Aforismos > Beleza

Morte e Beleza – duas noções que se excluem mutuamente… Pois eu não conheço nada de mais grave, nem de mais sinistro, do que a morte! Como explicar o fato de que poetas tenham podido achá-la bela e celebrá-la? Ela representa o valor absoluto do negativo.

Nos cumes do desespero (1934)


Sinto em mim um sabor amargo de morte e de vazio, que me queima como um violento veneno. Fico triste a ponto de que tudo “aqui embaixo” me pareça totalmente despido de charme. Como eu ainda poderia falar de beleza e envolver-me com a estética, se estou triste de morte?

Nos cumes do desespero (1934)


O charme das chamas subjuga por meio de um estranho jogo, para além da harmonia, das proporções e das medidas. Seu impalpável élan, acaso, não simboliza a tragédia e a graça, o desespero e a inocência, a tristeza e a volúpia? Não se reencontra, em sua devorante transparência e sua ardente imaterialidade, a projeção e a leveza das grandes purificações e dos incêndios interiores? Eu adoraria ser inundado pela transcendência das chamas, ser abalado por seu sopro delicado e insinuante, flutuar num mar puro e sublime, que me remetesse a uma aurora. Imaterial, a morte nas chamas evoca asas incandescentes. Somente as borboletas morrem assim? – Mas e aqueles que morrem de suas próprias chamas?

“A beleza das chamas”, Nos cumes do desespero (1934)


Ainda que eu não possa encontrar-lhe nem sentido objetivo, nem finalidade transcendente, a multiplicidade das formas da existência não se constituiu para mim em menos ocasiões permanentes de tristeza e de encantamento. Conheci momentos em que a beleza de uma flor justificou a meus olhos a ideia de uma finalidade universal, assim como a menor das nuvens soube clarear momentaneamente minha visão sombria das coisas. Os fanáticos da interiorização são capazes de extrair, do aspecto mais insignificante da natureza, uma revelação simbólica.

Nos cumes do desespero (1934)


A sensibilidade à beleza é tanto mais viva quanto maior for a proximidade da felicidade. Tudo encontra no Belo a sua própria razão de ser, seu equilíbrio interno e sua justificação. Concebe-se um belo objeto somente como ele é. A beleza de um quadro ou de uma paisagem encantar-nos-ão ao ponto de não podermos, contemplando-os, representá-los perante nós de forma diversa da que eles já nos aparecem. Colocar o mundo sob o signo da beleza equivale a afirmar que ele é exatamente como deveria ser. Numa tal visão, tudo não passa de esplendor e harmonia e os aspectos negativos da existência apenas acentuam seu charme e brilho. A beleza não salvará o mundo, mas ela pode aproximar-nos da felicidade. Num mundo de antinomias, pode ela mesmo, acaso, ser salva? O Belo e eis o seu atrativo e sua natureza particular – somente constitui um paradoxo de um ponto de vista objetivo. O fenômeno estético expressa este prodígio: representar o absoluto pela forma, objetivar o infinito por meio de figuras finitas. O absoluto-na-forma – incarnado numa expressão finita – apenas pode aparecer àquele que foi invadido pela emoção estética; mas de qualquer outra perspectiva, que não a do Belo, ele torna-se uma contradictio in adjecto. Todo ideal de beleza comporta assim uma quantidade de ilusão impossível de avaliar. E ainda mais grave: o postulado fundamental deste ideal, segundo o qual este mundo é tal como deveria ser, não resite à mais elemental das análises. O mundo deveria ser qualquer outra coisa, menos o que ele é.

“Prestidigitação da beleza”, Nos cumes do desespero (1934)


A santidade é como uma flor sem perfume, uma beleza sem brilho.

O Livro das ilusões (1936)


Há belezas para as quais não fomos feitos e que são demasiado plenas e definitivas para as oscilações de nossa alma; há belezas que nos ferem. Tantas noites silenciosas que não merecemos, céus de cuja distância não somos dignos e silhuetas de árvores sobre o azul fantasmagórico dos entardeceres, quando buscamos nossa sombra como uma presença e um consolo…

O Livro das ilusões (1936)


Se a verdade, o bem e a beleza se opusessem às dilacerações, eu lutaria até a morte pelos direitos e pelo triunfo das dilacerações.

O Livro das ilusões (1936)


Em nome da beleza poderíamos prescindir da profundidade. É necessário destruir as aparências olhando para além delas? Muitas vezes as aparências são um sustentáculo no qual raramente nos apoiamos quando estamos longe delas. Quanto mais deixamos para trás as aparências, mais perdemos a oportunidade de ter um apoio. Todo o movimento parece uma dança de aparências, e toda a música, seu chamado. Só se pode salvar uma profundidade: a que vê no profundo das aparências, no fundo das ilusões. Só uma tal profundidade pode nos dar o gosto das aparências e das ilusões.

O Livro das ilusões (1936)


Um coração sem música é como uma beleza sem tristeza.

Lacrimi și Sfinți [Lágrimas e santos] (1937)


O culto à beleza assemelha-se a uma delicada covardia, a uma sutil deserção. Não a amamos porque nos poupa de viver? Sob o encanto de uma sonata ou de uma paisagem, dispensamos a vida, com um sorriso de alegria dolorosa e superioridade sonhadora. Do seio da beleza, tudo fica atrás de nós, e só podemos olhar para a vida olhando para trás de nós. Toda emoção desinteressada, sem relação imediata com a existência, retarda o progresso do coração. Aliás, o que poderia marcar este órgão do tempo, que é o coração, dessa memória da eternidade que é a beleza!
Retemos nossa respiração diante do que não pertence ao tempo. As sombras da eternidade, que caem assim que a solidão é inspirada pelo espetáculo da beleza, nos tiram o fôlego: como se seus vapores profanassem a imobilidade infinita…

Amurgul gândurilor [O Crepúsculo dos pensamentos] (1940)


O amor da beleza é inseparável do sentimento da morte. Pois tudo o que deleita os sentidos em arrepios de admiração nos eleva a uma plenitude de fim, que é apenas o desejo ardente de sobreviver à emoção. A beleza sugere o ícone de uma eterna vaidade. Veneza ou o pôr-do-sol parisiense convidam a um langor perfumado, em que a eternidade parece derreter-se no tempo.

Amurgul gândurilor [O Crepúsculo dos pensamentos] (1940)


O anoitecer tem algo da beleza de uma alucinação.

Amurgul gândurilor [O Crepúsculo dos pensamentos] (1940)


A filosofia não possuindo órgão para as belezas da morte, nós nos voltamos todos para a poesia…

Amurgul gândurilor [O Crepúsculo dos pensamentos] (1940)


Não tenho forças para suportar os esplendores do mundo: entre eles, perdi o fôlego e não tenho mais voz a não ser para o desespero da beleza.

Amurgul gândurilor [O Crepúsculo dos pensamentos] (1940)


“Quando a alma está em estado de graça, sua beleza é tão sublime e admirável que ultrapassa incomparavelmente tudo o que há de belo na natureza, e encanta os olhos de Deus e dos Anjos.” [Inácio de Loyola]
Procurei estabelecer-me em alguma graça; quis liquidar as interrogações e desaparecer em uma luz ignorante, em qualquer luz desdenhosa do intelecto. Mas, como alcançar o suspiro de felicidade superior aos problemas, quando nenhuma “beleza” te ilumina, e Deus e os Anjos são cegos?

Breviário de decomposição (1949)


A autenticidade de uma existência consiste em sua própria ruína. O florescimento de nosso devir: caminho de aparência gloriosa e que conduz a um fracasso; a realização de nossos dons: camuflagem de nossa gangrena… Sob o Sol triunfa uma primavera de cadáveres. A beleza mesma é apenas
a morte pavoneando-se nos casulos…

Breviário de decomposição (1949)


As épocas nobremente superficiais – o Renascimento, o século XVIII – zombaram da religião, desprezando seus jogos rudimentares. Mas, ai de mim!, existe em nós uma tristeza de ralé que obscurece nossos fervores e nossos conceitos. Em vão sonhamos com um universo de ornato; Deus, surgido de nossas profundezas, de nossa gangrena, profana tal sonho de beleza.

Breviário de decomposição (1949)


… Ainda não amanheceu. De minha cela ouço vozes, e os estribilhos seculares, oferendas a um céu latino e banal. Antes, à noite, passos precipitaram-se para a igreja. As matinas! […] As provas da teologia são fúteis comparadas a estes excessos que deixam perplexo o descrente, e o obrigam a atribuir um sentido e uma utilidade a tantos esforços. A menos que se resigne a uma perspectiva estética sobre estas insônias voluntárias e que veja na vaidade destas vigílias a mais gigantesca aventura, empreendida em busca de uma Beleza de sem-sentido e pavor…

Breviário de decomposição (1949)


Aqueles tempos em que as mulheres tomavam o hábito para ocultar ao mundo, tanto como a elas mesmas, os avanços da idade, a diminuição de seu brilho, o desaparecimento de seus atrativos…, em que os homens, cansados de glória e de fausto, abandonavam a Corte para refugiar-se na devoção… A moda de converter-se por pudor desapareceu com o grande século: a sombra de Pascal e um reflexo de Jacqueline estendiam-se, como prestígios invisíveis, sobre o menor cortesão, sobre a mais frívola beleza.

Breviário de decomposição (1949)