“Em nome do medo” – MOONSPELL ðŸŽ¶

“Em nome do medo” é uma canção da banda portuguesa de heavy metal Moonspell que tem como tema o notório terremoto de Lisboa. Apesar de Moonspell ter um álbum intitulado 1755 (ano do fatídico terremoto), esta faixa pertence a outro álbum da banda: Alpha Noir (2012).

O terremoto provocou dois tipos de reação opostas na sociedade portuguesa e europeia de modo geral: uma reativa e reacionária, de um pavor “sobrenatural”, e a outra proativa, pragmática, corajosa e esclarecida. A primeira, vinda de cristãos e da Igreja Católica, traduziu-se em cruzadas religiosas para caçar os supostos “hereges” cuja impiedade teria causado a ira de Deus. Lisboa veio abaixo quase inteiramente, mas todo um bairro de baixo meretrício teria ficado intacto. A reação antitética ficou personificada no ilustre Marquês de Pombal, que respondeu a alguém que fizera a pergunta: “E agora, o que fazemos?” Sua resposta: “Enterremos os mortos e cuidemos dos vivos.”

Em função daquele desastre natural, totalmente inesperado, pegando de surpresa os lisboetas enquanto cuidavam de seus afazeres cotidianos, toda uma cosmovisão mudaria como que da noite para o dia. A filósofa Susan Neiman identifica naquele fatídico dia o início da consciência moderna:

Uma razão central para localizar o início do moderno em Lisboa é justamente sua tentativa de dividir claramente a responsabilidade. Um exame atento dessa tentativa revelará toda sua ironia. Embora os philosophes sempre tenham acusado Rousseau de nostalgia, a discussão de Voltaire sobre o terremoto deixava ainda mais coisas na mão de Deus do que a de Rousseau. E, quando Rousseau inventou as ciências modernas da história e da psicologia para lidar com questões que o terremoto trazia à tona, foi em defesa da ordem de Deus. Sem levar em conta as ironias, a consciência que emergiu depois de Lisboa foi uma tentativa de maturidade. Se o Iluminismo é a coragem de pensar por si mesmo, é também a coragem de assumir responsabilidade pelo mundo no qual se é lançado. Separar radicalmente o que épocas anteriores chamavam de males naturais dos males morais fazia, portanto, parte do significado da modernidade.

Susan Neiman, “O Mal no pensamento moderno: uma história alternativa da filosofia”

Uma das ideias mais tradicionais da cultura ocidental que mais seria abalada pelo Terremoto de Lisboa é a ideia de uma Providência divina a conduzir dos acontecimentos. Pode-se dizer que, se o ateísmo já era uma tendência em ascensão na mentalidade europeia, o terremoto só contribuiu para acentuá-la. Assim como a barbárie das guerras mundiais que o século XX testemunhou, especialmente os campos de concentração nazistas – crepúsculo da consciência moderna, segundo Neiman.


Em nome do medo, do medo sem fim
Na ira dos deuses, caímos enfim
A vida cruel, tormenta assim
O céu que nos esmaga n’ausência de ti
Em nome do medo, do medo sem fim
Em nome do medo, medo

Sou sangue de teu sangue
Sou luz que se expande
Sou medo de teu medo
Senhor do teu tempo
Em nome do medo

Negro alfabeto do chão te levanta
Tua confiança jamais se aquebranta
Comemos os frutos de tão triste jardim
Faltou-nos o tempo, chegamos ao fim
Em nome do medo, medo

Sou sangue de teu sangue
Sou luz que se expande
Sou medo de teu medo
Senhor do teu tempo
Em nome do medo

Mas nem o vento por terra me deita
E nem o fogo por dentro me queima

Sou sangue de teu sangue
Sou luz que se expande
Sou medo de teu medo
Senhor do teu tempo

Sou sangue
Sou Medo
Medo! Medo!