Em meio ao pandemônio do Brasil bolsonarista, teoria conspiratória resgata “capital do mundo” há 450 milhões de anos no meio da Amazônia

No estado em que se encontra a saúde mental brasileira, “Ratanabá” é uma mixórdia entre mito de Eldorado, franquia Indiana Jones e o recente Don’t Look Up (Netflix)

Ex-Malhação e ex-Secretário de Cultura do governo Bolsonaro, Mario Frias publicou nesta terça-feira (14), em suas redes sociais, sobre o encontro que teve em seu gabinete, quando ainda era secretário da Cultura, com o dono da Dakila Pesquisas, empresa que tem disseminado uma teoria conspiratória sobre uma cidade perdida no meio da Amazônia brasileira: “Ratanabá”, a nossa própria Eldorado.

O ex-Malhação afirmou ter recebido Urandir Fernandes de Oliveira, dono da Dakila Pesquisas, em 2020, quando o empresário teria revelado a descoberta da “capital do mundo há 450 milhões de anos na Amazônia” (sic). A que nível de imbecilização coletiva chegamos?

A teoria, obviamente apontada como falsa por órgãos verificadores de fake news, tem viralizado no Twitter e no TikTok, impulsionada por perfis de influenciadores dedicados ao que mais faz sucesso: fofoca.

Urandir afirmava conversar com Bilu desde os 13 anos de idade, mas só relevou a existência dele em 2009. Naquele mesmo ano, parte da fazenda de Oliveira havia sido desapropriada por decreto presidencial para se tornar uma área quilombola. Sua empresa, Dakila Pesquisas, também disseminou teorias conspiratórias e fake news de cunho terraplanista e negacionista, contra as vacinas, durante a pandemia de Covid-19.

Urandir Fernandes de Oliveira ficou famoso por declarar-se o principal interlocutor do ET Bilu, um alienígena que teria aparecido num terreno em disputa judicial, em 2009.

“RATANABÁ”

Teoria conspiratória afirma a existência de cidade mítica que teria existido há 450 milhões de anos; Homo sapiens mais antigo data de menos de 1 milhão

Na últimas semanas, a notícia falsa sobre uma cidade perdida no meio da Amazônia, “Ratanabá”, viralizou nas redes sociais. A cidade perdida teria pertencido a uma civilização avançada que habitara a região há mais de 450 milhões de anos (!).

Neste período, os continentes ainda não existiam, estando unificados na assim-chamada Pangeia. Como explica Eduardo Neves, professor do Museu de Arqueologia e Etnologia da Universidade de São Paulo, que estuda a região amazônica há 35 anos, a humanidade também estava ainda longe de dar os primeiros passos. Os mais antigos fósseis do Homo sapiens encontrados datam de 300 mil anos atrás, uma minúscula fração dos supostos 450 milhões de “Ratanabá”.

Eduardo Neves, professor do Museu de Arqueologia e Etnologia da Universidade de São Paulo, que estuda a região amazônica há 35 anos.

“Essa ideia que é uma cidade de ouro que vai pagar a dívida externa do Brasil é uma fantasia”, explica Neves. A teoria conspiratória (à la Indiana Jones), claramente uma cortina de fumaça (das mais fantásticas), reaparece justo no momento em que todos os observadores internacionais acompanham as buscas para encontrar o indigenista Bruno Pereira e o jornalista inglês Dom Phillips, desaparecidos na floresta amazônica desde 5 de junho de 2022.

ET Bilú

Em agosto de 2019, o vereador Dr. Antonio Cruz do Partido da Social Democracia Brasileira (PSDB) e Dr. Wilson Sami do Movimento Democrático Brasileiro (1980) (MDB), indicaram e condecoraram Urandir Fernandes de Oliveira com o título de cidadão campo-grandense, por ter fundado a Associação Dakila Pesquisas.

O homenageado criou o ET Bilú, apontada como uma farsa da Ufologia Brasileira. Ele foi homenageado pela primeira vez na Assembleia de Legislativa do Mato Grosso do Sul e recebeu uma Moção de Congratulação das mãos dos deputados, em outubro de 2018. O evento foi devido as supostas pesquisas na Matemática, Física, Biologia, Geografia, Paleontologia e Astronomia. Porém, não foram apresentadas provas dos estudos.


A suposta descoberta de Ratanabá, uma civilização secreta no coração da Amazônia, se espalhou pelas redes sociais – segundo as teorias da conspiração, ali se esconderiam “riquezas e tecnologias avançadas de nossos ancestrais”.

Houve postagens que até associaram essa ‘civilização’ ao desaparecimento do jornalista inglês Dom Phillips e do indigenista brasileiro Bruno Pereira na floresta. Mas nada disso faz sentido, como explica o arqueólogo Eduardo Góes Neves, que integra há mais de 30 anos uma rede de pesquisadores que trabalham para revelar o passado da Amazônia e dos povos que viveram (e ainda vivem) por lá.

Góes Neves explica que a teoria de Ratanabá não faz sentido nem do ponto de vista temporal, nem de tamanho ou de sua composição. E mais: a lenda presta um “desserviço à arqueologia” e serve de cortina de fumaça para os acontecimentos recentes na Amazônia, diz o especialista.


Madeleine Lacsko argumenta que a viralização de “Ratanabá” seria motivo de riso, não fosse motivo de choro (consternação). A colunista do UOL alerta para a velha instrumentalização política de teorias conspiratórias, sobretudo na proximidade de processos eleitorais (e chama a atenção para o inusitado encontro entre o então Secretário da Cultura, Mario Frias, e Urandir Fernandes de Oliveira).

“Nem só de convencimento e verdades se faz a convivência humana. Em tempos de redes sociais e polarização tóxica, não podemos subestimar o poder catalisador de teorias da conspiração”, argumenta a jornalista.

Há poucas semanas, perfis que simulam portais jornalísticos nas redes sociais ressuscitaram a história de Ratanabá. Efetivamente houve uma descoberta científica sobre civilizações ancestrais na Amazônia brasileira por meio de satélites, mas o fato foi rapidamente distorcido para fazer parecer uma confirmação da teoria conspiratória. Ela explicaria desde o interesse internacional no território até o desaparecimento de Dom Phillips e Bruno Pereira, o que é falso. O uso político desse movimento de redes sociais é perigoso.

Madeleine Lacsko, Fake News sobre cidade perdida de Ratanabá não é piada, é um perigo“, UOL, 16/06/2022

Veja também: “A enganação do momento é ‘Ratanabá’: haja picareta para desenterrar cidade de 450 milhões de anos!” – Gabriel Belic, Estadão, 14 de junho de 2022


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