Aforismos > Budismo

Quando Buda fala de renúncia, é como se nós falássemos do amor. Renunciar com a naturalidade de uma flor que se fecha ao entardecer: esse é o segredo de uma renúncia que não poderemos realizar nunca, porque colocamos demasiada paixão nas negações. Não se tornam positivas todas as negações durante nossos momentos de tensão? Ao destruir tudo é como se criássemos tudo. Como se estivéssemos em uma fogueira, estalamos de negações.

Se até o próprio Buda encontrou um subterfúgio para justificar a inutilidade do suicídio, não cabe então fazer a ninguém a menor objeção acerca da questão. É realmente espantoso que, do Buda até hoje, o problema do suicídio não tenha sido declarado assunto encerrado. É certo que o pensamento oficial nunca o abordou; mas por que um punhado de poetas e um par de filósofos ainda o discutem e o lembram? E esses inúmeros suicidas anônimos, como se atreveram a desonrar o nome de tão sábio personagem?

O Livro das Ilusões (1936)


Buda era um otimista insolente. Como não percebeu que não só tudo que existe é dor, mas também tudo que não existe? O sofrimento define tanto a existência quanto a inexistência. Pois não podemos conceber uma dimensão — da existência ou do nada — como não “ser” através do sofrimento. O que é o vazio, senão uma aspiração incompleta à dor? O Nirvana constitui um sofrimento etéreo, um grau mais espiritualizado de tormento. A ausência pode ser um déficit de existência, mas não de dor. Pois a dor precede tudo. Deus em primeiro lugar.

Lacrimi și sfinți (1937)


Não se pode entender o que significa “meditação” caso não se esteja acostumado a escutar o silêncio. Sua voz convida à renúncia. Todas as iniciações religiosas são imersões em suas profundezas. Comecei a compreender o mistério do Buda assim que o terror do silêncio se apoderou de mim. O silêncio cósmico ensina tantas coisas que só a covardia nos empurra para os braços deste mundo.
A religião é uma revelação diminuída do silêncio, uma dulcificação da lição de niilismo que nos inspiram seus sussurros, filtrados por nosso medo e nossa prudência… Assim, o silêncio se situa nas antípodas da vida.

Há algo de tão indefinível nesta palavra: vaidade – como se o Buda a tivesse sussurrado para mim em um cabaré.

Às vezes o tempo é tão pesado que gostaríamos de quebrar a cabeça contra ele.
O devir coagulou-se no cérebro e a existência assume a cor do pecado.
A individuação é uma orgia da solidão – recuando ao Ser ou ao Nada, a uma salvação, desprovida de esperanças.
Buda era, apesar de tudo, demasiado ingênuo…

É necessário ter visto a velhice, a doença e a morte para retirar-se do mundo? O gesto do Buda é uma homenagem exagerada à evidência… Sua resignação carece de paradoxo. Quando você está certo, não há mérito em abandonar a vida. Por outro lado, viver em conflito interno com tudo e ter argumentos contra a solidão! O caminho do Buda é feito sob medida para os mortais… A serenidade do príncipe pensador jamais entenderia que se possa ver como ele e ainda assim amar a insignificância. Buda também foi um mestre? Ele sistematizou demais a sua renúncia, demasiadas consequências em sua amargura. Certamente ele condenaria o extravio de quem arrasta seu nada entre os mortais, e não entenderia como no vazio do mundo ainda sorrimos para a vida. Pois ele não conheceu certos cumes de infelicidade; viveu e morreu consolado. Como qualquer homem alheio à tentação fatal da vida, à sedução do nada da existência e do Nirvana fortificante de cada momento.

A consciência do nada unida ao amor à vida?
Um Buda de boulevard

Amurgul gândurilor (1940)


Nada garante a Existência: não há processo contra os traidores metafísicos, contra os Budas que recusam a salvação, pois estes só são considerados traidores de sua própria vida. No entanto, entre todos os malfeitores, estes são os mais nocivos: não atacam os frutos, mas a seiva, a própria seiva do universo. Seu castigo, só eles o conhecem…

Um Judas com a alma de Buda: que modelo para uma humanidade futura e agonizante!

A autossuficiência moderna não tem limites: nos julgamos mais esclarecidos e mais profundos do que todos os séculos passados, esquecendo que o ensinamento de um Buda pôs milhares de seres ante o problema do nada, problema que imaginamos haver descoberto porque mudamos seus termos e introduzimos um pouquinho de erudição.

Toda metafísica começa com uma angústia do corpo, que se torna depois universal; de forma que os inquietos por frivolidade prefiguram os espíritos autenticamente atormentados. O ocioso superficial, obcecado pelo espectro da velhice, está mais próximo de Pascal, de Bossuet ou de Chateaubriand do que o sábio que não se inquieta por si mesmo. A vaidade tem uma gota de gênio: aí tens o grande orgulhoso, que acomoda-se mal à morte e a sente como uma ofensa pessoal. O próprio Buda, superior a todos os sábios, foi apenas um presumido em escala divina. Descobriu a morte, a sua morte e, ferido, renunciou a tudo e impôs sua renúncia aos outros. Assim, os sofrimentos mais terríveis e mais inúteis nascem deste orgulho ferido, o qual, para fazer frente ao Nada, transforma-o, por vingança, em Lei.

Breviário de decomposição (1949)


Nos repugna levar até as últimas consequências um pensamento deprimente, mesmo que seja inatacável; o suportamos até o momento em que afeta nossas entranhas, em que se torna mal-estar, verdade e desastre da carne. Nunca li um sermão de Buda ou uma página de Schopenhauer sem vê-los todo cor-de-rosa

Ter dedicado à ideia da morte todas as horas que uma profissão teria exigido… Os extravasamentos metafísicos são próprios dos monges, dos libertinos e dos mendigos. Um emprego teria feito do próprio Buda um simples descontente.

Quando não tenho nem um tostão no bolso, esforço-me para imaginar o céu da luz sonora que constitui, segundo o budismo japonês, uma das etapas que o sábio deve transpor para vencer o mundo – e o dinheiro, acrescentaria eu.

“Não fica bem”, me dizia você, “praguejar o tempo todo contra a ordem das coisas.” “É culpa minha se sou apenas um novo rico da neurose, um Jó em busca de uma lepra, um Buda de pacotilha, um Cita indolente e extraviado?”

Silogismos da amargura (1952)


Para nos identificarmos com uma doutrina vinda de longe, seria necessário que a desposássemos sem restrições: de que serve aceitar as verdades do budismo se rejeitamos a transmigração, base da ideia de renúncia? Para quê subscrever o Vedanta, aceitar a concepção da irrealidade das coisas, se nos comportamos como se elas existissem?[15] Inconsequência inevitável para todo o espírito educado no culto dos fenómenos. Ora, é preciso confessá-lo: temos o fenómeno no sangue.

Após tanta fraude e impostura, é reconfortante contemplar um mendigo. Ele, ao menos, não mente aos outros nem a si próprio: a sua doutrina, se é que a tem, encarna-a; não gosta do trabalho e demonstra-o; como nada deseja possuir, cultiva o seu despojamento, condição da sua liberdade. […] Sabe mais sobre a renúncia do que a maior parte das vossas obras esotéricas. Para vos convencerdes disso, basta sairdes à rua… Mas não! Preferias os textos que pregam a mendicidade. Como nenhuma consequência prática acompanha as vossas libertações, não é de admirar que o último dos mendigos valha mais do que vós: Poderia conceber-se o Buda fiel às suas verdades e aos seus palácios? Não se pode ser «liberto-vivo» e proprietário.

O sorriso do Buda, esse sorriso que paira sobre o mundo, não ilumina as nossas faces. Quando muito, concebemos a felicidade; nunca a bem-aventurança, apanágio de civilizações assentes na ideia de salvação, na recusa de saborear os seus males, de neles se comprazer; mas, sibaritas da dor, rebentos de uma tradição masochista, qual de nós hesitaria entre o sermão de Benares e o Heautontimorúmeno? «Sou a ferida e o punhal», eis o nosso absoluto, a nossa eternidade.

Buscando o sofrimento para evitar a redenção, seguindo ao contrário o caminho da libertação, tal é o nosso aporte em matéria de religião: visionários biliosos, Budas e Cristos hostis à salvação, pregando aos miseráveis ​​o charme do seu desalento. Corrida superficial, se quiser. O fato é que nosso primeiro ancestral nos deixou, por herança, apenas o horror do paraíso.

Pensamos o suficiente nas razões pelas quais esses exilados eliminam a morte de seus pensamentos, ideia dominante de todo exílio, como se não houvesse ponto de contato entre eles e ela? Não que isso os deixe indiferentes, mas, à força de banir o sentimento, eles passaram a adotar uma atitude deliberadamente superficial em relação a ele. […] E esta vida que, para nós, se resume na fórmula: “Tudo é impossível”, e cuja última palavra se dirige, para lisonjeá-los, aos nossos fracassos, à nossa debilitação ou à nossa esterilidade, esta vida desperta neles o gosto dos obstáculos, o horror à libertação e a toda forma de quietismo. Esses lutadores teriam apedrejado Moisés se ele lhes tivesse falado a linguagem de um Buda, a linguagem da lassidão metafísica, provedora de aniquilação e salvação. Não há paz nem bem-aventurança para quem não sabe cultivar o abandono: o absoluto, enquanto supressão de toda nostalgia, é uma recompensa desfrutada apenas por quem se força a depor as armas.

Nem Lao Zi nem Buda reivindicam um Ser identificável; desprezando as manobras da fé, convidam-nos a meditar e, para que essa meditação não se torne vazia, fixam o termo: Tao ou Nirvana. Eles tinham outra ideia do homem.

“Vivemos com medo, e assim não vivemos.” Essa frase do Buda talvez signifique: em vez de nos mantermos no estágio em que o medo se abre sobre o mundo, fazemos dele um fim, um universo fechado, um substituto do espaço. Se nos domina, distorce nossa imagem das coisas. Quem não sabe dominá-lo ou explorá-lo, a longo prazo deixa de ser si mesmo, perde sua identidade; só é frutífero se a pessoa sabe defender-se dele; quem cede a ele nunca mais se reencontrará e passará de traição em traição a si mesmo, até sufocar a morte sob o próprio medo que a concebe.

A Tentação de existir (1956)


Comparado ao poder de um Buda, de um Jesus ou de um Maomé, o que vale o dos conquistadores?

As grandes religiões não se enganaram a esse respeito: o que oferecem Mâra ao Buda, Ahriman a Zoroastro, o Tentador a Jesus, é a Terra, e a supremacia sobre a Terra, realidades efetivamente sob o poder do Príncipe do mundo. Querer instaurar um novo reino, utopia generalizada ou império universal, é fazer seu jogo, cooperar com sua empresa e coroá-la; pois o que deseja acima de tudo é que nos comprometamos com ele, e nos desviemos por sua causa da luz, da nostalgia de nossa antiga felicidade.

História e utopia (1960)


Quando Sariputta, um discípulo do Buda, exclama: “O Nirvana é a felicidade!” e quando objetam que não pode haver felicidade onde não há sensação, Sariputta responde: “A felicidade é justamente não haver sensações.” – Este paradoxo deixa de sê-lo para quem, apesar de suas tribulações e desgastes, ainda tem recursos suficientes para se unir ao ser nos confins do vazio, e para vencer, mesmo que por breves momentos apenas, esse apetite de irrealidade de que surge a clareza irrefutável da dúvida, à qual não se pode contrapor senão evidências suprarracionais, concebida por outro apetite, o apetite pelo real.

Posto que somos incapazes de vencer nossos males, cabe a nós cultivá-los e deleitar-nos com eles. Essa complacência teria parecido uma aberração aos olhos dos Antigos, que não admitiam nenhum prazer maior do que o de não sofrer. Menos razoáveis, nós pensamos de outra maneira, após vinte séculos em que a convulsão foi considerada um sinal de avanço espiritual. Acostumados a um Salvador contorcido, derrotado e carrancudo, somos incapazes de saborear a desenvoltura dos deuses antigos, ou o sorriso inesgotável de um Buda, imerso numa beatitude vegetal. O nirvâna, pensando bem, não parece ter tirado das plantas o seu segredo essencial? Só acedemos à libertação tomando como modelo uma forma de ser oposta à nossa.

La Chute dans le temps (1964)


Foi o acaso de um temporal que, num dia de outono, me fez entrar no museu por alguns instantes. […] Em nenhum outro lugar se está mais bem servido em matéria de passado. Aí, o possível parece inconcebível ou grotesco. Tem-se a impressão de que a carne se eclipsou desde a sua aparição, que nem mesmo chegou a existir, que não pode ter estado agarrada a esses ossos tão solenes, tão cheios de si. Ela parece uma impostura, uma superstição, um disfarce que nada oculta. Mas, era só isso? E, se não vale nada mais, como consegue me inspirar repulsa ou terror? Sempre tive uma predileção por aqueles que estiveram obcecados por sua nulidade, que fizeram dela grande caso: Baudelaire, Swift, o Buda…

Diz-se no Katha-Upanishad, a propósito do atman, que ele é “alegre e sem alegria”. Eis um estado a que se acede tanto pela afirmação de um princípio supremo quanto pela sua negação, tanto pelo desvio do Vedanta quanto pelo do Mahayana. Por mais distintas que sejam, as duas vias se encontram na experiência final, no deslizamento para fora das aparências. O essencial é menos uma questão de saber em nome de quê se deseja libertar-se do que de saber até onde se pode avançar no caminho da libertação

Quanto mais consideramos a última exortação do Buda: “A morte é inerente a todas as coisas compostas. Trabalha incansavelmente pela tua salvação”, tanto mais nos perturba a impossibilidade em que estamos de nos sentirmos agregados, encontro transitório, senão fortuito, de elementos. Nós facilmente nos concebemos como tal em abstrato; no imediato, nos recusamos fisicamente, como se fosse uma evidência inassimilável. Enquanto não triunfamos sobre esta repugnância orgânica, continuaremos a padecer deste flagelo baseado no feitiço que é o apetite pela existência.

Infelizmente, não podemos exterminar nossos desejos; só podemos debilitá-los, comprometê-los. Estamos obrigados ao eu (moi), ao veneno do “eu” (je). É quando escapamos dele, é quando nos imaginamos escapar dele, que temos algum direito de empregar as grandes palavras empregas pela verdadeira mística e pela falsa. Não há conversão radical (foncière): converte-se com a sua natureza. Mesmo o Buda após a iluminação não era senão Siddhartha Gautama mais o conhecimento.

“Um acréscimo de ilusão e de tormento, é a isto que aspira cada um de nós, cada um dos que não têm a sorte de acreditar no ciclo interminável de nascimentos e mortes. Ansiamos pela maldição de renascer. O Buda se deu tanto trabalho para chegar ao quê? À morte definitiva: o que temos certeza de obter sem meditações nem mortificações, sem esforço algum. »
… É mais ou menos assim que esse decaído (déchu) se expressaria, se consentisse em revelar o fundo do seu pensamento. Quem ousaria atirar pedras nele? Quem nunca falou assim consigo mesmo? Estamos tão imersos em nossa própria história que gostaríamos que ela continuasse incessantemente. Mas se vivemos uma ou mil vezes, se temos uma hora ou todas elas, o problema é o mesmo: um inseto e um deus não devem diferir na maneira como eles encaram a existência como tal, tão aterrorizante (como só um milagre pode ser) que, quando nos debruçamos sobre ela, concebemos a vontade de desaparecer para sempre, para não ter que considerá-la novamente em outras existências. É sobre isso que se deteve o Buda, e é improvável que tivesse modificado suas conclusões se tivesse deixado de acreditar no mecanismo da transmigração.

Na lareira, a imagem de um chimpanzé e uma estatueta do Buda. Essa proximidade, mais acidental do que intencional, me faz perguntar constantemente qual seria o meu lugar entre esses dois extremos, entre a pré- e a trans-figuração do homem.

Animal falto (entamé), o homem passou do estágio em que se satisfaz com uma “esperança”; o que ele espera não é mais um artifício, mas uma libertação. Quem irá trazê-la para ele? Neste ponto, o único que importa, o cristianismo provou ser menos útil que o budismo, e a especulação ocidental menos eficaz que a oriental. Por que se incomodar com produtores de abstrações indiferentes aos nossos gritos ou com redentores ansiosos por irritar nossas feridas? E o que mais pode-se esperar nesta parte do mundo que vê o contemplativo como um abúlico e o desperto como um esfolado vivo?

Segundo o Bhagavad Gita, está perdido tanto para este mundo como para o outro quem estiver “entregue à dúvida”, essa mesma dúvida que o budismo, por sua vez, cita entre os cinco obstáculos à salvação. É que a dúvida não é aprofundamento, mas estagnação, vertigem da estagnação… Com ela, é impossível avançar e alcançar; é só roedura. Quando se pensa que se está mais longe dela, volta-se a ela e começa-se tudo de novo. Ela deve explodir para que se possa embarcar no caminho da libertação. Sem essa explosão que deveria pulverizar até as razões mais legítimas para duvidar, arrastamo-nos no mal-estar, cultivamo-lo, evitamos as grandes resoluções, nós nos roemos e temos prazer em nos roer.

Por mais que me atraia o budismo, o catarismo ou qualquer outro sistema ou dogma, mantenho um fundo de ceticismo que nada pode minar, e ao qual sempre retorno após cada uma de minhas explosões. Seja esse ceticismo congênito ou adquirido, parece-me em todo caso uma certeza, até mesmo uma libertação, quando toda outra forma de salvação ou desvaneceu ou me rejeita.

Le mauvais démiurge (1969)


Repugna-nos, claro está, chamar flagelo ao nascimento; não inculcaram em nós que era ele o supremo bem, que o pior se situava no fim e não no início da nossa carreira? O mal, o verdadeiro mal, está porém atrás, e não à nossa frente. Foi isso o que escapou a Cristo, foi isso o que Buda compreendeu: «Se três coisas não existissem no mundo, ó discípulos, a Perfeição não apareceria no mundo … », E, antes da velhice e da morte, ele coloca o facto de nascermos, causa de todas as enfermidades e de todos os desastres.

A minha capacidade de ser desiludido ultrapassa o entendimento. É ela que me faz compreender. Buda, mas é ela também que me impede de segui-lo.

O budismo chama à cólera «nódoa do espírito»; o maniqueísmo, «raiz da árvore da morte».
Sei-o bem. Mas de que me serve sabê-lo?

Ir às Índias por causa do Vedanta ou do budismo é o mesmo que ir a França por causa do jansenismo. Este tem, ainda assim, a desculpa de ser mais recente, pois só desapareceu há três séculos.

Quando Mara, o Tentador, procura suplantar Buda, este diz-lhe, entre outras coisas: «Com que direito pretendes tu reinar sobre os homens e o universo? Porventura sofreste pelo conhecimento?»
É a questão capital, talvez a única, que devíamos colocar a nós próprios quando nos interrogamos acerca do que quer que seja, sobretudo acerca de um pensador. Nunca se fará devidamente a separação entre os que pagaram pelo mínimo passo em direcção ao conhecimento e aqueles, incomparavelmente mais numerosos, a quem foi distribuída uma sabedoria cómoda, indiferente, uma sabedoria sem provações.

A mulher, ainda vigorosa, arrastava atrás dela o marido, grande, curvado, com os olhos aturdidos; arrastava-o como se ele fosse um sobrevivente de outra era, um diplodocus apoplético e suplicante.
Uma hora depois, novo encontro: uma velha muito bem arranjada, extremamente curvada, «avançava». Descrevendo um perfeito semi-círculo, ela olhava, por força das circunstâncias, o chão, e
contava certamente os seus pequenos passos inimaginavelmente lentos. Poder-se-ia julgar que estava a aprender a andar, que tinha medo de não saber onde e como colocar os pés para se deslocar.
…É bom para mim tudo o que me aproxima de Buda.

«A verdade mantém-se oculta para quem está cheio de desejo e de ódio» (Buda).
Ou seja, para todos os seres vivos.

«Um inimigo é tão útil como um Buda.» É mesmo isso. Uma vez que o nosso inimigo nos vigia, ele impede-nos de ceder. Ao assinalar, ao divulgar a mais pequena das nossas fraquezas, conduz-nos em linha recta à nossa salvação, tudo faz para que não sejamos indignos da ideia que criou de nós. Pelo que a nossa gratidão para com ele deveria ser também ilimitada.

Os que nos são próximos, mais do que os outros, põem muito facilmente em causa os nossos méritos. A regra é universal, e nem o próprio Buda lhe escapa: foi um primo seu quem mais se obstinou contra ele, e depois disso apenas Mara, o diabo.

Devemos execrar o nosso século ou todos os séculos?
Conseguiremos nós imaginar Buda a abandonar o mundo por causa dos seus contemporâneos?

Quando, após uma série de questões acerca do desejo, do aborrecimento e da serenidade, perguntaram a Buda «Qual é o objectivo, o sentido último do nirvana?», ele não respondeu. Sorriu. Esse sorriso foi muitas vezes criticado, em vez de se ter visto nele uma reacção normal a uma pergunta sem motivo. É assim que reagimos aos porquês das crianças. Sorrimos porque nenhuma resposta é concebível, porque a resposta seria ainda mais desprovida de sentido do que a pergunta. As crianças não admitem limites para nada; querem sempre olhar mais longe, ver o que há a seguir. Mas não há nada a seguir. O nirvana é um limite, o limite. É a libertação, impasse supremo…

Ir ainda mais longe do que Buda, elevarmo-nos acima do nirvana, aprendermos a dispensá-lo … , já não estarmos presos a nada, nem sequer à ideia de libertação, e considerá-la apenas um apeadeiro, um incómodo, um eclipse…

Dois tipos de intuição: as originais (Homero, Upanishads, floclore) e as tardias (budismo, Mahayana, estoicismo romano, gnose alexandrina), Relâmpagos inaugurais e clarões extenuados. O despertar da consciência e o cansaço de se estar desperto.

Do inconveniente de ter nascido (1973)


No budismo tardio, especialmente na escola Madhyamaka, a ênfase recai na oposição radical entre a verdade verdadeira, ou paramartha, apanágio do liberto, e a verdade qualquer, ou samvriti, verdade “velada”, mais exatamente “verdade de erro”, privilégio ou maldição do não-liberto.

Entre as misérias (velhice, doença, etc.) que justificam a busca pela libertação, o Buda cita o “nervosismo do ator” [le trac de l’acteur]! Em matéria de nervosismo, seria preciso começar e terminar pelo do vivente enquanto vivente.

No sermão de Benares, o Buda cita entre as causas do sofrimento a sede do devir e a sede do não-devir [la soif du devenir et la soif du non-devenir]. A primeira delas entende-se, mas por que a segunda? Perseguir o não-devir não é libertar-se? O que se visa aqui não é a meta, mas o caminho enquanto tal, a busca e o apego à busca. – Infelizmente, no caminho da libertação, apenas o caminho é interessante. A libertação [délivrance]? Não a atingimos, corremos na sua direção ela, sufocamos nela. O Nirvana mesmo — uma asfixia! A mais doce de todas, não obstante.

Segundo Nagarjuna, espírito sutil como nenhum outro, que foi além do niilismo, o que o Buda ofereceu ao mundo foi o “néctar da vacuidade”. Nos confins da análise mais abstrata e mais destruidora, evocar uma bebida, mesmo a dos deuses, não é uma fraqueza, uma concessão? – Por mais longe que se tenha ido, arrasta-se por toda parte a indignidade de ser – ou de ter sido – homem.

Écartèlement (1979)


Para compreender este homem apartado que é Beckett seria preciso nos determos na expressão “manter-se à parte”, divisa tácita de cada um de seus momentos, no que ela pressupõe de solidão e de obstinação subterrânea, na essência de um ser afastado que prossegue um trabalho implacável e sem fim. Diz-se, no budismo, daquele que busca a iluminação, que deve ser tão obstinado quanto “o rato que rói um caixão”. Todo escritor verdadeiro faz um esforço semelhante. É um destruidor que amplia a existência, que a enriquece minando-a.

Sobre Michaux – É admirável que um homem tão destinado a se destruir tenha acumulado os anos conservando sua vivacidade. “Levo o velho para passear (…), seu maldito corpo que enfraquece e a que tanto se apega, nosso corpo único para os dois”, escreve em 1962, em Vents et poussières. Sempre esse intervalo entre a sensação e a consciência, sempre essa superioridade sobre o que é e sobre o que sabe. Assim conseguiu, com suas inquietações metafísicas, com suas inquietações simplesmente, permanecer – pela obsessão do conhecimento – exterior a si mesmo. […] Que catástrofe se tivesse tomado amor pelo Vedanta ou pelo Budismo! Teria perdido seus dons, sua faculdade de excesso. A libertação o teria aniquilado como escritor: nenhuma “borrasca” mais, nenhum tormento, nenhuma proeza.

Exercícios de admiração: ensaios e perfis (1986)


Sarvam anityam = tudo é transitório (Buda).
Fórmula que deveríamos repetir-nos todas as horas do dia, sob o risco – admirável – de morrer dela.

Abrindo uma antologia de textos religiosos, deparo-me logo com estas palavras do Buda: “Nenhum objeto merece ser desejado”. – Fecho imediatamente o livro, pois, afinal de contas, o que mais ler?

Questionado a razão de os monges que o seguiam serem tão radiantes, o Buda respondeu que era porque eles não pensavam nem passado nem no futuro. Na verdade, tornamo-nos sombrios tão logo pensamos num e noutro, e nos obscurecemos completamente quando pensamos em ambos ao mesmo tempo.

O nada para o budismo (na verdade para o Oriente em geral) não tem o significado sinistro que nós lhe atribuímos. Confunde-se com uma experiência-limite de luz, ou, se preferir, com um estado de eterna ausência luminosa, de vazio irradiante: é o ser que triunfou sobre todas as propriedades, ou melhor, um não-ser supremamente positivo que proporciona uma felicidade sem matéria, sem substrato, sem suporte em nenhum mundo que seja.

Penso em C., para quem beber café era a única razão de existir. Um dia, quando, com a voz vibrante, eu elogiava o budismo diante dele, respondeu: “Nirvana, sim, mas não sem café. »
Todos nós temos alguma mania que nos impede de aceitar sem restrições a felicidade suprema.

“O que é impermanente é dor; o que é dor é não-eu. O que é não-eu, isso não é meu, eu não sou isso, isso não sou eu.” (Samyutta Nikaya).
O que é dor é não-eu. Difícil, impossível concordar com o budismo neste ponto crucial. A dor é para nós o que há de mais nós mesmos, de mais eu. Que religião estranha! Vê dor em toda parte e declara-a ao mesmo tempo irreal.

Aveux et anathèmes (1987)


Trad. do romeno e do francês de Rodrigo Menezes (exceto para os livros disponíveis em língua portuguesa);