Leitura comparada: “O caso Sartre”, “Sobre um empresário de ideias” – CIORAN

Como o próprio título indica, “Le cas Sartre” é um requisitório contra o mandarim do existencialismo francês, escrito na segunda metade da década de 1940, quando Cioran começava a redigir aquele que seria o seu livro de estreia como escritor de língua francesa: o Précis de décomposition (1949).  “O caso Sartre” seria posteriormente descartado, estando ausente da versão final do Breviário de decomposição. Há no Breviário um texto intitulado “Sobre um empresário de ideias“, no qual o nome do filósofo francês não aparece nem uma vez, sendo substituído pela antonomástica e derrisória fórmula inscrita em “Le cas Sartre”: un entrepreneur d’idées (neste texto inicial, “um empresário da filosofia, da literatura, da política”). Sábia decisão a de suprimir este texto da versão final do Breviário, em que prevaleceu a razão sobre a paixão, a astúcia sobre a ingenuidade. Seria um ataque público inequívoco e gratuito, uma contenda desnecessária e temerária (o Brevário já é bastante temerário sem ela) que poderia lhe render boas dores de cabeça (como se já não se queixasse delas), se não custar-lhe uma carreira que mal começava (veja-se o inferno em que Sartre, Simone de Beauvoir e sua entourage tornaram a vida de Camus).

O Précis conquistou o prêmio Rivarol para jovens escritores estrangeiros de língua francesa, mas não foi por unanimidade. Parte dos jurados se mostrou veementemente contrária à atribuição do prêmio ao estreante romeno, cujo livro desagradaria profundamente a alguns dos membros do júri, agradando, porém, a outros. A presença de um requisitório nominal contra Sartre poderia ter sido vista como uma insolência inadmissível, decisiva não só para que o prêmio fosse entregue a outrem, mas também para que a carreira literária francesa de Cioran começasse “com o pé esquerdo” (na linha de fogo de Sartre). Tomemos, como exemplo, a polêmica que se travou entre Cioran e Blanchot , na década de 1950, nas páginas da Nouvelle Revue Française. O ensaio “O fim do romance”, de A Tentação de existir, foi originalmente publicado, como muitos dos ensaios e aforismos de Cioran, na NRF, dirigida por Jean Paulhan. O texto, uma crítica acerba ao assim-chamado nouveau roman, faria com que Maurice Blanchot, proponente do gênero, “vestisse a carapuça” e publicasse uma réplica a Cioran na mesma N.R.F. (a polêmica está documentada em Cioran et ses contemporains, de Yun-Sun Limet). Não se pode imaginar que proporções teria semelhante polêmica envolvendo Sartre, em vez de Blanchot. De resto, o texto que se segue permite conhecer, por contraste com o autor de O Ser e o Nada, aquele que foi chamado, pelo crítico literário (e seu amigo) italiano, Mario Andrea Rigoni, L’Anti-Sartre.

A exclusão de “O caso Sartre” do Breviário de decomposição parece devida não apenas a razões políticas, que pode-se reduzir a uma questão de prudência, como também a razões de ordem formal e estilística. Comparado com “O empresário de ideias”, o texto descartado parece demasiado ingênuo, como um golpe mal encaixado que deixasse o lutador vulnerável, como se o autor estivesse a “dar um tiro no próprio pé”, expondo-se mais do que o alvo de sua invectiva. Ademais, “O caso Sartre” parece manifestar uma insegurança (síncope) entre o estilo autoral que caracteriza os seus escritos franceses, a partir do Breviário, e uma linguagem demasiado acadêmica, dir-se-ia “objetiva” (por exemplo, o emprego de expressões como à notre sens, “em nossa opinião”, “a nosso ver”). É um Cioran demasiado barroco, em vias de dominar o francês e depurar o seu estilo escrevendo no idioma recém-adotado, o que se manifesta na expressão caudalosa de “O caso Sartre”, em comparação com “Sobre um empresário de ideias”, muito mais enxuto. Do texto original sobre Sartre, permanecerão apenas algumas frases idênticas. Este texto, ao qual temos acesso graças à publicação de Exercices négatifs: en marge du Précis de décomposition (Gallimard, 2005), que consiste nos manuscritos do Breviário (intitulado inicialmente “Exercícios negativos”), foi desmembrado para originar dois outros ensaios contidos no Précis: além do texto sobre o inominado “empresário de ideias”, “O caso Sartre” é a matriz de “Verdades de temperamento“, no qual são evocados os “vulcões” de Nietzsche e Kierkegaard, nos quais Cioran se espelha, como “pensadores orgânicos”, opondo-se a Sartre e Heidegger, vistos pelo pensador romeno como arquétipos do filósofo profissional, carente de paixão e dramaticidade ou, para empregar uma fórmula de Nos cumes do desespero, de “sangue, sinceridade e chamas”.

(“Sobre um empresário de ideias” está logo abaixo, e marcadas em bold são passagens que se encontram idênticas nos dois textos)

Rodrigo Menezes, 7 de maio de 2022


O caso Sartre

E. M. Cioran

Nada mais inevitável – se não gratificante – do que ver em uma nação, irritada por alguns séculos de gosto, o aparecimento de um bárbaro cuja vitalidade triunfa sobre uma tradição de finesse e cuja amplitude de espírito zomba das superstições da finitude e do equilíbrio.[1] Quando a inteligência francesa, tendo dado já as suas provas, parecia ameaçada de esterilidade, Sartre veio, como um renascimento desconcertante, apoderar-se de todas as áreas, e com tamanha avidez de mudar os seus termos, senão os seus dados, que tomou-se por uma reviravolta um movimento superficial, e por profundidade tão vasta curiosidade. Tanto vigor nos artifícios do intelecto, tanta facilidade em abordar todos os setores do espírito e da moda, e tanta exasperação em ser contemporâneo a todo custo, deviam e devem deslumbrar. Sartre é um conquistador, o mais prestigioso da atualidade. Nenhum problema lhe resiste, não há fenômeno lhe seja estranho, nenhuma tentação o deixa indiferente: tudo lhe parece digno de ser abordado e conquistado, da metafísica ao cinema. É um empresário da filosofia, da literatura, da política, cujo sucesso só tem uma explicação, um único segredo: sua falta de emoção; não lhe custa nada enfrentar o que quer que seja, já que não põe nisso nenhum acento, tudo é fruto de uma inteligência compreensiva, imensa, a mais notável da atualidade.

A filosofia existencial representava uma orientação do pensamento situada entre o sistema e a inspiração; o lirismo desempenhou um importante papel nisso; derivava o seu valor de impopularidade das dores e dos tormentos subjetivos inacessíveis ao público em geral; exigia até uma espécie de iniciação em infortúnios raros e inúteis, incompatíveis com a saúde e a história.[2] Kierkegaard oculta sob conceitos os seus momentos de grande fracasso, os seus terrores íntimos, beirando o apocalipse e a psiquiatria; as imodéstias da doença são tão bem veladas que assumem a aparência de uma canção abstrata e de uma jeremiada erudita; Jó e Hegel estão ali reunidos, mas são as exclamações do primeiro que dão esse ar de experiência, sem a qual é impostura falar do desespero e da morte. Heidegger recolheu como professor a herança de Kierkegaard: o resultado é uma construção magnífica, mas sem sal, onde as categorias restringem experiências essenciais [íntimas], um catálogo de angústias, um fichário de desastres. As tribulações do homem, como a poesia de sua dilaceração, são aí ensinadas. O Irremediável posto em sistema, mas não ainda em revista, nem exposto como um artigo de circulação corrente. Aqui se insere o aporte de Sartre, manufatura de angústias, ostentação de nossas últimas perturbações, mise en œuvre de nossos escrúpulos e nossas inquietudes. A sua intenção certamente não foi banalizar os poucos grandes temas da filosofia existencial; além disso, O Ser e o Nada contém páginas que ultrapassam, em delírio terminológico, até as páginas mais desanimadoras de Hegel, não podendo cativar senão os amadores, orgulhosos de evoluir no desconhecido, felizes demais com uma avalanche verbal que, sufocando as verdadeiras realidades, vende palavras como se fossem experiências. A responsabilidade de Sartre é, por assim dizer, unicamente histórica; pertence à sua qualidade suprema, a nosso ver, de contemporâneo; fez de tudo para colocar as suas ideias na boca de todos; ninguém jamais explorou o seu pensamento como ele fez com o dele, ninguém identificou-se mais com o seu pensamento do que ele. Não há fatalidade que o persiga: nascido na época do materialismo, teria seguido seu simplismo e lhe dado uma extensão insuspeitável; no romantismo, teria constituído uma Suma de devaneios; se surgido em plena teologia, teria manejado Deus como qualquer outro conceito. Não carregando nenhum drama, é capaz de tudo. Enquanto em um Kierkegaard e um Nietzsche se sente que eles teriam sido idênticos a si mesmos em qualquer momento do tempo, que os seus abismos e as suas obsessões eram verdades de temperamento,[3] independentes das nuances de uma civilização, vemos em Sartre uma deficiência de necessidade interior que o torna adequado para todas as formas do espírito. Infinitamente vazio e maravilhosamente amplo, é o típico pensador sem destino,[4] embora possua um extraordinário, ainda que puramente exterior. Sua habilidade para atacar de frente os grandes problemas desconcerta: tudo é notável nele, salvo a autenticidade. Se fala da morte, carece do seu estremecimento; os seus desgostos são refletidos; as suas exasperações fisiológicas parecem inventadas a posteriori; é o antipoeta,[5] fundamentalmente paralelo aos sonhos. Mas a sua vontade é tão lúcida e [sobrenaturalmente] eficaz que ele poderia ser poeta se o quisesse e, acrescentaria eu, se se empenhasse. Esse intelecto demiúrgico lembra Valéry: mas este era demasiado artista; Sartre não sofre dessa limitação… Ele não tem, propriamente falando, nem preferências nem prevenções; suas opiniões são acidentes; lamenta-se que ele creia nelas; só interessa o percurso de seu pensamento… Eu poderia ouvi-lo pregando no púlpito e não ficaria mais surpreso do que vendo-o fazer profissão de ateísmo, de tanto que parece indiferente a todas as verdades, que as domina, e que nenhuma lhe é necessária nem orgânica… Uma direção de pensamento, pomposamente chamada “existencialismo”, que é o fruto de um debruçar-se sobre si, ele a dirigiu para o exterior, substituindo o “eu” pelo “nós”,[6] fazendo deste último um princípio de salvação coletiva.[7] Um livro pouco inteligível tornou-se a Bíblia para todo mundo; poucos o leram, mas todos falam dele. É o destino da metafísica na era das massas; o nada circula; está nos lábios de todos… O outro lado da moeda: de Sartre alimentam-se o niilismo de bulevar e a amargura dos superficiais… Por ser tão pouco esse estado de espírito, a multidão faz dele, inconscientemente, o seu protagonista.

CIORAN, Emil, “Le cas Sartre”, Exercices négatifs : en marge du Précis de décomposition. Paris: Gallimard 2005, p. 14-17. Trad. do francês de Rodrigo Menezes.


[1] Temática de Despre Franţa (1941), escrito ainda em romeno, em Paris (durante a ocupação nazista). Sobre a França na edição brasileira em língua portuguesa (Âyiné, 2020).

[2] Temática de Nos cumes do desespero (1934), no qual destaca-se o lirismo do existencialismo romeno de Cioran (trăirism). “Diante do refinamento de uma cultura aprisionada em formas e limites que mascaram tudo, o lirismo é uma expressão bárbara. Eis de fato o seu valor, o de ser bárbaro, ou seja, de ser só sangue, sinceridade e chamas. […] Se ainda não nos convertemos em cinzas, podemos compor filosofia lírica, quer dizer, uma filosofia em que a ideia tem raízes orgânicas, tão orgânicas quanto a poesia.” (Nos cumes do desespero, p. 19, 53).

[3] “As verdades de temperamento”, Breviário de decomposição (1949)

[4] No Livro das ilusões (1936), Cioran escreve: “O importante é ter destino, ser um ‘caso’.” Pascal, Kierkegaard, Nietzsche, Dostoievski “possuem um destino”, são “casos”, no entendimento de Cioran. Na entrevista com Fernando Savater, ele declara: “De maneira geral, o que sempre me interessou é a filosofia-confissão. Tanto em filosofia como em literatura, são os casos que me interessam, esses autores dos quais pode-se dizer que são ‘casos’, no sentido quase clínico do termo. Me interessam todos os que vão em direção à catástrofe, mas também os que chegam a situar-se mais além da catástrofe.” (Entretiens)

[5] “Anti-poeta”, fórmula (ausente da versão final do Breviário) que evoca, por similitude, “Anti-profeta”. Em “Sobre um empresário de ideias”, ele é “fundamentalmente apoético”.

[6] À luz deste texto, ausente da versão final do Précis, pode-se ler a seguinte passagem de “Genealogia do fanatismo” em referência à impostura do “nous” que Cioran acusa aqui em Sartre: “Basta-me ouvir alguém falar sinceramente de ideal, de futuro, de filosofia, ouvi-lo dizer ‘nós’ com um tom de segurança, invocar os “outros” e sentir-se seu intérprete, para que o considere meu inimigo.”

[7] Em “Paleontologia”, ensaio de Le mauvais démiurge (1969), no qual é narrada uma visita acidental ao Museu de História Natural de Paris, numa tarde chuvosa de versão, Cioran escreve: “Duvido que eu recorreria tão frequentemente a esses lugares se eles não lisonjeassem a minha inaptidão à ilusão. Aí, onde o homem não é nada, percebe-se até que ponto as doutrinas da libertação são inaptas a compreendê-lo, a interpretar seu passado e decifrar o seu futuro. É que a libertação não tem conteúdo senão para cada um de nós, individualmente, e não para a turba, incapaz de compreender a relação que existe entre a ideia de vazio e a sensação de liberdade.”


Sobre um empresário de ideias

E. M. Cioran

Ele abarca tudo, e tem êxito em tudo; não há nada de que não seja contemporâneo. Tanto vigor nos artifícios do intelecto, tanto desembaraço em abordar todos os setores do espírito e da moda – desde a metafísica até o cinema – deslumbra, deve deslumbrar. Nenhum problema lhe resiste, não há fenômeno que lhe seja estranho, nenhuma tentação o deixa indiferente. É um conquistador que só tem um segredo: sua falta de emoção; não lhe custa nada enfrentar o que quer que seja, já que não põe nisso nenhum acento. Suas construções são magníficas, mas sem sal: categorias restringindo experiências íntimas, classificadas como em um fichário de desastres ou em um catálogo de inquietudes. Ali estão classificadas as tribulações do homem, como também a poesia de sua dilaceração. O irremediável posto em sistema, ou até mesmo em revista, exposto como um artigo de circulação corrente, verdadeira manufatura de angústias. O público a invoca; o niilismo de bulevar e a amargura dos curiosos alimentam-se dela.

Pensador sem destino, infinitamente vazio e maravilhosamente amplo, explora seu pensamento, deseja-o em todos os lábios. Não há fatalidade que o persiga: nascido na época do materialismo, teria seguido seu simplismo e lhe dado uma extensão insuspeitável; no romantismo, teria constituído uma Suma de devaneios; se surgido em plena teologia, teria manejado Deus como qualquer outro conceito. Sua habilidade para atacar de frente os grandes problemas desconcerta: tudo é notável nele, salvo a autenticidade. Fundamentalmente apoético, se fala do nada, carece de seu estremecimento; seus nojos são reflexivos; suas exasperações, contidas e como que inventadas a posteriori; mas sua vontade, sobrenaturalmente eficaz, é ao mesmo tempo tão lúcida que poderia ser poeta se o quisesse e, acrescentaria eu, se se empenhasse… Não tendo nem preferências nem prevenções, suas opiniões são acidentes; lamenta-se que ele creia nelas: só interessa o percurso de seu pensamento. Se o ouvisse pregar em um púlpito não me surpreenderia, tão certo é que se coloca além de todas as verdades, que as domina e que nenhuma lhe é necessária nem orgânica…

Avançando como um explorador, conquista domínio atrás de domínio; seus passos são empresas tanto quanto seus pensamentos; seu cérebro não é inimigo de seus instintos; eleva-se acima dos outros, ao não haver experimentado nem cansaço, nem essa mortificação odiosa que paralisa os desejos. Filho de uma época, expressa suas contradições, seu inútil fervilhar; e quando se lança a conquistá-la, põe nisso tanta consequência e tanta obstinação que seu êxito e sua fama igualam-se aos da espada e reabilitam o espírito por meios que, até agora, eram odiosos ou desconhecidos.

CIORAN, E.M., Breviário de decomposição. Trad. de José Thomaz Brum. Rio de Janeiro: Rocco, 1989.

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