“Um humanista radical: Cioran ou a virtude do pessimismo” – Entrevista com Carlos Javier González SERRANO

“O pessimista não diz que temos que sofrer, mas que devemos estar preparados para isso. Nesse sentido, o pessimista é um revolucionário: não quer deixar o mundo como está, mas também não cria falsas expectativas. Ele nos situa no mundo como espectadores privilegiados e muito realistas.”

Carlos Javier González Serrano

O que se denomina “pessimismo” não é senão a “arte de viver”, a arte de saborear o gosto amargo de tudo que é.

E. M. Cioran, Cahiers: 1957-1972

Carlos Javier González Serrano, Freigeist (Madri, 1985). O nosso entrevistado da vez é um intelectual polivalente: filósofo, educador, editor, jornalista escritor, tradutor, palestrante, e muito mais. Especialista em romantismo e pessimismo filosófico alemães, dedica-se especialmente às obras de Arthur Schopenhauer e Philipp Mainländer. É presidente da Sociedad de Estudios en Español sobre Schopenhauer, embaixador da Internationale Philipp Mainländer-Gesellschaft (IPMG, Sección Española), diretor da Schopenhaueriana. Revista española de estudios sobre Schopenhauer, membro do comitê-diretor da Sociedad Iberoamericana de Estudios sobre Pesimismo (SIEP) e membro da International Society of Boredom Studies. O Colóquio Internacional Liliana Herrera em torno de Cioran, realizado on-line e transmitido ao vivo pelo YouTube, em outubro de 2021, contou com a sua participação. Carlos Javier González Serrano apresentou uma conferência relacionada à temática desta entrevista: “Schopenhauer e Cioran: buscar sentido en el sinsentido” (13/10/2021).[1]

As suas investigações também se concentram nas obras de autores como Rosalía de Castro, Miguel de Unamuno, María Zambrano, Hermann Hesse, Fernando Pessoa, Giacomo Leopardi, Friedrich Nietzsche, Hannah Arendt, Pío Baroja, Virginia Woolf, León Tolstói, Antón Chéjov, Alejandra Pizarnik, Sylvia Plath e Edgar Allan Poe, sobre os quais tem ministrado cursos e palestras. Outras temáticas de sua especialização incluem o suicídio por uma perspectiva multidisciplinar, o inconsciente na história das ideias, o desenvolvimento ou evolução do pessimismo, teoria da música, psicologia evolutiva e organizacional, pensamento político e a relação entre filosofia e literatura.

Carlos Javier González Serrano é o diretor do aclamado programa El Vuelo de la Lechuza, na Radio del Circulo de Bellas Artes de Madrid (2021-2022), e idealizador da revista de mesmo nome.

Diretor de projetos culturais, gestor e consultor de equipes de trabalho, assessor de Cultura e Comunicação, professor de Filosofia e Psicologia (Secundário e Bacharelado), tutor e conselheiro do bacharelado do Colégio San Gabriel em Madrid. Tem trabalhado como gestor e coordenador de diversas equipes editoriais e jornalísticas. Foi editor de não-ficção da prestigiada Alianza Editorial (Grupo Anaya) e editor da Herder Editorial. Atualmente, é assessor de importantes selos editoriais e membro da equipe de direção e coordenação de revistas comerciais e acadêmicas.

C. J. G. S. tem uma forte presença em meios de comunicação como televisão, rádio e internet, além de instituições culturais, nacionais e internacionais, públicas e privadas, sendo convidado para tratar de filosofia, literatura, psicologia infantojuvenil, edição, direção cultural, gestão de equipes, comunicação, escrita, história e teoria da música. Como jornalista especializado, crítico cultural e colunista, colabora regularmente com importantes meios de comunicação, impressos e audiovisuais, nacionais (TVE, RNE, Mediaset, Onda Cero, Cadena Ser, Ethic, Scherzo, National Geographic, Voz pópuli, ABC, The Objective, El País, Cuadernos Hispanoamericanos) e internacionais. É conferencista em diversas instituições, universidades e organizações, de diferentes setores, nacionais e internacionais, sendo bastante solicitado para dar consultoria, participar de comissões e bancas julgadoras e dar palestras sobre temas especializados. Colaborou com o Centro de Astrobiología (CAB) e o Instituto Nacional de Técnica Aeroespacial (INTA) para o projeto internacional “Cultura con C de Cosmos”.

Foi Colaborador de Honra do Departamento III (História da Filosofia, Estética e Teoria do Conhecimento) e do Departamento I (Filosofía Teórica) da Faculdade de Filosofia da UCM, onde também ministrou cursos. Como professor-convidado e membro de bancas julgadoras, tem atuado junto a diversas universidades, nacionais e internacionais, como a Universidad del Atlántico, a Universidad del Norte e a Universidad de Guerrero. Tem sido solicitado por inúmeros institutos de ensino médio para conduzir os jovens estudantes no seu primeiro contato com áreas como filosofia, literatura e artes, adotando uma abordagem interdisciplinar entre ciências sociais, ciências básicas e humanidades.

Como autor e editor, C. J. G. S. possui um currículo tão extenso quanto admirável. Editou diversos volumes literários e ensaísticos , além de ser autor ou coautor de inúmeros livros. Entre as suas principais produções, destacam-se Arte y música en Schopenhauer. El camino hacia la experiencia estética, Filosofía y muerteOrtega y Gasset. Pensar la circunstancia (traduzido ao italiano, ao português e ao polonês), Actualidad de Philipp Mainländer (coautor), Galería de los invisibles (coautor e coordenador), Hannah Arendt y la literatura (coautor), La imposible conquista de la libertad. Ética, política y Estado en Arthur Schopenhauer (introdutor e editor). Escreveu o epílogo à edição espanhola do romance Rupertine del Fino, de Philipp Mainländer, o prólogo à edição espanhola da Filosofía de lo inconsciente, de Eduard von Hartmann, e a introdução ao poemário Aus dem Tagebuch eines Dichters, Diario de un poeta, de Mainländer (do qual também é o tradutor). Tradutor de Aforismos sobre la sabiduría de la vida. Tradutor e editor do volume Parábolas y aforismos, ambos de Schopenhauer.

Formação acadêmica: Carlos Javier González Serrano é licenciado em Filosofia, Mestre em Psicologia do Trabalho e das Organizações e Gestão de Recursos Humanos, Mestre em Estudos Avançados em Filosofia, Mestre em Psicologia Clínica e Psicoterapia da Criança e do Adolescente e Mestre em Ensino do Ensino Secundário Obrigatório e Licenciatura.


Um humanista radical: Cioran e a virtude do pessimismo
Entrevista com Carlos Javier González Serrano

Rodrigo Menezes – Caro Carlos Javier, obrigado pela amabilidade em nos conceder esta entrevista. Acompanho o seu trabalho autoral e editorial há alguns anos (a começar pela sua revista, El Vuelo de la Lechuza, que eu recomendo fortemente a quem nos lê). Interessa-me pensar a relação histórico-filosófica de Cioran com os autores alemães com quem você trabalha, como Schopenhauer e (sobretudo) Mainländer (por sua obscuridade e marginalidade). De uma forma geral, onde você situa Cioran entre Schopenhauer, Mainländer e Nietzsche, na história da filosofia? Na sua interpretação, de qual deles o filósofo romeno estaria mais próximo?

Carlos Javier González Serrano – É verdade que Cioran costuma ser inscrito, com certa facilidade, no grupo dos “pessimistas filosóficos”. No entanto, é muito conveniente matizar essa postura que pode parecer natural. Não há dúvida de que, no panorama oitocentista, Arthur Schopenhauer inaugurou o que poderíamos chamar de “pessimismo moderno”, sendo ele, sem dúvida, o autor mais conhecido dessa corrente pessimista. Ora, o pessimismo de Schopenhauer surge, sobretudo, como o resultado metafísico da observação do mundo; a sua filosofia ainda preserva o desejo kantiano de dar sistematicidade (ainda que orgânica) à experiência como um todo. Como ele mesmo apontou, a realidade é um hieróglifo que deve ser decifrado, cuja chave interpretativa (ou chave, Schlüssel) é a vontade (Wille). Essa vontade nos torna seres divididos entre o entendimento, ou inteligência (Verstand), cujo correlato físico é o cérebro, e o desejo. Mas, para além desta caracterização física, o que é relevante em Schopenhauer é a sua posição manifestamente metafísica: a vontade não é apenas aquilo que nos constitui como indivíduos, mas também a substância que subjaz à toda a realidade. É o seu fundamento (Grund), embora irracional, que só desejar, e, portanto (e isto é fundamental), também nos conduz a abismos (Abgrund) de toda espécie. Nesse sentido, a negação da vontade se posiciona como a ação mais digna que um ser humano pode realizar.

Em Philipp Mainländer, discípulo crítico de Schopenhauer, esse zelo metafísico se mantém, mas, ao contrário do mestre, para o qual a vontade é eterna, una e indivisível, em Mainländer assistimos à sua decomposição: cada um dos indivíduos faz parte de uma unidade primigênia (Deus) que, a princípio, decidiu se matar para constituir a vida do mundo (“Gott ist Gestorben, und sein Tod war das Leben der Welt”). Portanto, no sistema de Mainländer, tudo se encaminha para um desaparecimento que já estava predeterminado desde o início dos tempos: somos os fragmentos de uma substância primordial e, como parte do seu processo de decomposição, também caminhamos para o Nada (Nichts). No seu sistema, portanto, o suicídio é justificado, ao contrário de Schopenhauer, que via no suicídio uma rendição às garras da vontade, que nos espolia continuamente. Em Mainländer, pelo contrário, o suicídio (Selbstmord) é conceituado como uma espécie de lucidez que não se deve condenar: aqueles que cometem suicídio o fazem porque passaram a compreender o desenvolvimento natural do mundo. Ele mesmo suicidou-se ao receber os primeiros exemplares da sua magnum opus, a Filosofia da Redenção (Philosophie der Erlösung), em 1876. Embora não seja o objetivo mainlanderiano: para o pensador de Offenbach am Main, há uma figura fundamental, o “sábio herói” (weise Held), que passou a compreender a dinâmica da realidade e que, nesse sentido, ajuda os demais a compreendê-la e assumi-la, apesar do sofrimento que essa consciência pode acarretar.

No caso de Cioran, apesar da sua tendência místico-religiosa (que sempre esteve presente na sua vida e na sua obra), esse anseio metafísico não existe, muito menos sistemático. Em muitas passagens ele ataca a necessidade de se desenvolver um sistema fechado: toda biografia se desenvolve em um fluxo contínuo que não pode submeter-se à rigidez de um sistema. Ademais, o pessimismo de Cioran não esconde nenhum fundamento metafísico, tem a ver antes com as vivências cotidianas, mergulhadas no absurdo (neste ponto, o seu pensamento é em parte irmanado ao de Camus). Assistimos sentimentalmente, em nosso viver cotidiano, um colapso da realidade: nada do que existe possui uma razão para ser, a não ser a de estar no mundo, ou seja, a sua pura facticidade. Estamos sujeitos, portanto, a um acaso impossível de se contornar,[2] e a vida, em sua carnalidade, nos expõe a um trânsito do não podemos dar conta. Ao contrário do que se costuma dizer, a submissão ao acaso torna-se, em Cioran, um humanismo radical: percebendo o meu próprio sofrimento, também o suponho nos outros, e procuro atenuá-lo para não fazer deste mundo um vale de lágrimas. Pelo menos, para não aumentar a dor e o sofrimento. Diante do absurdo apresentado por Albert Camus em O mito de Sísifo, que nos confronta com o abismo da nossa liberdade, e que é superado pela ação engajada (com o mundo, com o outro, com a sociedade) e pelo esforço de alcançar a justiça, em Cioran, em contrapartida, tudo está perdido desde o início aos olhos de quem conhece a dinâmica do mundo. Aqui reside a coragem do seu pensamento, a proposta heroica de um filósofo do absurdo que, longe de dizer não à vida, enfrenta-a (com todos os seus medos, tristezas, incertezas e arrependimentos) e – em parte com humor, em parte com um sarcasmo ácido – decide afirmá-la até as suas últimas consequências. Assim surge o que Cioran chama de “o método da agonia”.

Existir é possível de muitas maneiras; mas para viver, humana e plenamente, só há um caminho: assumir o sentimento do irreparável, do irremediável, que sempre acompanha a consciência desperta. Portanto, a filosofia de Cioran contém um sonoro sim à vida… apesar de tudo. O autor romeno já escrevia que “Viver sozinho significa não exigir mais nada e não esperar mais nada da vida. […] Os grandes solitários jamais se recolheram para se preparar para a vida, mas para aguardar, interiorizados e resignados, a aniquilação de sua vida.” Afinal, pisar o abismo pode permitir, justamente, ter um terreno para pisar: quando tudo está perdido, não há nada a perder ou ganhar. A vida é conquistada em sua assunção radical. Esse é o grande legado de Cioran. Um legado que não foi compreendido (e que continua a ser mal compreendido), mas que pede uma lucidez intrépida, que acalma e nos faz descansar sobre a certeza de que, nesta vida, nada se resolve. É necessária alguma outra certeza?

R. M. – Como pensar a relação entre otimismo e pessimismo nos tempos modernos? Penso estas noções principalmente em termos filosóficos, mas não apenas, também em termos culturais gerais, para além das teorias filosóficas. A modernidade costuma ser considerada um projeto civilizatório cujo objetivo é a perfeita realização da felicidade e a otimização do bem-estar humano no mundo, com meios eminentemente humanos (fundamentalmente, um projeto secular e tecnocientífico da Razão). A modernidade seria, portanto, instintivamente antipessimista, “alérgica”, por assim dizer, a ideias e conteúdos de tipo trágico-pessimista (por exemplo, a doutrina do pecado original, ou a Queda, segundo Cioran). Leibniz, Spinoza e Hegel são geralmente considerados filósofos otimistas dos tempos modernos, enquanto Schopenhauer, Mainländer e Cioran, pessimistas. Qual a relevância desses pensadores para nossa cultura globalizada hoje? Qual a importância do(s) pessimismo(s) filosófico(s) nestes tempos de “positividade tóxica”?

C. J. G. S. – Escrevi na imprensa sobre este assunto e também o discuti em muitas conferências. Sempre reivindico a necessidade de pensar a relação entre pessimismo e a boa vida. Nossa vida está absolutamente contaminada por um imperativo de felicidade que nos leva a pensar a realidade em termos de (total) disponibilidade, como se tudo estivesse ao nosso alcance, como se não houvesse impedimentos estruturais e sistêmicos que pudessem frustrar as nossas ilusões de felicidade. O fracasso e a frustração são banidos do universo humano, assim como a morte, e tudo o que é pesado e doloroso tende a ser escondido. Cada vez mais, lugares como hospitais, casas funerárias ou asilos ficam escondidos nas cidades.

Ademais, e isso é o mais perigoso, a partir da autoajuda, inúmeros gurus invadem a esfera emocional da população e incentivam a criação do que chamo de “pensamento mágico”, ou seja, pensar que as coisas vão correr bem porque acreditamos ou desejamos O nosso desejo não corresponde à realidade, e isso é importante de levar em conta.

Por outro lado, seguindo uma linha que poderia incluir Cioran, ter consciência do próprio mal (e do mal alheio, do sofrimento e da dor que somos, que habita em nós e entre nós) é começar a tomar consciência da nossa realidade. Sem uma reflexão sobre o mal, o sofrimento, as mazelas do nosso tempo, acaba sendo impossível mudarmos as coisas. Ao menos questionemo-nos se podemos mudá-las.

O otimismo, pelo contrário, tende a deixar tudo como está, é um mecanismo de pensamento que nos torna estáticos, deixando-nos indefesos: tudo é tão bom quanto pode ser.

O pessimismo (e o seu exercício) é ou pode ser revolucionário: nos faz ver o que está errado e analisa o que pode ser mudado, permitindo-nos verificar e investigar as estruturas (sejam elas biológicas, sociológicas, políticas ou antropológicas) que fazem o com que o sofrimento continue livremente o seu caminho. O pessimismo nos convida a pensar permanentemente e, sobretudo, a pensar por nós mesmos.

De fato, se olharmos para a história das ideias, traçamos no pessimismo a raiz do pensamento e até da filosofia. Isso já pode ser visto em um dos grandes livros de sabedoria da Bíblia, o livro de Jó, no qual o próprio Javé é tentado pelo diabo a testar o seu servo mais leal, Jó, que é questionado pelos seus amigos mais próximos. Ou no Eclesiastes, um dos textos mais belos da literatura universal, que nos faz ver o mundo como um vale de lágrimas.

Por isso, defendo que o pessimismo é uma verdadeira revolução contra o imperativo da felicidade com que tentam edulcorar as nossas emoções e aplacar o nosso poder individual e comunitário de mudar as coisas. Até o século XVIII, com poucas exceções, e sob o domínio do pensamento teológico ocidental, pensava-se que o mundo era como deveria ser; Deus se oculta por detrás de cada ato e, nesse sentido, tudo tem um significado que desconhecemos. Vale a pena questionar (e assim fizeram os pensadores daquela época): se Deus é bom, ele pode querer o nosso mal? E, contudo, o mal segue existindo. O pessimismo questiona, desde Voltaire, no seu breve e fantástico romance Cândido, esse trono divino. Sem esperarmos que que tudo vai dar certo, criaremos um mundo melhor. O oposto. O mundo, gostemos ou não, é como é, e temos que pensá-lo como ele é. Não há desculpas. O pessimismo não incita à rebelião, mas à revolução intelectual: vivemos invadidos por um meloso e muito perigoso imperativo da felicidade, rodeados por livros de autoajuda que nos fazem acreditar que nascemos para sermos felizes. Estamos criando seres humanos muito pouco humanos, despreparados para sofrer: tudo o que tem a ver com dor e sofrimento está sendo patologizado, quando a realidade inescapável é que todos nós sofremos perdas, terminamos um relacionamento, temos crises com amigos ou no trabalho. No entanto, estão nos levando a uma sociedade medicalizada, torturada, por não saber que o sofrimento também está no cerne da existência. O pessimista não diz que temos que sofrer, mas que devemos estar preparados para isso. Nesse sentido, o pessimista é um revolucionário: não quer deixar o mundo como está, mas também não cria falsas expectativas. Ele nos situa no mundo como espectadores privilegiados e muito realistas.

R. M. – Você concorda com Brunetière que o otimismo é antes de tudo uma metafísica, enquanto o pessimismo é um princípio moral, antes de ser uma metafísica?[3] No que diz respeito à inevitável implicação entre metafísica, moral (ou ética) e política, o pessimismo é geralmente considerado uma atitude e perspectiva filosófica de tipo reacionário, enquanto a atitude moderna, progressista ou mesmo revolucionária deve ser, pelo contrário, otimista. É possível ser filosoficamente pessimista (mesmo no plano metafísico, antropológico e ontológico da especulação) e não ser, nem querer ser, um reacionário, mas a sua antípoda?

C. J. G. S. –  Eu penso o contrário. É o otimismo que seria uma atitude natural em todos os seres humanos. É impossível viver sem um horizonte de sentido, sem um amanhã no qual nos projetarmos. Inevitavelmente, temos que pensar que amanhã sobreviveremos, que continuaremos em disposição de intervir nos nossos assuntos e que caberá (em parte) a nós determinar as condições nas quais as nossas vidas se desenrolarão. No entanto, por trás desse inevitável otimismo biológico (que podemos chamar de “atitude natural”) escondem-se inúmeras correntes que tentam passar o otimismo como uma imposição diante de qualquer tipo de adversidade.

Ao longo das nossas vidas, as circunstâncias se voltam contra nós em muitas ocasiões, e pensar que “tudo vai dar certo” pode levar a frustrações e situações patológicas como ansiedade, obsessão, paranoia ou mesmo psicose. O otimismo se enraizou no nosso tempo como uma posição metafísica porque estamos acostumados, desde as instâncias políticas e econômicas, a viver na precariedade e em constante crise. Deveríamos antes questionar quais são as estruturas sistêmicas que facilitam (e impõem) esse tipo de posicionamento, ou seja, refletir sobre porque somos forçados a pensar de forma otimista sobre as nossas vidas. Otimismo e felicidade não são sinônimos. Quando nos pedem para sermos continuamente otimistas, eles esquecem que o fracasso é uma experiência inevitável em toda biografia. O pensamento mágico[4] (“se ​​você acredita, acontecerá”) esconde uma tirania psicológico-emocional, especialmente para a classe trabalhadora. O pessimista, por sua vez, não espera inocentemente que as coisas mudem, mas antes, diante da inevitabilidade do mal, faz um remédio para saber aceitá-las sem rancor. Aqui podemos recorrer ao nosso mestre Cioran. Cioran sempre impressiona pela coragem diante do absurdo: “O fato de a vida não ter sentido é uma razão para viver, a única na realidade”, escreveu ele. O pessimismo é humanista porque, longe de vender fumaça “felicifóide” (humo felicifoide), nos expõe à (e nos irmana na) intempérie, o cenário natural em que a vida acontece.

O pessimismo, ainda segundo Cioran, é o contrário do conservadorismo, de ser reacionário. O autor romeno escreveu algo muito bonito sobre isso: “Os fracassos da vida são de uma fertilidade impressionante. Só destroem os seres carentes de consistência que não vivem intensamente, que não podem renascer”. O pessimismo não quer que as coisas deem errado: ele garante que, com certeza, nunca vão melhorar, e que, por isso, pode ser preferível estender a mão ao próximo do que se abrigar em utopias estúpidas e “felicifoides”. Afinal, longe de nos afundar num quietismo inoperante ou num derrotismo vazio, um pessimismo sábio nos convida a enfrentar o mundo sem nos esquivar de nenhuma das suas arestas, por mais sombrias ou incertas que nos pareçam.


NOTAS:

[1] Disponível em: https://youtu.be/xUqr_4xyEUc

[2] Un azar imposible de sortear: um jogo de palavras envolvendo dois falsos cognatos: azar significa “acaso” (conceito-chave da filosofia trágica de Clément Rosset, le hasard em francês) e sortear significa “evitar”, “contornar”.

[3] COMPAGNON, Antoine, Os Antimodernos: de Joseph de Maistre a Roland Barthes. Trad. de Laura Taddei Brandini. Belo Horizonte: UFMG, 2014, p. 74.

[4] Cf. CIORAN, “Magia e fatalidade”, Nos cumes do desespero. Trad. de Fernando Klabin. São Paulo: Hedra, 2012, pp. 85-86.

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