“High Castle Teleorkestra: um grupo musical insólito, diferente de tudo o que você já ouviu (e imaginou)” – Rodrigo MENEZES

Insólito designa, segundo a etimologia, tudo o que é inusual e foge ao ordinário. […] A palavra mesma me diz ao mesmo tempo mais e menos: sugere algo raro, com efeito, mas de uma rareza especial e incisiva que não se resume a uma simples mediana na avaliação estatística da frequência dos seres. […] Após refletir, parece-me que um objeto insólito tem por característica principal e constante o romper com o conjunto dos objetos entre os quais aparece, o formar, por assim dizer, uma categoria à parte, o aparecer como estrangeiro e sobreposto, ao modo de uma peça acrescentada ou de uma nota falsa: como um marciano tomando chá em um pub londrino, uma monja participando nos trabalhos do Partido Comunista (parece que há algumas), um trator agrícola pavoneando-se no meio de um salão burguês, como em O Minotauro de Marcel Aymé, ou, enfim, como o pequeno detalhe que não se enquadra no conjunto dos fatos relacionados com ele e que, por isso, acaba chamando a atenção da polícia. Um objeto normal se reconhece por sua conaturalidade em relação aos objetos que o rodeiam, um objeto insólito por sua impossibilidade de aparentar-se a eles. É por isso que a justaposição deles implica um fenômeno que se assemelha à superposição de dois mundos paralelos, comparável à do cinema, quando funde duas cenas em uma.[1]

Cl. ROSSET, Principes de sagesse et de folie (2004)

No estágio em que nos encontramos da indústria cultural, neste império da mesmice e da impostura, atestando o “Crepúsculo da criatividade” (Sloterdijk), escutar High Castle Teleorkestra pode ser uma verdadeira ascese musical, um exercício de transcendência no sentido de alteridades realmente outras – e um raro deleite estético


As grandes obras de arte são aquelas que suscitam perplexidade, o thaumazein dos Gregos, esse sentimento difuso que participa do maravilhamento e do espanto. São obras que intrigam, inquietando-nos mesmo quando lhes viramos as costas e nos afastamos delas, obras insólitas que nos impedem de saber exatamente o que pensar e o que sentir em relação a elas (eu já tinha refletido sobre isso a propósito de Scott Walker). Há nessas obras um princípio de negatividade, no sentido mais salutar (e pedagógico) da palavra*, um princípio de resistência e não-complacência em relação a modas e padrões estéticos comerciais[2], a negatividade como potência criativa e desestabilizadora que pareceria não facilitar a experiência estética do ouvinte, em sua vontade de identificar-se com a obra, em sua (muito natural) expectativa de identidade e fixidez, permanência, continuidade no tempo etc.

* Não se deve incorrer no equívoco de tomar negatividade por sinônimo de pessimismo, niilismo, morbidez ou coisa que o valha. Negatividade como noção filosófica (dialética) elementar, e de amplo alcance (para além de pessimismo X otimismo), que não se deve reduzir às suas instâncias afetivas. A criatividade, à medida que comporta em sua dýnamis um princípio crítico, essencial para a manutenção do princípio criativo mesmo, implica certa negatividade. Inovação, ruptura, invenção, originalidade, tudo isso implica a negação de algo. O sacrifício do artista em nome da obra é uma forma de negatividade. Uma obra de arte subversiva e hostil às flutuações da moda é “negativa” neste sentido: criativo, afirmador, “transvalorador” (Nietzsche). A grande criação como uma obra de negação, demolição e/ou superação de formas artísticas preexistentes, estabelecidas.

Pop hits são fabricados seguindo diretrizes de marketing com o objetivo de gerar sucesso (e lucro) imediato a partir do maior número de consumidores, explorando comercialmente a “marca” do artista (concebido doravante a partir das técnicas de branding), apelando para fórmulas baratas e vulgares (amiúde a sexualização banal da arte) quando não plagiando canções de sucesso de outras épocas, de outros países e de gêneros musicais insuspeitados (como muitos cantores sertanejos já fizeram, e fazem), vampirizando assim o sucesso dos outros, por falta de talento próprio. Do anti-pop: no estágio em que nos encontramos da indústria cultural, neste império da mesmice e da impostura, a música de High Castle Teleorkestra é uma ascese musical, um exercício de transcendência no sentido da alteridade. As grandes obras de arte são “objetos insólitos” em meio à mesmice que os rodeia. Quanto mais insólita, e quanto mais nos intriga, mais significativa e valiosa é uma obra. Como The Egg That Never Opened: Radio Free Albemuth part 1 (2022), o álbum de estreia da High Castle Teleorkestra (HCT).



Uma dica secreta para conhecedores

Para quem aprecia bandas e músicos como Mr. Bungle, Estradasphere, Secret Chiefs 3, Fantômas, John Zorn e Mike Patton, entre outras “entidades musicais” tão exóticas quanto sublimes, HCT é uma dica certeira (ein Geheimtipp für Kenner, “uma dica secreta para conhecedores”, como uma editora alemã se referiu a Cioran[3]).

Se você não conhece nenhum desses nomes, permita-me apresentar este supergrupo de outra maneira. HCT é uma banda de música experimental e no limite inclassificável que plasma genialmente uma ampla gama de estilos musicais, oriundos de diferentes culturas e épocas, alguns dos quais poderiam parecer definitivamente incompatíveis. Será?

HCT é um grupo transnacional, formado por 3 músicos oriundos do Estradasphere (EUA), Tim Smolens (baixista),Timba Harris (violinista) e Dave Murray (baterista), aos quais vêm somar-se Bär McKinnon (saxofonista), ex-integrante do Mr. Bungle,[4] Stian Carstensen (acordeão), da banda norueguesa Farmers Market, e Chris Bogen (guitarrista estreante que “combina nostalgia agridoce de décadas passadas com a sonoridade clássica da sua guitarra”). São, todos, músicos extremamente talentosos e virtuosos, verdadeiros prodígios em seus respectivos instrumentos (amiúde mais de um). É uma Teleorkestra porque o álbum de estreia (2022) foi gravado e produzido todo à distância, cada um deles localizado em lugares distintos do globo (EUA, Europa, Austrália), graças à Internet.

A música de HCT se caracteriza pela fusão (fusion) e pelo crossover entre diferentes gêneros e estilos, pela variação de ritmos numa mesma composição, sem fixar-se ou identificar-se definitivamente com nenhum deles. Uma mentalidade musical inclusiva, eclética, cosmopolita (sem preconceitos). Do death metal à música cigana romena, de música folclórica búlgara ou grega à surf music anos 50, do progressivo ao jazz e doo-wop, da dissonância experimental à valsa ou à música de cinema italiano das décadas de 60 e 70 – são cruzamentos atípicos, combinações heteróclitas cujo resultado musical é fascinante e assombroso. É um vórtice musical que engendra, em meio a tanta variedade, certas espécies musicais insólitas, entre as quais o assim-chamado Romanian folk metal, gênero híbrido (e temerário) que é uma das especialidades de HCT.

A exemplo da polivalente preposição romena întru, a partir da qual Constantin Noica considera possível erigir toda uma filosofia da cultura e da mentalidade romenas, a música de HCT se caracteriza por transitar întru gêneros distintos, por manter-se em constante deslocamento de um estilo musical para outro (muitas vezes díspares entre si), sem fixar-se e identificar-se a um único. É uma forma limiar de existência, um modo de “ser-entre” (interidade) – propriedade fundamental da mentalidade do povo romeno, segundo Vasilica Cotofleac.



Radio Free HCT: Sci-fi music inspirada em Philip K. Dick

O conceito artístico, os temas e títulos das canções do álbum de estreia da HCT são fartamente inspirados no universo literário de Philip K. Dick, autor norte-americano conhecido por livros que se tornariam filmes e series de sucesso (Blade Runner, Minority Report, A Scanner Darkly, The Man in the High Castle). The Egg That Nevr Opened: Radio Free Albemuth part 1: o título do álbum é o mesmo título de um livro de Philip K. Dick[5] (Radio Free Albemuth), acompanhado de uma citação textual deste livro (“The Egg That Never Opened”[6]). Os títulos das faixas (10 no total) são referências diretas ou indiretas ao universo sci-fi do escritor norte-americano (particularmente de Radio Free Albemuth).

O videoclipe de “Mutual Hazard” (abaixo), a última faixa do álbum, e uma das mais emblemáticas da essência de HCT, explora o universo sci-fi de Philip K. Dick de forma audiovisual, com referências a Radio Free Albemuth e à organização subversiva da narrativa, “Aramchek”, de onde o motivo da Radio free (“rádio livre”): feliz metáfora da natureza musicalmente atípica (“subversiva”) de HCT, avessa ao apelo estritamente comercial das estações de música mainstream.



HCT será para muitos impopular. Seu tipo de música seria dificilmente recomendável para as massas, que tendem a “consumir” música como fast-food, rejeitando tudo o que requer a arte de ruminar (Nietzsche). As pessoas vão ao McDonald’s porque sabem que sempre encontrarão exatamente o mesmo. A experiência estética de escutar HCT é o exato oposto de consumir junk food: a cada vez, tem-se a impressão de ouvir algo totalmente novo, diferente da experiência (de escuta) anterior. E verdadeiramente nutritivo para a alma: inspiração que transcende o domínio da música, invocando cinema, poesia, filosofia, literatura, HQs, dança contemporânea e performance…

Eu é um outro(Rimbaud)

Nada melhor para ilustrar a singularidade de High Castle Teleorkestra do que este famoso verso de Rimbaud. Não se pode falar de HCT sem trazer à baila Estradasphere e Mr. Bungle, as principais matrizes do seu DNA musical. Nenhuma delas possui uma identidade musical definida e unívoca. Ou melhor, sua identidade musical consiste precisamente em não ter uma identidade musical definida, em termos de unicidade, fixidez, univocidade, simplicidade. O que caracteriza HCT é a versatilidade, a complexidade, a polivalência, a metamorfose, a imprevisibilidade, o efeito-surpresa (maravilhamento ou assombro). Sua música não se assemelha a nada, resiste a toda comparação, e não obstante ecoa muitas coisas que parecerão vagamente familiares (épocas, lugares, atmosferas, estilos). Aplica-se à Teleorkestra a definição do homem proposta por Nietzsche (citado por Cioran): “o animal cujo tipo ainda não foi determinado, fixado”.[7] Como esse animal em pleno devir, criativo e titânico, HCT é o grupo musical cujo tipo ainda não foi determinado, fixado. Compreende-se que os metaleiros não a tenham como uma de suas bandas preferidas, que os aficionados do progressivo simplesmente a desconheçam, e que nenhuma “tribo” a reivindique.

Matryoshka musical

Uma imagem que sempre me perseguiu, escutando Estradasphere (banda que já não existe), e agora também HCT, é que seus integrantes seriam humanoides governados por uma legião de músicos em miniatura tentando, sem sucesso, impor o seu estilo sobre os demais. É uma imagem que me ocorre especialmente escutando “Hunger Strike”, a primeira faixa do primeiro álbum de Estradasphere (It’s Understood, 2000): uma longa composição de quase 20 minutos cuja duração (inconcebível para os padrões das rádios) só é superada pela variedade de ritmos e estilos entre os quais transita. Nunca imaginei que pudesse escutar exaustivamente uma canção de quase 20 minutos (ao ponto de conhecê-la em seus mínimos detalhes, cada segmento, cada transição, cada solo)! É como se de dentro de uma banda de heavy metal saísse uma fanfarra de música cigana, e desta um ensemble de jazz, e deste um grupo de rock progressivo, e assim sucessivamente, como uma boneca russa musical…

Um crítico musical, autor de uma excelente resenha do primeiro álbum de Estradasphere (que é em grande parte a alma mater musical de HCT), fez uma analogia que também me havia ocorrido, antes mesmo de ler o texto, entre a banda californiana e Quero ser John Malkovich (1999), filme lançado um ano antes do álbum de estreia de Estradasphere.

Em Quero ser John Malkovich, a alma do famoso ator é rotineiramente ocupada por qualquer zé-mané que pague US$ 200 pela emoção de vivenciar a vida diária de Malkovich. Mas só até que Craig Schwartz (John Cusack) aprenda a manipular o corpo do ator, instalando a sua própria consciência no corpo de Malkovich e desencadeando, assim, a conspiração maior de um grupo de “idosos”, que querem fazer a mesma coisa. Com o tempo, o resultado é de centenas de milhares de almas compiladas em um único ser.
Suponha que isso fosse possível na vida real, mas de acordo com um cenário um pouco mais simples. Imagine centenas de anos de compositores, estrelas do rock e ocasional artista de vanguarda, todos residindo dentro da cabeça de um grupo de músicos. Uma banda de músicos que têm transtorno de múltiplas personalidades? Na verdade, não. É apenas Estradasphere, de Santa Cruz.[8]

É um paradoxo significativo que, toda vez que imaginamos e idealizamos como seriam a liberdade e a graça humanas em toda sua pureza, imaculadas pelos cálculos da razão, acabemos chegando, de um modo ou de outro, ao Teatro de Marionetes de Kleist (um motivo central em Quero ser John Malkovich também). Em diálogo com Kleist, John Gray questiona se “tantas vezes não são os títeres – controlados do alto pelos titereiros – extremamente graciosos em seus movimentos de dança? Nenhum ser humano pode igualar a marionete em graça sem esforço.” (A alma da marionete, p. 10). Se insisto nesta analogia, a partir do filme de Spike Jonze e Charlie Kaufman, não é para reificar os artistas, privando-lhes de humanidade, como se fossem autômatos mecânicos em vez de seres humanos criativos. Muito pelo contrário: quando a totalidade da cultura (musical) produzida pelos seres humanos parece reificada, “anquilosada” e “desalmada”, transformada em commodity e produtos de consumo instantâneo, a marionete (em sua antiguidade rústica, anacrônica) se torna uma metáfora (irônica, cínica) da criatividade e da liberdade humanas (a mesma assimetria como nas Viagens de Gulliver, de Jonathan Swift). “Tal como apresentado por Kleist, o automatismo do fantoche está longe de ser uma condição de escravidão. Comparada à vida dos seres humanos, a vida da marionete mais se assemelha a um invejável estado de liberdade.” (A alma da marionete, p. 12).

Por falar em marionete, um dos mais belos (e tresloucados) aforismos de Cioran envolve o arquetípico boneco: “‘Sou como uma marionete quebrada cujos olhos tivessem caído para dentro.’ Estas palavras de um doente mental valem mais do que o conjunto das obras de introspecção” (Silogismos da amargura). Enfim, HCT é fascinante porque, ao escutá-los, não se pode deixar de pensar nos músicos como titãs virtuosos ou como graciosas marionetes musicais (sem titereiro).

Heterotopias musicais e outras paisagens sonoras inquietantes

A despeito de suas afinidades com Estradasphere e Mr. Bungle (em virtude de certo DNA comum), entre outras bandas do mesmo espectro musical heterodoxo, HCT é uma criatura completamente diferente e peculiar (há Stian Carstensen e Chris Bogen, cujo trabalho criativo contribui para a sonoridade própria de HCT, diferente de qualquer outra banda anterior).

HCT experimenta na intersecção de múltiplos gêneros, cruzando as fronteiras entre culturas, “tribos”, linguagens e seus respectivos estilos e ritmos musicais. Como no caso de Mr. Bungle e Estradasphere, é preciso resistir à estranheza inicial para então apreciar plenamente essas bandas, em toda a sua riqueza e singularidade. Mais do que isso: requer um gosto pelo exótico e pelo assombroso, pelo inquietante, e pelo desconcertante em música, pelo que nos deixa sem palavras, desafiando nossos julgamentos estéticos habituais.

A célebre metáfora de Heráclito, do rio em que não se pode entrar duas vezes, aplica-se a todo tipo de experiência, mas a fortiori à experiência de ouvir HCT (e Estradasphere). Em certos rios, dificilmente se entraria uma única vez, quanto mais duas (já que a única coisa permanente é a absoluta mudança, o devir simultâneo do rio/música e do ouvinte ao mesmo tempo).

Muito embora isso seja uma questão de gosto (que é sempre subjetivo e relativo), The Egg That Never Opened pode parecer de início, para a maioria dos ouvintes, “difícil”, “complicado” (e por isso repelente). A música de HCT não é estritamente nada específico (em termos taxonômicos) para agradar aos ouvidos que só gostam disso ou daquilo específico, seja heavy metal, jazz, progressivo, ou qualquer outro grande gênero. A Teleorkestra experimenta musicalmente na intersecção întru gêneros (fusion, crossover). Como no caso de Mr. Bungle e Estradasphere, é necessário resistir à estranheza inicial para então, após esse teste de resistência, apreciá-la em toda sua riqueza. Mais do que isso: é preciso ter o gosto musical do exótico e do assombroso, do que desconcerta os sentidos e a inteligência, desafiando os nossos juízos estéticos, deixando-nos sem reação.

“O ovo que nunca abriu…” (análise do álbum)

The Egg That Never Opened é um álbum de virtudes dramatúrgicas ou cinematográficas, como se fosse a trilha sonora de um filme contendo outros (fragmentos de) filmes, transportando o ouvinte para universos fictícios e tramas detetivescas. São atmosferas, ambiências, paisagens e narrativas sonoras (épicas, sci-fi, cinema noir, vintage), muitas vezes suscitadas de forma puramente instrumental, sem o recurso lírico da voz e do canto (que também é explorado por HCT, mais até do que Estradasphere). Tudo isso combinado, o resultado é uma obra insólita e musicalmente desconcertante. Neste sentido, assemelha-se a grande parte da música de Estradasphere e de projetos paralelos de alguns dos seus membros, como The Deserts of Träun, de Dave Murray (baterista de Estradasphere e HCT).

A seguir, uma breve análise de cada uma das 10 faixas de The Egg That Never Opened, tendo em vista alguns critérios estéticos, variáveis definidas a partir do DNA musical de HCT (basicamente Estradasphere e Mr. Bungle): grau de esquisitice (experimentalismo) versus convencionalismo, polirritmia e hibridismo musical, além de remeter a composições anteriores de Estradasphere e Mr. Bungle – para quem está familiarizado com a discografia destes grupos – sempre que houver alguma semelhança.

1. “The Egg That Never Opened” (5m16s). A faixa de abertura é (como a última) uma das mais representativas do virtuosismo polivalente de HCT e de suas virtudes melo-dramatúrgicas (assemelhando-se neste sentido a “Hunger Strike”, a primeira faixa do primeiro álbum de Estradasphere). Uma viagem radiofônica por gêneros como jazz do início do século 20, surf music, música folclórica romena e búlgara, trilha sonora de desenho animado, tudo isso temperado com doses de metal pesado, com direito a riffs de guitarra distorcida e bumbo duplo na bateria, a mil por hora. Esquisitice, polirritmia e hibridismo de gêneros, alternância entre o lento/suave e o rápido/pesado. Saxofone (Bär McKinnon) e acordeão (Stian Carstensen) destacam-se, dando um colorido todo especial à composição.

2. “Ich Bin’s” (3m39s). Conforme explicitado no vídeo promocional lançado em abril de 2021, este tema com uma ar de tango foi composto por um imigrante argentino na França chamado José María Lucchesi (1897-1989). O acordeão dá um ar de chanson, em ritmo de valsa (3×3), como se fosse a trilha sonora de um antigo filme francês cujo protagonista – uma espécie de Don Juan estrangeiro – enlouquecesse com as inserções de death metal no meio do tango, quebrando o clima romântico da música (videoclipe oficial abaixo).

3. “The Aramchek Accusation” (3m25s). Definitivamente uma das minhas preferidas. Uma das mais “bizarras” do disco, além de ser em grande parte cantada (aliás, HCT se destaca de Estradasphere por um uso consideravelmente maior da voz, em suas potencialidades líricas). Psicodélica, setentista, destaca-se num primeiro momento pelo duo entre sintetizador e voz, em outras partes pelo piano, pela flauta e pelo saxofone. Menção especial à seção melódica e lírica (cantada), meio beatle-esca, meio pink-floydiana (com um belo solo de saxofone).

4. “Valisystem” (5m08s). A introdução percussiva e atonal destaca-se pela bizarrice de algum modo sublime, culminando num belo tema vocal (lírico) acompanhado de teclados com um timbre meio new age. A canção logo se transforma em algo que pareceria a trilha sonora de um filme de animação de fantasia, como The Deserts of Träun, passando por outros estilos (segmentos heavy metal incluídos). Excelente trabalho vocal. Arranjos de saxofone e de flauta maravilhosos. Mais uma composição com longas partes cantadas (no que HCT se sobressai, em um único álbum, em relação a toda a discografia de Estradasphere). Definitivamente uma das minhas preferidas, e das mais “bizarras” do disco. Fora da caixinha.

5. “At Last He Will” (5m40s). Como “The Egg That Never Opened”, uma das mais emblemáticas do DNA de HCT e Estradasphere. Não chega a ser tão “bizarra” quanto a anterior, que não se assemelha a nada determinado, a nenhum gênero musical conhecido. Predomina o assim-chamado Romanial folk metal ou Bulgarian folk metal, intercalado com segmentos de jazz, música italiana, metal progressivo épico, terminando de forma lenta e sombria, como a trilha sonora de um drama psicológico. Faz pensar em Estradasphere da fase final, notadamente o último álbum, Palace of Mirrors.

6. “The Days of Blue Jeans Were Gone” (4m04s). Uma das composições mais “normais” em todo o álbum (o que não é uma crítica), sem muita variação e sem maiores surpresas. Um belo de tema jazz com backing vocals no estilo doo-wop, com um ar vintage dos anos 50. A trilha sonora perfeita para elevadores, cafés, lounges, parques, metrôs, viagens de carro, museus, ler e degustar vinho na varanda ou piqueniques na praia.

Baterista convidado, Rory Reagan grava “The Days of Blue Jeans Were Gone” no Colorado Sound Studio (junho de 2020).

7. “Diagnosing Johnny” (7m54s). Como a faixa anterior, uma das composições mais “normais” e menos “bizarras” de HCT, sem metamorfoses inesperadas e sem polirritmia, no tradicional andamento de 4×4 compassos. É a segunda faixa seguida que explora o coro vocal doo wop (esta ainda mais do que a anterior), tão característico dos anos 1950. Há um clímax dramático do meio para o final, concluindo com um belíssimo arranjo orquestral que acompanha o coro de vozes doo wop.

8. “Placentia” (3m55s). A terceira faixa seguida com uma estrutura composicional simples (4×4), em comparação com a polirritmia constitutiva de HCT (a exemplo de Estradasphere), sem acessos de heavy metal (como as primeiras faixas) e sem nenhum Jack in the Box musical (como as 3ª e 4ª faixas). Combinando, em um clima praiano de surf music, guitarras rockabilly numa levada jazz meio vintage, “Placentia” é uma das composições de HCT com maior virtude dramatúrgica ou cinematográfica, estimulando-nos visualmente a imaginar uma variedade de situações e ambientes arquetípicos, do repouso no oceano líquido do útero materno a uma praia paradisíaca ao pôr do sol, do passeio pelas ruas vazias da cidade numa tarde de domingo aos passos furtivos de um detetive que investiga uma bela mulher suspeita de ser uma serial killer, e cujas pistas misteriosas fazem-no sentir atraído por ela. Poderia ser o tema de uma versão da Pantera cor de rosa dirigida por David Lynch.

9. “Klawpeels (Mission Checkup)” (3m33s). A penúltima faixa se destaca, como as 3 anteriores, pela estrutura convencional e sem polirritmia, pela melodia, pela harmonia e pelo lirismo do saxofone (choroso) e da guitarra (onírica, praiana, docemente melancólica) criando, a exemplo da faixa anterior, uma atmosfera afetiva envolvente e poeticamente significativa, a meio-caminho entre a surf music, o soul e o blues. Definitivamente, uma das minhas favoritas em todo o álbum, por uma razão distinta (oposta) daquela pela qual a primeira ou a última faixa também são favoritas:  “Klawpeels (Mission Checkup)” é uma predileção entre as faixas “normais”, enquanto “The Egg That Never Opened”, “The Aramchek Accusation” e “Mutual Hazard” são predileções entre as “bizarras”. Assim como existe hoje o bordão “Isso é tão Black Mirror”, que se usa sempre que se depara com uma situação real que pareça ter alguma relação temática com a série britânica, poderia existir também o bordão “Isso é tão Estradasphere”, no âmbito musical. Em meio à mesmice preguiçosa de grande parte da música contemporânea, quando as autênticas diferenças se perdem em favor da mediocridade que garante o sucesso fácil, não é difícil reconhecer uma ave rara como Estradasphere: não por determinado padrão, pela fidelidade a um mesmo gênero ou pela insistência em determinada fórmula de sucesso, mas pela “esquizofrenia” da ausência de identidade (e classificação) musical fixa, determinada, facilmente reconhecível. A julgar por cada uma das faixas de The Egg That Never Opened, as 4 primeiras revelam prontamente, para quem tem uma mínima familiaridade com Estradasphere e Mr. Bungle, que isso provavelmente tem alguma relação com estes grupos. O mesmo não se pode dizer das faixas 8 e 9, por exemplo, que prezam pela homogeneidade e pelo convencionalismo (lírico, melódico), em detrimento da experimentação e da polirritmia. “Klawpeels”, como algumas canções de Estradasphere, é uma faixa na qual HCT consegue disfarçar-se sob o manto da normalidade e parecer qualquer outra coisa menos HCT. Se eu a tivesse escutado em outro contexto, fora de The Egg That Never Opened, é possível que eu nem chegasse perto de suspeitar que se tratava da criação dos músicos que mais admiro e cuja obra me é tão familiar! Este paradoxo é uma expressão de sua virtuosa grandeza: nem todos os artistas possuem o talento e a habilidade, como Odisseu polimekanos (“Odisseu de muitos disfarces”), de disfarçar-se como eles mesmos.

10. “Mutual Hazard” (5m40s). Seguindo o princípio de que é necessário concluir com chave de ouro, a exemplo das últimas faixas de alguns dos discos de Estradasphere (“The Return”, em The Palace of Mirrors) e Mr. Bungle (“Merry Go Bye Bye” em Disco Volante e “Goodbye Sober Day” em California), o álbum se encerra no melhor estilo HCT / Estradasphere. Uma das composições mais insanas (e pesadas) do álbum, com uma estrutura musical polirrítmica formidável, incorporando ao Romanian folk metal característico dessas bandas a sonoridade tradicional do violino e do acordeão. O clímax, perto do final, é de eletrizar. Uma maneira genial (e imprevisível) de encerrar a odisseia musical.


NOTAS:

[1] ROSSET, Clément. Principios de sabiduría y locura. Trad. de Santiago E. Espinosa. Barcelona: Marbot Ediciones, 2008, p. 67-68.

[2] Uma composição musical de quase 20 minutos, puramente instrumental, transitando por uma miríade de estilos musicais, muitos dos quais pareceriam perfeitamente incompatíveis entre si, do black metal ao jazz, da música cigana do leste europeu ao flamenco, do progressivo à trilha sonora de filmes inexistentes, definitivamente não foi feita para o mainstream, e eis justamente o seu valor artístico (de culto, para falar como Walter Benjamin). Falaremos dela mais adiante.

[3] Verena von der Heyden-Rynsch. Ela editou e prefaciou o Cahier de Talamanca (Caderno de Talamanca) de Cioran (Mercure de France, 2000).

[4] Mr. Bungle é a alma mater musical de Mike Patton, que se tornou mundialmente conhecido como vocalista do Faith No More. Após Frank Zappa e alguns poucos inclassificáveis, Mr. Bungle pode ser considerada pioneira no tipo de música em questão (experimental, incomum, amiúde assombrosa). Em seus 3 álbuns lançados, o primeiro dos quais em 1991 (autointitulado), seguido de Disco Volante (1995) e California (1999), Mr. Bungle inaugurou um filão de música heterodoxa – “esquizofrênica”, “bizarra”, “absurda” – tornando-se uma referência hors-concours para bandas – de todo o mundo, nos EUA, na Europa e na América Latina – fora dos padrões do mainstream e que não se identificam com nenhuma “tribo” musical determinada.

[5] Guardadas as diferenças irredutíveis, Philip K. Dick e Cioran têm em comum certa cumplicidade na heresia gnóstica, atualizada e reelaborada no século XX. As obras de ambos os autores são representativas do que críticos como Eric Voegelin consideram como a “tendência neognóstica da modernidade”. Sobre o gnosticismo de Philip K. Dick, cf. GRAY, John, “A revelação de Philip K. Dick”, A alma da marionete: um breve ensaio sobre a liberdade humana. Trad. de Clóvis Marques. Rio de Janeiro/São Paulo: Record, 2018.

[6] The egg that never opened (“O ovo que nunca abriu”) é uma frase proferida por um personagem do livro que empresta o título ao álbum de HCT, Radio Free Albemuth, assim como os títulos da maioria das 10 canções do álbum.

[7] “Sempre diferentes, não somos nós mesmo senão à medida que nos apartamos da nossa condição, o homem sendo, na definição de Nietzsche, das noch nich festgestellte Tier, o animal cujo tipo não foi ainda determinado, fixado.” CIORAN, E. M., La Chute dans le temps, Œuvres, p. 1078.

[8] ESPINOZA, David, “Spheres of influence”, Metroactive.com, 8 March 2000. Disponível: https://www.santacruz.com/papers/cruz/03.08.00/estradasphere-0010.html

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