“Breviário do caos” – Albert CARACO

Revista (n.t.) Nota do Tradutor, nº 23, edição especial, temática e ilustrada («Suicidário»), 2021.

O texto: Excertos de Bréviaire du chaos, de Albert Caraco, livro publicado em 1982 que se caracteriza por sua prosa mortuária e quase automática, como uma espécie de Litania do Caos. Os textos não titulados se destacam pela locução rudimentar, desprovida de qualquer preocupação estilística, com longas sentenças marcadas pelo excesso de vírgulas, como um caótico fluxo de consciência para a morte. No breviário, o autor aborda temas como o absurdo da história e a decadência da civilização, a alienação do homem moderno e a solidão das grandes cidades, a reificação e a massificação da subjetividade, a dissolução, a morte e o caos, onde o suicídio, curiosamente, não é enunciado uma vez sequer.

Texto traduzido: Caraco, Albert. Bréviaire du chaos (1982). Lausanne: L’Age d’Homme, 1999.

O autor: Albert Caraco (1919-1971), poeta, escritor e filósofo de origem turca, ascendência judaica e nacionalidade franco-uruguaia, nasceu na antiga Constantinopla. Personagem cosmopolita, viveu em Praga, Berlim, Viena, Paris, antes de mudar-se para o Uruguai. Às vésperas da Segunda Guerra, seus pais fugiriam para a América do Sul, passando pelo Rio de Janeiro e por Buenos Aires antes de se instalarem em Montevidéu. Ao retornar à Europa, a visão de mundo de Caraco se viu dominada pela evidência do mal e do caos contra os quais indivíduos e povos não têm nenhuma defesa. Pela radicalidade de seu pensamento, aproxima-se de outros autores da virada do século XIX para o XX, também judeus, como Otto Weininger, Carlo Michelstaedter e Jean Améry. Após a morte de seus pais, suicidou-se aos 52 anos, enforcando-se.   

O tradutor: Rodrigo Menezes é Doutor em Filosofia pela PUC-SP. Além de tradutor, é professor de idiomas, blogueiro e pesquisador acadêmico da obra de Cioran. Para a (n.t.) já traduziu Cioran, Héctor Escobar Gutiérrez e Mihai Eminescu.


BREVIÁRIO DO CAOS

Albert Caraco

Tendemos à morte, como a flecha ao alvo, e não a erramos nunca, a morte é nossa única certeza e sempre sabemos que vamos morrer, não importa quando, onde e como. Pois a vida eterna é um sem-sentido, a eternidade não é a vida, a morte é o repouso ao qual aspiramos, vida e morte estão ligadas, os que exigem outra coisa reivindicam o impossível e não obterão senão fumaça, sua recompensa.
Nós, que não nos consolamos com palavras, consentimos em desaparecer e nos aprovamos em consentir, não escolhemos nascer e nos julgamos bem-aventurados de não sobreviver em nenhuma parte a esta vida, que nos foi imposta antes que dada, vida plena de carências e de dores, de alegrias problemáticas ou malvadas. Que um homem seja feliz, o que isso prova? A felicidade é um caso de espécie e só olhamos para as leis do gênero, raciocinamos a partir delas, são elas que meditamos e aprofundamos, desprezamos quem quer que busque o milagre e não somos gulosos de beatitudes, nossa evidência nos basta e nossa excelência não está encerrada alhures.

§

As cidades, que habitamos, são escolas da morte porque são inumanas. Cada uma delas se tornou o cruzamento do rumor e do relento, cada uma se tornando um caos de edifícios, onde nos amontoamos aos milhões, perdendo nossas razões de viver.
Infelizes sem remédio nos sentimos quer queira quer não através do labirinto do absurdo e dele só sairemos mortos, pois nosso destino é o de reproduzir sempre, com o único fim de perecermos inumeráveis. A cada giro da roda, as cidades que habitamos avançam insensivelmente uma diante da outra, aspirando a confundir-se, é uma marcha ao caos absoluto, no rumor e no relento. A cada giro da roda, os preços dos terrenos aumentam e no labirinto que engolfa o espaço livre, o rendimento do investimento eleva, dia após dia, uma centena de muros. Pois é necessário que o dinheiro trabalhe e que as cidades, que habitamos, cresçam, é até legítimo que, a cada geração, suas casas dobrem de altura e falte água a cada dois dias. Os construtores não aspiram senão a subtrair-se ao destino que preparam para nós, indo viver no campo.

§

Nossa juventude se sente condenada e é por isso que as universidades estão fechando, ela tem razão, nós estamos errados e lhes preparando uma nova guerra.
A ordem e a guerra estão ligadas, nossa moral não o ignora, basta se referir aos ensinamentos dos grandes moralistas: tal é a única certeza e não podemos imaginar o estado de paz perpétua, a ordem não resistiria a isso. Nossa juventude penetrou nessa relação de conveniência, compreendeu o encadeamento entre nossos valores e seus infortúnios, é uma descoberta doravante irresistível.
O paradoxo é que tendo razão nossa juventude está errada, pois neste universo, que a uniformidade ameaça, os povos não são contemporâneos uns dos outros; há também muitas nações em que a juventude está pronta para imolar-se. Creem nossos jovens que basta declarar a paz ao mundo, aqui embaixo, para que o mundo os escute? Estamos no Inferno e não temos escolha senão entre ser condenados, que se atormentam, ou os diabos responsáveis pelo seu suplício.

§

O inferno que levamos em nós corresponde ao inferno de nossas cidades, nossas cidades são proporcionais aos nossos conteúdos mentais, a vontade de morte preside o furor de viver e não chegamos a discernir a que nos inspira, nos precipitamos em trabalhos intermináveis e nos orgulhamos de nos elevar aos cumes, a desmesura nos possui e, sem nos concebermos, construímos sempre.
O mundo será em breve nada mais que um canteiro onde, semelhantes às formigas, milhões de cegos, atarefados a perder fôlego, labutarão, no rumor e no relento, como autômatos, até que, um dia, despertarão tomados pela demência e se degolarão uns aos outros. No universo, no qual nos obstinamos, a demência é a forma que tomará a espontaneidade do homem alienado, do homem de posses, do homem ultrapassado pelos meios e tornado escravo de suas obras. A loucura jaz ademais sob nossos imóveis de cinquenta andares e a despeito de nossa precipitação em extirpá-la, não chegaremos nem a reduzi-la, ela é esse novo deus que não mais apaziguaremos rendendo-lhe uma espécie de culto: é nossa morte que ela incessantemente reclama.

§

Se há um Deus, o caos e a morte figurarão em nome de Seus atributos, se não existe, dá na mesma, o caos e a morte se bastarão até a consumação dos tempos. Não importa o que se incense, somos presas da sombra e da dissolução, não importa o que se adore, não se evitará nada, os bons e os maus têm um mesmo destino, um mesmo abismo acolhe os santos e os monstros, a ideia do justo e da injustiça nunca passou de um delírio, ao qual nos apegamos por razões de conveniência.
Na verdade, a fonte das ideias religiosas e morais está no homem, buscá-la fora do homem é um sem-sentido, o homem é um animal metafísico que gostaria que o universo existisse só para ele, mas o universo o ignora e o homem se consola dessa ignorância povoando a terra de deuses, deuses feitos à sua imagem. Assim chegamos a viver nos consolando com razões ocas, mas essas razões tão belas e consoladoras são o mesmo que nada, quando nossos olhos se abrem sobre a morte e o caos, pelos quais vivemos envoltos e sempre ameaçados. A fé não passa de uma vaidade entre as vaidades, a arte de enganar o homem sobre a natureza deste mundo.

§

A hora dos exorcismos e das conjurações passou; o que quer que aconteça, passou o tempo da oração. Nossas religiões já não nos servem para nada e os crentes não têm mais razão alguma de ser, pois aquelas nos extraviam de nossa evidência e estes não repensarão o mundo; ora, se o mundo, que habitamos, não é repensado, não subsistiremos mais do que três gerações, não poderemos nos extraviar de nossa evidência por mais três gerações seguidas.
Doravante temos meios, que nos julgam, e nossos sistemas inspirados não saberiam prevalecer sobre eles, o tempo do pensamento preludia e a hora da meditação começa. Em verdade, são os crentes que formam a massa da perdição, os crentes são demasiados entre o futuro e nós, também a morte será sua recompensa e nunca houve uma mais justa. Não é bom que sejamos governados por cegos, e que recebam honrarias, porque são cegos: não é legítimo que Chefes de Estado façam para si um título de sua superstição nem que honrem com sua presença as cerimônias de um culto. Um homem digno deste nome, no século presente, não acredita em nada e se glorifica por isso.

§

Não sabemos que deuses serão adorados pelos séculos por vir, acreditamos no advento de uma ordem em que o princípio feminino tomará o lugar que reservávamos para o Pai no Céu, doravante entre nós o Pai do caos e da morte.
Aprovamos a promoção de Maria: Maria, que não era nada nos Quatro Evangelhos, acaba de subir ao Céu, do qual toma pose ao cabo de dois mil anos, ela é a Magna Mater ressuscitada e Jesus não é senão o seu apêndice, mas lhe falta sempre uma metade dela mesma. Os séculos por vir restaurarão a integridade da Deusa, pois não basta que ela seja Virgem e Mãe, é preciso também que seja Prostituta e absorva a figura de Madalena, na qual reside o complemento da integridade.
Agora, e somente agora, poderemos celebrar as núpcias do Céu e da Terra, agora, e somente agora, a paz será perpétua, e o princípio feminino, mestre absoluto do mundo, tal como antes da História, agora e somente agora o movimento se deterá para que a imobilidade reine, agora e somente agora o centro será reconquistado e a extensão organizada a partir deste centro.

§

Não saímos do falso senão com o auxílio do furor, mas a partir do momento em que nos reagrupamos, recaímos no falso e, sem poder ir em direção ao verdadeiro, sem cair no desespero e na ira, falamos de autenticidade, para não confessar que ainda mentimos.
Viemos a mentir em dois planos distintos e os opomos, a fim de nos persuadir de que a objetividade guarda os seus direitos, falamos até de dialética na hora de mudar de plano, o capital da labuta é o de nos agitar, em vez de nos mover, e de nos subtrair à confrontação, em vez de buscá-la.
Assim fermentamos em uma esfera cerrada, nos oferecemos aí em espetáculo e a logomaquia triunfa todas as vezes, mas essa esfera é arrastada por uma História que se tornou fatal e que determinaremos cada vez menos, um turbilhão ao qual nossas obras deram uma sacudida decisiva, a despeito de nós mesmos, e que nossas ideias não captam. Deixamos de nos conceber, não nos levamos mais em consideração e chafurdamos em um estado que nos agrada e do qual só a catástrofe nos permitirá sair, carecemos de virilidade em face da nossa evidência, somos mulheres diante do destino.

§

O retorno à fonte é o primeiro dever ou o homem está liquidado. Assim os raros pensadores dignos deste nome se ocupam de ontologia e de etimologia, a fim de restabelecer uma metafísica, ao passo que os pequenos espíritos, em sua necessidade de estar na moda, se abismam na contemplação do social, esse detalhe subalterno.
Pois a sociedade não é nada. É uma forma e cuja massa de perdição será o conteúdo, é a mistura de sonâmbulos espermáticos, uma coisa desprezível infinitamente e com a qual o filósofo não terá nenhuma preocupação. A História é obra dos grandes homens e o campo cerrado no qual se medem as elites, a massa é admitida ao espetáculo e quando se vê envolta em sua ruína, seus mortos não valem mais do que moscas.
Uma das aberrações dos nossos tempos é ter multiplicado a tumba do Soldado Desconhecido: demos, assim, munição aos piores dos subversores, o anonimato servindo de escudo aos que o caos engendra, enfim, o caos possui altares entre nós, e já os reverenciamos[1]. Pois os ídolos anônimos são as portas pelas quais o caos entra no lugar, as portas permanecerão abertas, para que o caos possa invadir tudo.

§

O mundo, que habitamos, é duro, frio, sombrio, injusto e metódico, seus governantes são ou imbecis patéticos ou profundos celerados, nenhum outro está mais à medida desta época, estamos ultrapassados, sejamos pequenos ou grandes, a legitimidade parece inconcebível e o poder não é senão um poder de fato, um mal menor ao qual nos resignamos.
Se fossem exterminados, de ponta a ponta, todas as classes dominantes, nada mudaria, a ordem instaurada há cinquenta séculos não seria nem abalada, a marcha em direção à morte não se deteria por um dia sequer e os rebeldes triunfantes não teriam outra escolha senão serem os legatários de tradições caducas e de imperativos absurdos[2].
A farsa terminou, a tragédia começa, o mundo será cada vez mais duro, mais frio, mais sombrio e mais injusto, e a despeito do caos cada vez maior, sempre mais metódico: é, com efeito, a aliança do espírito de sistema e do espírito de desordem que me parece o seu caráter menos contestável, haverá cada vez mais disciplina e mais absurdidade, mais cálculo e mais paradoxos, enfim, mais problemas resolvidos, mas resolvidos para nada.

§

Nossos sabichões entupirão o mundo de brinquedos caros, são crianças grandes, brincando de violentar a natureza, e que admiramos às vezes erradamente, pois os serviços que nos prestam são cada vez mais problemáticos.
Já ninguém pode prever a que nos conduzirá tal ou tal descoberta, são tantas as vias pelas quais avança a Fatalidade e não mais o gênero humano, a fonte se aparta de nossas mãos, o curso da enxurrada nos escapa, o mundo se torna incognoscível e não podemos consentir, sob risco de desesperar os simples, que esperam pelo milagre e não pela catástrofe.
Uma reordenação é doravante impossível, o mundo está em frangalhos e já não podemos imaginar uma síntese em meio de uma mudança perpétua, seria necessário deter o movimento com o único fim de tomar um recuo metódico: ora, não somos mestres para frear o fluxo que nos arrasta, os homens mais bem avisados sentem há anos que é tarde demais, nos encaminhamos ao caos, vamos em direção à morte, preparamos a catástrofe mais enorme de toda a História, a que encerrará a História e cujos sobreviventes serão marcados por todos os séculos.

§

As lições da História são cheias de eloquência, mas não queremos mais ser iluminados por elas, recusamos a História, só para poder negar a evidência e perseverar em nossas ilusões, acreditamos no milagre e ainda que nos abandonemos à fatalidade, nos deixamos ir em direção ao que nos arrasta, com a esperança de uma mudança que nada justifica, fora dessa fé que depositamos na utopia.
Trata-se de uma espécie de delírio que toma conta dos espíritos mais frios, mais matemáticos e mais cínicos, é o tributo que pagam ao idealismo, e o futuro zombará desses profundos calculistas e desses pretensos dialéticos, à mercê de ideias obscuras e confusas.
Nenhum responsável dentre nós tem a coragem de prever a catástrofe e menos ainda de confessá-la a si, o imperativo categórico destes tempos é o otimismo e mesmo à beira do abismo, voltamos à magia verbal, conjuramos e exorcizamos, e o mais estranho é que o ridículo de nossas atitudes parece doravante conforme à ordem, nossos Chefes de Estado não passam de taumaturgos e nós não seremos mais, sob eles, vítimas consensuais.

§

Eu sou um dos profetas destes tempos e o silêncio me engolfa. Sentiram que eu tinha algo a dizer e não queriam escutar. Defenderam-se segundo os expedientes da moda, buscam enterrar-me vivo e só conseguirão um dia tornar meus partidários mais fanáticos.
Persevero na via que me tracei e esta via está doravante aberta, não estarei sozinho nela a marchar solitário por muito tempo, minhas ideias faziam falta a este mundo e os que as adotarem formarão um novo povo, entre os homens de ordem e os anarquistas.
Tampouco sou um anarquista, os dois me causam horror igualmente e me situo acima de sua querela, rompo com a alternativa atribuindo um novo eixo à legalidade, quero que o princípio feminino presida a fundação da Cidade futura e desloco todos os signos, o que fora negativo não deve mais sê-lo e o que ainda não é, sê-lo-á seguramente, eis toda a minha revolução, ela se inicia sob nossos olhos e as minhas ideias a refletem.
Não é a utopia que eu professo, é uma verdade que entrevejo.

§

Por que o pior é a única certeza que nos resta? Por duas razões, a primeira sendo a impossibilidade de frear o movimento que nos arrasta, e a segunda residindo na própria natureza desse movimento.
Pois na verdade esse movimento nos escapa e nele não somos senão objetos reduzidos à impotência; esse movimento é um abismo e nos perdemos nele, apenas medindo-o. Ademais ele é sua própria razão de ser, não obedece a nenhum desígnio que o homem seja capaz de compreender e com toda a probabilidade – este movimento é doravante absurdo. Assim a absurdidade se torna fatal, e a fatalidade lógica é um grilhão em que tudo conspira para nos desmontar, e no qual nos sentimos irresponsáveis.
O pior é certo e nós somos seus cúmplices, é uma volúpia de morte que se torna uma razão de viver. Assim nos precipitaremos diante do inevitável, a exemplo desses animais que se tornam muito numerosos e só desejam destruir-se em massa, e não por um excesso de espírito de sacrifício ou de espiritualidade, como não deixarão de insinuar para nós amanhã.

§

Não podemos sobreviver ao estado presente deste mundo, pois o estado presente deste mundo não tem futuro. Morreremos do presente e os que sobreviverem – e como serão raros! – se encontrarão em um outro mundo, do qual este que habitamos não poderia ser a promessa.
O futuro romperá com a realidade sofrida, não seria o futuro se a prolongasse, entre nós e nossos amanhãs se estende o precipício onde devemos mergulhar. Assim entraremos no caos e na morte segunda, pesados de nossas obras consubstanciais à noite, para melhor nos enterrarmos sob elas, e assim o passado nos seguirá nas trevas que aprofundaremos, a fim de que não retorne.
Estamos predestinados a encerrar a História, a História deverá morrer conosco, alcançamos a expiração do parêntese; consentimos, e plenamente, ao que não eludiremos, e nada nos aterroriza mais, esperamos pelo pior; não esperamos senão o pior, sacrificamos a esperança, abdicamos da fé, somos livres, mais livres do que nunca, presentes à nossa morte e sobrevivendo a essas razões de viver que para nós doravante a própria morte suplanta.

§

A voz profunda, ouvida por todos que não são surdos, nos adverte sobre o que nos aguarda, sabemos que o mal é irremediável e que a crença no milagre é uma impiedade, sabemos que não tornaremos a subir a ladeira e que consentiremos em descê-la por razões aparentemente válidas, sabemos que vamos explodir de ponta a ponta e perecer na conflagração que preparam nossas ideias, assim como nossos meios.
O caos logo será nosso denominador comum, o levamos em nós e o encontraremos em milhares de lugares juntos, por toda parte o caos será o futuro da ordem, a ordem já não tem nenhum sentido, não passa de uma mecânica vazia e nos consumimos a perpetuá-la, para que ela nos despache para o irreparável. Elevamos um templo à Fatalidade, a honramos com sacrifícios e não está distante a hora em que nos oferecemos a ela, o mundo está abarrotado de gente que sonha em morrer, levando os outros para a morte. Dir-se-á que os homens em número elevado destilam um veneno que se espalha pelo universo e torna o ecúmeno[3] inabitável. Assim o Inferno, longe de ser o nada, é a presença.

§

Nossas religiões são o câncer da espécie e não nos curaremos delas senão mortos. Morremos para que nossas religiões pereçam, a catástrofe engolirá os padres com seus fiéis. Os restos da humanidade que sobreviverão em meio às ruínas se lançarão atrás das pedras restantes.
Eu rio ao ver as nações construírem e restaurarem os edifícios, onde será engendrada a sua morte espiritual, no momento em que seria preciso repensar o universo; eu rio ao ver centenas de povos tornarem-se os guardiões de suas antiguidades imaginárias ou reais, à mercê da próxima catástrofe; eu rio ao ver disputados com o nada os templos em que o nada detém a sobrevivência, e professo que tudo vai morrer, os homens assim como as pedras, as pedras assim como os homens.
Amanhã, a morte celebrará suas núpcias com o caos, e já preparamos as mesas, é para sua festa que labutamos. Nossos edifícios são as peças que figurarão no meio da carne dos povos imolados, trucidados, cozidos e assados, cujas entranhas tremerão de amor diante da generosidade da Providência, contemplando, no momento de sua agonia, o vazio que imaginavam divino.

§

Precisamos de uma nova Revelação que proclame a caducidade daquelas que observamos. Mas estas que observamos estão aí, seu peso de morte se alia à Fatalidade que nos esmaga, ordem e caos formam um todo que não conseguiremos transpor.
Os Anarquistas e os Niilistas são os últimos homens razoáveis e sensíveis em meio aos surdos, que marcham, e os cegos, que militam, mas não basta ter razão no presente século, nem sentir, para mudar o que quer que seja. É preciso suplantar a ordem por uma ordem e não por uma desordem, e a moral por uma moral e não pela imoralidade, como a fé por uma fé, não por um vazio somente, e os deuses mortos por divindades nascedouras.
Não temos necessidade de agitadores, temos necessidade de profetas, necessidade de gênios religiosos à medida destes tempos, à medida de nossas obras, pois todos aqueles cuja recordação reverenciamos estão, sem exceção, ultrapassados. Estão todos ultrapassados e aqueles que os reivindicam os traem. Nenhuma tradição pode nos proteger contra o porvir, pois o porvir não possui precedente e o universo não oferece mais asilo.

§

Tudo o que nos acontece estava previsto de longa data, e aqueles a quem a Tradição não é estranha sabiam que este mundo estava condenado, mas não encontravam ouvidos para escutá-los.
O coração do homem não variou, o coração do homem se assemelha ao mar profundo e tenebroso, as mudanças só ocorrem na superfície em que nossa sensibilidade reflete a luz, mas quando mergulhamos, encontramos o que foi e o que será: a filosofia não penetra aí e só a teologia tem as chaves do abismo. Nossa teologia foi a aberração por excelência e somos nós a expiar seus crimes e seus erros: ela vomitou a natureza e a natureza se vingou. Somos antifísicos[4] e nossas religiões pretensamente relevadas só fizeram edificar a tumba da espécie. A loucura da cruz é agora a do homem, a volúpia do sacrifício é a última à medida de nossas obras, o gosto da morte será a consumação de nossas ideias. No caos em que chafurdamos, há mais lógica que na ordem, na ordem de morte em que nos reafirmamos há tantos séculos, e que se desfaz sob nossos passos automáticos.

CARACO, Albert, Bréviaire du Chaos. Lausanne: L’Age d’Homme, 1999. In: Revista (n.t.) Nota do Tradutor,  nº 23, 2021.


NOTAS:

[1] Em francês, nous l’y révérons déjà: presente simples da primeira pessoa do plural do verbo révérer, “reverenciar”. É digno de nota que révérons (“reverenciamos”) só se distingue do futuro simples da primeira pessoa plural do verbo rêver (“sonhar”), rêverons (“sonharemos”), pelos acentos agudos nas duas primeiras letras é, ao passoque rêverons possui somente um circunflexo na primeira letra ê (N. do T.).

[2] Provável alusão ao judaísmo, tradição religiosa em que se insere Albert Caraco, e à tradição judaico-cristã em geral. Os “imperativos absurdos” parecem aludir ao imperativo categórico de Kant, um dos conceitos principais de sua filosofia ética, tal como desenvolvida na Fundamentação da Metafísica dos Costumes (1785). Basicamente, o imperativo categórico prescreve que devemos agir sempre de maneira que as nossas ações e decisões fossem as mesmas que desejaríamos ver universalizadas, da parte de todos os indivíduos. (N. do T.)

[3] L’œcumène em francês: do grego oikoméne, “parte da Terra ocupada pelo homem”, “região habitada” (N. do T.).

[4] Antiphysiques, no original francês, diferentemente de antimétaphysiques, como poderia parecer mais pertinente ao contexto temático. (N do T.)