“Quem não vota em Bolsonaro não é bem-vindo”: pastores safados, idólatras de torturador e da pólvora, causam debandada em igrejas evangélicas | Portal E.M. Cioran News

Intimidados pela pressão político-ideológica, hostilizados e humilhados dentro da própria igreja, muitos evangélicos (aqueles que não apoiam genocida, miliciano, pai da fake news) têm abandonado os templos. Quem sabe assim se dão conta de que não precisam do templo, e menos ainda de pastor salafrário, para encontrar Deus? Evoquemos os versos da bela canção de Gilberto Gil (digna de um Meister Eckhart):

Se eu quiser falar com Deus
Tenho que ficar a sós
Tenho que apagar a luz
Tenho que calar a voz
Tenho que encontrar a paz
Tenho que folgar os nós
Dos sapatos, da gravata
Dos desejos, dos receios
Tenho que esquecer a data
Tenho que perder a conta
Tenho que ter mãos vazias
Ter a alma e o corpo nus.

Gilberto Gil, “Se eu quiser falar com Deus”

“Se eu quiser falar com Deus, não preciso de igreja, muito menos de pastor safado. Se eu quiser falar com Deus, devo ficar longe de tudo isso.

A coerção, outrora discreta e dissimulada, torna-se cada vez mais explícita e ostensiva. Os pastores salafrários perderam toda a vergonha de se colocar abertamente contra os ensinamentos de Jesus Cristo. Veja-se o exemplo do pastor André Valadão (que bem poderia se chamar “Safadão”).

Fiéis de igrejas evangélicas têm se queixado de ver o púlpito usado para pedir votos para um psicopata, genocida e torturador, para demonizar Lula e condenar a opção de votar no candidato do Partido dos Trabalhadores. Quando se posicionam, os evangélicos acabam sendo rejeitados ou totalmente afastados dos templos, por vontade própria ou por decisão dos pastores salafrários.

“O pastor começou o culto normalmente, falando de como criar os filhos, com amor, cuidado e respeito. Em seguida falou: não deixa seu filho fazer o ‘L’ (sinal de apoio a Luiz Inácio Lula da Silva) em casa, não”, conta a professora Joana (nome fictício), de 43 anos, que frequentava uma igreja pentecostal no Rio de Janeiro.

“Não voltei mais”, acrescenta a professora. “Enquanto não acabar a eleição, não vou”. O desconforto começou ainda na pandemia, quando ela ouviu do pastor que “máscaras e vacinas não funcionam”, e que “a única garantia é Deus” (sic). Depois, com a proximidade das eleições, a pregação política tomou conta do púlpito — em geral, no início ou no fim do culto, especialmente quando a cerimônia não é transmitida pela internet (pode-se inferir o porquê).

Na opinião de Joana, há idolatria ao Genocida, “como se ele fosse um Deus”. Sim, o deus Baalsonaro. “Quem pensa diferente acaba sendo escanteado. Eles vão te colocando de lado, te tirando de cargos e funções”, queixa-se ela. Só é bem-vindo que idolatra torturador-mito, miliciano-herói, golpe de estado, grupo de extermínio e criança armada com fuzil…

Matheus Rocha, de 23 anos, auxiliar administrativo residente em Iporã (interior do Paraná), também sentiu a mesma hostilidade e coerção ideológica na igreja pentecostal que frequentava. “Num domingo, o pastor falou que deveríamos votar em Bolsonaro para não sermos impedidos de pregar amanhã”, conta Matheus.

“Nesse dia, não fui ao culto e repostei (nas redes sociais), por acaso, uma publicação de um pastor e teólogo que acompanho e que não apoia o presidente. Quando os membros da igreja viram, acharam que eu estava afrontando meu pastor”, completa o jovem evangélico, que passou a ser intimidado pela igreja. Primeiramente, por um parente do pastor. Depois, aos poucos, outros membros passaram a tratá-lo com frieza e hostilidade.

“O pessoal começou a não me cumprimentar com a ‘paz do Senhor’. Viraram a cara mesmo. A panelinha fechou e eu e minha esposa ficamos jogados para escanteio. Essa situação ficou insustentável ao ponto de eu não conseguir mais frequentar as reuniões.”

O pastor chegou a procurar Matheus para conversar, depois do primeiro turno, mas o tom não foi nada agradável. “Ele dizia que eu sofri uma lavagem cerebral. Queria mudar minha cabeça, como se eu tivesse de me arrepender da minha escolha política e disse que eu estava indo na contramão de toda a igreja”, explicou o jovem. Ao final do papo, Rocha foi desligado da comunidade.

O mesmo “tribalismo religioso” que leva alguém a frequentar uma igreja, sentindo-se acolhido por ela, pode se voltar contra um dos seus membros, fazendo-o fugir dela. O pior tipo de inimigo é o inimigo íntimo. Por isso, siga sempre a sugestão de Ralph Waldo Emerson: Ne te quaesiveris extra (“Não te busques fora de ti mesmo”).

Nada menos cristão, nada mais anticristão, contrário aos ensinamentos de Jesus, do que mentir programaticamente para demonizar Luiz Inácio Lula da Silva, quando o verdadeiro Diabo da história brasileira é o atual presidente. Bolsonaro é inequivocamente um anticristo.

A evangelização progressiva do Brasil faz crescer o sentimento gnóstico daqueles, solitários, que simplesmente não podem (são inaptos a) participar do transe coletivo. E contemplar o delírio de fora, como um espectador privilegiado, e horrorizado… A propósito da instrumentalização política da religião e da fanatização evangélica do Brasil, capitaneada pelo Genocida e sua “familícia” (que de cristãos não têm nada, nem católicos nem evangélicos), o grande Harold Bloom vem a calhar.

O crítico literário observava, em 2005, que “os Estados Unidos são hoje uma oligarquia e plutocracia, pior do que qualquer coisa possa haver no Brasil. E também estamos nos tornando uma teocracia.” Infelizmente, Bloom não viveu para tomar conhecimento do que está se passando no Brasil atual: o Pandemônio bolsominion. É o mondo alla rovescia (le monde renversé, em francês), motivo pictórico tão popular na arte renascentista: é o mundo invertido, “de cabeça para baixo”, um “Brasil paralelo” de péssimo gosto (stranger than fiction, como se diz em inglês, “mais estranho que a ficção”). A que ponto chegamos? O que nos tornamos?

O Brasil atual (“Brasil paralelo”) é mais ou menos como o “Upside Down”, da série Stranger Things.

Quem sabe se nós não estamos a caminho de nos tornarmos uma teocracia evangélica de péssimo quilate? Na mesma entrevista, reiterando a sua oposição à teocracia que via nascer nos EUA e ao fanatismo que se fazia (e se faz sempre) acompanhar, Bloom acrescenta:

Creio que sou religioso, mas de um modo herético. Acho que em algum lugar, além deste reino, além do nosso cosmo, haja um sonho em exílio, um princípio divino, e acho que há um fragmento disso em cada ser humano, mas este se acha enterrado tão fundo, tão oculto no cerne pétreo do ser, que é impossível de ser escavado. Venho meditando bastante a esse respeito, pois há um livro meu que vai me causar problema quando for lançado, em duas semanas. Chama-se “Jesus and Yahweh: The Names Divine” (Jesus e Jeová: Os Nomes divinos).

Marcelo Pen, “Estamos nos tornando uma teocracia”, diz Harold Bloom. In: Folha de S. Paulo (Ilustrada), 24 de setembro de 2005

Impossível não concordar com Harold Bloom, leitor de Kierkegaard, no Brasil atual, tendo em vista o Pandemônio bolsominion (“em nome de Deus, da pátria e da família”): “Atualmente, nos Estados Unidos, vivemos cercados de uma religiosidade que impregna nossa política, nossos meios de comunicação, até mesmo nossos acontecimentos esportivos. Kierkegaard insistia ferozmente na dificuldade, quase impossibilidade, de ‘tornar-se cristão’ no que se dizia ser uma sociedade cristã” (Presságios do milênio: anjos, sonhos e imortalidade).

“Quase” não, uma total impossibilidade teórica e prática. Pois, como o próprio Harold Bloom sentencia, “buscar Deus fora do eu é cortejar os desastres do dogma, a corrupção institucional, a malfeitoria histórica e a crueldade” (Presságios do milênio: anjos, sonhos e imortalidade). Como disse um mestre budista, se alguém precisa de igreja para ser bom, esse alguém não é uma pessoa, é um cão adestrado. Só há salvação fora da igreja. Dentro dela, só corrupção, malfeitoria e fofoca…