“Sobre hooligans e democratas, então e agora” – Rodrigo MENEZES

O que é um hooligan? Muito antes de ser associado a torcidas organizadas e torcedores fanáticos de futebol, o termo apareceu pela primeira, vez em língua inglesa, ao final do século 19, sem relação com a cultura do esporte mais popular do planeta.

Segundo Clarence Rook (1862-1915), autor de Hooligan Nights (1899), “As noites hooligans” em português, a palavra teria sido inspirada em Patrick Hooligan, um leão-de-chácara e criminoso barra-pesada, de origem irlandesa, que vivia na parte pobre de Londres. O livro de Rook narra a sua estória. Patrick Hooligan espanca e rouba as pessoas de maneira indiscriminada e brutal. Hooligan era um brutamontes “profissional”. Também contava com uma gangue cujos membros trabalhavam em seu benefício, espancando e assaltando cidadãos nas ruas da grande cidade. Patrick Hooligan adorava uma peleja e vandalizar por vandalizar, bater em pessoas e destruir coisas, pelo puro prazer de machucar e danificar.

Uma referência pop amplamente conhecida, do âmbito do cinema, que ilustra bem e de maneira ficcional a existência do hooligan e o fenômeno social do hooliganismo, é o filme Laranja Mecânica, de Stanley Kubrick. O pequeno Alex e sua gangue são os perfeitos hooligans, comportando-se e agindo exatamente como Patrick Hooligan e seus comparsas.

Romênia, década de 30 (os anos fascistas)

Agora, saindo da ficção e entrando no mundo real, na história dos acontecimentos e da facticidade, mas ainda distante (e cronologicamente antes) do hooliganismo em sua acepção corrente, no contexto da cultura das torcidas e dos torcedores de futebol, nossa primeira parada é na Romênia de Cioran, na tumultuada e explosiva década de 1930. Soará estranho dizê-lo, com esta nomenclatura, mas o fato é que Cioran foi um jovem hooligan, assim como grande parte da sua geração de intelectuais, estudantes na Universidade de Bucareste. “Hooligan”, nesse contexto, não tem nenhuma relação com o futebol (que nem é o grande esporte nacional romeno), adquirindo em vez disso a conotação político-ideológica de uma extrema-direita antidemocrática, ultranacionalista, religiosamente fanática (muita embora em grande medida à base de hipocrisia, como sempre aconteceu em qualquer religião ou denominação religiosa), ultraconservadora e/ou ultrarreacionária e xenofóbica: estamos falando da Guarda de Ferro, ou Legião do Arcanjo Miguel, fundada pelo líder carismático e autoritário, antissemita convicto, disposto a sacar o revólver para assassinar seus adversários políticos, Corneliu Codreanu. A Guarda de Ferro é a versão romena desse fenômeno político e social tão europeu, surgido nas primeiras décadas do século 20, e ao qual se pode dar o nome composto de nazifascismo. Deste lado do oceano, no Brasil, o equivalente seria a Ação Integralista, de Plínio Salgado.

Cioran, Eliade e companhia foram, pois, hooligans da extrema-direita romena na década de 1930, o período entreguerras. Alguns manteriam o espírito do hooliganismo para toda a vida. O destino de Cioran foi renegá-lo e trocá-lo por uma combinação de ceticismo pirrônico, pessimismo schopenhaueriano e ascese budista mediante o vazio. É verdade que o autor do Breviário de decomposição nunca empregou o termo “hooligan”, seja para descrever a si mesmo ou qualquer outro. Mas nem precisava: seria demasiado previsível, redundante, desnecessário.

Se Cioran nunca incluiu a palavra “hooligan” no seu vocabulário final, é digno de nota que um compatriota e contemporâneo seu (infelizmente não tão conhecido e lido, apesar da qualidade da sua obra e da relevância da sua biografia), Mihail Sebastian, é autor de um ensaio intitulado Cum am devenit huligan (1935), “Como me tornei um hooligan”. O mais espantoso nessa confissão é que ela venha da última pessoa que, naquele contexto, poderia arrogar-se a identidade de hooligan, se por isso entendemos ser um membro da Guarda de Ferro, o que, por sua vez, tinha como condição a ancestralidade romena (dácia e latina), critério racista que excluía automaticamente os judeus e quaisquer outras etnias não autóctones (armênios, húngaros, ciganos).

Mihail Sebastian foi um representante de considerável importância em meio à țânăra generație (jovem geração) de intelectuais romenos que se tornariam mundialmente reconhecidos, como Cioran, Eliade e Ionesco (entre outros). Porém, um membro deslocado, mais ou menos como um “peixe fora d’água” (não por vontade e determinação sua), nem totalmente dentro, nem totalmente fora do grupo, desfrutando amargamente de um status ambíguo e incerto: era bem-vindo como cidadão romeno e intelectual que falava e escrevia em romeno, mas rejeitado como judeu. O que é mais comovente acerca da biografia de Mihail Sebastian, vivendo em meio à ascensão do fascismo antissemita na Romênia da década de 1930, foram as concessões que ele se fez (compreensivelmente, para qualquer pessoa com o mínimo de sensibilidade), na esperança de ser aceito entre seus compatriotas.

O grande responsável por influenciar as jovens mentes brilhantes, cooptando-as para a militância junto à Guarda de Ferro, foi um professor de filosofia da Universidade de Bucareste, muito carismático e adorado pela grande maioria dos seus alunos (Cioran incluído): Nae Ionescu (nenhum parentesco com o dramaturgo). Mihail Sebastian, um dos seus alunos (mas talvez não um dos “favoritos”), pediria ao professor, mesmo sabendo que ele era um antissemita empedernido, que escrevesse o prefácio de um livro que estava por publicar, De două mii de ani (1934), “Por dois mil anos” em português. Nae Ionescu escreveu o prefácio mas, canalhice suprema, um panfleto de teor abertamente antissemita que argumentava, sugestiva e alusivamente, que um judeu romeno nunca poderia ter a ilusão de ser verdadeiramente romeno, estando, portanto, excluído do projeto político que a Legião tinha para a Romênia. Ao final, e isso também é compreensível para quem tenha o mínimo de sensibilidade, Mihail Sebastian não rejeitou o prefácio antissemita, decidindo mantê-lo na publicação do livro.

A confissão de Sebastian é um testemunho não apenas individual, mas de toda uma geração de jovens intelectuais, Cioran incluído, que se deixaram levar pela sirena do nazifascismo. Ao confessar-se “hooligan“, ele expõe, ao mesmo tempo, seus “pares” legionários como os verdadeiros hooligans da história, nos quais se espelhava, contra si mesmo. Certamente há matizes e diferenças internas, em qualquer agrupamento, movimento ou partido político; há os que se mostram ávidos a liderar e dominar os demais, os que estão sempre dispostos e prontos a conformar-se e submeter-se, a obedecer e ir com o bando, como há, invariavelmente, casos de “outliers“, “misfits“, indivíduos que não se adequam, não se ajustam, sempre sobrando, sem poder coincidir, identificar-se totalmente com o grupo, porque, no fundo, não podem coincidir nem identificar-se com nada, ser, ideia, fim, nem sequer consigo mesmos. Apesar da adesão de Cioran à política da Guarda de Ferro, ao lado de Eliade e companhia, capitaneados pelo professor Nae Ionescu, e apesar de discordar radicalmente das ideias do autor de Nos cumes do desespero (1934) e Transfiguração da Romênia (1936), Sebastian possuía essa rara virtude que é a idoneidade, saber separar as coisas (“odiar o pecado, não o pecador”, em glosa cristã, embora Sebastian fosse judeu). Nos seus Diários, em que Sebastian relata o clima de tensão e medo (sobretudo para um judeu) na Romênia dos anos 30, como resultado do terrorismo político dos legionários (incluindo pogroms, como na Rússia), a leitora não encontrará nenhuma crítica, nenhum comentário permeado de decepção ou ressentimento, mas apenas menções elogiosas a Cioran, a despeito do seu jeito meio esquisitão.

“O orgulho de nunca ter marchado atrás de uma bandeira” (Cahiers), ou “a pátria é apenas um acampamento no deserto” (texto tibetano)

O verdadeiro chamado de Cioran era para fazer uma carreira na heresia, ser mais herético do que todos os heresiarcas reunidos. Se esse propósito, ignominioso e gratificante em si mesmo, não havia despontado em seus anos romenos, quando ele ainda se encontrava demasiado submerso na atmosfera nacional, no ambiente cultural e religioso (cristão ortodoxo) da Romênia (sem contar o fato de que era filho de padre), esperançoso de contribuir para “salvar” a pátria, a heresia alcançará seu paroxismo na segunda metade da vida de Cioran, na sua nova vida (e obra) francesa, a partir do Breviário de decomposição (1949), chegando ao clímax, digamos, em Le mauvais démiurge (1969). Enfim, apesar dos descaminhos e do extremismo político da sua juventude, da sua adesão apaixonada e desesperada à causa (infame, criminosa) da Guarda de Ferro, Cioran nunca foi um antissemita de coração, tampouco um chauvinista nacionalista. Cioran veio ao mundo para conhecer o inconveniente de nascer exilado, do lado de lá da sua verdadeira pátria (romena), sendo romeno, mas nascido fora do grande Reino da Romênia, em outro Reino, o Império Austro-Húngaro. Sem dúvida, Cioran escreveu coisas odiosas, ofensivas e preocupantes não apenas para os judeus, mas para outros povos igualmente. Como Sebastian, ele (que vinha do campo, de uma região rural da Transilvânia) queria ser aceito, integrar-se, fazer parte. Talvez Cioran tenha estado sempre mais próximo do judeu Mihail Sebastian, em espírito, em termos de afinidades eletivas, do que dos seus correligionários fascistas, chauvinistas e provincianos. Os desdobramentos ulteriores da sua vida e da sua obra confirmam essa intuição. Suas entrevistas e seus volumosos Cahiers também.

INTERMEZZO: Uma anedota edificante

Sebastian conta que um amigo seu, o diplomata e político romeno Constantin Vişoianu (que se tornaria o líder da imigração romena para os EUA após a Segunda Guerra), tinha o hábito, à época do terror legionário, sempre que cruzava na rua com uma família de judeus, de pará-los, sem reservas, para declarar: “Por favor, acreditem, não tenho nada a ver com isso.” É o mesmo que uma pessoa decente deveria sair dizendo, a torto e a direito, sempre que oportuno, a respeito do bolsonarismo no Brasil atual.

Brasil, século 21 (anos neofascistas)

Na segunda parada deste percurso histórico-filológico em busca do significado do hooligan e do hooliganismo, pousamos agora no Brasil atual (bolsominion), mas ainda sem nenhuma relação com o futebol e suas torcidas organizadas. Quem não apoia o Genocida na presidência e tem acompanhado – com um olhar mais ou menos sociológico e antropológico – a movimentação e o comportamento dos seus apoiadores, não se equivocará em atribuir a eles a mesma categoria político-ideológica de extrema-direita do hooligan. Temos testemunhado o hooliganismo dos bolsominions no ódio contra imigrantes africanos ou sírios; nas agressões físicas contra profissionais de saúde (enfermeiras) que cumpriam seu dever – o juramento hipocrático – de sair para trabalhar durante a pandemia, cuidando dos doentes de Covid-19; no funeral da Rainha da Inglaterra; na violência política de bolsominions que matam a tiros adversários políticos em suas festas de aniversário; na sanha golpista dos 7 de Setembro (2021, 2022); por fim, nessa última tentativa de golpe que são os bloqueios de estradas e grandes avenidas por todo o Brasil.

Bolsominions são os hooligans brasileiros (de extrema-direita) do século 21, sem nenhuma relação com o futebol e suas torcidas organizadas. Mas agora chegamos a elas e, aqui, pela primeira vez, entra em cena, além da conotação político-ideológica, essa outra mais corrente, associada a torcedores e torcidas de futebol, sobretudo ingleses, mas não apenas. A despeito da sua significação original, a partir da figura do irlandês do livro de Clarence Rook, hooligan é um desses termos historicamente dinâmicos e dotados de uma plasticidade semântica pela qual passa a recobrir, ao longo do tempo, um amplo espectro de configurações distintas de um mesmo fenômeno. Como esse outro, o skinhead: originalmente de origem operária, um movimento inicialmente antiracista, reunindo os brancos ingleses e negros imigrados da Jamaica, seria posteriormente cooptado pela extrema direita nazifascista, racista e xenofóbica (supremacia branca). Todavia, existem até hoje, em oposição ao que se acostumou entender por skinhead, os S.H.A.R.P., Skinheads Against Racial Prejudice (Skinheads Contra Preconceito Racial), antifascistas e anarquistas, inimigos dos skinheads neonazistas. Assim, pode-se dizer “hooligan” tanto o torcedor arruaceiro e violento, de extrema-direita, mais interessado em peleja do que no futebol, quanto o torcedor pacato, democrático e civilizado; o brigão e o de boa, o nazifascista e o antifascista, o golpista e o democrata, o hooligan bolsominion e o da Democracia Corinthiana (sinédoque: Brasileira).

Foi este providencial confronto que se testemunhou ontem e hoje (1 e 2/11): hooligans de extrema-direita, bolsominions golpistas de um lado, e torcidas organizadas em defesa do direito de não se atrasar para o jogo do seu time, e indiretamente em defesa da democracia, do outro lado. Como os hooligans que se tornam às vezes manchete policial durante uma Champions League, o bolsominion não tem a paixão do futebol, como é alheio ao exercício democrático da política; prefere ficar do lado de fora do estádio, e do jogo democrático, enchendo a cara, arrumando briga, bloqueando o caminho das pessoas, conspirando e planejando atentados terroristas.

The Real Football Factories: série documental (dividida em capítulos, sendo este um deles) sobre hooligans ingleses e torcidas organizadas de diversos países, incluindo o Brasil. O documentário é apresentado por Danny Dyer, ator inglês que interpretou o papel de um hooligan em um filme.
Por dentro do hooliganismo de extrema direita na Polônia.

Eis que surgem as torcidas organizadas, “hooligans do bem” ou, para evitar dualismos ociosos (teológicos, metafísicos), digamos, democráticos. Assim, temos muito bem definida a diferença essencial entre 2 tipos de “hooligans”, não havendo síntese possível entre eles: os bolsominions, de um lado, insistindo no golpismo, bloqueando estradas, e torcidas organizadas como a Galoucura e a Gaviões da Fiel, que tomaram para si a tarefa de “furar” (“democraticamente”) os bloqueios dos golpistas. Não encontraram nenhuma resistência; só a presença dos grupos de torcedores juntos, ao longe, vindo na direção dos golpistas, é suficiente para fazê-los borrar a cueca e correr mais rápido que Usain Bolt. Um deles, de tanto pavor, chegou a deixar para trás sua moto com chave e tudo mais.

Os bolsominions, em seu cosplay de golpistas, tiveram uma pequena amostra do que é “hooliganismo“, para o bem e para o mal. Não há um bloqueio ainda ativo que, ao encontro de uma organizada, não seja “furado” como faca quente na manteiga. As torcidas organizadas botaram para correr como frouxos os bolsominions golpistas. É passar ou passar. Se houver bloqueio, melhor desbloquear, melhor sair por bem, para não ter que sair por mal. “É poucas ideias, bando de zé-ruela do caralho”.

POST-SCRIPTUM 1

Ninguém precisa ser erudito nem ter lido Karl Popper para compreender, intuitivamente, e desde sempre, o paradoxo da tolerância. Com golpista, nenhum diálogo possível. Assim como não se dialoga nem se negocia com um vírus que ameaça destruir o organismo (e a sociedade é como um organismo, um corpo social). Só se pode combatê-lo e extirpá-lo com procedimentos de fins imunológicos (brandos ou, em caso de urgência, agressivos). O espírito democrático talvez seja algo congênito, como a intolerância a golpismos e chauvinismos afins.

POST-SCRIPTUM 2

Proposta de paz entre as torcidas organizadas: deixar de se degladiar entre si, unir-se em prol de uma (magnânima) causa em comum e partir para cima dos golpistas que bloqueiam estradas.