“Cinzelador de cenotáfios” – Octavio PAZ

Jornal ABC, México, 21 de junho de 1995

Conheci Cioran quando acabava de publicar seu primeiro livro, por volta de 1947. Foi em uma reunião no apartamento de um amigo em comum em que os únicos estrangeiros éramos ele, romeno, e eu, mexicano. Em poucos minutos começamos a conversar sobre a literatura espanhola, que ele conhecia bastante bem. Eram os anos do apogeu de Sartre e do existencialismo; para o assombro de alguns dos presentes, Cioran assinalou que já antes da guerra, Ortega e Unamuno, por perspectivas distintas, haviam explorado os temas que acendiam os debates daqueles dias: a liberdade, a morte, o tempo, a filosofia como um saber vital enraizado nas circunstâncias concretas de cada homem. Tornamo-nos amigos muito rapidamente. Desde o nosso primeiro encontro, nos vimos com frequência. Depois deixei Paris, mas a ausência não nos separou: ele colaborou com as revistas Plural e Vuelta, e em cada uma de minhas visitas a Paris, eu o visitava. Por isso, sua morte nos afeta, a mim e a Maria-José, duplamente: a literatura perdeu um grande escritor, e nós, um amigo muito querido.

Numa época que fez da mentira uma segunda natureza, a lucidez de Cioran cumpriu uma função primordial: limpar nossa mente de ilusões funestas, quimeras cruéis e teias de aranha intelectuais. Este pessimista, que revelou a vaidade de tudo o que chamamos de útil e necessário, nos ajudou, paradoxalmente, a viver: a imensa utilidade moral dos seus escritos consistiu em ser o elogio da inutilidade de nossos esforços para escapar de nosso destino mortal. Não nos fez mais felizes, mas nos ensinou a olhar de frente para o sol da morte. Seu pessimismo e seu ceticismo nos tornaram mais suportável a infelicidade de ter nascido. E o escritor? Em suas obras, sinto falta das potências solares e lunares, a alegria do mar, a irrupção da primavera, a paixão e a sensualidade, o assombro perante a natureza e suas prodigiosas invenções, perante o corpo e suas diárias revelações. Mas o que escreveu foi singularmente perfeito e durará. Seus aforismos e reflexões possuem a concisão, a precisão e a luminosidade dos moralistas do Grande Século, como La Rochefoucauld; sua filosofia — se é possível chamar de filosofia um pensamento que não está antes, mas depois dos sistemas — se avizinha dos grandes niilistas da Índia, como Nagarjuna, e de Pirro, o sorridente silencioso. Cioran, o romeno, reinventou o classicismo francês do século XVII em pleno século XX. Foi um cinzelador de cenotáfios, um artista do desespero e um poeta da arte mais difícil: o epitáfio. Vejo sua obra como um esbelto mausoléu, um cubo negro e resplandecente, que não abriga nenhum cadáver, mas algo, por essência, indefinível: a vacuidade.