelações metafísicas originárias do desespero e da agonia em troca de um amor inocente ou de uma voluptuosa inconsciência.

Toda doença provoca um heroísmo – um heroísmo de resistência, não de conquista, que se manifesta pela vontade de manter as posições perdidas da vida. Irremediavelmente perdidas, no entanto, estas posições são tanto para os que a doença afeta de maneira orgânica, quanto para as pessoas cujos estados depressivos são tão frequentes que determinam seu caráter constitutivo. Explica-se assim por que as interpretações correntes não encontram nenhuma justificativa profunda para o medo da morte manifestado por alguns depressivos. Como é possível que em meio a uma vitalidade, às vezes transbordante, apareça o medo da morte ou o problema que este medo coloca? A esta questão deve-se procurar uma resposta na própria estrutura dos estados depressivos: assim que o fosso que nos separa do mundo começa a crescer, o homem se dependura sobre si mesmo e descobre a morte em sua subjetividade. Um processo de interiorização destrói, então, uma após outra, todas as formas sociais que envolvem o âmago da subjetividade. Uma vez atingido este cerne, progressiva e paroxística, esta interiorização revela uma região em que vida e morte são indissociavelmente ligadas.

No depressivo, o sentimento da imanência da morte junta-se à depressão para criar um clima de inquietação constante – clima de onde paz e equilíbrio são banidos para sempre.

A irrupção da morte na própria estrutura da vida introduz implicitamente o Nada na elaboração do ser. Mesmo que a morte seja inconcebível sem ele, mesmo que a vida seja inconcebível sem um princípio de negatividade. A implicação do Nada na ideia da morte liga-se ao medo que se tem e que só pode vir da apreensão por ele provocada. A imanência da morte marca o triunfo definitivo do Nada sobre a vida, provando assim que a morte está ali somente para atualizar progressivamente o caminho em direção ao Nada.

O desdobramento desta imensa tragédia que é a vida – a do homem em particular – mostrará o quanto a fé na eternidade da vida é ilusória; mas mostrará também que o inocente sentimento da eternidade constitui a única possibilidade de acalmar o homem histórico.

Tudo reduz-se, de fato, ao medo da morte. Onde nós vemos uma diversidade de medos, não se trata de mais do que diferentes aspectos de uma mesma reação perante a realidade fundamental. As apreensões individuais ligam-se todas por meio de obscuras correspondências a este medo essencial. Aqueles que tentam libertar-se, por meio de raciocínios artificiais, perdem-se, pois é impossível anular uma apreensão orgânica através de construções abstratas. Todo o indivíduo que se coloca seriamente o problema da morte não pode escapar do medo. É o próprio medo que guia ainda os adeptos da crença na imortalidade. O homem faz um doloroso esforço para salvar – mesmo na total ausência de certeza – o mundo dos valores em que vive e ao qual contribuiu; faz uma frustrada tentativa de vencer o Nada da dimensão temporal a fim de alcançar o universal. Frente à morte, para além de toda fé religiosa, não subsiste nada que o mundo creia ter criado para a eternidade. As formas e as categorias abstratas revelam-se, então, insignificantes, enquanto sua pretensão à universalidade torna-se ilusória sob o olhar de um processo de esvaziamento irremediável. Nunca uma forma ou uma categoria poderá alcançar a existência em sua estrutura essencial, assim como jamais poderá entender o sentido profundo da vida e da morte. O que poderia opor, então, o idealismo e o racionalismo? Nada. Quanto às outras concepções e doutrinas, elas não nos ensinam quase nada sobre a morte. A única atitude pertinente seria o silêncio ou um grito de desespero.

Aqueles que querem que o medo da morte não tenha justificativa profunda, na medida em que a morte não pode coexistir com o Eu, este último desaparecendo ao mesmo tempo que o indivíduo – eles esquecem o estranho fenômeno que é a agonia progressiva.

Com efeito, que alívio a distinção artificial entre o Eu e a morte poderia trazer a quem sente a morte com real intensidade? Que sentido uma sutilidade lógica ou uma argumentação podem ter para o indivíduo presa da obsessão do irremediável? Toda tentativa de enxergar os problemas existenciais sob o ângulo da lógica é condenada ao fracasso. Os filósofos são orgulhosos demais para confessar seu medo da morte e pretensiosos demais para conceder à doença uma fecundidade espiritual. Existe uma serenidade fingida em suas considerações sobre a morte: são eles que, na realidade, mais temem. Mas não esqueçamos que a filosofia é a arte de mascarar seus tormentos e suplícios.

O sentimento do irreparável que sempre acompanha a consciência e a sensação da agonia pode fazer com que compreendamos uma aceitação dolorosa, misturada de medo, mas, em caso algum, um amor ou simpatia – sejam elas quais forem – pelo fenômeno da morte. A arte de morrer não se aprende, pois ela não comporta nenhuma regra, nenhuma técnica, nenhuma norma. O indivíduo sente em si o caráter irremediável da agonia, em meio a outras agonias e tensões sem limites. A maior parte das pessoas não tem consciência da lenta agonia que se produz nelas; elas somente conhecem a agonia que precede a passagem definitiva para o Nada. Somente esta última apresenta, pensam eles, importantes revelações sobre a existência. Em vez de tirar significado de uma agonia lenta e reveladora, eles esperam a do fim. Mas o fim não lhes revelará muito: estas pessoas apagarão tão perplexas quanto viveram.

O fato da agonia desenrolar-se ao longo do tempo prova que a temporalidade não é somente condição da criação – ela é também condição da morte, deste fenômeno dramático que é ter fim. Nós reencontramos aqui o caráter demoníaco do tempo, que cerca tão bem o nascimento quanto a morte, tanto a criação quanto a destruição, sem que nós percebamos, ao mesmo tempo, no centro desta engrenagem qualquer convergência em direção ao transcendental.

O demonismo do tempo favorece o sentimento do irremediável que se impõe a todos nós, contrariando nossas tendências mais íntimas. Ser persuadido de não poder escapar a uma sorte amarga, ser submetido à fatalidade, ter certeza de que o tempo continuará a atualizar eternamente o trágico processo da destruição – voilá expressões do implacável. O Nada não constituiria, neste caso, a salvação? Mas que salvação haveria no Nada? Quase impossível na existência, como se realizaria fora dela?

Ou, uma vez que não há salvação, nem na existência, nem no Nada, que apodreçam, então, este mundo e suas leis eternas!


CIORAN, “Sobre a morte”, Nos cumes do desespero. Trad. de Jorge Melícias. Lisboa: Edições 70, 2020.

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