“O heroísmo do presente” – Katia MURICY

Revista Tempo Social (USP), vol. 7 (1-2), outubro de 1995, pp. 31-44.

RESUMO: Uma aproximação da história do presente de Michel Foucault da concepção de história de Walter Benjamin, a partir de suas análises sobre a visão de modernidade como construção do tempo na obra de Baudelaire.

Palavras-chave: Foucault, Benjamin, Baudelaire, História, História do presente, Tempo, Modernidade


Ao contrário de Walter Benjamin, Michel Foucault escreveu muito pouco sobre Baudelaire. Mesmo alusões ao poeta são escassas em sua obra. Há uma afirmação breve, mas decisiva, que dá a Baudelaire uma importância semelhante a que concedera, em páginas generosas de As palavras e as coisas, a Mallarmé – este que, devolvendo às palavras sua densidade, fizera da poesia a expressão mais completa das inflexões contemporâneas à questão da linguagem. Formulada no espaço filosófico-filológico aberto por Nietzsche, esta questão inaugura para Foucault, o terreno próprio da modernidade. É em Baudelaire que Foucault encontra, em uma entrevista de 1983, um sentido preciso para o termo modernidade na França (Foucault, 1983). Um ano mais tarde, Foucault esclarece sua afirmação. Se Mallarmé configurara a linguagem como o grande tema da modernidade, com Baudelaire, nas reflexões de Foucault dos anos 80, é uma nova percepção de tempo que estabelece o próprio conceito de modernidade.

As pouco mais que duas páginas a que se restringem as considerações de Foucault sobre Baudelaire aparecem no artigo O que é o Iluminismo?, publicado em 1984, em The Foucault reader, editado por Paul Rabinow nos Estados Unidos. O artigo desenvolve um texto publicado em abril do mesmo ano na Magazine Littéraire (nº 207) que resume o curso de 1983 no Collège de France. Trata-se da leitura de Was ist Aufklärung?, resposta de Kant à questão proposta, em 1784, por um jornal berlinense. Este texto menor de Kant sempre exerceu um grande fascínio sobre Foucault. Em 1978, encontra-se a primeira referência a ele, na introdução escrita por Foucault à edição em língua inglesa do livro de Georges Canguilhem O normal e o patológico, posteriormente editada em francês com o título La vie, l’expérience et la science (1985, p. 3-14). Ao menos nas duas últimas leituras que faz deste texto, Foucault, através de Kant, apresenta a sua própria concepção de vida filosófica. Na versão mais atual, recorre a Baudelaire para explicitá-la melhor. Minha hipótese é que Baudelaire pode ser uma lente sensível para o foco que Foucault quer jogar sobre Kant a fim de iluminar a sua própria concepção da filosofia. Penso também que, por esta inclusão de Baudelaire na explicitação da originalidade do vínculo que estabelece entre a história, filosofia e atualidade — isto que chama de uma ontologia do presente — se pode relacionar Foucault com Walter Benjamin que, também por uma análise de Baudelaire, estabelece um elo inusitado entre tradição e modernidade a partir de um conceito de tempo não linear. Nos dois autores, uma leitura muito particular de Kant é feita a partir de preocupações que ambos compartilham com o poeta. O artista moderno e o filósofo moderno encontram-se na mesma tarefa de pensar uma nova relação com o tempo – e, logo, com a tradição e a história – e consigo mesmo. Há certamente diferenças essenciais: entre outras, Baudelaire é um objeto de estudo exaustivo para Benjamin enquanto em Foucault, como indiquei, a presença do poeta é tênue e quase exclusivamente no texto de 1983 sobre Kant. Por outro lado, Benjamin define sua tarefa em Filosofia considerando Kant a partir do sistema, da primeira Crítica, enquanto Foucault toma para isto um texto de circunstância. Além disto, os estudos de Benjamin sobre Baudelaire são muitos anos posteriores ao seu texto sobre Kant. Apesar destas diferenças a visão de modernidade de Baudelaire não deixa de ser decisiva para a compreensão do projeto filosófico de ambos… [PDF]

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