“Modernidade/Pós-Modernidade: variações niilistas em torno ao suicídio” – Fernando Rey PUENTE

Na esteira de Schopenhauer, podemos mencionar o pouco conhecido filósofo alemão Phillip Mailânder, que viveu no século XIX e antecipou em muitos aspectos um outro pensador extemporâneo desse século, este, contudo, muito célebre, a saber, Friedrich Nietzsche. Ambos, de certa forma, anunciaram em linhas gerais o que viria a ser a posição dominante no século XX sobre o tema aqui em discussão; por isso será tratado nesta última parte de nosso ensaio juntamente com os pensadores mais importantes do século passado que escreveram sobre o suicídio.

Mainländer foi um dos raríssimos casos de suicídio filosófico. Ele se suicida após ter chegado a suas mãos a primeira edição de sua obra, A filosofia da redenção. Mainländer tinha então apenas 35 anos. A obra é dedicada precisamente à exaltação do não-ser, a uma apologia do suicídio e à visão mística do nada. Deus quis o não-ser e este é alcançado pelo cosmos por meio de uma crescente diminuição de sua força vital. O indivíduo, entretanto, pode se antecipar e escolher o não-ser mais rapidamente por meio do suicídio, gozando por antecipação da feliz contemplação do nada. Constata-se obviamente em Mainlãnder uma forte influência schopenhauriana, mas sua posição, deve-se dizer, é nitidamente diversa daquela de Schopenhauer, corno ele mesmo faz questão de declarar em diversas passagens de sua obra. O tom quase religioso — embora o próprio Mainlãnder considere sua obra como estritamente científica — de sua mensagem filosófica pode ser claramente percebido em algumas passagens da mesma, como, por exemplo, quando exorta: “Meus irmãos, partam sem temor desta vida, quando ela estiver muito difícil para vós: não encontrareis na sepultura nem um reino dos céus nem um inferno.”

Após a leitura de Mainländer, a propalada radicalidade de Nietzsche parece eclipsar. De qualquer forma Nietzsche, ausente desta antologia, não tem um texto mais extenso sobre a morte livre (Freitod) como ele prefere no mais das vezes denominar o suicídio em uma clara referência à Antigüidade. Sua aprovação ao mesmo aparece em diversas passagens esparsas de suas obras mais importantes, em alguns conhecidos parágrafos ou aforismas das mesmas, como, por exemplo, o de número 157 de Além do bem e do mal, que diz: “O pensamento do suicídio (Selbstmord) é um forte consolo: com ele podem-se atravessar muitas noites difíceis.’ Mas, talvez o trecho mais conhecido de uma obra de Nietzsche que trata do suicídio seja o discurso de Zaratustra sobre a morte livre. No início desse discurso Zaratustra afirma: “Muitos morrem demasiadamente tarde e outros demasiadamente cedo. Ainda soa estranha a doutrina: ‘morra no tempo certo!’. Morra no tempo certo: assim ensinava Zaratustra.” A retomada das idéias de Sêneca acerca da morte voluntária fica patente para os conhecedores do pensador cordobês. Ela se torna ainda mais evidente se levarmos em conta, além dessa idéia que o tempo de vida de cada um não é determinado extrinsecamente –seja por Deus, pelo destino ou pelo acaso —, mas sim internamente, por uma escolha livre e racional, outros aforismas que tratam da velhice e da doença como obstáculos ao correto exercício dessa possibilidade de escolher o momento adequado e conveniente para se morrer. Assim, para Nietzsche, a morte natural é na verdade uma morte não livre e não racional, ocorrendo, portanto, em momento impróprio. A morte voluntária, deliberada e escolhida, é racional e se dá evidentemente no momento oportuno. Nietzsche conclui então que “dever-se-ia, por amor à vida, querer a morte de outro modo, livre, consciente, sem acaso, sem imprevisto…”.

Após esse longo percurso temático sobre o suicídio, chegamos finalmente ao século XX. Como afirmamos ao início deste ensaio, três das contribuições mais importantes ao tema foram escritas no século passado: a de Albert Camus em O mito de Sísifo (1942), a de Paul Landsberg em O problema moral do suicídio (1951) e a de Emil Cioran em O mau demiurgo (1969).

A posição de Albert Camus (1913-1960) é bastante conhecida e seu ensaio amplamente divulgado, de modo que seremos breves em relação a ele. Camus situa claramente o problema do suicídio no âmbito individual, e não no coletivo ou social. É o hiato reinante entre a nossa capacidade de reflexão, que pede claridade e transpa-rência do mundo, e este que se nos apresenta como impenetrável e incompreensível, que desperta em nós o sentimento do absurdo. O homem nessa situação sente-se um estrangeiro no mundo e decide então dele se evadir. O nada será por ele anelado como uma verdadeira possibilidade de repouso desta vida que lhe parece insu-portável e sem sentido, mas essa, para Camus, não é uma resposta adequada. Com grande astúcia e perspicácia o filósofo argelino nos adverte que geralmente se supõe que diante da questão do suicídio a resposta que se pode esperar é um claro “sim” de aprovação ou um claro “não” de recusa. Todavia, as zonas nebulosas e intersticiais na vida humana são infinitas e obscuras, de modo que é possível imaginar que alguém, por exemplo, que aceita o suicídio em tese, poderá jamais vir a se suicidar de fato, enquanto um outro, por completo desfavorável a ele teoricamente, acaba por suicidar-se um dia para surpresa de todos seus amigos e familiares. A posição de Camus é clara: a escolha do suicídio é uma aceitação e reconciliação passiva, “um desconhecimento”, uma espécie de resolução do problema que deveria permanecer insolúvel do absurdo. Este, segundo Camus, “não pode resolver-se”. “Ele [o absurdo] escapa ao suicídio na medida em que ele é ao mesmo tempo consciência e recusa da morte.” Viver, para Camus, nada mais significa então que “fazer viver o absurdo” e para isso este precisa ser contemplado sem qualquer desvio ou vacilação do olhar. Em outras palavras, a tarefa do homem absurdo é a de aceitar sem esperança ou consolo viver em um universo “ardente e gelado, transparente e limitado, no qual nada é possível, mas tudo é dado, depois do qual haverá o desmoronamento e o nada”. Mais ainda, é preciso imaginar esse homem feliz, tal qual, como dizem as palavras finais, que contêm uma refinada ambigüidade, desse belo livro que marcou época: “precisamos imaginar Sísifo feliz”.

Paul Ludwig Landsberg (1901-1944) é muito menos conhecido do público em geral. Judeu alemão, mas batizado na Igreja luterana pelos pais, estudou com Husserl e Heidegger em Freiburg e depois com Scheler em Kõln onde se doutorou. Foi professor da universidade de Bonn entre 1928 e 1933, quando, com a ascensão do nazismo, abandona a Alemanha exilando-se na Espanha, onde exercerá atividades docentes nas universidades de Barcelona e Santander. Por causa da Guerra Civil Espanhola, deixa a Espanha em 1936 dirigindo-se para Paris onde se reúnem então aos personalistas cristãos agrupados em torno de Emmanuel Mounier e onde será, nas palavras de Ricoeur, “o único verdadeiro filósofo do personalismo”. Em 1942, após seu mais conhecido livro escrito no período espanhol sobre a experiência da morte, Landsberg escreve em francês um belíssimo texto sobre o suicídio, “Le problème moral du suicide”. Nesse ensaio de pouco mais de 40 páginas, Landsberg discute um problema que era absolutamente pessoal para ele. Fugindo dos nazistas que invadiram a França, ele, como muitos outros judeus de seu tempo, andava sempre com um pequeno frasco de cianureto a fim de se matar caso fosse aprisionado. Mas ele não o fez quando capturado, junto com sua mulher, em fevereiro de 1943 pela Gestapo em Pau. Ele morrerá pouco mais de um ano mais tarde no campo de Oranienburg-Sachsenhausen próximo a Berlim. Suas reflexões, contidas em seu ensaio sobre o suicídio, nos ajudarão a compreender melhor a razão pela qual ele, quando capturado, decide não se matar. Landsberg começa seu texto constatando a singularidade cristã diante do problema do suicídio, ao ser a única religião que não admite nenhuma exceção no que concerne a esse tema. Ele argumenta contra certo senso comum que não se trata simplesmente de acusar os suicidas de lassidão e covardia, pois historicamente eles podem ser contados entre os mais corajosos guerreiros, sejam eles espartanos, romanos ou japoneses. E assinala, a seguir, com grande pertinácia, que o problema do suicídio é sobretudo um problema que envolve a noção de liberdade: “a discussão filosófica de nosso problema […] esteve sempre centrado sobre o problema da liberdade”. Landsberg identifica claramente o estoicismo como a posição filosófica que afirma a autonomia do ser racional e que tem seu centro vital em uma filosofia da morte livre. E compreende igualmente que é precisamente essa matriz estóica que terá de ser combatida pela Igreja; aqui, a figura de Agostinho é fundamental, como vimos acima. Landsberg recusa pensar que os mártires possam ser enquadrados no rótulo geral de suicidas, como o fazia Bayet, propondo então uma definição mais precisa do suicídio como sendo: “o ato pelo qual um ser humano cria voluntariamente aquilo que ele acredita ser uma causa eficiente e suficiente de sua própria morte”. Landsberg discute criticamente as posições de Agostinho e Tomás de Aquino, rejeitando um a um os principais argumentos desses dois filósofos. Assim, pensar que o suicídio é um homicídio (tese de Agostinho) parece-lhe um equívoco, bem como lhe parece sem sentido pensar que ele é contrário à natureza humana, à sociedade ou a Deus — concebido como senhor de um escravo que não pode dispor livremente de sua vida (argumentos de Tomás). Se os melhores argumentos cristãos são frágeis ou não conclusivos, em quê basear-se para refutar a legitimidade do suicídio? Landsberg não tem dúvida alguma: no exemplo do Cristo. Em suas palavras: “Além disso, o que é preciso não são argumentos abstratos, mas um exemplo. E aí, creio eu, o exemplo mais magnífico e o mais valioso existe verdadeiramente. É o exemplo do Cristo.” Pondo lado a lado os estóicos e os cristãos, Landsberg declara que “a imensa maioria da humanidade está moralmente abaixo dos estóicos. O mártir cristão está acima. A virtude estóica é talvez a mais elevada moralidade do homem fora da vida e da graça cristãs.” Todavia, enquanto o estóico, segundo Landsberg, quer adquirir sua liberdade interior pela consciência da possibilidade do suicídio, o cristão deve adquiri-la pela adesão amorosa à vontade de Deus e, de acordo com esta, pode ocorrer então que ele seja ou não autorizado a se matar. O fundamental, contudo, reside no fato de ele sempre dever preferir a vontade de Deus à sua própria. Em um tom claramente kierkegaardiano, Landsberg conclui seu artigo exortando os cristãos a uma nova consciência de sua missão e tarefa:

A moral cristã não é não sei qual moral universal, natural ou razoável, talvez com uma sensação a mais, mas a manifestação na vida de uma revelação paradoxal. Não pode ser supérfluo, além disso, recordar-se que a moral cristã não é uma moral de compromisso e de lassidão, mas que ela nos demanda um heroísmo mais profundo, mais absurdo e, em certo sentido, mais intransigente que não importa qual outra moral. De algumas coisas que eram evidentes em uma época ainda próxima dos mártires, nós devemos, hoje em dia, tomar explicitamente consciência.

Por fim, resta-nos falar de Emil Cioran (1911-1995), o célebre pensador romeno que desde 1947 exilou-se em Paris, mas que no nosso país ainda é pouco conhecido.” O tema do suicídio é bastante freqüente em sua obra, mas as reflexões mais exaustivas que ele faz do mesmo se encontram no capítulo “Encontros com o suicídio” de seu livro O mau demiurgo. Torna-se difícil sintetizar as idéias de Cioran contidas nas 26 páginas desse capítulo. Trata-se, na verdade, de uma escrita aforística que pretende descrever precisamente alguns encontros que o filósofo romeno teve ao longo de sua vida com o desejo de suicidar-se. É interessante lembrar o leitor que Cioran não se suicidou, tendo morrido aos 84 anos de idade de morte natural. O próprio autor coloca a si mesmo essa questão ao se indagar com franqueza: “Por que eu não me mato? — Se eu soubesse exatamente o que me impede de fazê-lo, eu não teria mais questões para me colocar porque eu teria respondido a todas elas.”85 Ao lado dessas descrições fenomenológicas em primeira pessoa, encontramos significativas apreciações psicológicas, no sentido nietzscheano do termo, acerca dos suicidas. Nessas páginas, como em outras de Cioran, a linguagem religiosa, mais precisamente mística ou budista, faz-se presente. Assim, somos informados, por exemplo, que “o suicídio é o nirvana pela violência” ou que “é preciso estar ávido pelo absoluto para considerar o suicídio”. A influência de Nietzsche, de Mailänder e mesmo de Camus também pode ser percebida nas entrelinhas de algumas de suas reflexões, tais como quando ele afirma que devemos “aprender a nos destruir no bom momento“, ou quando diz que “a existência é perda de ser” ou ainda quando declara que “a gente não se mata, como se pensa comumente, em um aceso de demência, mas antes em um aceso de insuportável lucidez”. A psicologia do suicida é devassada nessas exasperantes observações do pensador romeno. O encontro de um potencial suicida com uma faca, por exemplo, é descrito assim: “o fato tão simples de observar uma faca e de compreender que só depende de você mesmo dar certo uso à mesma, lhe dá uma sensação de soberania que se transforma em megalomania”. Ou quando levantamos em meio à noite buscando desesperadamente por uma derradeira explicação, mas ao constatar a nossa solidão, porque todos dormem, desistimos de nossa intenção, pois “como abandonar um mundo onde se pode ainda estar sozinho?”. Deparamo-nos na leitura dessas páginas de Cioran com seu nítido desejo de reabilitar o suicídio, isto é, de torná-lo acessível a todos por meio de uma livre reflexão sobre o mesmo, porquanto, na opinião do pensador romeno: “Faz bem pensar que a gente vai se matar. Nenhum assunto é mais repousante: desde que a gente o aborda, respira-se. Meditar sobre ele torna a gente quase tão livre quanto o ato mesmo.” A obsessão por esse tema, ele mesmo nos explica, “é própria daquele que não pode nem viver nem morrer e cuja atenção não se afasta jamais dessa dupla impossibilidade”. Assim, Cioran, bradando por Deus e pelo Absoluto e recebendo como resposta o Nada e o Vazio, parece ser uma espécie de apóstolo do niilismo do nosso tempo. Um tempo para o qual o suicídio parece ter um papel especial: “o suicídio liberta sempre”, nos diz Cioran, “ele é o summum, ele é o paroxismo da saúde”. Por isso, aqueles que recorreram a ele devem ser julgados de um modo muito especial devendo ser chamados de “mártires” e de “precursores”:

Os suicidas pré-figuram os destinos longínquos da humanidade. Eles são anunciadores e, como tais, deve-se respeitá-los; a sua hora virá; eles serão celebrados, render-lhes-emos uma homenagem pública e dir-se-á que só eles, no passado, tudo entreviram e tudo adivinharam […] eles souberam antes dos outros que a impossibilidade pura e simples será um dia o quinhão de todos; em lugar de ser uma maldição, será um privilégio.

Em uma entrevista concedida a Fritz Raddatz, em 1986, Cioran explicita a importância fundamental que a idéia do suicídio desempenhou em toda a sua vida:

Na minha juventude, eu vivi todo dia com essa idéia, a idéia do suicídio. Mais tarde também, e até agora, mas talvez não com a mesma intensidade. E se eu ainda estou vivo é graças a essa idéia. Eu só pude suportar a vida graças a ela, ela foi meu suporte: “És mestre de tua vida, podes matar-te quando quiseres”, e todas minhas loucuras, todos meus excessos, foi assim que eu pude suportá-los. E pouco a pouco essa idéia começou a se tornar algo como Deus para um cristão, um apoio; eu tinha um ponto fixo na vida?

Não por acaso, portanto, o pensador romeno declara em sua obra Do inconveniente de ter nascido (1973) que ele amaria reinventar a obra de Egésia, o filósofo de Cirene do IV século a.C. e denominado “o que persuade a morrer”.

Apenas como mais um exemplo dessa tendência niilista da assim chamada pós-modernidade, poderíamos citar dois escritores de língua alemã, um judeu-austríaco e o outro, suíço, respectivamente Jean Améry (nome fictício de Hans Meyer, 1912-1978) e Hermann Burger (1942-1989) que publicaram dois livros ensaísticos sobre o tema do suicídio. No caso de Améry, trata-se do livro Hand an sich legen. Diskurs über den Freitod (Levar a mão sobre si. Discurso sobre a morte livre) publicado em 1976 na Alemanha e, no de Burger, do livro Tractatus lógico-suicidalis (uma nítida alusão ao célebre Tractatus de Wittgenstein) publicado igualmente na Alemanha em 1988. O primeiro é um livro em prosa dividido em cinco capítulos e o segundo uma reunião de 1.046 aforismas relacionados ao tema do suicídio. Ambos os autores se apresentam claramente como defensores da morte livremente escolhida e ambos, conseqüentes com suas reflexões teóricas, embora por razões diversas, terminam por suicidar-se.

Ao final dessa introdução, esperamos ter podido facilitar ao leitor uma imersão reflexiva e crítica nos pequenos textos filosóficos aqui compilados e que tratam de um tema extremamente delicado e complexo, conquanto, sem dúvida, essencial para a vida humana. Assim porque, qual seja nossa posição sobre o assunto, refletir sobre o suicídio nos faz pensar na vida, na liberdade e na hierarquia de valores que adotamos em nossa existência. Ademais, ponderar sobre esse tema baseando-se em imagens milenares e argumentos legados pela filosofia ocidental, nos possibilita também — além de nos persuadir a cada dia sobre a importância de optarmos ou não por continuarmos vivos — a lidarmos melhor com os casos de conhecidos, amigos ou parentes próximos que um dia decidiram ou poderão vir a decidir tirar suas próprias vidas.

Que a reflexão filosófica das páginas que se seguem nos ajude, por conseguinte, a cumprir tanto quanto possível o ideal espinosano em relação aos assuntos humanos: non ridere, non lugere, neque detestari, sed intelligere.


Fernando Rey Puente, “Modernidade/Pós-Modernidade: variações niilistas em torno ao suicídio”, Os filósofos e o suicídio. Belo Horizonte: Editora UFMG, 2008, p. 39-50.