“O suicida: um viajante kafkiano” – Julio CABRERA

As condenações morais do suicídio – desde a de Schopenhauer, que o considera ilusão, até Wittgenstein, que o considera “o máximo pecado moral” – são lugares filosóficos muito estratégicos para aprender os mecanismos de constituição das Éticas afirmativas. […]

A abordagem kantiana do suicídio é extremamente pobre, do ponto de vista psicológico, como a totalidade de sua filosofia da vida. “Desespero” e “tédio” são motivações muito insuficientes e pouco problematizadas reflexivamente para explicar a profundidade do ato do suicídio. Essa pobreza podemos perdoá-la a Kant, mas não podemos dar-nos o direito de ser tão pré-freudianos, pré-nietzschianos e pré-marxistas como Kant. O pecado original da Filosofia quando aborda a questão do suicídio consiste em supor uma idealização muito global das motivações e da estrutura do ato suicida, como se se tratasse de algo simples e unissignificativo. Uma Ética negativa começa por respeitar a natureza complexa do suicídio. Dizer que o ato suicida responde a um “princípio de amor de si mesmo” é, no mínimo, superficial e problemático após a filosofia freudiana do sujeito. (Não considero, neste contexto, como “científicas” as teorias de Freud, considero-as tão filosóficas quanto as teorias kantianas.) Mesmo enriquecendo o conteúdo das motivações do ato suicida, Kant acabaria enriquecendo o conteúdo das motivações do ato suicida, Kant acabaria encerrando-as sistematicamente sob o rótulo de “determinações sensíveis”. A ideia básica, filosoficamente acrítica, é que, sob hipótese alguma, pode haver uma motivação racional, em sentido kantiano, do suicídio; ela deverá ser sempre empírica e, por conseguinte, concordante com os pressupostos da Ética kantiana, não moral. Viver, no específico sentido do não suicídio, torna-se então um imperativo moral. Esse é o recurso utilizado para uma condenação radical do suicídio. […]

A suspeita aqui é que o “Deve-se viver” seja um imperativo muito básico, ainda mais do que os elementos que Kant utiliza para formulá-lo. Ou, talvez, algo ainda pior que um princípio: uma determinação sensível contrária àquelas que o imperativo gostaria de eliminar. Como saber que o não suicídio está sensivelmente determinado pelo “desespero”, pelo “tédio”, pelo “medo”, enfim, pelas determinações que Kant coloca como motivações meramente empíricas do querer suicidar-se? O que chama aqui a atenção não é, certamente, a condenação do suicídio, mas o fato de tratar-se de uma condenação radical e absoluta. (Em toda a história da Filosofia, o moralista falou deste assunto sem vontade, dedicando-lhe apenas pequenos capítulos ou observações passageiras que sistematicamente o levam à condenação radical. Chama a atenção que assim seja tratado um dos mais fundamentais lugares da reflexão moral.)

[…] É o suicídio um dos lugares reflexivos que ajudam a pensar uma desvinculação teórica muito importante entre racionalidade e universalidade. (Não, evidentemente, o único). O que o suicida racional unicamente faz é abrir um caminho reflexivo que leva à autossupressão, ao lado de outros caminhos reflexivos que conduzem à conservação da vida, sem que nenhum deles signifique abandono da racionalidade humana. […]

Curiosamente, a Ética tradicional – não apenas a kantiana – baseia a moralidade numa certa capacidade de “ir contra si mesma”, contra os próprios interesses, as próprias tendências etc. E, ao mesmo tempo, tem uma visão do suicídio “autodestrutiva”, absolutamente devastadora, pecaminosa etc. (Esta, certamente, não é a concepção negativa do suicídio. Veja mais adiante.) Assim, nessa linha de pensamento, o suicídio é o radical “ir contra si mesmo”. Como salvar essa inconsistência? Se o suicídio é o radical ir contra os próprios interesses, e nessa dinâmica baseia-se, precisamente, a moralidade, por que o suicídio não seria – contrariamente ao que Wittgenstein declara – “a máxima virtude moral”? Este é um ponto privilegiado para captar com toda pureza o caráter não radicalmente reflexivo da Ética afirmativa vigente. […]

Fala-se do suicídio como de uma “opção pela morte”, como se a morte pudesse ser uma opção. Se existe um dilema, a morte está em todas as alternativas. Por conseguinte, a “opção pelo suicídio” deve ser, em todo caso, a opção por uma maneira de morrer, e não “pela morte”. Quando alguém escolhe suicidar-se pode colocar a decisão nos planos de uma reflexão racional do seguinte tipo: trata-se de uma morte menos angustiante, desde que posso controlá-la datá-la, prevê-la, tirá-la da indeterminação da “morte natural”; menos frustrante do ponto de vista de minhas possibilidades e projetos existenciais, já que posso projetá-la e não recebê-la como uma ruptura brutal; menos traumatizante para os que me amam e se preocupam comigo ou necessitam de mim, desde que posso, gradativamente, habituá-los à ideia de perder-me através de falas, trocas de ideias etc. Esta linha de pensamento leva a uma humanização da morte, tirando-a do invólucro natural e colocando-a no terreno moral onde os homens fazem projetos, conversam, amam, têm saudades uns dos outros e assim por diante. Desafio qualquer moralista a provar que esta linha de pensamento é “irracional”, “doentia” ou “absurda”.

Devemos ter consciência de que nem todos os homens possuem a mesma sensibilidade existencial, a mesma maneira de elaborar os medos, a mesma atitude perante a morte. Muitos se angustiam quando a morte possui data certa, mas muitos outros se angustiam quando a morte é algo absolutamente indeterminado. Por conseguinte, a ideia do suicídio pode ser, dependendo das idiossincrasias, profundamente perturbadora ou profundamente confortadora. A estrutura social não pode pressupor algo como uma atitude padronizada perante esses fatos fundamentais, sob pena de destruir pessoas. Não pode, por isso, haver uma aceitação ou uma condenação universais e radicais do suicídio. Muito menos deve-se colocar “a racionalidade” do lado de uma dessas atitudes, deixando a outra nas trevas do irracional. A Ética social deve ser extremamente cuidadosa com essas questões. Em certos homens, o suicídio pode constituir-se numa espécie de “ideia regulativa”, em sentido kantiano, como um suicídio ideal que lhe permite continuar vivendo indefinidamente; um suicídio puramente regulativo dos ritmos da existência, mas que não teria uma realização histórica real como qualquer outra ideia regulativa kantiana (o contrato social ou a constituição republicana). […]

[…] Pareceria que o suicídio pode ser radicalmente condenado do ponto de vista jurídico, por um lado, ou religioso por outro, porém jamais de um ponto de vista estritamente ético. O suicídio pode ser radicalmente condenado em virtude de certas convenções ou crenças, mas não em função de argumentos. […]

Não é tão estranho lermos em Kant uma condenação radical e acrítica do suicídio, porque a sua filosofia responde – como o resto das filosofias cristãs – a um esquema conceptual voluntarista. Pelo contrário, a condenação radical do suicídio dentro de uma Ética de base emanatista como a de Spinoza acarreta uma profunda confusão filosófica. O filósofo que – um século antes de Kant – foi capaz de ser tão crítico com as virtudes tradicionais deixa bruscamente de sê-lo quando se refere, muito brevemente, como é habitual, à questão do suicídio, A ideia spinoziana básica é a de uma “Ética natural” baseada nos impulsos de vida. A vida não precisa de um “sentido” imposto, em virtude do qual deva ser vivida, mas apenas de uma força (vis) mediante a qual seja possível vivê-la. (Uma Ética que precisa mais de heróis que de esclarecidos.)

[…]

Schopenhauer não pode ser suspeito, como os outros filósofos mencionados, de insensibilidade diante dos méritos morais do nada. Devemos-lhe páginas memoráveis acerca do nada e da aniquilação da vontade de viver. O suicídio não é por ele rejeitado em nome de uma filosofia do ser, mas, precisamente, pelo fato de o suicídio ser uma atitude apenas aparentemente negativa, mas no fundo, apoteótica do afirmativo. Mas, por outro lado, Schopenhauer considera autenticamente negativa a vida do asceta, que transforma o próprio ser na pura negação da vida. Apesar da habilidade desse tour de force filosófico, um “nada vivido” – como Nietzsche argumenta, contra Schopenhauer, na última parte de Genealogia da moral – é uma forma de vida como outra qualquer. O suicídio não é uma maneira de viver, mas a apropriação do não ser constitutivo. O suicida tinha, mesmo para um grande filósofo do não ser como Schopenhauer, uma familiaridade demasiado estreita com o nada: a tentação afirmativa de Schopenhauer consistiu em, apesar de tudo, re-transformar esse nada numa forma de vida.

[…]

A Filosofia, na condenação radical e absoluta do suicídio, acompanha fielmente outros setores veneráveis da nossa sociedade, como a Medicina, a Jurisprudência, a Psicologia e a Igreja. Para cada uma dessas instituições, a condenação adquire um conteúdo diferente: do ponto de vista médico e psicológico, suicídio liga-se a doença, perturbação emocional, desequilíbrio. Para o sacerdote, suicídio é ofensa à Obra de Deus, pecado contra a Criação, blasfêmia, impiedade. Para o jurista, suicídio é crime e subversão do estabelecido. Os médicos costumam dizer de alguém que se suicida que ele estava “fora de si mesmo”, ou que “não era ele mesmo” quando fez aquilo, que se “tivesse se recuperado”, não teria chegado a tal ato. Nessa formulação, nega-se ao suicida a possibilidade de ser “dono” da sua morte, sujeito dela. Neste caso, não é – como no caso jurídico – um “corpo político” quem se adona da morte da pessoa, mas uma espécie de “corpo sanitário” (o suicídio como coisa “suja”). A morte medicamente legitimada tem data e características “cientificamente determinadas”, e ninguém pode alterar essa datação e essa modalidade, sob pena de ser socialmente tratado como “doente”, com todas as implicações imagináveis. Assim, no âmbito jurídico, a “minha” vida não me pertence, ela pertence ao corpo político; e no âmbito médico, ela tampouco me pertence, ela pertence ao “corpo sanitário”. O suicida desafia essas supervisões institucionalizadas da vida, e cai na dupla condenação de “doente” e “subversivo”. Os argumentos do sacerdote também tendem a mostrar que a vida não pertence à pessoa, mas a Deus, e só Ele pode determinar o seu começo e o seu fim. Embora o conteúdo das argumentações seja diferente em cada caso, os três possuem o mesmo efeito final: o suicídio é ilegítimo, ímpio ou doentio fundamentalmente porque a vida e a morte não são patrimônio da pessoa, mas de três entidades burocráticas que são, oficialmente, os organismo competentes que “sabem” acerca da vida e da morte; a saúde, os mecanismos jurídicos e Deus.

[…] Se a opacidade pesa tanto sobre o suicida quanto sobre o não suicida, por que não poderiam existir argumentos em prol da moralidade do suicídio, assim como existem argumentações que tentam provar a sua imoralidade? Não “moralidade” num sentido novo, mas no próprio sentido tradicional. […]

O suicídio cuja moralidade me interessa indagar aqui é o baseado numa situação sem saída. Não interessa aqui a pessoa que se suicida porque não consegue viver a morte de uma determinada maneira. A esse tipo de suicida aplica-se plenamente a doutrina schopenhaueriana do suicídio. O suicida que aqui me interessa é o que decide ser o não ser que ele já é. (O suicida radical não deve perceber no seu ato o anúncio de uma novidade fundamental.) […]

Valores como “coerência”, “coragem”, “dignidade”, evitação da dor inútil” e “consideração pelo outro” são considerados méritos morais pelas Éticas afirmativas. Mas é extremamente fácil argumentar no sentido de o suicídio realizar cada um desses valores. Isso mostra que uma Ética se constitui como afirmativa não no momento de formular certos valores, mas no momento em que se recusa a radicalizá-los. […]

“Deve-se viver” e “Deve-se ser coerente com as próprias ideias” poderiam ser normas morais contraditórias num mesmo sistema moral. Neste ponto, a Ética afirmativa deveria abrir mão da coerência como valor ético universal, ou moralizar certo tipo de suicídio, mas não ambas as coisas ao mesmo tempo.

Sendo a vida o resultado de um contrato unilateral, “sem acordo das partes”, não pode haver nenhuma “incoerência” em rejeitar algo que está sendo analisado pela primeira vez.

O não suicídio, a sobrevivência sob qualquer condição, pode gerar “indignidade moral”. O anseio de viver nos deixa sempre numa situação humilhante, e as pessoas vivem mendigando anos, dias, minutos de vida, mesmo em condições lamentáveis: como o escritor Dostoievski, que dizia ser capaz de viver imóvel, preso entre duas pedras, apenas respirando e olhando para o céu, para não ter de aceitar a ideia da morte. O suicídio pode ser um ato de recuperação da dignidade perdida. Ratificando: ou se aceita uma forma de suicídio ou se abre mão da universalidade ética da dignidade. […]

(Estou tratando aqui da moralidade do suicídio com a mesma superficialidade com que habitualmente se denuncia sua imoralidade.)

No suicídio não vivo nenhuma ilusão de ser, não tenho interesse em recuperar nada, em ver-me a mim mesmo, em fazer com que o ser seja. Enquanto fico aqui olhando o que acontece, o não ser é apenas uma farsa, mesmo que falemos dele com respeito. Qualquer atitude que exija a minha presença neste mundo, mesmo a mais aparentemente “negativa”, não poderá jamais ser autenticamente negativa. Continuará sendo simplesmente uma maneira de viver a morte na impossibilidade de morrê-la.

Não estará entre os menores méritos o fato de o suicida ter-se librado da tentação de assistir à própria vitória.

O suicídio não é uma forma de vida. Quando me suicido, não posso mais ser sujeito intencional de ações, a não ser pela fantasia do outro. O diálogo que mantinha com os outros deverá, a partir de agora, ser unilateralmente alimentado. Minha lembrança, meus escritos poderão, até certo ponto, exercer o princípio dialógico da cooperação (Grice), porém, mais tarde ou mais cedo, será o outro quem deverá operar integralmente. Este obrigar o outro a tomar conta de toda a dinâmica do diálogo é exatamente o que constitui o não ser do suicida.

É verdade que, quando vivo a minha morte ou quando a morro, os outros me ignoram, ou, para dizer melhor, os outros me “conhecem” através de imagens: neste sentido, há pouquíssima diferença entre estar vivo e estar morto, no sentido usual desses termos. Você é sempre, de alguma maneira, um morto para o outro, sua presença e sua ausência se parecem. Quando eu estava vivo, era para os outros uma vaga imagem que se autodefendia; depois do meu suicídio serei apenas uma imagem que os outros obrigam, na fantasia, a autodefender-se. Nessa fresta quase imperceptível aninha-se o não ser do suicida, a sua morte morrida, o lugar da “moralidade” da sua ação.

“Aonde vai, senhor?” “Não sei – respondi. – Apenas para fora daqui, apenas para fora daqui. Fora daqui, nada mais, é o único modo de alcançar meu objetivo.” “Então, sabe qual é seu objetivo? – perguntou ele.” “Sim – respondi. – Acabei de lhe dizer. Fora daqui. Esse é meu objetivo.” (Kafka, “A partida”.)

O suicida não constrói um mundo, ele vai embora levando a essência do mundo. Nenhum ser humano deveria sentir-se lesado ou ferido pelo ato suicida. O suicida seria perdoado se ele partisse com algum rumo. Mas o que o suicida radical quer é, simplesmente, sair daqui.

O suicida é um viajante kafkiano.

Diga-se de passagem: deixando de lado a equívoca morte de Sócrates na prisão, e a mítica morte de Empédocles no Etna, nenhum filósofo se suicidou. Isso contrasta com a enorme quantidade de artistas suicidados. Devem esses fatores dizer alguma coisa de importante? (Há artistas afirmativos?)

Torna-se profundamente desagradável falar panfletariamente acerca do suicídio, como devendo fazer a sua apologia, o que é, certamente, absurdo. Mas esse absurdo responde ao absurdo contrário, à apologia panfletária da vida, acrítica e sem condições, que rege a nossa sociedade. Um discurso sobre o negativo não poderá assumir-se, simplesmente, como a exposição de uma opção, enquanto o discurso afirmativo habitual não se assuma igualmente como tal, em vez de tentar colocar a ‘natureza” ao seu lado.

O panfleto em favor do suicídio, quando o afirmativo for recolocado como opção, deverá perecer como panfleto e poderá brilhar com o próprio brilho.

Cada mundo tem os próprios suicidas. Os nossos são os que assumem o não ser do mundo. Que o suicida tenha, mais ou menos intimamente, anseio de outros mundos, é irrelevante para o que o suicida significa para o mundo do qual ele é um suicida. Para todos os efeitos, o suicida é um viajante kafkiano.

O suicídio não deve ser ligado necessariamente a um “fracasso”: continuar vivo pode comportar o maior envilecimento, a negação de todo heroísmo, e o fato de um homem suicidar-se não prova, em absoluto, que “seu projeto de vida era errado” etc. Uma morte pode ser uma consumação, um profundo triunfo, uma plenitude, uma iluminação, um estalo interior, uma irreprimível alegria.

O suicídio não é uma filosofia. Não há nada nele que exija discípulos. O suicida é o sentido da vida, não precisa elaborá-lo ou pensá-lo. Ele é isso que os outros, os não suicidas, elaboram ou são obrigados a elaborar, devido à opção pelo viver a morte. Porém, para ser o sentido, ele precisa desaparecer, secar a fonte da ilusão. O suicida é “o problema da vida”. É impossível ser o sentido na vida. Seja o que for o que eu diga será sempre falso, enquanto precise ficar aqui para dizê-lo.

Não deveria transformar-se o suicídio num “acidente”, paralelo ao “acidente” de nascer. Também para sair da vida pode o homem ser inautêntico e medíocre, ele pode ir-se da vida sem levar com ele o sentido da vida sem levar com ele o sentido da vida. Só se morre uma vez. Portanto, deve tratar-se de uma morte profunda e intensa, ou seja, uma morte que deve ser em tudo o que o nascimento não foi. O suicídio pode ser uma maneira de fugir da necessária trivialidade do nascimento.

[…] O suicida confirma, pela última vez, as leis selvagens deste mundo, a bárbara natureza da eticidade afirmativa, a função homicida do fantasiar. Em comparação à carnificina cotidiana, a agressão do suicida torna-se quase sutil.

Qualquer possibilidade de viver a vida é necessariamente religiosa. Não pode ser uma possibilidade ética. A Ética só pode prometer a morte eterna, a “morte após a morte”.

[…]

Obviamente, o suicida deve utilizar o próprio tecido da vida para levar adiante seus objetivos; não pode desaparecer desvinculado do mundo, ele está condenado a desaparecer do mundo, e isso supõe o mundo. Dessa maneira, o suicida vê-se obrigado a utilizar a própria organização do não ser, a sobrevivência, as características destrutivas do amor humano para poder matar-se. Deve utilizar a mentira e o aviltamento para fugir do mundo. Até os últimos instantes isso será necessário, pois mesmo esses estão ainda cheios da culpa de estar vivo. Por isso, se o suicida quebra alguma coisa ao sair, devemos lembrar que se trata da última vez e que, de alguma maneira firme, ele nos prometeu não fazê-lo de novo.

A destrutividade do suicídio é construída junto com os sobreviventes, como parte do seu projeto de sobrevivência. O suicida fica repetitivamente convertido numa espécie de ofensa perpétua e inextirpável, numa espécie de ganhador invencível, e é odiado por isso, por não expor-se, por não continuar sendo um alvo imóvel, atingível. É exigido de mim que fique aqui, morrendo aos poucos, com muito sofrimento. Senão, não serei perdoado.

Qualquer projeto de sobrevivência afasta a possibilidade do suicídio e opta pela selvageria da vida. Nenhuma atitude humana será agora pura, mas sempre comprometida com a sobrevivência: os que se opõem deverão morrer as mil mortes cotidianas. Não posso dar-me ao luxo da verdade ou da justiça, já que as minhas ideias descansam num corpo que decidiu continuar.


CABRERA, Julio, A Ética e suas negações: não nascer, suicídio e pequenos assassinatos. Rio de Janeiro: Rocco, 2011, p. 41-61.

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