Aforismos > Morte (II)

Variações sobre a morte 

I – É porque ela não repousa sobre nada, porque carece até mesmo da sombra de um argumento que perseveramos na vida. A morte é demasiado exata; todas as razões encontram-se de seu lado. Misteriosa para nossos instintos, delineia-se, ante nossa reflexão, límpida, sem prestígios e sem os falsos atrativos do desconhecido.
De tanto acumular mistérios nulos e monopolizar o sem-sentido, a vida inspira mais pavor do que a morte: é ela a grande Desconhecida.
Aonde pode levar tanto vazio e incompreensível? Nós nos apegamos aos dias porque o desejo de morrer é demasiado lógico, portanto ineficaz. Porque se a vida tivesse um só argumento a seu favor – distinto, de uma evidência indiscutível – se aniquilaria; os instintos e os preconceitos desvanecem-se ao contato com o Rigor. Tudo o que respira se alimenta do inverificável; um suplemento de lógica seria funesto para a existência – esforço até o Insensato…  Dê um objetivo preciso à vida: ela perde instantaneamente seu atrativo. A inexatidão de seus fins a torna superior à morte – uma gota de precisão a rebaixaria à trivialidade dos túmulos. Pois uma ciência positiva do sentido da vida despovoaria a terra em um dia; e nenhum desejo frenético conseguiria reanimar a improbabilidade fecunda do Desejo.

II – Podem-se classificar os homens segundo os critérios mais caprichosos: segundo seus humores, suas inclinações, seus sonhos ou suas glândulas. Troca-se de idéias como de gravatas; pois toda idéia, todo critério vem do exterior, das configurações e dos acidentes do tempo. Mas há algo que vem de nós mesmos, que é nós mesmos, uma realidade invisível, mas interiormente verificável, uma presença insólita e imutável, que se pode conceber a todo instante e que nunca nos atrevemos a admitir, e que só tem atualidade antes de sua consumação: é a morte, o verdadeiro critério… E é ela, a dimensão mais íntima de todos os seres vivos, que separa a humanidade em duas ordens tão irredutíveis, tão afastadas uma da outra, que há mais distância entre elas que entre um abutre e uma toupeira, uma estrela e um cuspe. O abismo de dois mundos incomunicáveis abre-se entre o homem que tem o sentimento da morte e o que não o tem; apesar disso, os dois morrem; mas um ignora sua morte, o outro a sabe; um morre apenas um instante, o outro não pára de morrer… Sua condição comum os coloca precisamente nos antípodas um do outro; nos dois extremos e no interior de uma mesma definição; inconciliáveis, sofrem o mesmo destino… Um vive como se fosse eterno; o outro pensa continuamente sua eternidade e a nega em cada pensamento.
Nada pode mudar nossa vida salvo a insinuação progressiva em nós das forças que a anulam. Nenhum princípio novo chega até ela, nem das surpresas de nosso crescimento, nem do florescimento de nossos dons; são-lhe apenas naturais. E nada natural saberia fazer de nós outra coisa além do que somos.
Tudo o que prefigura a morte acrescenta uma qualidade de novidade à vida, a modifica e a amplia. A saúde a conserva tal qual, em uma estéril identidade; enquanto que a doença é uma atividade, a mais intensa que um homem pode desenvolver, um movimento frenético e… estacionário, o mais rico desperdício de energia sem gestos, a espera hostil e apaixonada de uma fulguração irreparável.

III – Contra a obsessão da morte, os subterfúgios da esperança revelam-se tão ineficazes como os argumentos da razão: sua insignificância só faz exacerbar o apetite de morrer. Para triunfar sobre este apetite só há um único “método”: vivê-lo até o fim, sofrendo todas as suas delícias e tormentos, nada fazer para escamoteá-lo. Uma obsessão vivida até a saciedade anula-se em seus próprios excessos. De tanto insistir sobre o infinito da morte, o pensamento chega a gastá-lo, a nos enojar dele, negatividade demasiada plena que não poupa nada e que, mais do que comprometer e diminuir os prestígios da morte, desvela-nos a inanidade da vida.
Quem não se entregou às volúpias da angústia, quem não saboreou em pensamento os perigos da própria extinção nem degustou aniquilamentos cruéis e doces, não se curará jamais da obsessão da morte: será atormentado por ela, por haver-lhe resistido; enquanto quem, habituado a uma disciplina de horror, e meditando sua podridão, reduziu-se deliberadamente a cinzas, esse olhará para o passado da morte e ele próprio será apenas um ressuscitado que não pode mais viver. Seu “método” o terá curado da vida e da morte.
Toda experiência capital é nefasta: as camadas da existência carecem de espessura; quem as escava, arqueólogo do coração e do ser, encontra, ao cabo de suas investigações, ante profundidades vazias. Em vão terá saudades do ornamento das aparências.
Eis por que os Mistérios antigos, pretensas revelações dos segredos últimos, não nos legaram nada em matéria de conhecimento. Sem dúvida, os iniciados estavam obrigados a não transmitir nada. No entanto, é inconcebível que em tão grande número não se tenha encontrado um só tagarela; o que há de mais contrário à natureza humana que tal obstinação no segredo? O que acontece é que não havia segredos; havia ritos e estremecimentos. Uma vez afastados os véus, o que podiam descobrir senão abismos sem importância? Só há iniciação ao nada – e ao ridículo de estar vivo.
… E eu sonho com uma Elêusis de corações desiludidos, com um Mistério claro, sem deuses e sem as veemências da ilusão.

Breviário de decomposição (1949)


Filosofia indumentária

Com que ternura e com que inveja se voltam meus pensamentos para os monges do deserto e para os cínicos! Abjeção de dispor do menor objeto: esta mesa, esta cama, estas roupas… O traje interpõe-se entre nós e o nada. Olhe seu corpo em um espelho: compreenderá que é mortal; passe seus dedos sobre as costelas, como sobre um bandolim, e verá o quanto está perto do túmulo. É porque estamos vestidos que nos julgamos imortais: como se pode morrer quando se usa gravata? O cadáver que se endominga já não se reconhece e, imaginando a eternidade, apropria-se da ilusão. A carne cobre o esqueleto, a roupa cobre a carne: subterfúgios da natureza e do homem, trapaças instintivas e convencionais: um senhor não pode estar cheio de lama nem de poeira… Dignidade, honorabilidade, decência – tantas fugas ante o irremediável. E quando você coloca chapéu, quem diria que residiu em entranhas ou que os vermes se banquetearão com sua gordura?
… Por isso abandonarei esses trapos e, arrancando a máscara de meus dias, fugirei do tempo em que, de conluio com os outros, extenuo-me em trair-me. Antigamente, os solitários despojavam-se de tudo, para identificar-se com eles mesmos: no deserto ou na rua, gozando igualmente de seu desapego, alcançavam a suprema fortuna: igualavam-se aos mortos…

Breviário de decomposição (1949)


A morte se espalha tanto, ocupa tanto lugar, que não sei mais onde morrer.

Silogismos da amargura (1952)


Quanto mais envelheço, menos me agrada bancar o Hamlet. Já não sei mais, com respeito à morte, que tipo de angústia sentir…

Silogismos da amargura (1952)


O desejo de morrer foi minha única preocupação; renunciei a tudo por ele, até a morte.

Silogismos da amargura (1952)


Ter dedicado à idéia da morte todas as horas que uma profissão teria exigido… Os extravasamentos metafísicos são próprios dos monges, dos libertinos e dos mendigos. Um emprego teria feito do próprio Buda um simples descontente.

Silogismos da amargura (1952)


A morte coloca um problema que substitui todos os outros. Há algo mais funesto para a filosofia, para essa ingênua crença na hierarquia das perplexidades?

Silogismos da amargura (1952)


Na minha infância, meus amigos e eu nos divertíamos vendo o coveiro trabalhar. Às vezes ele nos deixava um crânio com o qual jogávamos futebol. Esse era para nós um prazer que nenhum pensamento fúnebre empanava.
Durante muitos anos vivi em um ambiente de párocos que haviam ministrado milhares de extrema-unções; apesar disso, não conheci nenhum a quem a Morte intrigasse. Mais tarde compreendi que o único cadáver do qual se pode tirar algum proveito é o que se prepara em nós.

Silogismos da amargura (1952)


Bem no meio de importantes estudos, descobri que ia morrer um dia…, minha modéstia desapareceu imediatamente. Convencido de que não me restava mais nada a aprender, abandonei meus estudos para informar o mundo de tão extraordinária descoberta.

Silogismos da amargura (1952)


Quem não vê a morte de cor de rosa sofre de um daltonismo do coração.

Silogismos da amargura (1952)


Se a morte apenas tivesse aspectos negativos, morrer seria um ato impraticável.

Do inconveniente de ter nascido (1973)


Nós não corremos em direcção à morte; fugimos da catástrofe do nascimento, agitamo-nos como sobreviventes que procuram esquecê-lo. O medo da morte é apenas a projecção no futuro de um medo que remonta ao nosso primeiro instante.
Repugna-nos, claro está, chamar flagelo ao nascimento; não inculcaram em nós que era ele o supremo bem, que o pior se situava no fim e não no início da nossa carreira? O mal, o verdadeiro mal, está porém atrás, e não à nossa frente. Foi isso o que escapou a Cristo, foi isso o que Buda compreendeu: «Se três coisas não existissem no mundo, ó discípulos, a Perfeição não apareceria no mundo … », E, antes da velhice e da morte, ele coloca o facto de nascermos, causa de todas as enfermidades e de todos os desastres.

Do inconveniente de ter nascido (1973)


Após eras e eras de morte, os viventes devem ter pegado o jeito; senão, não se explicaria porque, após um pouco de estardalhaço, um inseto ou um roedor, e mesmo o homem, consegue realizá-lo tão apropriadamente. (De l’inconvenient d’être né)


Perdemos tanto ao nascer como perderemos ao morrer. Tudo.

Do inconveniente de ter nascido (1973)


Penso em inúmeros amigos que já não estão vivos, e apiedo-me deles. Porém, não há assim tanto motivo para os lamentar, pois eles resolveram todos os seus problemas, começando pelo da morte.

Do inconveniente de ter nascido (1973)


Quando gastámos o interesse que tínhamos pela morte, e nos convencemos de que já nada temos a extrair dela, debruçamo-nos sobre o nascimento, dispomo-nos a enfrentar um abismo igualmente inesgotável…

Do inconveniente de ter nascido (1973)


A respeito da morte, oscilo sem cessar entre o «mistério» e o «completo nada», entre as Pirâmides e a Morgue.

Do inconveniente de ter nascido (1973)


Todas as vezes em que não penso na morte, tenho a impressão de estar a fazer batota, de enganar alguém em mim.

Do inconveniente de ter nascido (1973)


Quanto mais o tempo nos lesou, mais lhe queremos escapar. Escrever uma página sem defeitos, ou apenas uma frase, eleva-vos acima do futuro e das suas corrupções. Transcendemos a morte recorrendo à procura do indestrutível através do verbo, através do próprio símbolo da caducidade.

Do inconveniente de ter nascido (1973)


Se a morte é assim tão horrível como se pretende, como é que se explica o facto de, ao fim de um certo tempo, nós considerarmos feliz qualquer ser, amigo ou inimigo, que deixou de viver?

Do inconveniente de ter nascido (1973)


Ladear uma ribeira, passar, correr junto com a água, sem esforço, sem precipitação, enquanto a morte continua em nós as suas ruminações, o seu solilóquio ininterrupto.

Do inconveniente de ter nascido (1973)


Ela era-me completamente indiferente. Ao pensar de repente, depois de tantos anos, que, aconteça o que acontecer, nunca mais a verei, estive quase a desfalecer. Só compreendemos o que é a morte quando nos lembramos subitamente do rosto de alguém que nada representou para nós.

Do inconveniente de ter nascido (1973)

A Filosofia na Morgue: «O meu sobrinho, como é óbvio, não triunfou; se tivesse triunfado, teria sido outro o seu fim. – Sabe, minha senhora – respondi eu àquela gorda matrona, – quer triunfemos quer não, vai tudo dar ao mesmo. – Tem razão», replicou ela após alguns instantes de reflexão. Esta aquiescência tão inesperada, vinda de uma mexeriqueira daquelas, abalou-me quase tanto como a morte do meu amigo.

Do inconveniente de ter nascido (1973)


Uma amiga, após já não sei quantos anos de silêncio, escreveu-me a dizer que tinha pouco tempo de vida, que se preparava para «entrar no Desconhecido» … Aquele lugar-comum desgostou-me. Através da morte, não consigo discernir em que é que se pode entrar. Toda a afirmação a esse respeito me parece abusiva. A morte não é um estado, talvez nem sequer seja uma passagem. O que é ela então? E com que lugar-comum, por minha vez, responderei eu a essa amiga?

Do inconveniente de ter nascido (1973)


Após certas experiências, deveríamos mudar de nome, pois a verdade é que já não somos os mesmos. Tudo adquire um outro aspecto, a começar pela morte. Ela parece-nos próxima e desejável, reconciliamo-nos com ela, e chegamos a considerá-la «a melhor amiga do homem», como lhe chama Mozart numa carta ao pai agonizante.

Do inconveniente de ter nascido (1973)


Apenas desejamos a morte nas indisposições vagas; fugimos dela à mínima indisposição concreta.

Do inconveniente de ter nascido (1973)


Um enterro numa aldeia normanda. Pergunto detalhes a um camponês que olhava de longe o cortejo. «Ainda era novo, tinha pouco mais de sessenta anos. Encontraram-no morto no campo. Que se há-de fazer? É assim… É assim… É assim…»
Este refrão, que na altura me pareceu ridículo, atormentou-me depois. O homenzinho nem suspeitava que estava a dizer da morte tudo o que se pode dizer e tudo o que sabemos dela.

Do inconveniente de ter nascido (1973)


Por que motivo recear o nada que nos espera quando ele não difere do que nos precede? – este argumento dos Antigos contra o medo da morte é inaceitável enquanto consolo. Antes, tínhamos a sorte de não existir; agora existimos, e é essa parcela de existência, logo de infortúnio, que teme desaparecer. Parcela não é o termo, visto que cada um de nós se acha preferível ou, pelo menos, igual ao universo.

Do inconveniente de ter nascido (1973)


Digam o que disserem, a morte é o que a natureza encontrou de melhor para contentar toda a gente. Com cada um de nós, tudo se dissipa, tudo deixa para sempre de existir. Que vitória, que abuso! Sem o mínimo esforço da nossa parte, dispomos do universo, arrastamo-lo no nosso desaparecimento. Decididamente, morrer é imoral…

Do inconveniente de ter nascido (1973)


O homem aceita a morte mas não a hora da sua morte. Morreremos em qualquer momento, excepto quando tivermos de o fazer!

Do inconveniente de ter nascido (1973)


Se for verdade que através da morte voltamos a ser o que éramos antes de nascermos, não teria sido melhor ficarmo-nos pela pura possibilidade e não nos afastarmos dela? Para quê esse desvio, quando poderíamos ter permanecido para sempre numa plenitude irrealizada?

Do inconveniente de ter nascido (1973)


Dizia-me o senhor que a morte não existe. Estou disposto a concordar, na condição de que fique simultaneamente claro que nada existe. Conceder realidade a uma qualquer coisa, e recusá-la ao que parece tão manifestamente real, é pura extravagância.

Do inconveniente de ter nascido (1973)


A vida não é nada; a morte é tudo. Porém, não existe algo que seja a morte, independentemente da vida. É precisamente essa ausência de realidade distinta, autónoma, que torna a morte universal; ela não tem um domínio próprio, ela é omnipresente, como tudo o que carece de identidade, de limite e de duração: uma infinitude indecente.

Do inconveniente de ter nascido (1973)


Ninguém chega, antes do seu último momento, a gastar totalmente a sua morte: ela conserva, mesmo para o agonizante-nato, um pouco de novidade.

Do inconveniente de ter nascido (1973)


No seu íntimo, cada um de nós se sente e julga imortal, ainda que saiba que vai expirar daqui a um instante. Podemos compreender tudo, admitir tudo, realizar tudo, excepto a nossa morte, mesmo quando nela pensamos continuamente e a ela nos resignámos.

Do inconveniente de ter nascido (1973)


O que cada um de nós, com paciência ou sem ela, espera desde sempre é, obviamente, a morte. Mas apenas nos damos conta disso quando ela chega … , quando é demasiado tarde para a podermos desfrutar.

Do inconveniente de ter nascido (1973)


A morte não é completamente inútil. É mesmo graças a ela que nos será talvez permitido recuperar o espaço antes do nascimento, o nosso único espaço…

Do inconveniente de ter nascido (1973)


A morte é o amparo dos que tiveram o gosto e o dom do insucesso, é a recompensa de todos aqueles que não se realizaram, que não se empenharam nisso … Ela dá-lhes razão, constitui o seu triunfo. Em contrapartida, para os outros, para os que se esforçaram por ter êxito, e que o tiveram, que grande desmentido, que bofetada!

Do inconveniente de ter nascido (1973)


As horas não queriam passar. O dia parecia longínquo, inconcebível. Na verdade, não era o dia que eu esperava mas o esquecimento daquele tempo insubmisso que se recusava a avançar. Ditoso, pensava eu, o condenado à morte que, na véspera da execução, tem pelo menos a certeza de ir passar uma boa noite!

Do inconveniente de ter nascido (1973)


É apenas na medida em que, a cada instante, roçamos a morte, que temos a oportunidade de entrever qual a insanidade em que se funda toda a existência.

Do inconveniente de ter nascido (1973)


Segundo uma crença bastante difundida entre certos povos, os mortos falam a mesma língua que os vivos, com a diferença de que para eles as palavras têm um sentido oposto ao que haviam tido: grande significa pequeno; próximo, distante; branco, preto… Morrer reduzir-se-á então a isso? O que não obsta a que, melhor do que qualquer invenção fúnebre, essa reviravolta completa da linguagem indique o que a morte contém de invulgar, de siderante…

Do inconveniente de ter nascido (1973)


Enquanto lhe preparavam a cicuta, Sócrates tentava aprender uma melodia de flauta. “Para que quer aprendê-lo?”, perguntaram-lhe. “Para saber antes de morrer.” Se me atrevo a lembrar desta resposta, trivializada nos manuais, é porque me parece a única justificação séria da vontade de conhecimento, pratique-se a no umbral da morte ou em qualquer outro momento. (Écartèlement)


Durante mais de trinta anos, meu pai administrou a extrema-unção milhares de vezes. Assim como seu “companheiro”, o coveiro, ele não possuía o sentimento da morte, sentimento que não tem nada a ver com o cadáver, sentimento íntimo, o mais íntimo de todos, que experimentaríamos, se a ele estivéssemos predestinados, mesmo em um mundo onde não existisse a possibilidade de morrer. (Écartèlement)


Morrer é uma superioridade pouco buscada. Pensava-o enquanto escutava a um ancião que tem medo da morte e pensa nela constantemente: o que ele não daria para evitá-la. Com um afinco irrisório, trata de me convencer de sua inevitabilidade… Tal como ele a imagina, ela parece ainda mais incontestável do que é em realidade. Sem problemas de saúde apesar de sua idade, sem preocupações materiaisa, sem laços de nenhum tipo, rumia indefinidamente o mesmo pavor, em vez de passar o tempo de vida que lhe resta sem inquietudes. Mas a “natureza” lhe infligiu esse tormento como castigo por ter escapado aos outros. (Écartèlement)


– Deveríamos viver como se nunca tivéssemos que morrer.
– Você ainda não sabe que vivemos todos assim, inclusive os atormentados pela Morte? (Écartèlement)


– Você devia passar um dia lá em casa, pois poderíamos morrer sem nunca mais nos vermos.
– Já que vamos morrer de todo modo… para que voltar a se ver? (Écartèlement)


Morrer aos sessenta ou aos oitenta anos é mais difícil que aos dez ou aos trinta. Viciar-se na vida, eis o quid; pois a vida é o maior vício que existe. O que explica o trabalho que dá livrar-se dela. (Écartèlement)


Teve a indecência de morrer. Há, de fato, algo de inconveniente na morte. Mas esse aspecto, certamente, é o último que nos vem à mente. (Aveux et anathèmes)


Morrer é mudar de gênero, é renovar-se… (Aveux et anathèmes)


Morrer é provar que sabemos nos defender. (Aveux et anathèmes)


E pensar que tantos conseguiram morrer! (Aveux et anathèmes)


É necessária uma imensa humildade para morrer. O raro é que todos a possuam. (Aveux et anathèmes)