“O Niilista do Século” – Rodrigo MENEZES

São muitas as análises, das superficiais às mais elaboradas, que inscrevem a obra de Cioran sob o signo do niilismo. Um dos capítulos do livro de Franco Volpi, O Niilismo, é dedicado a Cioran e Bataille conjuntamente.[1] Ioan P. Culianu, historiador das religiões romeno, segue a mesma linha interpretativa de Volpi, atribuindo a Cioran um niilismo existencial de tipo gnóstico.[2] É também o entendimento de Peter Sloterdijk (cf. Pós-Deus), que elegeu Cioran para o posto de prior da “Ordem da Santa Louca Temeridade” imaginada por Nietzsche em Genealogia da moral.[3] Segundo Sloterdijk. “Cioran foi o primeiro a realizar o que Nietzsche quis desmascarar como se isso tivesse existido sempre: uma filosofia do puro ressentimento”[4], o que só poderia ser tentado após Nietzsche, e a despeito de suas afirmações radicais. “Não existe motivo algum para não estar triste”,[5] escreveu, em 1936, o jovem insone. Esta afirmação, de um pessimismo inconsolável, será complementada – já em francês – de maneira não menos controvertida: “Feliz daquele que pode dizer: ‘Tenho o saber triste.’”[6] Se Nietzsche é o filósofo do Amor fati, pode-se dizer que Cioran é o filósofo do Odium fati.[7]

Cioran não apenas se inscreve na história do niilismo como, dependendo do ponto de vista, é um forte candidato ao posto de autor mais niilista de todos os tempos (não é nossa opinião, mas alguns críticos não hesitariam em afirmá-lo). Por quê? Pelo concurso de negação e dúvida[8] na economia do logos cioraniano, pelo fatalismo,[9] pela apologia da “indolência”,[10] da “inutilidade” e do “fracasso”…[11] “Durante as três primeiras décadas que se seguiram à Segunda Guerra Mundial, essa posição não foi muito aplaudida. […] Cioran foi o estraga-prazeres do otimismo pós-guerra, cuja voz podia ser a princípio facilmente ignorada”, observa Ger Groot.[12] É o que distancia Cioran de seus contemporâneos existencialistas franceses. Sua obra é um conjunto de exercícios negativos como se fossem variações em torno de um único problema: a lucidez como impossibilidade de assumir qualquer posição e de aderir ao que quer que seja.[13] Segundo um crítico francês de origem russa, “a França do humanismo não podia ver nesse romeno senão um niilista perigoso, e tão mais nocivo quanto dotado de uma pluma excepcionalmente brilhante.”[14] O título da crítica – publicada em 1995, ano da morte de Cioran – é uma pergunta que não carece de pertinência, a julgar pela constelação de influências que incidem sobre a obra do pensador balcânico (particularmente as de Nietzsche e Dostoiévski): “Cioran, anticristo ou profeta?” Nenhuma das alternativas: antiprofeta.

Expressão proteiforme de uma existência em devir, a obra de Cioran nos apresenta uma pluralidade de niilismos, proporcional à pluralidade de heresias nela reunidas.[15] A julgar pela tipologia desenvolvida nos Fragmentos póstumos de Nietzsche, o pensador romeno passou de um “niilismo ativo” e politicamente motivado, em sua juventude (a exemplo dos revolucionários e anarquistas russos), a um “niilismo passivo”, contemplativo, metafísico (a exemplo dos místicos[16]), do Breviário de decomposição em diante. Das afirmações extremistas e incendiárias, expressões de um temperamento vitalista, febril e expansivo (titânico), a uma filosofiada pura negação, expressão deuma índole introvertida e ascética (meio gnóstica, meio budista). Como um dândi sombrio, o “destino” de Cioran foi encarnar o pensador “maldito” e “fracassado” (raté em francês, ratat em romeno) que, segundo Kierkegaard, é a existência mais poética (mais sublime) do ponto de vista romântico.[17] É o “convalescente que aspira à doença”,[18] cantando as virtudes epifânicas da décadence e da decomposição, o négateur contumaz que reúne em si todas as possibilidades de niilismo, o “Cínico fervente”,[19] o “Cita indolente”,[20] o “imoralista”[21] cancelado sucessivamente por críticos como Pierre-Henri Simon,[22] George Steiner,[23] Roger Kimball[24] e Rodrigo Gurgel[25] (estes dois últimos do círculo de amizades de Olavo de Carvalho).

Seus compatriotas o apresentaram como o “niilista do século”[26] (XX) e como um “cavaleiro do niilismo” (ao contrário de Kierkegaard, que poderia ser reputado, a exemplo de Abraão, um “cavaleiro da fé”).[27] As circunstâncias históricas favoreceram a proeza.[28] Cioran nasceu no coração do conflito balcânico,[29] no seio de uma “tribo de vencidos”.[30] Viveu a “era dos extremos” de ponta a ponta,[31] testemunhando de perto as duas guerras mundiais (a primeira na Romênia, quando ainda era uma criança, e a segunda em Paris, já com mais de 30 anos). A negação, a potência negativa que faz da sua obra um conjunto de Exercícios negativos,[32] é um índice do niilismo cioraniano. Mas, que tipo de niilismo? Antes da definição tipológica, uma questão preliminar se impõe: em meio a uma pluralidade de niilismos, é possível discernir um tipo que seria o niilismo cioraniano por excelência?

O filósofo do Odium fati tinha duas obsessões que podem parecer opostas e contraditórias, mas que no fundo coincidem: a obsessão do nada e a obsessão da vida.[33] Assim, vemo-lo postular, na contramão das ontologias positivas, uma correlação entre “vida” e “nada” (em vez de uma oposição). Ao ser entrevistado por um jornalista da revista Time, enviado dos Estados Unidos a Paris, Cioran lhe diz – em inglês – que a vida é, para ele, “an intriguing Nothingness”. Em uma nota, nos Cahiers, ele explica: “Eu quis dizer que o que torna a vida interessante aos meus olhos é precisamente o fato de ela ser impossível e impraticável. Eu deveria ter dito a ele que sou um ‘religious-minded nihilist’”.[34] Cioran mesmo se confessa niilista. O seu é um “niilismo religioso”, o niilismo místico de um pensamento negativo e, não obstante, apaixonado por esse “nada intrigante” (e infinitamente misterioso) que é a vida (“é ela a grande Desconhecida”[35]). É a condição paradoxal de quem sente em relação à vida uma “tentação religiosa de irreligiosidade”,[36] para quem vida e consciência, amor e conhecimento, alegria e lucidez são incompatíveis. É o impasse de nutrir uma paixão tão grande pela vida que ela se inverte em negação da vida, de modo que, após tanto negar, o negador se encontra mais apegado à vida e ao seu eu do que antes, “submetido aos apetites como um asceta equívoco, dono do tempo e escravo das glândulas.”[37] Niilismo da inutilidade, da insignificância e da insatisfação total.

Em um século que viria a idolatrar Nietzsche, os exercícios negativos de Cioran fazem-no parecer um anti-Zaratustra. Sua obra, que se desdobra entre dois idiomas, nos coloca diante de uma alteridade radical (e, não obstante, estranhamente familiar), a exemplo do “hóspede sinistro” (unheimlich) tematizado por Nietzsche como metáfora do niilismo. Cioran é o nosso “hóspede” romeno. A propósito da relação entre negatividade e alteridade, Octavio Paz descreveu a sua obra como “um esbelto mausoléu, um cubo negro e resplandecente que não encerra nenhum cadáver, mas algo por essência indefinível: a vacuidade.”[38] Mario Andrea Rigoni, seu amigo italiano, o saudou como l’anti-Sartre.[39] Para Sloterdijk, Cioran é um anti-Heidegger, um “doppelganger sombrio” do autor de Ser e Tempo. Se pertence a Heidegger a “tese cripto-católica de que pensar é agradecer”, deve-se atribuir a Cioran a contra-tese gnóstica de que “pensar é vingar-se”[40] – não de ninguém, de um ser determinado, mas de Deus, ou o “mau Demiurgo”, que é, na visão de Cioran, “o deus mais útil que já existiu”, e, “se não o tivéssemos à mão,[41] para onde escoaria nossa bílis?”[42] Na obra do niilista de Răşinari, segundo seu ilustre intérprete alemão, o que encontramos é um “existencialismo da incurabilidade, dotado de uma tinta cripto-romena e dácio-bogomila, detendo-se na fronteira do inexistencialismo asiático.”[43]

Nietzsche já havia observado: “Estar doente é em si uma forma de ressentimento”.[44] Nada que Cioran declare com maior frequência, e com mais desinibição, do que a sua incurabilidade essencial. São nossas enfermidades (e sobretudo a nossa enfermidade fundamental[45]), como o autor romeno tanto afirmou, que criam nossas “profundidades”, que suscitam em nós a necessidade metafísica de Deus ou do “mau demiurgo”.[46] Nietzsche declarou jamais ter experimentado “autênticas dificuldades religiosas”, afirmando que “Deus é uma resposta grosseira, uma indelicadeza para conosco, pensadores […].”[47] Para Cioran, pensando na contramão de Nietzsche, é “evidente que Deus era uma solução e que nunca encontraremos uma outra igualmente satisfatória”.[48] O emprego de um vocábulo tão convencional como “Deus” dissimula uma concepção assaz heterodoxa do divino. Enfim, a visão negativa (pessimista, niilista) da existência (um “inconveniente”), da vida (“um nada intrigante”) e do mundo (uma “Criação fracassada”), de onde essa necessidade metafísica de vingança apontada por Sloterdijk,[49] é a medida da distância que separa Cioran de Nietzsche, e de sua proximidade em relação à heresia gnóstica (com seu “mau demiurgo”), na fronteira com tradições espirituais orientais, especialmente o budismo (pela ênfase no vazio, ou vacuidade).

11 de agosto de 2022


NOTAS:

[1] VOLPI, Franco, “Niilismo, existencialismo, gnose”, O Niilismo. Trad. de Aldo Vannucchi. São Paulo: Loyola, 1999, p. 97.

[2] “Um cavaleiro do niilismo, situado nas antípodas da gnose e, portanto, ainda mais semelhante a ela, é Emil Cioran. Seu tema fundamental é, além disso, a eterna pergunta gnóstica: unde malum? Para ele, o fracasso de nascer é explicado pela existência de um demiurgo maligno, o Criador deste mundo. A heresia é seu ambiente natural.” CULIANU, Ioan P., “Existenţialismul”, Gnozele dualiste ale Occidentului. Bucureşti: Polirom, 2002, p. 327-328 (tradução nossa).

[3] NIETZSCHE, F., Genealogia da moral, terceira dissertação, § 127. Trad. de Paulo César de Souza. São Paulo: Companhia das Letras, 1998, p. 127.

[4] SLOTERDIJK, Peter, “Cioran ou l’excès de la parole sincère”, Cahier L’Herne Cioran. Paris : L’Herne, 2009, p. 234 (tradução nossa).

[5] CIORAN, O Livro das ilusões. Trad. de José Thomaz Brum. Rio de Janeiro: Rocco, 2014, p. 201.

[6] IDEM, Breviário de decomposição. Trad. de José Thomaz Brum. Rio de Janeiro: Rocco, 2011, p. 183.

[7] A noção de odium fati, antítese do amor fati nietzschiano, encontra-se em Camus. Cf. “A afirmação absoluta”, O homem revoltado.

[8] Cf. “Le démon est-il sceptique?”, in La Chute dans le temps (1964).

[9] “Na origem da minha posição está a filosofia do fatalismo. Minha tese fundamental é a impotência do homem. Ele não passa de um objeto da história, não o seu sujeito. Eu odeio a história, odeio o processo histórico.” CIORAN, Entrevista com Fritz J. Raddatz, Entretiens. Paris: Gallimard, 1995, p. 167-168 (tradução nossa).

[10] “Busquei em mim mesmo meu próprio modelo. Para imitá-lo, dediquei-me à dialética da indolência. É tão mais agradável fracassar na vida…” IDEM, Silogismos da amargura. Trad. de José Thomaz Brum. Rio de Janeiro: Rocco, 2011, p. 42.

[11] “É nisto que se reconhece aquele que tem propensões para a busca interior: ele porá acima de qualquer êxito o fracasso, procurá-lo-á até, escusado dizer que inconscientemente. Isto porque o fracasso, sempre essencial, nos revela a nós próprios, permite que nos vejamos tal como Deus nos vê, ao passo que o sucesso nos afasta do que existe de mais íntimo em nós e em tudo.” IDEM, Do inconveniente de ter nascido. Trad. de Manuel de Freitas. Lisboa: Letra Livre, 2010. p. 19.

[12] GROOT, Ger, “Cioran, filósofo calumniador”, in HERRERA A., M. Liliana; ABAD T, Alfredo A. (orgs.), Cioran: ensayos críticos. Pereira: UTP, 2008, p. 10.

[13] “A obra de Cioran pode ser considerada como um conjunto de exercícios, a meio-caminho entre ginástica e ascese, experimentando todas as posições do homem sem posição.” SLOTERDIJK, Peter, “Le prieur de la Sainte Folle Témérité”, Le Magazine Littéraire, no 508, maio de 2011, p. 54

[14] BOSQUET, Alain, “Cioran, antéchrist ou prophète”, Revue des Deux Mondes, novembro de 1995, p. 136. Disponível em: <https://www.revuedesdeuxmondes.fr/wp-content/uploads/2016/11/11b2f9196f3b066300cae1994c5762e9.pdf> (acesso: 20/07/2022)

[15] “A heresia é seu ambiente natural. Em seu memorável ensaio sobre Joseph de Maistre, nós o vemos passar vertiginosamente de uma heresia a outra, como o arcanjo caído, herege entre os hereges. […] Quatro heresias em quatro páginas, aqui está um registro que Cioran não compartilha com ninguém, nem mesmo com os próprios heresiólogos!” CULIANU, Ioan P. „Existenţialismul”, Gnozele dualiste ale Occidentului, p. 328 (tradução nossa).

[16] O niilismo, segundo Nietzsche, “atinge o seu MÁXIMO de força relativa enquanto força violenta da DESTRUIÇÃO: como niilismo ativo. O seu contrário seria o niilismo esgotado que cessa de atacar: sua forma mais célebre, o budismo: enquanto niilismo passivo.” NIETZSCHE, Fragments posthumes (Automne 1887 – Mars 1888), 9[35]. Textes et variantes établis par G. Colli et M. Montinari. Trad. par Pierre Klossowski et Henri-Alexis Baatsch. Paris : Gallimard, 1976. p. 28 (tradução nossa).

[17] Aplica-se a Cioran – herdeiro do romantismo – o que afirma Kierkegaard: “O irônico conserva constantemente para si sua liberdade poética, e quando ele nota que não se tornou nada, então poetiza isto também; sabe-se que, entre as posições e colocações poéticas da vida preconizadas pela ironia, a mais nobre dentre elas é a de tornar-se simplesmente nada. Um ‘Taugenichts’ (‘imprestável’), por conseguinte, na poesia da escola romântica, é sempre a pessoa mais poética, e aquilo que os cristãos, especialmente em tempos agitados, falam tão frequentemente, do tornar-se louco aos olhos do mundo, o irônico já realizou à sua maneira, só que ele não está buscando o martírio, pois para ele aquilo é o gozo poético supremo.” KIERKEGAARD, Søren A. O conceito de ironia (constantemente referido a Sócrates). Trad. de Álvaro Luiz Montenegro Valls. Petrópolis: Vozes, 1991, p. 243.

[18] CIORAN, Breviário de decomposição, p. 243.

[19] BOSQUET, Alain, “Um cynique fervent : E.-M. Cioran”, Le Monde, 12 décembre 1964. Disponível em: https://www.lemonde.fr/archives/article/1964/12/12/un-cynique-fervent-e-m-cioran_2123613_1819218.html (acesso: 18/06/2022)

[20] “‘Não fica bem’, me dizia você, ‘praguejar o tempo todo contra a ordem das coisas.’ ‘É culpa minha se sou apenas um novo rico da neurose, um Jó em busca de uma lepra, um Buda de pacotilha, um Cita indolente e extraviado?’” CIORAN, Silogismos da amargura, p. 69-70.

[21] “Nós temos um novo moralista ou imoralista que escreve muito bem. Li semana passada um Précis de décomposition, cujo título bizarro me chamou a atenção: a qualidade do estilo, assim como a do pensamento, me impressionou.” MAUROIS, André, Opéra, 14 de dezembro de 1949. Apud LIICEANU, Gabriel, Itinéraires d’une vie : E. M. Cioran, p. 68.

[22] SIMON, Pierre-Henri, “O desespêro como mercadoria”, Tribuna da Imprensa, Rio de Janeiro, ano IV, no 785, 19-20 de julho de 1952, p. 9. Disponível em: https://portalcioranbr.wordpress.com/2020/05/16/desespero-mercadoria-phsimon/ (acesso em 16/05/2022)

[23] STEINER. George, “Curto prazo final (sobre E. M. Cioran)”, Tigres no espelho (e outros textos da revista New Yorker), p. 293-303. Disponível em: https://portalcioranbr.wordpress.com/2015/06/07/curto-prazo-final-steiner/ (acesso em 16/05/2022)

[24] KIMBALL, Roger, “The Anguishes of E. M. Cioran”, The New Criterion, March 1988. Disponível em: https://newcriterion.com/issues/1988/3/the-anguishes-of-em-cioran (acesso em 16/05/2022)

[25] GURGEL, Rodrigo, “Emil Cioran: pessimismo, contradições e apatia”, Dicta & Contradicta, no 8.  Disponível em: https://rodrigogurgel.com.br/emil-cioran-pessimismo-contradicoes-e-apatia/ (acesso em 16/05/2022)

[26] LIICEANU, Gabriel, Itinéraires d’une vie : E. M. Cioran. Paris: Michalon, 2007, p. 11.

[27] CULIANU, Ioan P. „Existenţialismul”, Gnozele dualiste ale Occidentului, p. 328 (tradução nossa).

[28] A começar pelas circunstâncias do seu nascimento, nas periferias do Império Austro-Húngaro, ao qual pertencia a região da Transilvânia à época (1911), a experiência existencial do autor romeno é traumática desde o berço. A rigor, Cioran não nasceu na Romênia, sendo romeno por hereditariedade, pela identidade linguística e cultural dos seus pais (Emil, Aurel e Virginia, sendo estes o seu irmão e a sua irmã, foram batizados com nomes latinos como afirmação de identidade romena em meio à ocupação austro-húngara). Historicamente invadidos, espoliados e alienados de sua terra, cultura, religião, língua (até o Tratado de Trianon), os romenos precisaram aprender a “conservar sua ‘verticalidade’ como sobre areia movediça, alcançar a estabilidade no… instável. Fazer filosofia nestas condições é problemático; pode até parecer impossível (COTOFLEAC 2005, p. 3). Condições históricas desfavoráveis à existência tornam-se favoráveis para a experiência-revelação do nada. Cioran fala de um niilismo nativo do povo romeno (que corre no seu próprio sangue): “Do meu país herdei o niilismo de raiz [foncier], seu traço fundamental, sua única originalidade. Zădărnicie, nimicnicie – estas palavras extraordinárias, não, não são palavras, são as realidades do nosso sangue, do meu sangue.” CIORAN, Cahiers: 1957-1972, p. 685 (tradução nossa).

[29] Um dos acontecimentos determinantes para a eclosão da Primeira Guerra, em 1914, o ataque terrorista que vitimou o arquiduque Francisco Ferdinando, herdeiro do Império Austro-Húngaro, e sua esposa, a duquesa Sofia de Hohenberg, aconteceu em Sarajevo, capital da Bósnia, nos Bálcãs. Gavrilo Princip, o terrorista e assassino do casal real, era um estudante sérvio-bósnio e militante político do movimento ultranacionalista “Mão Negra”.

[30] “Estava escrito que nós, descendentes de dácios e de outros povos incertos e difusos, não forjaríamos nenhum pensamento de felicidade, e que com as gotas de nosso sangue formaríamos um rosário de aflições, herança de tribos de vencidos.” CIORAN, Îndreptar pătimaş, p. 51 (tradução nossa).

[31] O século 20, na caracterização de Eric Hobsbawm, cujo livro – A era dos extremos – compreende o período de 1914 a 1991.

[32] Título provisório do Breviário de decomposição (1949), que começaria a ser redigido em 1936, após a decisão de abandonar o idioma materno para tornar-se escritor de língua francesa. A versão inicial do Précis seria publicada postumamente, numa edição crítica fartamente comentada: Exercices négatifs: en marge du Précis de décomposition (Gallimard, 2005).

[33] O amor de Cioran pela vida se assemelha ao de Nietzsche: “o amor a uma mulher da qual se duvida…” (Nietzsche contra Wagner, epílogo). “A vida é o lugar de minhas paixões: tudo o que arranco da indiferença, restituo-lhe quase imediatamente. Não é esse o procedimento dos santos: escolhem de uma vez por todas. Vivo para desprender-me de tudo o que amo; eles, para embevecer-se com um só objeto; eu saboreio a eternidade, eles se abismam nela.” CIORAN, “Histeria da eternidade”, Breviário de decomposição, p. 168.

[34] CIORAN, Cahiers: 1957-1972, p. 605 (tradução nossa). Cf. “Cioran, visionário da escuridão (perfil na Time Magazine)”, Portal E.M. Cioran Brasil, 22 de julho de 2021. Disponível em: https://portalcioranbr.wordpress.com/2021/07/22/time-magazine-cioran-visionary-darkness/ (acesso: 11/07/2022)

[35] IDEM, Breviário de decomposição, p. 23.

[36] “Só se vive realmente pela recusa a libertar-se do sofrimento e por uma espécie de tentação religiosa de irreligiosidade. A salvação só preocupa os assassinos e os santos, os que mataram ou superaram a criatura; os outros chafurdam – bêbados perdidos – na imperfeição…” Ibid., p. 44.

[37] Ibid., p. 97.

[38] PAZ, Octavio, “Cincelador de cenotafios”, Revista Vuelta, no 224, julho de 1995, p. 61.

[39] RIGONI, Mario. Andrea, “La rivincita dell’anti-Sartre”, Corriere della sera, 28 de fevereiro de 2011, p. 35. Disponível em: https://portalcioranbr.wordpress.com/2012/08/31/cioran-antisartre-marigoni/ (acesso: 15/07/2022).

[40] SLOTERDIJK, Peter. “The Selfless Revanchist: a note on Cioran”, Not Saved: Essays after Heidegger. Transl. by Ian Alexander Moore and Christopher Turner. Malden, MA: Polity, 2016, p. 254 (tradução nossa)

[41] Sous la main, em francês, em alusão ao Zuhandenheit heideggeriano.

[42] CIORAN, Le mauvais démiurge (1969), in Œuvres. Paris: Gallimard, 1995, p. 1171 (tradução nossa).

[43] SLOTERDIJK, Peter, “Cioran ou l’excès de la parole sincère”, Cahier L’Herne Cioran. Paris : L’Herne, 2009, p. 234 (tradução nossa).

[44] NIETZSCHE, “Por que sou tão sábio”, Ecce homo. Trad. de Paulo César de Souza. São Paulo: Companhia de Bolso, 2008, p. 28

[45] “Não há nas farmácias nada específico contra a existência; só pequenos remédios para os fanfarrões. Mas onde está o antídoto do desespero claro, infinitamente articulado, orgulhoso e seguro?” CIORAN, “Consciência da infelicidade”, Breviário de decomposição, p. 46. “Entre os moralistas somente Pascal se debruçou sobre a dimensão metafísica da existência humana […]. Ao lado dele, todos os outros, sem exceção, parecem fúteis porque não perceberam nossa miséria, e sim nossas misérias, esta soma de insuficiências, de enfermidades inevitáveis e insignificantes, que exprimem apenas um aspecto de nossa natureza. Mas se não perceberam o mal capital intrínseco, que lhe é inerente, não devia escapar-lhes, em compensação, esse mal medíocre e geral, em luta com um bem do mesmo quilate.” IDEM, Antologia do retrato: de Saint-Simon a Tocqueville (prefácio). José Laurenio de Melo. Rio de Janeiro: Rocco, 1998, p. 14.

[46] “A saúde é a melhor arma contra a religião. Em ‘mens sana’ e em ‘corpore sano’ não se descobrirá nenhum frêmito religioso; auras místicas, então, nem se fala. Não se pode fazer propaganda antirreligiosa efetivamente senão com um elixir para todas as doenças.” IDEM, Lacrimi şi sfinţi. Bucureşti: Humanitas, 1991, p. 81 (tradução nossa).

[47] NIETZSCHE, “Por que sou tão inteligente”, Ecce homo, p. 33.

[48] CIORAN, Do inconveniente de ter nascido, p. 103.

[49] A vingança cioraniana tematizada por Sloterdijk não carece de similitude com a revolta metafísica tematizada por Camus, em O homem revoltado. O ressentimento tematizado por Sloterdijk não se reduz a uma negatividade psíquica, a um dado psicológico meramente subjetivo, sendo inseparável de uma reflexão de alcance metafísico atormentada pelo problema do mal (injustiça, misérias de todo tipo, sofrimento universal), de uma consciência revoltada, frustrada em sua aspiração à harmonia e à unidade. “A revolta metafísica é o movimento pelo qual um homem se insurge contra a sua condição e contra a criação. Ela é metafísica porque contesta os fins do homem e da criação. O escravo protesta contra tal condição no interior de seu estado de escravidão; o revoltado metafísico, contra sua condição na qualidade de homem. O escravo rebelde afirma que nele há algo que não aceita a maneira como o seu senhor o trata; o revoltado metafísico declara-se frustrado pela criação. Tanto para um como para outro, não se trata apenas de uma negação pura e simples. Em ambos os casos, na verdade, encontramos um juízo de valor em nome do qual o revoltado se recusa a aprovar a sua condição. […] Se os homens não conseguem referir-se a um valor comum, reconhecido por todos em cada um deles, então o homem se torna incompreensível para o próprio homem. O rebelde exige que esse valor seja claramente reconhecido em si mesmo, porque suspeita ou sabe que, sem ele, a desordem e o crime reinariam no mundo. O movimento de revolta surge nele como uma reivindicação de clareza e de unidade. A mais elementar rebelião exprime, paradoxalmente, a aspiração a uma ordem.” CAMUS, “A revolta metafísica”, O Homem revoltado. Trad. de Valerie Rumjanek. Rio de Janeiro: Bestbolso, 2020, p. 37-38.