Cioran, um autor para crentes e descrentes, místicos e niilistas, para “os que creem em tudo e os que não creem em nada” (antologia)

Uma seleção de aforismos e fragmentos que ilustram a dualidade fundamental do pensamento de Cioran, dividido (e indeciso), como um “Hamlet” balcânico, entre o Absoluto e a existência, Deus e o Nada, a necessidade de salvação ou délivrance (libertação) e a “tentação de existir”.

Numa passagem d’O Livro das ilusões, incluída nesta antologia, o jovem insone afirma que “a ambivalência e a ambiguidade pertencem às realidades últimas”, e que, portanto, “estar com a verdade contra ela não é uma fórmula paradoxal”, mas a atitude filosófica e psicológica própria de quem compreendeu, após muito refletir “sobre a eternidade, a morte, a vida, o tempo e o sofrimento”, chegando à conclusão (aporética) de que é impossível ter “um sentimento definido, uma visão precisa e uma convicção determinada sobre todas essas coisas”.

Na gnosiologia cioraniana, quanto mais se deseja saber, e quanto mais se sabe efetivamente, quanto mais se compreende (intransitivamente), mais se descobre submerso numa densa “nuvem de não-saber”, aparentemente infinita. “Só têm um sentimento definido da morte os que a pensaram e sentiram pela metade; não se pode ter uma visão precisa do sofrimento; e é impossível ter uma convicção determinada sobre a vida”, lê-se n’O Livro das ilusões (1936). O mesmo pode-se dizer do pensamento que se volta para “Deus e sua época”, parafraseando uma ilustre filósofa. “Apenas tem convicções aquele que nada aprofundou”, lê-se em um de seus livros posteriores, em língua francesa, Do inconveniente de ter nascido (1973). Esta é uma convicção. O que está implícito, contudo, é que o autor se refere às convicções consoladoras, positivas, otimistas, ou, na terminologia de Lucian Blaga, “paradisíacas” (em oposição ao “luciferino”).

A ambiguidade e ambivalência das realidades últimas“, nas palavras do metafísico romeno, é refletida e redobrada em seu próprio pensamento, em sua própria obra, como atesta a antologia que se segue. É uma dualidade fundamental que perpassa todos os âmbitos do pensar-dizer (logos) cioraniano, do existencial ao essencial (metafísico, atemporal, trans-histórico), do psicológico ao lógico, do antropológico ao teológico. É o que torna Cioran um autor palatável para todos os gostos (e desgostos), capaz de agradar “gregos e troianos”. Neste caso, leitores religiosos e ateus, crentes e descrentes (ou céticos), místicos e niilistas, “os que creem em tudo e os que não creem em nada” (para citar uma passagem de “Paleontologia”, importante ensaio de Le mauvais démiurge incluído aqui).

Se o autor romeno conquista a atenção, o interesse, muitas vezes a paixão de leitores tão distintos, à direita e à esquerda, ao centro, nos “cumes” e nos “subsolos”, é porque o experimentalismo existencial de Cioran se detém no momento que antecede toda formalização, definição, oficialização, tomada de partido definitiva (o que, no fundo, significa, crença e certeza, “fé”, que pode ser religiosa ou mesmo secular, como a “fé” do humanismo). Segundo Peter Sloterdijk, é porque a obra de Cioran equivale a “um conjunto de exercícios, a meio-caminho entre a ginástica e a ascese, experimentando todas as posições do homem sem posição“. Cioran pode ser lido em porões e sótãos empoeirados, em meio a bombardeios, nas bibliotecas e salas de aula das universidades, em clubes de leitores obscuros e niilistas, como Roland Jaccard ou Thomas Ligotti, ou no Vaticano, por figuras solenes como o cardeal Gianfranco Ravasi e Mirko Integlia. A propósito, Ciprian Vălcan é o autor de um aforismo espirituoso: “Seria engraçado se os historiadores do futuro provassem que Cioran era o agente secreto mais temível do Vaticano, recebendo uma remuneração mensal de livros sobre a vida dos santos e chás contra gastrite…” (As velhinhas e o diabo)

O dualismo do pensamento cioraniano se traduz, discursivamente, num pensar-dizer “bilógico” e “bivalente”, numa duplicidade axial que se desdobra em sentidos contrários, antitéticos, contraditórios. É por isso que leitores religiosos e crentes conseguem se identificar com a descrença e a irreligiosidade de Cioran, e os leitores céticos, ateus, com sua aspiração mística (por mais heterodoxa que seja), com sua “paixão do absoluto” (sempre frustrada, insatisfeita), com sua “desolação religiosa” (Cahiers). Ninguém fez mais justiça ao imperativo de afirmar (tragicamente) este mundo e esta vida, inclusive na negação, negando-os da “boca para fora” (enquanto se permanece vivo, aquém do suicídio, só pode ser “da boca para fora”), e ninguém fez mais justiça, ao mesmo tempo, à necessidade metafísica de absoluto, à nostalgia de “outros mundos”, “outras vidas”, “outros nadas“. “Que me ofereçam outro universo, ou sucumbo.” (Breviário). Ninguém fez mais justiça, sobretudo, à dilaceração irremediável que resulta dessas tendências e necessidades contraditórias.

Jó se torna filosoficamente interessante, e o Filósofo (meio pirrônico, meio pessimista) se torna interessante do ponto de vista teológico, inclusive místico. É que o próprio Cioran, homo duplex por excelência, vive, experimenta e pensa todas as coisas de maneira dual, dúplice, animado por uma “tentação religiosa de irreligiosidade”, como um “animal religioso incompleto que padece duplamente todos os males”, como niilista e como místico. O resultado: um “niilista que acredita em tudo!” (Silogismos da amargura)

Rodrigo Menezes, 17 de agosto de 2022


Cioran, um autor para crentes e descrentes, místicos e niilistas,
para “os que creem em tudo e os que não creem em nada”
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Antologia de aforismos e fragmentos

Quem refletiu muito sobre a eternidade, a morte, a vida, o tempo e o sofrimento, é impossível que tenha um sentimento definido, uma visão precisa e uma convicção determinada sobre todas essas coisas. Só têm um sentimento definido da morte os que a pensaram e sentiram pela metade; não se pode ter uma visão precisa do sofrimento; e é impossível ter uma convicção determinada sobre a vida. Quando te fundiste neles e fostes subitamente ou alternadamente eternidade, morte, vida, tempo e sofrimento, é impossível amá-los sem odiá-los. Um furor admirativo, uma aversão extática e um tédio sedutor te aproximam e te afastam deles. A ambivalência e a ambiguidade pertencem às realidades últimas. Estar com a verdade contra ela não é uma fórmula paradoxal, porque todos os que compreendem seus riscos e revelações não podem deixar de amar e de ao mesmo tempo odiar a verdade. Quem acredita na verdade é um ingênuo; quem não acredita, um estúpido. A única via reta passa pelo fio da navalha.

O Livro das ilusões (1936)


Todos os niilistas se debateram com Deus. Uma prova mais da proximidade deste com o nada. Quando demoliste tudo, já não te resta nada a destruir senão esta última reserva do nada.

«Nunca experimentei um sofrimento comparável ao de não ter sofrido bastante.» (Marguerite Marie Alacoque). Fórmula clássica que define a avidez pela dor.
Nenhum estado mais estéril do que a tristeza serena, essa negação da inspiração. Tudo depende do nível da tristeza, da frequência das suas vibrações. Em certo nível, é poética, em outro, musical, e, em sua expressão derradeira, é religiosa.

Toda vez que nosso cansaço do mundo toma um aspecto religioso, Deus é como um mar ao qual nos abandonamos para esquecer-nos de nós mesmos. Submergimo-nos nele para nos refugiar de nossa própria individualidade. A submersão no abismo divino nos livra da tentação de nossa própria existência.

Os criadores não podem ser religiosos. Para crer faz-se necessária uma completa passividade perante o mundo e uma fúria indômita contra tudo o que não não seja essa passividade. Quando embarcas na criação, perdes a distância dos valores e te assimilas a eles. Um homem que queira crer não deve fazer nada. Não existe homem ativo que tenha acreditado verdadeiramente em Deus. E não acreditou por falta de tempo. Porque para crer não se pode perder um instante sequer fora de Deus. Entre a vida e a fé há um abismo insuperável. O suicídio mais lúcido e desprezador é uma afirmação da vida frente a um ato elementar de fé. Os valores religiosos extraem sua substância da inadesão à vida.

CIORAN, Lacrimi şi sfinţi (1937)


A melancolia é uma religiosidade sem necessidade do Absoluto, um deslizamento para fora do mundo sem a necessidade da transcendência, uma propensão às aparências do céu – mas insensível ao símbolo que representa. Seu poder de dispensar Deus – embora preencha as condições iniciais para se aproximar dele – faz dela um prazer que se basta para seu próprio crescimento, bem como para suas repetidas falhas. Porque a melancolia é um delírio estético, cerrado em si mesmo, estéril para a mitologia. Só encontraremos nela o balançar de um sonho, e não engendra nenhuma imagem acima de seu dilaceramento etéreo.

O religioso não é uma questão de conteúdo, mas de intensidade. Deus se determina como um momento de nossos frenesis, e a intensificação de qualquer sensação é sinal de religiosidade. Um desgosto máximo nos desvela o Mal (a via negativa em direção a Deus).

Sempre que um ser não pode “assentar-se” na existência, encontra-se em presença do Mal. Daí deriva todo fracasso – e sendo o Mal imanente ao devir, todos os seres têm de lutar com ele.

CIORAN, Amurgul gândurilor (1940)


Por que estranheza da sorte, certos seres, tendo chegado ao ponto em que poderiam coincidir com uma fé, recuam para seguir um caminho que só os leva a eles mesmos – e portanto a parte alguma? É por medo que, uma vez instalados na graça, percam suas virtudes próprias? Cada homem evolui à custa de suas profundidades, cada homem é um místico que se recusa: a terra está povoada de graças goradas e de mistérios pisoteados.

A salvação acaba com tudo; e acaba conosco. Quem, uma vez salvo, ousa considerar-se ainda vivo? Só se vive realmente pela recusa a libertar-se do sofrimento e por uma espécie de tentação religiosa de irreligiosidade. A salvação só preocupa os assassinos e os santos, os que mataram ou superaram a criatura; os outros chafurdam – bêbados perdidos – na imperfeição…

Um belo dia, creram. Um converteu-se por uma simples chamada: acreditava sem ser consciente disso: quando o foi, tomou o hábito. Outro conheceu todos os tormentos: cessaram ante uma luz súbita. Não se pode querer a fé; como uma doença, ela se insinua em nós ou nos fere; ninguém pode comandá-la e é absurdo desejá-la se não se está predestinado. Se é crente ou não se é, como se é louco ou normal. Eu não posso crer nem desejar crer: a fé é uma forma de delírio ao qual não sou propenso… A posição do descrente é tão impenetrável quanto a do crente. Entrego-me ao prazer de estar desenganado; acima da Dúvida só coloco a satisfação que proporciona…

Não há insatisfação profunda que não seja de natureza religiosa: nossos fracassos provêm de nossa incapacidade para conceber o Paraíso e aspirar a ele, como nossos mal-estares da fragilidade de nossas relações com o absoluto. “Sou um animal religioso incompleto, padeço duplamente de todos os males” – adágio da Queda, que o homem se repete para consolar-se. Ao não consegui-lo, recorre à moral, decide seguir, expondo-se ao ridículo, seu conselho edificante. “Resolve-te a não estar mais triste”, lhe responde esta. E ele se esforça por entrar no universo do Bem e da Esperança… Mas seus esforços são ineficazes e antinaturais: a tristeza remonta à raiz de nossa perdição…, a tristeza é a poesia do pecado original…

CIORAN, Breviário de decomposição (1949)


Sem Deus tudo é nada; e Deus? Nada supremo.

Por necessidade de recolhimento, livrei-me de Deus, desembaracei-me do último chato.

Pode-se falar honestamente de outra coisa além de Deus ou de si mesmo?

A tenacidade que empreguei em combater a magia do suicídio teria me bastado para alcançar a salvação, para pulverizar-me em Deus.

Se acreditasse em Deus, minha fatuidade não teria limites: passearia nu pelas ruas…

Essas noites em que já não podemos avançar em Deus, em que o percorremos em todos os sentidos, em que o gastamos de tanto pisoteá-lo, essas noites das quais emergimos com a ideia de jogá-lo no lixo… de enriquecer o mundo com um resíduo inútil.

Só conhecendo, em matéria de experiência religiosa, as inquietudes da erudição, os modernos avaliam o Absoluto, estudam suas variedades e reservam seus estremecimentos para os mitos – essas vertigens para consciências historiadoras. Havendo deixado de rezar, comentam a prece. Nenhuma exclamação mais, só teorias. A Religião boicota a fé. No passado, com amor ou ódio, os homens se aventuravam em Deus, o qual, de Nada inesgotável que era, agora é apenas – para desespero de místicos e ateus – um problema.

Rondei com um delator em torno de Deus; incapaz de suplicar-lhe, espionei-o.

Que auxílio pode oferecer a religião a um crente decepcionado por Deus e pelo Diabo?

Mesmo quando pensamos haver desalojado Deus de nossa alma, Ele continua vegetando nela. Mas sentimos que ali se aborrece: não temos mais fé suficiente para diverti-Lo.

“Senhor, sem ti estou louco, mas mais louco ainda contigo!” Esse seria, na melhor das hipóteses, o resultado de um reatamento de contato entre o fracassado de baixo e o fracassado do alto.

CIORAN, Silogismos da amargura (1952)


Estamos longe da literatura: mas longe só na aparência. Palavras apenas, pecados do Verbo. Recomendei-lhe a dignidade do cepticismo: e eis-me às voltas com o Absoluto. Técnica da contradição? Lembre-se antes do que dizia Flaubert: ‘Sou um místico e não acredito em nada’. Vejo nessas palavras a divisa do nosso tempo, de um tempo infinitamente intenso, e sem substância. Existe uma volúpia que é realmente nossa; a do conflito enquanto tal. Espíritos convulsivos, fanáticos do improvável, despedaçados entre o dogma e a aporia, estamos tão prontos a saltar para Deus por raiva como cientes de que nele não poderíamos sequer vegetar.

A ideia fixa do sistema não é menos suspeita quando se aplica ao estudo dos místicos. Trata-se de uma atitude ainda tolerável no caso de Mestre Eckhart, porque ele próprio teve o cuidado de disciplinar o seu pensamento: pois não era ele um pregador? Um sermão, por inspirado que seja, tem a ver com o curso, expõe uma tese e esforça-se por a fundamentar de modo convincente. Mas que dizer de um Angelus Silesius, cujos dísticos se contradizem a gosto, possuindo apenas um tema comum: Deus — e este é apresentado sob tantos rostos que se torna difícil identificar o verdadeiro? O Viajante Querubínico, sucessão de afirmações inconciliáveis, cheio de um grande e confuso esplendor, exprime apenas os estados de alma estritamente subjectivos do seu autor: querer mostrar a sua unidade, o seu sistema, é arruinar a sua força de sedução. Angelus Silesius preocupa-se menos com Deus do que com o seu próprio deus. O resultado é uma multiplicidade de insânias poéticas, de molde a desencorajar o erudito e a aterrar o teólogo. Mas nada disso se verifica. Um e outro esforçam-se por pôr em boa ordem as afirmações de Silesius, por simplificá-las, por extraírem delas uma ideia precisa. Maníacos do rigor, querem saber o que pensava o autor da eternidade e da morte. O que pensava ele? Pensava as coisas mais diversas. São experiências suas, pessoais e absolutas. Quanto ao seu Deus, nunca terminado, sempre imperfeito e mutante, o autor regista os seus momentos e traduz o seu devir num pensamento não menos imperfeito e mutante. Desconfiemos do definitivo, afastemo-nos dos que pretendem possuir uma visão exacta acerca do que quer que seja. O facto de em certo dístico Angelus Silesius assimilar a morte ao mal e num outro ao bem, só por falta de probidade e de humor nos surpreenderia. Como é em nós que devém a própria morte, consideremos as suas etapas, as suas metamorfoses, encerrá-la numa fórmula é detê-la, sabotá-la.

Já na Idade Média, certos espíritos, cansados de repisarem os mesmos temas, as mesmas expressões, tinham, para renovarem a sua piedade e a emanciparem da terminologia oficial, que recorrer ao paradoxo, à fórmula sedutora, ora brutal, ora recheada de matizes. Foi o caso de Mestre Eckhart. Por muito rigoroso e atento à coerência que fosse, era demasiado escritor para não parecer suspeito à Teologia: foi o seu estilo, mais do que as suas ideias. que lhe valeu a honra de ser acusado de heresia. Quando examinamos, nos seus tratados e nos seus sermões, as proposições incriminadas, surpreendemo-nos com a preocupação de dizer bem que manifestam; revelam-nos o lado genial da sua fé. Como todos os heréticos, pecou pela forma. Inimiga da linguagem, a ortodoxia religiosa ou política postula a expressão prevista. Se quase todos os místicos tiveram dificuldades com a Igreja, o motivo foi o seu excessivo talento; a Igreja não exige qualquer talento e reclama somente a obediência, a submissão ao seu estilo. Em nome de um verbo esclerosado mandou acender as suas fogueiras. Para escapar, o herege não tinha outro recurso que não fosse mudar as suas fórmulas. exprimir as suas opiniões em termos diferentes, em termos consagrados. A Inquisição talvez nunca tivesse existido se o catolicismo tivesse mostrado maior indulgência e compreensão pela vida da linguagem. pelos seus desvios, pela sua variedade e pela sua invenção. Quando o paradoxo é banido, só se pode evitar o martírio por meio do silêncio ou da banalidade.

Quando deixarmos de referir a Deus a nossa vida secreta, poderemos atingir êxtases tão eficazes como os dos místicos e vencer esta terra cá em baixo sem recorrer ao Além. E se, apesar de tudo, a obsessão de um outro mundo nos perseguisse, ser-no-ia fácil construí-lo, projectar um mundo de circunstância, destinado, que mais não fosse, a satisfazer a nossa necessidade de invisível. O que conta são as nossas sensações, a sua intensidade e as suas virtudes, bem como a nossa capacidade de nos precipitarmos numa loucura não sagrada. No desconhecido, poderemos ir tão longe como os santos, sem nos servirmos dos seus meios. Bastar-nos-á forçar a razão a um longo mutismo. Entregues a nós próprios, já nada nos impedirá de aceder à suspensão deliciosa de todas as nossas faculdades. Quem entreviu tais estados sabe que neles os nossos movimentos perdem o seu sentido habitual: subimos ao abismo, descemos ao Céu. Onde estamos? Pergunta sem objecto: já não temos lugar

CIORAN, A Tentação de existir (1956)


Nascemos para existir, não para conhecer; para ser, não para afirmar-nos. O saber, tendo irritado e estimulado nosso apetite de poder, nos conduzirá inexoravelmente a nossa perda. O Gênese percebeu, melhor que nossos sonhos e sistemas, nossa condição humana.

Segundo o testemunho de Karl Barth, não poderíamos “guardar sequer um sopro de vida se, no mais profundo de nosso ser, não existisse esta certeza: Deus é justo”. No entanto, existem aqueles que vivem sem conhecer esta certeza; sem nunca tê-la conhecido. Qual é seu segredo? E, sabendo o que sabem, por que milagre continuam respirando?

Por mais implacáveis que sejam nossas recusas, não destruímos totalmente os objetos de nossa nostalgia. De nada vale deixar de acreditar na realidade geográfica do paraíso ou em suas diversas figurações, ele reside de qualquer maneira em nós como um dado supremo, como uma dimensão de nosso eu original; trata-se agora de descobri-lo aí. Quando o conseguimos, entramos nessa glória que os teólogos chamam essencial; mas não é Deus que vemos face a face, é o eterno presente, conquistado acima do devir e da própria eternidade… O que importa, a partir daí, a história! Ela não é o fundamento do ser, mas sua ausência, o não de toda coisa, a ruptura do vivente consigo mesmo; não sendo constituídos pela mesma substância que ela, nos recusamos a cooperar em suas convulsões. Pode nos esmagar à vontade, só atingirá nossas aparências e nossas impurezas, esses restos de tempo que ainda arrastamos, símbolos de fracasso, marcas de escravidão.

CIORAN, História e utopia (1960)


O homem depende de ordens incompatíveis, contraditórias, e nossa espécie, no que há de único, se coloca fora dos reinos. Embora exteriormente tenhamos tudo da besta e nada da divindade, a teologia dá uma explicação melhor do nosso estado do que a zoologia.

CIORAN, La Chute dans le temps (1964)


Bendito aquele tempo em que os solitários podiam explorar seus abismos sem parecerem obsessos, dementes. Seu desequilíbrio não estava afetado por um coeficiente negativo, como é o nosso caso. Sacrificavam dez, vinte anos, toda uma vida, por um pressentimento, por um relâmpago de absoluto. A palavra “profundeza” só tem sentido se aplicada às épocas em que o monge era considerado o exemplar humano mais nobre. Que esteja em vias de desaparição, ninguém questionará. Há séculos limita-se a sobreviver. A quem se dirigiria num universo que o tacha de “parasita”? No Tibete, único país em que ainda contava para alguma coisa, foi deixado de lado. Contudo, era uma rara consolação pensar que milhares e milhares de eremitas podiam estar lá meditando, hoje, sobre os temas do Prajñāpāramitā. Mesmo que só tivesse aspectos odiosos, o monacato valeria sempre mais do que qualquer outro ideal. Mais do que nunca, dever-se-ia construir monastérios… para os que creem em tudo e para os que não creem em nada. Aonde fugir? Não existe mais canto algum onde se possa execrar profissionalmente este mundo.

CIORAN, Le mauvais démiurge (1969)


Apenas dura aquilo que foi concebido na solidão, diante de Deus, quer sejamos crentes quer não.

Não é fácil falar de Deus quando não se é nem crente nem ateu: e é sem dúvida o drama de todos nós, teólogos inclusive, não podermos ser nem uma coisa nem outra.

CIORAN, Do inconveniente de ter nascido (1973)


Eu não gostaria de viver em um mundo esvaziado de todo sentimento religioso. Não penso na fé, mas nessa vibração interior que, independente de qualquer crença, nos projeta em Deus e, às vezes, mais acima.

CIORAN, Écartèlement (1979)


Depois de Pascal e Kierkegaard não podemos mais conceber a “salvação” sem uma série de imperfeições e sem as volúpias secretas do drama interior. Sobretudo hoje, quando a “maldição” está na moda, em literatura evidentemente, gostaríamos de que todos vivessem na angústia e na maldição. Mas um sábio pode ser maldito? E por que o seria? Não sabe coisas demais para poder se permitir o inferno, os círculos estreitos do inferno? É quase certo que só os aspectos sombrios do cristianismo ainda despertam em nós um certo eco. Talvez, se desejarmos reencontrar a essência do cristianismo, seja preciso vê-lo pelo lado negro. Se essa imagem, se essa visão é verdadeira, Eliade certamente está à margem desta religião. Mas talvez esteja à margem de todas as religiões, por profissão e por convicção: não é um dos representantes mais brilhantes de um novo alexandrinismo que, a exemplo do antigo, coloca todas as crenças em um mesmo plano, sem poder abraçar nenhuma? A partir do momento em que nos recusamos a hierarquizá-las, qual escolher, por qual nos decidirmos, e que divindade invocar? Não se imagina um especialista em História das religiões rezando. Ou, se ele realmente reza, desmente então o seu ensinamento, se contradiz, arruína seus Tratados, onde não figura nenhum deus verdadeiro, onde todos os deuses se equivalem. É inútil descrevê-los e comentá-los com talento: não pode insuflar-lhes vida. Retirou-lhes toda a sua seiva, comparou-os uns com os outros, usou-os uns contra os outros, em detrimento deles, e o que resta são símbolos exangues com os quais o crente não pode fazer nada, se é verdade que neste estágio de erudição, de desilusão e de ironia possa existir alguém que creia realmente. Todos nós somos ex-crentes, Eliade em primeiro lugar. Somos todos espíritos religiosos sem religião.

Exercícios de admiração (1986)


A única experiência profunda é a que se realiza na solidão. Aquela que resulta de um contágio permanece superficial – a experiência do nada não é uma experiência de grupo. Mas, no final das contas, o budismo não passa de uma sabedoria. O místico vai mais longe. Místico, ou seja, o êxtase. Ao todo e por tudo, tive quatro, no meu período de intensa perturbação. São experiências extremas que se pode viver com ou sem fé.

CIORAN, Entrevistas com Sylvie Jaudeau


Nem Deus saberia dizer onde me encontro não em matéria de fé, mas de religião. Eu adiro tão pouco a este mundo que me é impossível considerar-me um descrente! Por essa inadesão, eu pertenço ao ‘religioso’ (para falar como Kierkegaard).

Eu nunca tive religião (no sentido etimológico) porque nunca estive religado a nada. Não experimentei senão a nostalgia da religião, o suspiro religioso.

O que é o religioso? Algo que se aprofunda em nós a despeito do mundo, uma progressão em direção a um silêncio cantante.

Quando eu falo de ‘libertação’ [délivrance], não estou a fazer literatura; respondo a um apelo surgido do meu espírito e da minha fisiologia, de tudo o que possuo de bom e de ruim, de tudo o que há de religioso na minha desolação. O único ‘mito’ ao qual eu adiro irrestritamente é o do Paraíso perdido.

Ninguém é mais religioso do que eu. Nem menos. Estou ao mesmo tempo mais próximo e mais distante do Absoluto do que qualquer pessoa.

CIORAN, Cahiers: 1957-1972

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