“Amigo de Roberto Jefferson, estorvo para quilombolas: quem é o ‘padre’ dos atos pró-Bolsonaro” – Daniel GIOVANAZ

Brasil de Fato, 30 de Agosto de 2021

Kelmon Souza já discursou de batina em carro de som na Paulista e estará em Brasília no ato do dia 7

Ilha de Maré, Salvador (BA), dezembro de 2018. Entre as 300 famílias da comunidade quilombola Bananeiras, começa a chamar atenção um visitante peculiar: ora de batina, ora de camisa verde-amarela.

“Achávamos que ele vinha para veranear, a convite de uma senhora que morava aqui, mas acabou ficando, infelizmente”, conta uma pescadora, que prefere não se identificar.

“Primeiro, esse estorvo foi acolhido por uma família evangélica. Depois, alugou uma casa que fica numa ruazinha mais reservada da comunidade. Então, não é todo dia que é visto por aqui.”

O homem vestido como padre era Kelmon Luis da Silva Souza, que logo se tornaria conhecido dentro e fora da Ilha – ao menos entre os apoiadores de Jair Bolsonaro (sem partido).

Em 1º de maio deste ano, ele fez um discurso efusivo do alto de um carro de som na avenida Paulista, em São Paulo (SP), durante ato pró-governo:

“Onde a espada de Gideão passou, nenhum midianita ficou em pé. (…) Em nome de Jesus, quero abençoar o povo brasileiro e Bolsonaro, o nosso Gideão.”

Os midianitas eram povos nômades de origem árabe que disputavam terras com israelitas na parte central da Palestina. Conforme o Livro dos Juízes, do Antigo Testamento da Bíblia Cristã, Gideão é considerado um herói militar e teria sido convocado por Deus para matar os inimigos.

Os vídeos de Kelmon circulam principalmente em grupos de ultradireita no WhatsApp, com baixo engajamento em outras redes. No mais recente, ele promete estar no ato de 7 de setembro em Brasília (DF) e reforça a convocatória em todo o país.

“Você não pode ficar na sua casa, acomodado! (…) Somos uma nação cristã e continuaremos sendo. Que Deus abençoe o chefe desta nação”, completa.

Kelmon se apresenta como padre ortodoxo e reza missas em locais improvisados. Os modos pouco usuais e a religião, desconhecida da maioria dos nativos, despertaram interesse da mídia baiana.

“Ele nunca pertenceu a uma igreja ‘de verdade’, canônica. Ele sempre gostou de se envolver com essas igrejas falsas que ele diz que é pertencente, mas não é”, disse ao portal Farol da Bahia um representante da Igreja Ortodoxa Antioquina, em maio.

Em resposta, Kelmon postou em suas redes fotos do dia em que, após dez anos de preparação, ele teria sido ordenado “sacerdote na capela dedicada a Theotokos na chácara pertencente aos Melkitas.”

A reportagem do portal pediu então que o suposto padre enviasse os documentos da ordenação – que teria ocorrido em 2015, em São Paulo –, mas não houve retorno.

Ameaças a quilombolas

Apesar da beleza natural, a comunidade de Bananeiras tem infraestrutura precária e é uma das mais atingidas pela contaminação dos grandes empreendimentos na Baía de Todos-os-Santos.

“Ele chegou como um salvador da pátria”, lembra a marisqueira Marizélia Lopes. “Nossa comunidade sofre racismo institucional, então as políticas públicas não são garantidas. Quando ele chegou, a fala dele era: ‘Ilha de Maré agora vai ter tudo’, e isso chama atenção”.

A desconfiança começou em 2019, quando vizinhos começaram a notar que ele se passava por “anfitrião” e “guia turístico” em sua conta no Instagram, convidando visitantes à Ilha. Em paralelo, grupos de imigrantes venezuelanos começaram a se instalar na comunidade, a convite do suposto padre.

A gota d’água veio em novembro de 2020, quando Kelmon postou uma foto em suas redes afirmando que havia colocado a pedra fundamental do que seria a “paróquia de São Lázaro de Betânia” – dentro do manguezal Ponta do Capim, uma área de proteção ambiental.

Quando retornou ao local da obra, os materiais haviam sido removidos.

“Ele cercou o lugar onde seria essa paróquia improvisada. Como a maré estava cheia e não dava para passar, o pessoal acabou tirando as pedras dali”, conta o morador Bruno Nascimento. “Ninguém foi avisado da construção dessa paróquia.”

Imediatamente, Kelmon convocou a imprensa e disse ser vítima de intolerância religiosa.

“A comunidade, então, fez um abaixo-assinado dizendo que ele não iria construir a paróquia nem dentro do mangue, nem em lugar nenhum. Porque é uma comunidade quilombola, e a gente tem direito de consulta”, lembra Marizélia Lopes.

“Só que ele [Kelmon] se articulou com a politicagem e trouxe uns policiais na comunidade. Passou com os policiais armados, intimidando, dizendo ‘eles não sabem com quem estão mexendo’. Nesse dia, ele fez referência àquele [ex] deputado que foi preso, o Roberto Jefferson [PTB-RJ].”

Bruno Nascimento conta que os moradores buscaram informações sobre o político na internet e ficaram assustados… [+]


Igreja peruana de Padre Kelmon também não é reconhecida pela comunidade ortodoxa

O Globo, 30 de setembro de 2022

Chamado de “padre de festa junina” por Soraya Thronicke (União Brasil) e de “impostor” por Lula (PT) durante o debate da TV Globo, o candidato à presidência pelo PTB, Kelmon Luis de Souza, o Padre Kelmon, rebateu os adversários e insistiu ser um legítimo sacerdote ortodoxo. Mas nem a obscura instituição peruana da qual ele faz parte é reconhecida pela comunhão ortodoxa.

Como revelou o blog em agosto, ainda antes de Kelmon assumir a candidatura à presidência, com a impugnação de Roberto Jefferson, o “padre” não integra e nem foi ordenado pelas igrejas ortodoxas estabelecidas no Brasil.

Apesar disso, em seu site, o PTB já se referiu a Kelmon como bispo eleito pelo Santo Sínodo, autoridade suprema da Igreja Ortodoxa.

Após os questionamentos públicos, o petebista se disse ligado à autoproclamada Igreja Católica Apostólica Ortodoxa del Peru, uma controversa instituição fundada pelo peruano Angelo Ernesto Morel Vidal que não possui qualquer ligação com a comunhão ortodoxa.

A entidade, por sinal, não é reconhecida pelas chamadas igrejas canônicas do antigo patriarcado ortodoxo, e seu status controverso já havia sido reportado pela imprensa peruana em 2019.

Fotomontagem coloca Kelmon ao lado de líderes da autoproclamada Igreja Católica Apostólica Ortodoxa do Peru, que não é reconhecida pelas igrejas canônicas dos antigos patriarcados — Foto: Reprodução/redes sociais


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