Resenha: “A religião gnóstica” de Hans Jonas (primeira edição portuguesa) – Rodrigo MENEZES

Surge pela primeira vez em língua portuguesa, publicado pela editora da Universidade de Lisboa, com tradução de Ana Maria Pereirinha, o seminal livro de Hans Jonas sobre gnosticismo, fruto do seu doutorado orientado por Martin Heidegger, no qual Jonas se propunha a fazer uma leitura existencialista da heresia gnóstica e, inversamente, uma leitura gnóstica do existencialismo moderno. Até então, além da edição alemã original (1958), havia somente uma tradução inglesa (The Gnostic Religion: The Message of the Alien God and the Beginnings of Christianity, Beacon Press, 2001) e uma espanhola (La religión gnóstica: el mensaje del Dios extraño y los comienzos del cristianismo, Siruela, 2000).

Estrutura e conteúdo do livro

A religião gnóstica se divide em três partes, precedidas por uma introdução sobre a dialética entre Oriente e Ocidente no contexto mundo helenístico tardio, em cujo sincretismo surgem cristianismo e gnosticismo.

Na primeira parte do livro, trata-se dos motivos, temas, ideias, simbologia e vocabulário fundamentais que singularizam os gnósticos e os distinguem dos seus oponentes protocatólicos nos primeiros séculos da nossa era. Aqui, Jonas tem a tarefa de definir fenomenologicamente o significado de “gnose” e delimitar historicamente o alcance do assim-chamado “movimento gnóstico”. O filósofo alemão recolhe as ideias e crenças gnósticas fundamentais em diferentes âmbitos teóricos: teologia, cosmologia, antropologia, escatologia e moralidade ou ética. No tocante ao imaginário e à linguagem simbólica de tipo gnóstico, Jonas elenca a metáfora do ser humano como um “estrangeiro” perdido no mundo (metáfora que suscita certa cumplicidade gnóstica entre Cioran e Camus), a metáfora do mundo como uma “pilha de quartos de aluguéis” provisoriamente habitados pelos seres humanos, a oposição dualista entre “este mundo” e (o) “outro(s) mundo(s)”, o “dentro” (existência intramundana) e o “fora” (existência extramundana), “luz” e “trevas”, “Vida” e “Morte”, categorias ônticas como “queda”, “exílio”, “sono”, “embriaguez”, “alienação”, “terror”, “nostalgia”, “impureza”, “dispersão”, “dissolução”, “naufrágio” e “despertar”.

Na parte II, trata-se dos distintos sistemas gnósticos de pensamento historicamente conhecidos graças ao concurso da historiografia e da arqueologia. É interessante notar que Hans Jonas trata os conjuntos de crenças e práticas dos cristianismo primitivo em termos de “sistema”, o que não deixa de ser um anacronismo, embora metodologicamente justificado. O conceito de “sistema” em questão é eminentemente alemão, de viés crítico-idealista (Kant, Hegel, Schopenhauer, etc.). A aplicação do conceito de “sistema” ao gnosticismo (“ismo” que representa, ele mesmo, uma abstração) é compreensível uma vez que essa correlação serve de etapa intermediária no sentido de interpretar a heresia gnóstica antiga pela perspectiva do existencialismo e do niilismo hodiernos (cujo patrono é Kierkegaard), os quais normalmente não são de índole sistemática, mas mesmo assim tributários do idealismo alemão por antítese e negação, pela ruptura com a pretensão do sistema como totalidade científica da Verdade.

O primeiro dos heresiarcas abordados por Jonas é Simão Mago, presente na Bíblia, por ter travado com o apóstolo Pedro uma polêmica em Samaria (Atos 8:9–24). Em seguida, é analisado o “Hino da Pérola”, um poema gnóstico quintessencial. Outros heresiarcas e textos gnósticos abordados são Marcion, o Poimandres atribuído a Hermes Trimegistos, Valentino e, por fim, o profeta persa Mani, fundador do maniqueísmo.

Na terceira parte, trata-se do gnosticismo vis-à-vis a mentalidade clássica da Antiguidade. Jonas elabora um contraste crucial entre a concepção de mundo (kosmos) dos gregos e a concepção dos gnósticos (a “Criação fracassada”, para falar como Cioran), analisando, em cada contexto, a posição, a função e o valor do homem enquanto Dasein (ser-aí), em sua existência intramundana, “caída” neste mundo por acaso. Aliás, menção seja feita à seção sobre a “Irmandade acósmica da Salvação”, em função do conceito de “acosmismo” ou “acosmicismo”, tão importante para compreender a diferença radical da cosmologia gnóstica vis-à-vis não apenas a mentalidade grega, mas também a judaico-cristã (criacionista e monoteísta).

A segunda edição inglesa do livro inclui um substancial suplemento que é tão importante quanto o núcleo do livro, dividido nas três partes resumidas acima. É no suplemento que Jonas atualiza o debate teológico e heresiológico entre os gnósticos e seus oponentes, na Antiguidade, para a nossa modernidade tardia (lembremos que Jonas, um filósofo alemão judeu, está pensando e escrevendo na segunda metade do século 20, após a Segunda Guerra e o Holocausto). É no epílogo, que encerra o suplemento, onde Jonas elabora uma hermenêutica comparativa entre niilismo, existencialismo moderno e gnosticismo antigo, desdobrando as conclusões originais que fazem do seu livro um estudo pioneiro no sentido de interpretar a gnose pela ótica do existencialismo pós-metafísico e, inversamente, o existencialismo pela ótica mitoteológica da antiga gnose.

A hermenêutica gnóstico-niilista-existencialista de Hans Jonas tem feito escola, contando com ilustres herdeiros em diversas áreas do saber. Na literatura e na crítica literária, Harold Bloom faz questão de reconhecer a sua dívida espiritual para com A Religião Gnóstica, que o ajudou a superar uma crise de depressão, tornando-se um livro de cabeceira. “O que me salvou, em 1965, foi um processo que começou como leitura, depois se tornou uma espécie de conversão ‘religiosa’ que era também uma excursão numa teoria literária pessoal” (Presságios do milênio, p. 27). Diferentemente de Jonas, que nunca renegou o judaísmo normativo, Bloom se declara um gnóstico que abandonou a aliança mosaica. Para o crítico literário norte-americano, “Deus não é amor”, nunca foi e nunca será (cf. Jesus e Javé: Os Nomes Divinos). O Deus único da Bíblia, na sua perspectiva herética, está mais para um Trickster, como Zeus, uma divindade traiçoeira e dificilmente confiável.

Traduzindo a questão em termos religiosos, o Javé de J é a representação mais convincente de alteridade transcendental que já encontrei na vida. E, no entanto, Javé não é apenas ‘antropomórfico’ (termo inútil!), mas é mesmo absolutamente humano, e não é, de maneira alguma, um sujeito agradável — e por que deveria sê-lo? Não pretende se candidatar a cargo político, não busca a fama nem almeja receber tratamento favorável por parte da mídia. Se o cristianismo insiste que Jesus Cristo é a boa nova (asserção tornada inválida pela brutalidade dos cristãos ao longo da história), então Javé é a ‘má nova’ encarnada, e a Cabala nos diz que ele, com toda a certeza, tem um corpo, um corpo imenso. É algo terrível cair nas garras do Javé vivo.

HAROLD BLOOM, Jesus e Javé: os nomes divinos

Além de Harold Bloom, Franco Volpi, que dedicou todo um capítulo do seu O Niilismo a analisar as obras de Cioran e Bataille sob o signo do niilismo gnóstico, é um filósofo italiano cujas análises são em grande medida tributárias do trabalho de Jonas. Outro intérprete de Cioran (neste caso um compatriota) que também lê a sua obra sob o signo do niilismo gnóstico, a exemplo de Volpi, é o historiador das religiões Ioan P. Culianu (cf. Gnozele dualiste ale Occidentului).

Por fim, menção seja feita a Peter Sloterdijk, filósofo alemão contemporâneo que faz um bom uso da hermenêutica jonasiana (cf. Pós-Deus, Vozes, 2019). Concluímos com uma passagem de Harold Bloom e outra de Peter Sloterdijk, em fina sintonia no que concerne ao espírito da heresia gnóstica, a partir da fonte comum de Hans Jonas:

“O gnosticismo, então e agora, em minha opinião, se levanta como um protesto contra a fé apocalíptica, mesmo quando o faz dentro de uma dessas fés, como fez sucessivamente no judaísmo, cristianismo e Islã. A religião profética torna-se apocalíptica quando a profecia falha, e a religião apocalítica torna-se gnóstica quando o apocalipse falha, como felizmente sempre falhou e, devemos esperar, voltará a falhar. O gnosticismo não falha; não pode falhar, porque seu Deus está ao mesmo tempo no fundo do eu e também separado, infinitamente distante, além de nosso Cosmo.”

BLOOM, Presságios do milênio: anjos, sonhos e imortalidade, p. 31.

“O filósofo da religião judeu Jacob Taubes foi provavelmente aquele que […] vislumbrou da forma mais íntima as leis segundo as quais o extremismo herético, seja ele antigo ou moderno, se intensifica: quando fracassa o profetismo, surge a apocalíptica; quando fracassa também a apocalíptica, surge a gnose.”

SLOTERDIJK, Pós-Deus, p. 80.

Rodrigo Inácio R. Sá Menezes, 29 de outubro de 2022


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