Pornografia – Byung-Chul HAN

A pornografia serve ao mero viver exposto. É o exato contraposto de eros. Ela aniquila a sexualidade. Nesse sentido, é muito mais efetiva que a moral: “A sexualidade não se desvanece na sublimação, na repressão e na moral, mas muito provavelmente naquilo que é mais sexual que o sexual: na pornografia”. A pornografia tira sua força de atração da “antecipação do sexo morto na sexualidade viva”. O obsceno na pornografia não reside no excesso de sexo, mas no fato de não ter sexo. A sexualidade não se vê ameaçada por aquela “razão pura” que evita o sexo, antiprazerosamente, como algo “sujo”, mas pela pornografia; a pornografia não é o sexo em espaço virtual. Mesmo o sexo real se transforma hoje em pornografia.

A pornografização do mundo se realiza como sua profanação. Ela profana o erotismo. O Lob der Profanierung (Louvor da profanação) de Agamben não conhece esse processo social. A “profanação” significa o restabelecimento do uso das coisas que foram reservadas aos deuses pela consagração (sacrare) e assim foram retiradas do uso comum. Ela exerce uma frouxidão frente às coisas que foram escolhidas e separadas. Nisso, Agamben parte da tese da secularização, segundo a qual toda e qualquer forma de separação eletiva guarda em si um núcleo genuinamente religioso. Assim, o museu representa uma forma secularizada do templo, pois também dentro do museu as coisas são retiradas do uso livre pela separação eletiva. O turismo é para Agamben uma forma secularizada da peregrinação. Hoje, segundo a hipótese de Agamben, os turistas que viajam sem descanso pelo mundo, que entrementes se transformou em museu, correspondem aos peregrinos que vagueiam de romaria em romaria pelo país.

Agamben contrapõe a profanação à secularização. As coisas que foram separadas pela eleição devem ser novamente colocadas ao acesso do livre uso. Os exemplos de Agamben para profanação, porém, são mesquinhos e estranhos: “o que poderia significar profanar a defecação? Seguramente não significa recuperar a naturalidade exigida, tampouco fruir dela simplesmente na forma de uma transgressão perversa (o que já seria melhor do que nada). Trata-se antes de tratar a defecação arqueologicamente como um campo de tensões polares entre natureza e cultura, entre privado e público, próprio e comum. Isso é, aprender um novo uso dos excrementos, como tentam fazer as crianças a seu modo antes de serem apanhados pela repressão e pela separação eletiva”. No De Sade, o libertino que consome os excrementos de uma dama pratica o erotismo como transgressão no sentido de Bataille. Mas como profanar a defecação para além da transgressão e da renaturalização? A “profanação” deve suspender a repressão, à qual expõe o dispositivo teológico ou moral das coisas. O exemplo de Agamben para a profanação na natureza é o gato, que brinca com o novelo de lã: “O gato, que brinca com o novelo de lã como se fosse um rato – como faz a criança com os símbolos religiosos ou com coisas que pertencem à esfera da economia – usa os modos de comportamento do predador […] na plena consciência de seu vazio. Esses não são extintos, mas graças ao emprego do novelo em lugar do rato […], são aguçados e assim abertos para um novo e possível uso”. Em cada objetivo, Agamben supõe haver uma coerção da qual a profanação deve liberar as coisas para um “recurso puro, sem meta”.

A tese da secularização cega Agamben para aquilo que é específico de um fenômeno, que já não permite ser reduzido à práxis religiosa e até se contrapõe a ela. Pode ser que no museu as coisas sejam “separadas por escolha” como no templo. A musealização e exposição das coisas aniquila precisamente seu valor cultural em favor do valor expositivo. Assim, o museu enquanto lugar da exposição é uma contrafigura do templo enquanto lugar do culto. Também o turismo se contrapõe aos romeiros. Ele gera “não-lugares”, enquanto que o peregrinar está ligado a lugares. O “divino” pertence essencialmente ao lugar, que para Heidegger possibilita o morar humano. Ele é constituído por história, memória e identidade. Mas esses elementos estão ausentes dos “não-lugares” turísticos, onde a gente simplesmente passa e vai adiante, e não se demora.

Agamben busca pensar também a nudez para além do dispositivo teleológico, a saber, “além do prestígio da graça e dos atrativos da natureza corrompida”. Nisso, ele concebe a exposição como uma oportunidade excepcional para profanar a nudez: “é a mais soturna indiferença o que devem aprender antes de tudo os modelos e os astros da pornografia: Nada mais demonstrar a não ser o demonstrar (isto é, sua absoluta integração aos meios de comunicação). Assim, o rosto sobrecarrega-se do valor expositivo ao ponto de estourar. Mas é justo através dessa aniquilação da expressão que o erotismo avança para onde não poderia propriamente acontecer, a saber: o rosto humano […]. Exposto como puro meio, além de qualquer expressividade concreta, torna-se algo disponível para um novo uso, para uma nova forma de comunicação erótica”. A nudez exibida ao olhar, sem mistério e sem expressão, aproxima-se da nudez pornográfica. Também o rosto pornográfico nada expressa. Ele não tem expressividade nem mistério: “quanto mais se avança de uma forma à outra – da sedução ao amor, da cupidez à sexualidade e, por fim, para a mera e simples pornografia, tanto mais fortemente nos movemos na direção da diminuição do mistério e do enigma”. O erótico não está desprovido de mistério. O rosto carregado de valor expositivo até o ponto de estourar não promete nenhum uso “novo, coletivo da sexualidade”. Contrariamente à expectativa de Agamben, a exposição aniquila justamente aquela possibilidade de comunicação erótica. O rosto desnudado, reduzido unicamente a sua expositividade, desprovido de mistério e expressão, é obsceno e pornográfico. O capitalismo acentua a pornografização da sociedade, expondo e exibindo tudo como mercadoria. Ele não conhece nenhum outro uso da sexualidade. Profana o eros em pornografia. Aqui a profanação não se distingue da profanação de Agamben.

A profanação se realiza como desritualização e dessacralização. Hoje em dia estão desaparecendo numa velocidade cada vez maior os espaços e as ações rituais. O mundo torna-se cada vez mais desnudo e obsceno. O “erotismo sagrado, de Bataille, ainda apresenta uma comunicação ritualizada. Pertencem a ele ainda festas e jogos rituais como espaços especiais, como espaços de separação eletiva. O amor, que hoje deve ser ainda apenas calor, intimidade e excitação agradável, está apontando para a destruição do erotismo sagrado. Também a sedução erótica, totalmente extinta na pornografia, brinca com ilusões cênicas e formas aparentes. Assim, Baudrillard, por exemplo, chega a contrapor a sedução ao amor: “O ritual pertence à ordem da sedução. O amor surge da destruição das formas rituais, de sua libertação. Ele tira sua energia da destruição dessas formas”. A desritualização do amor se realiza na pornografia. A profanação de Agamben dá impulso, inclusive, ao processo atual de destruição de ritos e à pornografização do mundo, colocando em suspeita espaços rituais como se fossem formas de coerção da separação eletiva.


HAN, Byung-Chul, A Agonia do Eros. Trad. de Enio Paulo Giachini. Petrópolis: Vozes, 2017.

Publicidade

Deixe um comentário

Faça o login usando um destes métodos para comentar:

Logo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s