“Bailar el tango” – Ciprian VĂLCAN

Revista Humanitas, 152, junho de 2022, p. 44-52.

Ao viajar à capital portenha, um filósofo romeno deseja ver de perto o espetáculo de dança e música que o encantava nos programas de TV da sua juventude. Ao vivo, a arte se mostrou atemporal, mas ainda um espelho da sociedade local

Byron. Quando eu tinha 15-16 anos, lia tudo o que encontrava: historiadores gregos, romanos e bizantinos, romancistas sul-americanos, poetas persas, filósofos alemães, franceses e ingleses, sociólogos, antropólogos, psicólogos, historiadores das religiões, ensaios de Cioran traduzidos por Modest Morariu, historiadores da arte diversos ou romances de Dostoievski. Eu devorava tudo com entusiasmo, frequentava todas as bibliotecas públicas possíveis, sem me esquecer das bibliotecas de familiares e de amigos. Anotava com cuidado todos os livros que lia, transcrevia os fragmentos mais importantes, era esfomeado e codicioso, sempre desejoso de mais e mais livros; e assustado, porque o mundo poderia acabar antes de eu chegar a ler pelo menos uma pequena parcela de tudo o que era importante. Vivendo sob semelhante pressão, eu não podia me dar o luxo de desperdiçar nem um minuto; terminava o quanto antes as lições escolares para ter tempo suficiente para me dedicar às minhas leituras ecléticas, ainda que, para isso, tivesse às vezes que confrontar os meus pais, ou os meus avós, preocupados porque eu não havia aprendido o bastante. Mas as coisas melhoravam, ganhei uma e mais outra olimpíada de língua romena, e assim ninguém podia mais reclamar; eu conquistava a autonomia que me era necessária e podia ler tanto quanto quisesse, o que para mim era um imenso prazer.

Eu vivia graças à imaginação e não tinha necessidade de grande coisa, era feliz como só se pode ser quando se vive rodeado de livros. Todos os dias, descobria novos tomos dignos de serem lidos, e então me lançava em busca deles. Alguns, encontrei já naquela época; outros, fui descobrir só mais tarde, tendo chegado em Paris. Entretanto, nos meus primeiros anos de liceu, de todos os autores que devorava com impaciência, um deles se tornaria meu ídolo absoluto, ainda que, hoje, me seja um tanto difícil compreender o porquê.

“O gênio”

Byron tornou-se o centro das minhas mitologias literárias, o gênio incomparável, o único, o inigualável, o deus. Goethe, Shakespeare, Dante, Cervantes e Rabelais eram, certamente, enormes escritores, admiráveis, colossais, mas sem nenhuma chance de rivalizar com ele. Byron era o Gênio, e eu me tornei o seu silencioso admirador. É provável que para isso também tenha contribuído a sua ascendência aristocrática, que deve tê-lo tornado ainda mais fascinante para a minha imaginação de criança crescida no comunismo. De resto, ainda me encanta, desde então, a excentricidade, e Byron não era nada fácil de se enquadrar nos moldes da sociedade do seu tempo.

Li várias vezes os quatro volumes das Opere [Obras de Byron] publicadas entre 1985 e 1990. Manfred, Sardanapal, Caim e Don Juan se tornaram os meus heróis, e agora compreendo que começava, então, a ver o mundo através dos seus olhos, e os meus esforços literários estava, então, totalmente sob o signo destas influências. Mas, além da grandeza destes personagens românticos, também gostava muito das sátiras de Byron, e algumas delas modelariam durante algum tempo, inclusive, o meu gosto literário, levando-me, por exemplo, a ser injusto com Coleridge e Wordsworth.

No final de 2018, cheguei a Buenos Aires. Fui a convite do Ministério de Cultura da Argentina. Lembrei da terrível sátira de Byron, The Waltz [A Valsa] enquanto assistia a um espetáculo de tango, graças à senhora embaixadora Podgorean. Na adolescência, admirador do sarcasmo, não entendia as razões da fúria de Byron contra a valsa; longe de me parecer vergonhosa, aquela dança era para mim um exemplo da mais fria elegância.

Detestável valsa, pornográfico tango

Acostumado com os bailes latino-americanos da alta sociedade, que eu costumava ver nos concursos transmitidos, fossem na televisão húngara ou nos canais alemães RTL e PRO7, e com a forma de dançar que se tornara canônica nas muitas festas de que participei, em que os casais se agarravam uns aos outros como se quisessem reconstituir, de maneira imperfeita, o andrógino platônico, eu era incapaz de entender o que provocava a ira de Byron, já que a valsa me parecia uma dança completamente inocente. Vim a descobrir mais tarde que, embora soubesse cavalgar, praticar boxe e nadar, Byron não podia dançar porque tinha o pé deformado, um dos motivos pelos quais a valsa o irritava. Ainda mais que Lady Carolina Lamb, sua amada à época, dançava a valsa com virtuosismo, o que provocava em Byron terríveis crises de ciúmes, levando-o até a proibi-la de dançar. Ademais, Byron olhava com incredulidade tudo o que vinha da Alemanha, no contexto em que, no trono da Inglaterra, estava a dinastia Hannover, por temor de que esses intercâmbios culturais comprometessem a originalidade da cultura inglesa; assim, a valsa, invenção alemã, não era para ele nem um pouco bem-vinda.

Queria ter Byron do meu lado tanto no Cátulo Tango quanto na Plaza Dorrego, em La Boca, e ficaria muito curioso para escutar seus comentários. Se a valsa lhe parecia uma vergonha, o tango provavelmente significaria para ele, pura e simplesmente, uma introdução à pornografia; e me aconselharia a ficar longe de semelhantes obscenidades. Eu poderia, seguramente, contradizê-lo, recorrendo a textos que elogiam o tango, e o exortaria a observar com mais atenção os vestidos das dançarinas; todavia, não estou nem um pouco certo de que meus argumentos o convenceriam a seguir comigo, e que, em vez disso, não se levantaria energicamente e me deixaria a sós, admirando aqueles movimentos que lhe teriam parecido, sem dúvida, inapropriadamente lascivos.

Honra e coragem

Borges, Piazzola, Nietzsche. É provável que, se eu citasse Borges, daria mais munição a Byron. Em Evaristo Carriego,[1] o jovem Borges nos conta, de forma assaz convincente, que o tango nasceu nos bairros marginais, entre 1880 e 1890, vindo a ser aceito pelo povo, e isso só depois de ter desfrutado em Paris de um êxito que o enobreceria. No início, as mulheres evitavam o tango, porque sabiam que era um baile para prostitutas, de modo que era dançado, “en los rincones de la calle”, como escreve Borges, somente por pares de homens. Mas Borges também vê no tango uma outra dimensão, aquela que resgata algo da tradição guerreira dos argentinos, e que os permitia alardear, sem palavras escandalosas, sobre a sua concepção da honra e da coragem.

Borges, que acreditava que, “sem os entardeceres e as noites de Buenos Aires, não se pode fazer um tango”, participou de um álbum de tangos junto com Astor Piazzolla. A ideia de reunir Borges e Piazzolla viera da dançarina e coreógrafa chilena Ana Itelman. Ela utilizou o conto Hombre de la esquina rosada,[2] de Borges, para produzir um balé cuja música fora composta por Piazzolla em 1960. Alguns anos depois, o balé seria transformado em oratório, e lhe seriam acrescentados muitos outros poemas de Borges, para os quais Piazzolla também compusera a música, resultando em El Tango, de 1965. A colaboração foi, para ambas as partes, um tormento; odiaram-se e desprezaram-se mutuamente, dirigindo-se ofensas que chegaram até aos nossos dias. Quando o disco foi gravado, Borges tinha 66 anos e Piazzolla, 44. Borges apelidou Piazzolla de “Astor Pianola”, considerando-o um ignorante vaidoso que compunha uma música pretensiosa, carente de qualidade e sem muita relação com o tango. Piazzolla via em Borges um autoritário, ignorante em matéria de música, completamente carente de gosto; reconhecia-lhe, não obstante, o gênio literário. O disco não fez sucesso, permanecendo uma raridade apreciada apenas por alguns refinados conhecedores do tango. Eu soube de sua existência em 2002, graças às minhas conversas, em Paris, com o escritor e crítico literário argentino Saúl Yurkievich. O Sr. Yurkievich foi o único dos meus conhecidos que havia escutado El Tango, o lendário disco, detalhe que o vincularia para sempre, na minha memória, a Virgil Ierunca, o único que havia escutado música composta por Nietzsche.

Cátulo Tango, Plaza Dorrego, Boca. Ficando duas semanas em Buenos Aires, tive tempo de ver de perto todo o que era significativo em matéria de tango, graças aos conselhos da Sra. Embaixadora Podgorean, uma profunda conhecedora do tema, além de destacada dançarina. Ao mesmo tempo, pude comprar o que tinha a ver com as minhas recordações romenas e francesas sobre o tango.

Esplendor natural

Antes de chegar à Argentina, eu tinha as seguintes referências sobre o tango: Tangoul, de Angela Similea, uma melodia que escutávamos na rádio na infância, provavelmente entre 1980 e 1983; as séries de tango exibidas na televisão romena, talvez entre 1983 e 1985; os concursos de dança (transmitidos sobretudo pelas emissoras alemãs) que costumávamos ver na casa de uma tia que tinha antena parabólica, 1983-1989; os CDs com tangos de Carlos Gardel e Astor Piazzolla, comprados em Paris entre 1995 e 1997; o concerto do Gotan Project, que assisti por acaso nos jardins do Palais Royal, na noite de 21 de junho de 2003; os dançarinos que vi à beira do rio Sena, entre 2002 e 2004, e depois entre 2010 e 2018. Durante minha estadia em Buenos Aires, fui a um espetáculo no Club Cátulo, um tango situado próximo ao Museu Carlos Gardel, e vi dançarem na rua, no bairro de San Telmo, na célebre Plaza Dorrego, e também no bairro La Boca, não longe do mítico estádio do Boca Juniors, La Bombonera.

Os concursos internacionais de dança que via na televisão, na adolescência, me acostumaram a corpos perfeitos e flexíveis, capazes das mais inacreditáveis acrobacias. Os casais que descobria pareciam elevar-se a um estão de graça, transmitindo a impressão de uma nobreza impossível de ser explicada racionalmente. Por mais que não tivessem nada de sangue aristocrático, os dançarinos se moviam com um esplendor todo natural, dando a impressão de que aquelas piruetas desconcertantes, aqueles saltos inverossímeis, de que eram capazes, estavam ao alcance de todos os que tivessem sido tocados pela graça. Em um mundo triste e cinza, em um mundo devastado pela fome, o medo e o frio, a estupidez inamovível do secretário do partido e a arrogância espantosa dos agentes secretos, os concursos descortinavam um espaço de estórias, fazendo-nos intuir que o mal e a feiura deveriam desaparecer, dando lugar a uma outra realidade na qual os traços do inefável poderiam ser descobertos de maneira bastante simples, por meio de um olhar que repousasse nos corpos dançantes. Era provável que fosse este o motivo pelo qual se saíam tão bem na frente das câmeras, desde avós dançarinas e tias irascíveis a adolescentes fãs de rock e crianças brincando com seus preciosos ursinhos de pelúcia. Aqueles concursos de dança, com comentários feitos em húngaro ou alemão, eram para nós a prova de que algo de bom era ainda possível, de que a beleza não se tinha evacuado totalmente do mundo, de que, para além do país infestado das venenosas legiões do desgraçado camarada Secretário Geral Nicolae Ceauşescu, uma vida cheia de charme era possível.

Olhar ao redor

A impressão da estória também era produzida pelo desfile dos casais na pista de dança. Era impossível encontrar a menor imperfeição, a menor discrepância. Os homens eram altos, esguios, fortes, movimentando-se com uma dignidade que parecia herdada da longa experiência dos ancestrais no campo de batalha. As mulheres eram modeladas como estatuetas gregas, e a finesse da matéria de que eram feitas provocava exclamações de entusiasmo conforme tentávamos escolher uma favorita. Como se eles soubessem que tal ou tal dificuldade estava adiante, sorriam com confiança não apenas para os seus parceiros, mas também quem os acompanhava da plateia, e especialmente para nós, na frente da TV, que assistíamos, cheios de admiração, cada movimento. E nós, enrolados nos cobertores até os pescoços, muitas vezes tremendo de frio, nos alegrávamos de ver aqueles que nos pareciam amados pelos deuses, nos alegrávamos de poder saborear o espetáculo.

Logo nos meus primeiros anos em Paris, entre 1995 e 1997, eu não sabia olhar ao meu redor. Passei a maior parte do tempo em bibliotecas, videotecas, salas de conferência, sem prestar atenção ao que se passava ao redor de mim, pouco interessado pelo espetáculo das ruas. Li bastante e participei de muitas conferências, esforçando-me para ver diretamente aqueles cujos livros eu havia descoberto, em meu país, aos 18-19 anos, e que se tornaram para mim verdadeiras lendas. As noites eram dedicadas aos vídeos dos maiores filmes na história do cinema, que eu pegava emprestado da ENS, e a comentá-los em companhia dos meus amigos de Saint-Cloud ou da rue d’Ulm. Quando retornei a Paris, para o doutorado, em 2002, as coisas foram diferentes. Eu lia na primeira parte do dia, depois ia ao cinema e a museus, ou simplesmente saía para caminhar. Só então eu descobria de verdade o que significava um flâneur,[3] e estava bastante contente com aquela descoberta.

Seita

Em um dos meus passeios desordenados, à noite, cheguei às bordas do Sena. Aí me deparei com o que chamaria a “seita dos dançarinos de tango”, um grupo de 10-15 pessoas que se encontravam regularmente para dançar em público, à beira do rio Sena. Eu veria aqueles dançarinos uma vez mais depois de três anos, e a última vez que vi seus sucessores foi no verão de 2018. Alguém trazia um grande toca-fitas e o ligava. Escutavam, um após o outro, diversos tangos da época clássica (nunca os tangos de Piazzolla), e as pessoas começavam a dançar, primeiro timidamente, em seguida com mais convicção. Entre os membros da “seita”, havia alguns jovens, e também idosos, mas eu nunca vi ninguém entre as duas idades. Os movimentos dos dançarinos eram hesitantes e um tanto desajeitados, ficando claro que eram aprendizes, não mestres. Porém, depois de os iniciantes terem rodopiado na pista de dança improvisada, entravam em cena os mestres. Uma senhora de uns 70 anos, com um traje aristocrático, perfeitamente ereta, às vezes com um vestido negro, às vezes verde, e um cavalheiro de uns 75 anos, de terno, parecendo-se um pouco com Leonard Cohen. Quando os dois começavam a dançar, todos os que estavam ao redor paravam para ver. Dançavam com uma precisão e com uma velocidade incríveis, conservando o tempo todo um suave e irônico sorriso, como se quisessem demonstrar desprendimento inclusive enquanto executavam os mais complicados movimentos. Após terminarem e receberem uma salva de palmas, convidavam os discípulos para retornar à pista e tentavam corrigir, gentilmente, os seus erros, mostrando, eles mesmos, se necessário, como era para fazer.

Se os dançarinos que eu via na TV pareciam propor um elogio da juventude e da vitalidade sem limites, exibindo o esplendor puramente natural de corpos perfeitos, sem inibições, restrições, dúvidas, oferecendo a mise-en-scène de um erotismo elegante e envolvente, os senhores que vi à beira do Sena se moviam em outro registro, trazendo ao primeiro plano o seu refinamento cultural e certa maturidade aristocrática, como se viesse acompanhada do sorriso misterioso de um dáimon.[4] Os primeiros queriam provar que somos apenas corpos que podem, um por um, arder ou adormecer, conhecer o êxtase ou a letargia mais profunda, ao passo que aqueles dois mestres parisienses eram a prova viva de que os corpos não passam de dóceis instrumentos a serviço do espírito, preciosas ferramentas de sofisticados exercícios de caligrafia.

Frankfurt e Zola

O tango dançado em Buenos Aires era diferente, parecia rechaçar toda pretensão de reconstrução ficcional do mundo, remetendo obstinadamente ao mais puro realismo. Não se tratava de metafísica, como eu imaginava antes de chegar na Argentina, nem da melancolia, que nos leva ao umbral do suicídio, nem sequer da insidiosa insinuação do erotismo que permite alimentar-se por dias a fio com voluptuosas fantasias. A dança que tive a oportunidade de assistir parecia a descrição da sociedade argentina inspirada em algum coreógrafo influenciado ora pelos romances de Zola, ora pelas teses da Escola de Frankfurt.

No Cátulo Tango, o dançarino-vedete era um homem nos seus 40 anos, com a barriga levemente protuberante devido ao tempo, com o cabelo grisalho e um traje ligeiramente antiquado. Pensei de imediato que estava diante de um diretor de banco que se portava orgulhosamente em virtude de seu rico passado de sedutor, lamentando a passagem do tempo um pouco ao modo de Casanova, escrevendo suas memórias no castelo do duque de Waldstein da Boêmia. E a bailarina-vedete, proveniente da Venezuela, também aparentando mais de 30 anos, caía presa dos caprichos e arroubos do companheiro, girando, serpenteando, retorcendo-se sem pedir permissão, como uma esposa agradecida por ter sido tirada da miséria graças ao marido velho e rico. Os quatro pares de dançarinos, que acompanhavam os dançarinos principais, pareciam formados por vendedores e garçons, acompanhados de jovens coquetes e empregadas. O gênio da espécie vigiava o seu amor furtivo, acompanhava seus movimentos safados, acobertava seus traços, sem prometer-lhes, contudo, nenhum momento de melhor sorte.

San Telmo

O bairro de San Telmo é um reduto da dessuetude, dotado de muito charme. Os amantes de objetos démodés, ou pelo menos fora de uso, podem encontrar tudo que desejarem seus corações nos armazéns de antiguidades da região, ou mesmo no Mercado de San Telmo, um mercado chique, coberto, e que lembra a Boquería, embora não tenha a abundância esmagadora de comida do paraíso alimentício da praça barcelonense. Se você quiser se livrar das multidões das grandes avenidas de Buenos Aires, pode andar a esmo pelas ruas dos bairros, admirando as velhas casas que mais se parecem caixas de bombons excêntricas, os arbustos de bougainville que brotam do concreto, ou as lojas com o gesso despencando, cheias de humildes produtos que fazem lembrar os filmes neorrealistas italianos.

No centro do bairro encontra-se a Plaza Dorrego, uma praça de dimensões modestas que se tornara uma espécie de Meca do tango. Os clientes dos bares, dos restaurantes e dos cafés, instalados nos edifícios ao redor da praça, quase todos turistas estrangeiros, têm à disposição mesas e cadeiras de madeira arrumadas de tal modo a permitir-lhes assistir aos dançarinos de tango que lá estão a exibir suas habilidades. A qualquer hora que se chegue, os dançarinos estarão preparados para oferecer uma amostra da coloração local. Não pude descobrir se os casais que se apresentam em público conseguem fazê-lo sem nenhuma restrição, ou se necessitam um certificado de competência, ou ao menos um termo de acordo com os donos dos bares locais. Cheguei lá por volta de 11 horas de uma sexta-feira. Instalei-me numa mesa na parte norte da praça, pedi algo para beber e decidi esperar. Depois de aproximadamente cinco minutos, quando já se tinham amontoado, provavelmente, um número suficiente de espectadores, os dançarinos começaram a sua movimentação. Bem perto de mim dançava um homem com uma barriga admirável, de cabelo preto, com um rabo-de-cavalo que me fez pensar em um barbeiro cheio de entusiasmo que teria saído para exercita-se após uma manhã inteira de trabalho. Não sabia se o considerava um barbeiro popular do bairro, especialista em cabelo e costeleta, ou como uma reencarnação de Sancho Panza que estivesse pernoitando entre os portenhos para oferecer-lhes um pouco de cordura. Sua parceira era uma jovem mulher que dificilmente dava ares de qualquer nobreza, muito magra, aparentando sofrer de uma timidez incurável. O seu vestido cinza me pareceu ofensivamente curto para as convenções do tango, mas imediatamente percebi que semelhantes purismos não cabem na Plaza Dorrego, e que, para atrair turistas, não se fazem necessários truques lá muito sofisticados. O cavalheiro dançava com uma autossatisfação não dissimulada, transmitindo uma arte e ao mesmo tempo certo ar de bem-estar, como um amante de troféus, ao passo que a pobre coitada parecia tomada de vergonha, dando a impressão de que todos os seus movimentos tinham a função de ocultar, mais do que pôr em evidência, o que lhe permitia voltar rapidamente para o meio da multidão anônima. Não desapareceu, porém, antes de passar por todas as mesas de madeira, acompanhada do dançarino todo cheio de si, tendo na mão direita um sombrero, pedindo aos espectadores que contribuíssem com alguma nota de dinheiro, em demonstração de apreço pelos dançarinos.

La Boca

Disseram-me que La Boca era o bairro da infâmia, a sede geral de ladrões, trambiqueiros, revendedores e cambistas, proxenetas, escroques e batedores de carteiras, o bairro onde não se tem o direito de caminhar distraidamente, sendo necessário seguir as multidões de turistas que se amontoam negligentemente pelas únicas duas ou três ruas consideradas seguras. Segui os conselhos dos meus amigos de Buenos Aires, saí um pouco do roteiro preestabelecido, descobrindo a pobreza e a tristeza local, tal como nas periferias das nossas cidades. Numa região segura, especialmente em El Caminito – rua-museu tornada célebre graças à inspiração e à obstinação do pintor Benito Quinquela Martín, que, entre 1950 e 1959, restaurou algumas dezenas de edifícios da região, restituindo-lhes seu aspecto original, com as cores amarela, azul, ocre, verde e laranja –, os turistas imediatamente fotografavam tudo o que lhes parecia digno de interesse: a estátua de cera do Papa Francisco, abençoando a multidão do alto de uma varanda, ao lado de uma estátua de cera de Maradona, que o acompanhava com um ar de aprovação; exposições de artesanato e lojas de lembrancinhas; senhores tocando o acordeão e dançarinos de tango movendo-se com dificuldade entre as pessoas; aquarelas de jovens pintores expostas no chão, à espera de compradores; crianças vendendo camisetas do Boca Juniors, etc. Muito embora seduzido pelas cores vivas das casas de El Caminito, e pelo espetáculo fervilhante das ruas, chegou um momento em que fui tomado de cansaço, de modo que me sentei no terraço de um restaurante do bairro, que também oferecia momentos de tango. Tive bastante tempo, enquanto comia a minha parrilla, para observar os dançarinos. Ele parecia estar na casa dos trinta, magro, vestindo calças pretas e uma camisa branca. Dava a impressão de uma autoconfiança desarmante, mantendo constantemente um sorriso provocador.  Dançava com um certo cansaço e com uma lentidão estudada, o que lhe permitia sugerir que não estava nem aí para a grandeza da humanidade ou para todas as grandiosas palavras que nos meteram na cabeça na escola. A sua parceira, mais jovem, por volta dos 20 anos, com um vestido ainda mais curto que o da moça da Plaza Dorrego, com um corpo que não retinha nenhum sinal de modéstia, movimentava-se de forma lasciva e natural, como num artificioso, e ao mesmo tempo brutal, apelo à sem-vergonhice.

Lupanar

A dança dos dois transmitia uma sórdida autenticidade, a autenticidade dos velhos bordeis em que nascera o tango. E fico imaginando o cafetão, a ostentar seus dotes enquanto exibe os encantos da sua protegida, à espera de quem vai a Buenos Aires não apenas para ver a cidade. Não permaneci tempo o suficiente para ver se a oferta do homem seria aceita, mas não ficaria surpreso de ver a mulher se retirar a um dos cômodos, nos fundos do restaurante, na companhia de um turista holandês. Seria natural, para mim, que uma dança que começa no lupanar, deve terminar no lupanar.

Trad. do romeno: Rodrigo Inácio R. Sá Menezes


NOTAS:

[1] Ensaio da fase inicial de Jorge Luis Borges (1899-1986). Foi traduzido ao português e publicado no Brasil, como parte integrante do volume O Martín Fierro, Para As Seis Cordas & Evaristo Carriego, pela Companhia das Letras, publicado em 2017 (NdT).

[2] “O homem da esquina rosada” (1927), em tradução ao português, é um conto de Borges que se passa em uma casa de tango de periferia, onde casais costumam dançar. Reina no lugar a má fama de Rosendo Juárez, valentão do bairro (NdT).

[3] O flâneur é um tipo social e artístico dos tempos modernos, personificado por Charles Baudelaire, que explora a cidade grande ao acaso para extrair da experiência urbana certa inspiração poética. Do verbo francês flâner: andar ou avançar lentamente e sem direção determinada, ao acaso, sem pressa. Segundo Victor Hugo, autor de Les misérables, “errer est human; flâner est parisien” [errar é humano; flanar é parisiense] (NdT).

[4] Entenda-se o termo, a partir do grego antigo, sem a conotação negativa (“diabólica”) que lhe será acrescido na mitologia cristã: dáimon, na cultura grega antiga, é uma divindade intermediária, como um gênio pessoal ou anjo da guarda cuja função é orientar a pessoa para o bem e mantê-la longe do mal. Diz-se de Sócrates que possuía um bom dáimon, graças ao qual nunca incorria em injustiça ou falsidade. Da noção de “bom dáimon” deriva-se a palavra grega que significa “felicidade”: eudaimonía (NdT).

Deixe um comentário

Faça o login usando um destes métodos para comentar:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s