“Pupilo de Olavo no Inep defende tese que motivou massacre na Noruega” – Eduardo WOLF

Artigo publicado originalmente em Veja on-line. Adaptação jornalística de um trecho do livro Guerra Cultural – ideólogos, conspiradores e novos cruzados (2019). Eduardo Wolf é doutor em Filosofia pela Universidade de São Paulo e editor do Estado da Arte.

Oito anos após massacre feito por militante de extrema-direita na Noruega, artigo que o inspirou continua a fazer estragos. No Brasil, as teses conspiratorias sobre “o perigo do marxismo cultural” são defendidas (em forma de plágio e discurso de ódio) por um seguidor de Olavo de Carvalho, o ex-professor Murilo Resende Ferreira. Ele agora ocupa — no governo Bolsonaro — o cargo de Diretor de Avaliação de Ensino Básico do Inep, órgão responsável pelo Enem.

No dia 22 de julho de 2011, Anders Breivik realizou o maior ataque em solo norueguês desde a Segunda Guerra Mundial. Em um intervalo de poucas horas, 8 pessoas morreram e 209 ficaram feridas na explosão de um carro-bomba preparado por Breivik em Oslo. Na ilha de Utoya, onde integrantes da juventude do Partido Trabalhista norueguês participavam de um acampamento, Breivik matou 69 pessoas e feriu outras 110. Antes de cometer os ataques, o perturbado militante de extrema-direita enviou um manifesto de mais de 1.500 páginas para mais de mil contatos de sua caixa de e-mail. Em meio a inúmeras citações e referências, pode-se dizer que o fundamento de toda a paranoica teoria conspiratória desse norueguês de 32 anos era o assim chamado “marxismo cultural”. No coração de sua loucura, cópias e paráfrases de trabalhos da extrema-direita americana sobre o tema. Entre eles, chama a atenção a menção a um artigo de 1992 escrito por um obscuro indivíduo chamado Michael Minnicino e intitulado “The New Dark Age: The Frankfurt School and `Political Correctness’” (“A Nova Idade das Trevas: A Escola de Frankfurt e o Politicamente Correto”).

Passados oito anos do massacre de Anders Breivik na Noruega, o artigo de Minnicino e a teoria conspiratória que ajudou a trazer à luz – o “marxismo cultural” – continuam a fazer estragos. Felizmente, dessa vez, não estamos falando de um banho de sangue, mas sim de um constrangedor caso de plágio (ao que tudo indica) e de inaptidão intelectual e profissional para uma posição governamental. Murilo Resende Ferreira, doutor em economia pela Fundação Getúlio Vargas, ex-professor de uma faculdade privada em Goiânia e seguidor de Olavo de Carvalho, foi indicado pelo governo Bolsonaro para o cargo de Diretor de Avaliação de Ensino Básico do Inep, órgão responsável pelo Enem. Ao longo da semana, o inexperiente militante das teses de Carvalho e do movimento Escola Sem Partido viu-se às voltas com a questão da autoria de um de seus artigos, publicado em uma até então desconhecida revista digital dedicada a pautas reacionárias, intitulado “A Escola de Franfkurt: satanismo, feiúra e revolução”. O artigo, em verdade, não é mais que uma tradução (mal) adaptada do texto de Minnicino de 1992 – sim, um dos textos fundadores das teorias conspiratórias que levaram Breivik a matar 77 pessoas e a ferir outras 319… [+]


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