“O Diálogo do Pessimismo babilônico: um diálogo filosófico antes dos gregos” – Jacyntho BRANDÃO | UFMG

Aula Inaugural CMAF/UECE (2022/2)


“SERVO, SERVE-ME!” – 𒀴 𒈪𒄨𒄥𒀭𒉌
O DIÁLOGO DO PESSIMISMO

Nova tradução de Gleiton Lentz
Revista (n.t.) Nota do Tradutor
nº 23, vol. especial (2021-22)

O texto: Conhecido na tradição oriental como arad mitanguranni (Servo, serve-me!), “O diálogo do pessimismo” é uma antiga composição literária mesopotâmica, de origem acadiana, reproduzida nas épocas assíria e babilônica. Escrito por volta de 1000 a.C., é considerado um exemplo da literatura sapiencial do Oriente Próximo, um gênero muito popular entre os escribas mesopotâmicos, cujo treino para o ofício consistia em reproduzir antigos textos e provérbios. O texto retrata um diálogo entre um senhor e seu servo, dividido em dez seções que versam desde adorar os deuses, formar uma família, organizar uma ceia, etc. Em cada uma delas, o senhor volúvel indica que tomará tal curso de ação, a que o servo fornece boas razões, mas logo o senhor muda de ideia, declinando da decisão, à qual o servo imediatamente fornece razões igualmente válidas. As interpretações entre os assiriólogos acerca do diálogo têm variado, se se trata de um tratado filosófico niilista ou uma sátira social. Geralmente é considerado um texto que tematiza a futilidade das ações humanas ou uma afirmação do absurdo da vida, uma vez que não há escolhas definitivas certas e erradas, ou ainda, que se trata de uma enquete cômica, pelo tom humorístico e blasfemo entre o senhor e o servo. Mas é também um trabalho de reflexão, que pode ser visto sob uma ótica filosófica, pois ao discutir tanto o viés pessimista quanto o viés otimista das ações humanas, mostra que ambos são igualmente válidos para se tomar uma decisão, e não necessariamente contrapostos. O diálogo também traz uma reflexão acerca da frivolidade da existência, ao abordar o suicídio como uma escolha. A possibilidade de uma visão niilista da vida na antiga mesopotâmia não pode ser descartada, já que no diálogo se discutem as vantagens do suicídio e a subversão dos valores. Em cada seção, o senhor começa falando da vida com entusiasmo para logo esmorecer, concluindo que a única ação valiosa na vida seria propriamente o ato de tirá-la, mas o senhor e o servo não conseguem chegar a um consenso sobre qual dos dois deveria realizar tal ação primeiro, encerrando o diálogo. Segundo assiriólogos, o texto faz alusão a outras obras importantes da literatura mesopotâmica, como o Hino a Šamaš, a Epopeia de Gilgamesh e um antigo ditado sumério que aparece em Gilgamesh and the Land of the Living.

O autor: Texto acadiano, de autoria anônima, encontrado em cinco versões manuscritas diferentes: quatro tabuinhas em cuneiforme originárias de Assur e Nínive e uma da Babilônia. O texto da versão assíria está bem preservado, pois apenas 15 de suas 86 linhas estão danificadas, enquanto a tabuinha babilônica é substancialmente diferente das versões assírias e incompleta. Já as partes fragmentadas do texto foram recuperadas parcialmente ou reconstruídas por W. G. Lambert (1960). Esta tradução utiliza a versão assíria Vat 9933 como texto principal, em cotejo com as versões assírias K 10523 e K e dois fragmentos não numerados de Assur, A… I e A… 2. Os complementos das partes danificadas, indicadas entre colchetes e [cursiva] na tradução são de Lambert, enquanto que os complementos entre colchetes e em [itálico] são reconstruções tradutórias, com base no contexto dos cinco manuscritos.

O tradutor: Gleiton Lentz, editor da (n.t.), é pós-doutor em Estudos da Tradução (PGET/UFSC), doutor em Literatura (UFSC/Università di Firenze), tradutor e revisor. Dedica-se ao estudo das escritas antigas e suas literaturas, incluindo a maia e a suméria. Já ministrou cursos de língua e cultura suméria para a Casa Guilherme de Almeida e para a Babel Tradutória (Great/Usp). Para a (n.t.) traduziu En-hedu-Ana e o Hino a Nisaba. [+]

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